Segunda-Feira, 01 de Setembro de 2008 | Versão Impressa

O salto bilionário da Locaweb

Criada com R$ 30 mil, empresa de hospedagem de sites já vale R$ 1 bi e constrói data center gigante em São Paulo

Patrícia Cançado e Renato Cruz

Quando decidiu abrir o capital, no fim do ano passado, a Locaweb foi obrigada a revelar ao mercado financeiro seu ponto mais frágil. A empresa, líder em hospedagem e desenvolvimento de sites no Brasil, só tinha um modesto data center, o local onde são armazenados todos os dados dos clientes. A redundância - infra-estrutura em dois lugares diferentes - é uma exigência básica das empresas de tecnologia, para garantir que os serviços nunca saiam do ar.

Na última sexta-feira, a companhia divulgou em fato relevante a compra de um terreno de R$ 18 milhões para abrigar a sede e um data center pelo menos dez vezes maior que o atual. O negócio será anunciado hoje. "A idéia é fazer o maior data center do País", afirmou o presidente e co-fundador da Locaweb, Gilberto Mautner.

A decisão inaugura uma nova fase da companhia criada há dez anos por Mautner e Claudio Gora com um investimento de apenas R$ 30 mil. No primeiro ano, a Locaweb ocupava um espaço de 70 metros quadrados, o que o mundo da internet apelidou de empresa de garagem. O novo complexo será 400 vezes maior.

Segundo informações de mercado, o Googleplex (sede do Google, na Califórnia, com quase 50 mil metros quadrados) servirá de inspiração para os brasileiros. A Locaweb não desistiu de abrir o capital, mas adiou os planos para 2009 ou 2010. "Estamos prontos. Só vamos esperar a janela abrir", diz Gora. "Não quisemos fazer o IPO (oferta inicial de ações, na sigla em inglês) a fórceps."

Com o adiamento do IPO, a Locaweb deve partir para um plano B: os fundos de private equity, que compram participação em empresas. No mercado, a Locaweb é avaliada em R$ 1 bilhão. Se a opção fosse a bolsa, os donos estariam dispostos a vender entre 30% e 40% da empresa - uma parte iria para a conta bancária dos sócios (além dos fundadores, há outros três acionistas, o pai e irmãos de Gora). Com a mudança de planos, o objetivo é vender apenas 20%, diz uma fonte próxima à companhia. "Mas eles não estão dispostos a vender a qualquer preço porque não precisam do dinheiro", diz a fonte.

Segundo os donos, o dinheiro dos novos sócios serviria para acelerar o crescimento da companhia. O objetivo é ir às compras. A prospecção vem sendo feita desde dezembro, quando a Locaweb contratou um ex-executivo de fundo de participação em empresas. "As aquisições não estão condicionadas à entrada de um sócio", explicam os donos. Ou seja, se não entrar dinheiro de um fundo, a Locaweb fará dívida em banco para comprar outros negócios. "A empresa tem caixa para arcar com o crescimento orgânico (sem aquisições), mas a gente quer acelerar."

Embora tenha um faturamento inferior a R$ 100 milhões por ano, é negócio altamente lucrativo, que demanda baixos investimentos. A Locaweb é uma das poucas empresas que sobreviveram à bolha da internet no País.

Mautner é primo de Gora, e foi criado pelos tios, como se fosse um dos filhos. Ele trabalhava na Andersen Consulting, em 1997, e morava na Califórnia, onde presenciou o nascimento da indústria de internet. "Voltei em julho de 1997 e montamos o portal Intermoda", conta Mautner. Gora trabalhava com o resto da família numa confecção.

O investimento inicial foi feito por Michel Gora, pai de Claudio. No fim do ano, os primos perceberam que o portal para confecções não prosperava e mudaram os planos, criando a Locaweb. O servidor deles estava hospedado numa empresa em San Jose, na Califórnia. "Cobrávamos R$ 29 por mês, enquanto o preço dos provedores brasileiros, para hospedagem de sites, chegava a R$ 300", lembra Mautner.

A Locaweb cresceu tanto que, em 2000, Michel Gora deixou a confecção e foi trabalhar com Gilberto e Claudio. "Éramos moleques de 20 e poucos anos, e precisávamos de alguém com mais experiência na empresa", afirmou Claudio. "Ele viveu todos os planos econômicos, e essa vivência nos impediu de entrar em fria."

Segundo Mautner, seu tio dizia, durante o ápice da bolha da internet, que essa conversa de nova economia era a maior furada, e que a empresa precisava dar lucro. "Foi muito bom para a gente", diz o presidente da Locaweb. "Desde o começo a empresa foi lucrativa." Por causa disso, a empresa conseguiu sobreviver ao estouro da bolha, em 2000, ao contrário de várias outras companhias de tecnologia que existiam na época.

Até aqui, a empresa funcionou com uma estrutura familiar. Mautner, o engenheiro, é o presidente. Gora cuida da parte comercial e de marketing. Ricardo está na área financeira. Andréa, em recursos humanos. O pai, Michel, é o presidente do Conselho de Administração. Na nova fase, isso não será mais bem visto pelo mercado. Um das discussões internas é governança. A profissionalização já começou. Hoje a Locaweb tem três diretores sem o sobrenome da família.