Painel “Música e Movimentos Sociais” contou com jovens artistas que despontaram no País, para debater o tema na 7º Brazil Conference
O painel “Música e Movimentos Sociais - Novas Identidades da Música Brasileira”, realizado pela 7ª Brazil Conference Harvard & MIT em 15 de abril, contou com transmissão ao vivo pela internet. A programação pode ser acompanhada pelo portal do Estadão, parceiro na cobertura do evento, além dos canais da conferência no Youtube e Facebook, a qualquer tempo.
Os convidados, são nomes de destaque da Nova Música Popular Brasileira, ou nova MPB: os cantores e compositores Rubel, Johnny Hooker, Giulia Be, Xenia França e Raquel Virginia. A moderação foi feita por Didi Wagner, apresentadora de TV e comunicadora.
Foram abordados diversos temas que perpassam o mundo musical, entre os quais se destacam o papel que a internet tem na democratização do acesso ao mundo da música, contemplando, desde o lançamento e popularização de novos artistas, incluindo alguns dos painelistas. Segundo os artistas, há a necessidade de se abrir espaço para que grupos não hegemônicos, como de mulheres, negros e trans, de forma que ganhem espaço no mercado da música, que, como forma artística, pode ser libertadora para esses grupos.
Ao final do painel, os artistas afirmaram que a música vem adquirindo o poder com a democratização do acesso por serviços de streaming para finalmente dar visibilidade a vozes que foram historicamente silenciadas no Brasil.
Ana Laura Naliate - Olá, boa noite a todos, meu nome é Ana Laura Naliate, sou aluna de administração na (ininteligível) International Business School e líder do painel de música que vamos acompanhar agora. Primeiramente, eu agradeço a todos e todas que nos assistem e aos nossos convidados e suas equipes por aceitarem nosso convite. Nesse encontro, nós vamos discutir as mudanças ocorridas na música brasileira, olhando principalmente para o impacto da sociedade e das novas mídias, que resultaram em identidades musicais tão diversas, e também o que se espera daqui em diante. Participando conosco, temos convidados que refletem muito bem essas diversas identidades: a talentosíssima cantora e compositora Xenia França, indicado ao Latin Grammy Awards por seu álbum de estreia, Xenia, a incrível cantora e compositora Raquel Virgínia, da banda As Baías, também indicada duas vezes ao Latin Grammy, pelos álbuns Tarântula e Enquanto Estamos Distantes, a jovem cantora Giulia Be, que tem hits no topo de diversas plataformas digitais no Brasil e no exterior, o cantor, compositor, ator e roteirista, Johnny Hooker, aclamado por todo o país, com destaque para sua vitória no prêmio de música brasileira de melhor cantor, e o cantor e compositor
Rubel, indicado ao Latin Grammy por seu sensacional álbum Casas, e moderando a discussão, temos a apresentadora e comunicadora Didi Wagner, que é autoridade no assunto quando se trata de música, Didi trabalha com música desde o início de sua carreira na TV e já cobriu os mais importantes eventos e festivais de música do Brasil, como Rock in Rio e Lollapalooza, além disso, DIDI, desde 2006, apresenta o programa Lugar Incomum, no Multishow, e é para ela que eu passo a palavra agora, agradecendo mais uma vez a todos os convidados. Espero que todos tenham um excelente painel. É com você Didi.
Didi Wagner - Muito obrigado Ana Laura, muito obrigada Brasil Conference pelo convite para mediar o painel Novas Identidades da Música Brasileira, boa noite a todas, todos e todes, e muito obrigada pela presença de vocês aqui, assistindo o nosso painel, e boa noite os nossos convidados, em ordem alfabética, Giulia Be, Johnny Hooker, Raquel Virgínia, Rubel e Xenia França. Nossa intenção é discutir a música brasileira como um todo, e como ela vem se transformando ao longo dos anos, quais as influência e fatores presentes nessa mudança, e também refletir sobre perspectivas e o panorama para o futuro. Feliz em poder destacar que o nosso painel contempla entre os seus participantes diversidade étnico-racial e de gêneros, não estou falando só do gênero humano, mas também do gênero de estilos musicais diversos, e a nossa música brasileira é assim, com diferentes cores, caras e ritmos, plural. Vou começar o painel seguindo a ordem alfabética invertida, portanto, eu direciono a primeira pergunta à Xenia França. Xenia, na minha opinião, a música popular brasileira, e a música brasileira, porque esse termo, música popular brasileira, às vezes gera interpretações diferentes, então a música brasileira continua se reciclando e se mantém viva. Quais, na sua opinião, seriam as principais causas responsáveis por essa renovação?
Xenia França - Primeiro, boa noite, estou muito feliz, e um pouco nervosa também, de participar de uma coisa tão importante assim, com a Didi Wagner, que a gente acompanhou a vida toda lá na MTV, então é uma coisa, assim, bem especial, e também poder trocar com amigos de trabalho, amigos que eu admiro, pessoas que eu tenho o maior respeito pela carreira, pelos trabalhos. Eu acredito que a gente está num momento específico das nossas vidas, não só de carreira, mas nossas vidas, e a música brasileira é admirada no mundo inteiro, uma especificidade e um cuidado muito incrível com seu com seu tamanho, assim, diverso demais, o Brasil tem mais de 200 milhões de pessoas, cada estado tem a sua especificidade, cada artista tem a capacidade de espelhar e projetar esse lugar no mundo, que é o Brasil, através da arte, então eu acho que, naturalmente, a música brasileira, por si só, ela é universal, e, de alguma forma, assim como a tecnologia avança exponencialmente, esse é o lugar que a música ocupa no universo, eu acredito que é uma coisa natural, cada etapa, cada tempo, a música procura seu lugar, a música, para mim, é tipo água, ela acha o seu caminho, e hoje, no momento que a gente tá vivendo, hoje a gente tem grandes pressões específicas, muito específicas da música, e cada um tenta fazer o seu papel nesse tempo, representar o seu próprio tempo, não o tempo geral só, mas o tempo interno de cada um, e colocar isso em arte, e eu acho isso bem característico do Brasil, se você for lá atrás, se você fosse 20, 30 anos atrás, você vai ter Jackson do Pandeiro, você vai ter, enfim, tipo, tantos expoentes, Dona Ivone Lara, não só 20 anos, de tempos em tempos, se você for voltando de 20 em 20 anos, você vai encontrar Elza Soares, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Djavan, Caetano Veloso, Gal Costa, Pixinguinha, é muita gente representando um Brasil que não pode ter uma cara só, não tem como o Brasil ser do jeito que é, culturalmente, e ter uma cara só, a diversidade que a música expressa é justamente a diversidade que a
música brasileira tem, e eu particularmente acho que ainda é pouco, do tanto de, cada vez que eu tenho acesso a determinados tipos de lugares com o meu trabalho, eu me sinto tão honrada e lisonjeada por perceber também a responsabilidade que é poder representar o Brasil em vários momentos, inclusive como esse, sabendo da potência e da diversidade que a música brasileira tem, sabendo que lá em Belém tem uma galera muito treta fazendo uma coisa muito incrível, que na Bahia, no Rio Grande do Sul, em Goiás, em qualquer parte do Brasil tem gente fazendo a sua música, sua música interna, que provavelmente reflete a sua música local, uma música que não é nada, uma música que não representa alguma coisa específica, mas que que tá ali para cumprir o seu papel fundamental de representar o seu tempo, de ser o que a música precisa ser, parte da cultura, uma expressão universal, nossa porta da natureza, que a gente tem a sorte de poder deixar passar pela gente, poder contribuir um pouquinho nesse momento aqui, que a gente tá passando por esse lugar.
Didi Wagner - Muito gostoso te ouvir Xenia. Eu vou seguir então, ainda, a ordem alfabética invertida, e direciono a mesma pergunta para o Rubel. Rubel, o que você acha que dá para destacar, nesse momento da música brasileira, e quais são as responsáveis pela renovação constante da música no nosso país?
Rubel - Eu vou pegar um outro viés disso que a Xenia falou, que eu acho que é um fator determinante, pelo menos para mim e para muitos amigos músicos, eu acho que é a internet, eu lembro de 2011, quando o Cícero lançou Canções de Apartamento, ele gravou dentro do quarto dele, e ele disponibilizou gratuitamente na internet e, de repente, ele estava sendo ouvido no Brasil inteiro, ele estava construindo uma carreira, ele era do direito, ele estava construindo uma carreira de verdade como músico, meio que acidentalmente, até então aquilo era sem precedente, para mim, eu não lembro de nenhum outro músico que tenha começado uma carreira profissional a partir de uma coisa, de uma referência caseira, e aquilo para mim que foi um estalo de que é possível fazer isso, eu acho que assim como foi para mim, como foi para ele, muitas pessoas que não seriam músicos, que seguiriam outras profissões, acabaram vindo à luz porque gravara um vídeo caseiro e aquilo acabou repetindo, e acabou dando força, e eu acho que isso é muito importante, porque isso faz com que a música brasileira se renove de uma forma orgânica, e não necessariamente pautada pelas gravadoras, o que acontecia antigamente era muito isso, antigamente você dependia das gravadoras para escolherem os artistas, acreditarem nesses artistas, investirem nesses artistas, e o que acontece hoje em dia é uma coisa muito mais democrática, então eu acho que isso tem sido muito positivo, porque permite que inúmeros movimentos surjam espontaneamente, de uma maneira que é muito direta com o público, sem passar pelos intermediários, eu não sei para os outros músicos que estão aqui, mas isso foi muito importante para mim, isso fez com que eu pudesse ser músico, sem a internet, sem essa relação direta com os fãs, eu não teria a carreira que eu tenho, eu acho que esse é um fator muito determinante dessa nova música e dessa nova geração.
Didi Wagner - Giulia.
Giulia Be - Eu levantei a mãozinha. Só para adicionar nessa história que você contou, eu me identifiquei super, eu tenho uma história muito parecida, eu comecei quase sem querer, também estava prestes a entrar na faculdade de direito quando eu decidi postar um vídeo na internet, que eu achei que ia ver minha mãe, minha avó, e eu, e hoje em dia, graças a Deus, muitas mais pessoas viram, inclusive a gravadora que foi quem me ajudou nesse processo de início, eu acho que o que a gente tá vendo são os artistas e as gravadoras caminhando juntos, porque as gravadoras tem que entender que a internet trouxe uma transparência para a indústria da música, onde um contrato leonino, que vai acabar com a vida de uma pessoa, já não é mais legal, e as pessoas vão saber se você fizer isso, então eu vejo a internet como uma libertação de certa forma, a Taylor Swift, por exemplo, foi uma artista que, por ter botado o contrato dela na internet, exposto, ela conseguiu reivindicar direito para muitos outros artistas, e parte desses exemplos, de entender que essa nova camada, essa nova gama de artistas que tá se fazendo, a gente tá em casa, se a gente não se fizer na internet, não tem como, eu sinto que se criaram muitos fenômenos a partir dessa essa possibilidade, na internet, nisso de sempre poder tá conectado, a tecnologia mudou a forma de consumo, e mudou a relação também dos artistas com a gravadora, que a gravadora, ela tem que jogar junto com a gente, tem que querer fazer parte da história, contar a história de maneira que ela esteja lá como apoio, porque o artista também consegue chegar lá sozinho por conta da internet, isso é uma coisa que a gente vê cada vez mais hoje com artistas independentes, enfim, mil coisas que tá dentro, mas só queria colocar esse lado da minha história, que foi exatamente assim, se não fosse por isso, provavelmente estaria numa faculdade de direito.
Didi Wagner - Eu acho que você fez uma boa escolha seguindo o caminho da música, acho que tem muita coisa aí na frente ainda para você desbravar. Falando sobre essa importância de os artistas serem o próprio o canal de comunicação nas mídias sociais, eu acho que você, Johnny Hooker, é um cara que sabe bem essa linguagem, conta um pouco para a gente sobre a sua relação com as mídias sociais e com o teu público, esse canal direto de comunicação que você tem com ele.
Johnny Hooker - Primeiramente, boa noite, boa noite meus amigos artistas, companheiros que eu amo, boa noite Didi, que eu acompanho desde a MTV, Lugar Incomum, nossa, sou muito, muito, muito fã, amo demais, e é isso, eu acho que, outro dia me perguntaram como é que estava essa relação nesse período pandêmico, com os artistas, erra relação nas redes sociais, e eu diria, assim, só para aprofundar um pouco mais nessa relação com as redes sociais, eu não sei para vocês, mas tem sido o que me salva, receber o amor das pessoas, receber o carinho das pessoas, mesmo não podendo estar fazendo show, mesmo não podendo tá indo até elas, realmente é uma coisa que salva muito a gente nesse período, mesmo também não podendo estar entregando muitas coisas novas, por conta dessa configuração por computador, de toda essa tragédia que tá acontecendo, mas eu diria que, realmente, quando eu lancei no primeiro disco, na verdade, o primeiro clipe, Volta, que é do filme Tatuagem e tal, ali a coisa da do viralizar, que é uma coisa que ficou, se tornou preponderante, que se tornou o principal hoje, tipo viralizar no Tik Tok, na dancinha, entendeu? Então a gente saiu de um cenário, que é como o Rubel falou, que é onde as gravadoras controlavam esse intermédio, elas eram intermediárias, a gente saiu desse cenário para um cenário em que essas coisas acontecem meio que espontaneamente na internet, vira uma dancinha, vira um vídeo que as pessoas gravam imitando, mas eu acho que é uma nova adaptação de uma coisa que sempre aconteceu, assim, quando as músicas que faziam sucesso na rádio ou na televisão, é porque elas viralizavam desta maneira, agora mudou a plataforma, mas o viralizar, ele continua sendo a ferramenta principal para as coisas acontecerem, para as músicas acontecerem, eu lembro que quando eu lancei meu primeiro disco, o Spotify ainda estava engatinhando ali, 2015 tal, era popular, mas ainda não era tão popular, e eu lembro que entrou na parada do viral, na dos álbuns da parada dos virais, e isso ajudou muito de cara o disco a ser mais conhecido, e quando eu lancei o segundo também entrou na parada de viral e tal, então não é uma coisa, assim, sozinha da indústria, hoje em dia você tem ali os top 50, que ali tem muita coisa da indústria, do negócio, mas tem a coisa da viralização também, você tem artistas que estão ali porque a música viralizou, mas é isso, eu acho que o outro lado disso, só para concluir, é a coisa das redes sociais, do ódio nas redes sociais, o cancelamento, que a gente até deu uma palavrinha aqui, antes de começar, e por conta desse fenômeno conservador no país, retrógrado, que veio logo depois, em justaposição a um tempo um pouco mais progressista que a gente viveu, que, inclusive, acabou englobando artistas LGBT também, como eu, como Raquel, como Pablo, como Rico Dalasam, enfim, a coisa do conservadorismo também, os ataques nas redes sociais, eu lembro que em 2014, 2015, quando eu comecei, os ataques nas redes sociais não eram tão preponderantes, mas depois foi se tornando uma bola de neve e também foi preciso um manejo, pelo menos na minha experiência, para aprender a lidar com aquilo, com aquela quantidade de ódio, aquela quantidade de ataque, e isso vai falar muito da sociedade, enfim, então é isso, ajuda, porque é uma plataforma incrível, tem mil ferramentas para você utilizar sua música, para você fazer o vídeo do Tik Tok, para você fazer o vídeo do desafio no Twitter, do desafio no Instagram, para você se comunicar com as pessoas, receber esse carinho das pessoas, mas, ao mesmo tempo, também tem essa coisa, que reflete essa guinada conservadora da sociedade, que tem muito ódio também, então para você lidar com isso, ninguém lhe prepara para lidar com isso, quando você fala assim “você é um artista”, ninguém lhe prepara para lidar com a ameaça, com as pessoas tentando destruir a sua identidade, a sua autoestima, entendeu? Então, com os anos eu fui aprendendo a lidar muito melhor com isso, hoje em dia eu realmente posso dizer que eu liguei o deixa para lá, mas na minha experiência teve esses dois processos, ajudou, mas também foi esquisito, entendeu? Essa construção.
Didi Wagner - Entendi, eu vou, agora, neste momento, focar mais na parte positiva das mídias sociais, mas eu reconheço que elas têm também um lado bem perverso, mas eu, por exemplo, conheci As Baías, na época ainda As Bahias e a Cozinha Mineira, depois o nome mudou só para As Baías, através da internet, Raquel, não lembro exatamente em que perfil, de que forma, mas eu tomei contato com o trabalho de vocês através da internet, fiquei curiosa, fiquei interessada, fui assistir a um show de vocês no centro de São Paulo, e fiquei maravilhada ao ver vocês no palco, ver vocês ali, fiquei maravilhada com o que vocês fazem, e queria saber também de você como é a relação das Baías com as redes sociais, porque o que eu vejo é que vocês conseguiram também criar uma base de seguidores e de fãs com a divulgação própria.
Raquel Virginia - Oi gente, boa noite, eu quero muito agradecer esse convite, agradecer demais estar do lado desses colegas, dessas colegas, que eu sou apaixonada, sou fã mesmo, não tem ninguém aqui da qual não conheço a carreira, e a Didi, que é a nossa grande diva da música, como apresentadora que a gente ama de paixão, está na nossa memória afetiva, e tem uma carreira muito maravilhosa. Sobre As Baías, especificamente, eu posso dizer que eu sou uma filha da banda larga, a banda, a primeira vez que a banda lançou uma música, foi no Facebook, é a primeira vez, a trajetória que eu, particularmente, não necessariamente como banda, mas eu tive, foi uma relação, assim, eu sou uma pessoa que nasceu na periferia de São Paulo, cresci na periferia de São Paulo, e depois, o acesso à banda larga foi
transformando a minha vida de diversas maneiras, e eu acho que As Baías e a Cozinha Mineira, a gente tem uma série de correlações, de forças, que faz com que a banda seja, marque de alguma forma uma posição na vida digital das pessoas, e eu acho que uma delas é justamente a força dos movimentos sociais dentro das redes digitais, porque eu lembro que, quando a gente surgiu, além de o nosso primeiro álbum ter sido de alguma forma aclamado pela crítica, ainda assim, o que chamava a atenção das pessoas era fato de serem duas cantoras Trans cantando MPB, e a gente apareceu em cena dizendo “somos duas cantoras Trans”, que era algo que naquele momento, parece que de 2015 para cá, o discurso em relação à transgeneridade foi se aprofundando, mas naquele momento isso não era tão simples, tanto que o Brasil não tem uma memória de cantores e cantoras Trans, se você falasse “fale um cantor Trans da década de 80”, ninguém sabe falar, um cantor Trans, uma cantora Trans da década de 90, ninguém sabe, a figura Trans, ela também ganha força com as redes sociais, com a força da banda larga, os movimentos sociais, eles invadem as redes sociais, porque as pessoas, elas estavam entaladas, cheias de coisas para falar, cheia de coisas para mostrar, todo mundo tinha projetos musicais, o Brasil sempre fez música, e o Brasil sempre foi diverso na música, a única diferença é que os meios de comunicação hegemônicos não abriam espaço para isso, e hoje, o que a gente tem é a possibilidade, e mesmo que ainda continuem, o que é hegemônico continua sendo hegemônico, porque se a gente for pegar a televisão, a televisão continua sendo os rostos brancos, os rostos é que predominam, inclusive na música, se você pegar o rádio, são os rostos brancos que dominam as artes, e se a gente pegar as revistas, não só os brancos, como os corpos normativos, branco, cis gênero, heterossexual, continua sendo o dominante em relação à música que é consumida nos grandes meios de comunicação, ainda assim, a gente conseguiu. de alguma forma, oxigenar esses espaços conforme a banda larga foi avançando, e os movimentos sociais, sempre houve movimento social, mas os movimentos sociais ganharam o espaço para publicizar o debate, e As Baías e a Cozinha Mineira surge nesse momento, onde a temática Trans passou a ser uma tônica social, porque a gente conseguiu, o movimento das pessoas Trans é organizadíssimo, as pessoas que não sabem disso, mas é extremamente organizado, conseguiram emplacar, e as Baias e a Cozinha Mineira, de alguma forma, parecia cumprir um espaço que sempre teve que existir, mas que não tinha existido até então, que são artistas que se declaram Trans e que cantam suas músicas, e que promovem música, e constroem culturas, contribui para a cultura, então eu acho que a gente aparece no cenário musical desenvolvendo uma musicalidade que as pessoas também não esperavam, porque também existia, sempre, toda vez que eu falava para as pessoas que eu sou cantora, perguntavam “você é cantora de funk?”, porque o que se esperava de mim, e da Açucena, e principalmente de mim, que sou uma cantora Trans e preta, era que eu fosse uma cantora de funk, para mim seria um motivo de orgulho, porque eu acho que o funk, inclusive a gente pode falar de nova identidade musical, o funk é o que há de mais novo e de mais moderno no Brasil, eu seria uma cantora de funk com muito orgulho, mas isso mostra que, para as pessoas, ainda é muito difícil associar, por exemplo, MPB, que é uma música que As Baías começou fazendo, às pessoas Trans, então eu acho que as redes sociais foi um espaço que conseguiu absorver isso, porque eu acho que a gente tinha uma correlação de forças ali, acontecendo, para que isso pudesse emergir, e não é só uma vitória das Baías, individualmente, As Baias e a Cozinha Mineira aparecendo, assim como na época também apareceu a Liniker, que é junto, na mesma época que a gente, são aparições que são correlações de força, que muita gente, o Brasil inteiro queria, porque, no fundo, os meios de comunicação hegemônicos insistem em reforçar a imagem nórdica no país, mas as pessoas, no fundo, querem se ver, tá aí o Big Brother para provar, sempre colocam pessoas pretas para vencer e etc., tipo, quando elas podem votar, então eu acho que é mais ou menos isso, gente, eu falo viu.
Didi Wagner - Fala muito bem Raquel, e é muito gostoso poder te ouvir, e aproveitando tudo que você falou sobre a importância da banda larga, das mídias sociais, eu vou juntar também com a importância da música em si, e vou ler para vocês uma frase da jornalista especializado em música, Fabiane Pereira, em um artigo que ela publicou na revista Veja Rio, no qual ela disse que "a música popular brasileira é formadora de opinião, educadora, capaz de promover mergulhos profundos em nossa cultura, e nos desperta de anestesias coletivas”, então eu queria saber de vocês, e daí eu preciso direcionar a pergunta alguém, vou direcionar então, primeiramente, a Giulia Be, como você, Giulia, vê o papel da música como ferramenta de conscientização coletiva em diferentes frentes?
Giulia Be - Eu acho que o papel da música, como a MPB, ela é de fato brasileira, pois ela é miscigenada, a miscigenação é a base da nossa formação, a tendência que a gente tem de misturar tudo é o que forma a nossa cultura, ainda que historicamente, como a Raquel falou, hoje em dia a gente vê, se abre para ver um cantor Trans ocupar um espaço de ser um dos artistas reconhecidos do país, coisa que na época da MPB, por mais que também nasceu de um momento de resistência, o momento era outro, para o mundo onde essas pessoas não teriam como ter uma voz, e hoje eu acho que a minha geração vem, a gente tá aprendendo cada vez mais, o BBB, esse experimento social que a gente acompanha em rede nacional todo dia, a gente poder ver a desconstrução das coisas que a gente acreditava, a gente poder ver as pessoas aprendendo, errando, a gente poder ter oportunidade de milhões de pessoas estarem assistindo o Tiago Leifert, ainda que um homem cis e branco, podendo abrir o diálogo para uma pessoa falar que talvez poderia abrir espaço para falar uma coisa muito importante para o Brasil, entender essas mensagens, a música, para mim, nisso, ela é arte, é amor, ela nos abraça, ela nos move, e sempre foi assim, ela sempre foi uma ferramenta da gente botar nossas palavras ali, eu, no meu trabalho, eu sou muito focada em palavras, eu sempre foco mais na escrita das minhas músicas, nas letras, essa é a parte que eu mais gosta no trabalho, escrever a música, isso também traz uma consciência de o que você vai escrever ali, o cantor-compositor, historicamente, os melhores, os mais incríveis, que ficaram na história, foram cantores e compositores que conseguiram capturar os (ininteligível), eu adoro essa palavra inglesa, que quer dizer esse momento que a gente vive, o que que estava rolando nesse momento, quais eram as preocupações sociais, no caso, tá todo mundo em casa, numa pandemia, vivendo momentos inéditos, e ainda que virtualmente, tendo novas conexões, momentos lindos, como esse aqui que eu estou super feliz de proporcionar, inclusive, parar para agradecer, eu já saio falando, agradecer de estar aqui com vocês, vocês são todos artistas incríveis, Raquel, eu fico mexida toda vez que você fala, mulher, assim, é incrível, vocês são todos muito, muito importantes, cada uma nós passa a nossa música, que é tão diversa, tão diferente, e eu confesso que, com 21 anos, eu tive que aprender isso quase que um carbono de pressão, porque, como o Johnny tinha mencionado, a gente tem uma expectativa nas nossas costas enquanto artista, o papel da nossa música de ter algo além de só, não adianta a gente fazer música e ser uma música sem mensagem, uma música sem história, uma música que não representa nada, porque ela vai embora, ela não fica, ela não conta nada, eu escrevi Menina Solta, para ser bem sincera, em Saquarema, em 15 minutos, zoando a minha amiga, e acabou que só depois, daí eu acho que vocês também vão se identificar, às vezes a gente lançou uma música e só depois a gente entende o papel que aquela música tinha na nossa história, na nossa vida, eu lancei Menina Solta para brincar, e logo depois eu percebi todas as responsabilidades que isso trouxe para mim quanto uma mulher na indústria, que encontra uma voz feminina, que precisava falar com meu público, eu recebia muitas mensagens de meninas dizendo “eu só superei o término com meu ex por causa de vocês, eu estou muito melhor, eu me amo mais mesmo”, eu, de ver essas meninas dizendo, minhas contemporâneas, as minhas meninas soltas também, me passarem esse feedback, é um sensação de dever cumprido, eu acho que cada um, na sua na sua arte, quer ter essa sensação de dever cumprido, dessa mensagem passada, Menina Solta foi algo que me fez entender quem ia ser a mulher livre, que é a versão adulta da menina solta, e à medida que eu estou me libertando e me abrindo para, enfim, conversas, diálogos, estou até falando demais, eu quero escutar mais do que eu falo, mas eu acho que é super importante a gente ter consciência, ainda que na juventude, que nós somos, sim, um corpo político, que a gente tem que entender o nosso lugar de fala, entender como é que a gente pode contar todas as histórias maravilhosas que o Brasil tem para contar, seja na música ou em qualquer outro âmbito da arte, da melhor maneira possível, e juntos, sair desse lugar da destruição, da bipolarização do país, e sair de um lugar juntos, de criação, de construir essa imagem juntos, e aproveitar as oportunidades incríveis, não só como essa, mas como de todos os âmbitos da nossa carreira, seja no mercado internacional, para o mercado nacional, de usar as oportunidades para falar das coisas que tem que ser faladas sobre.
Didi Wagner - Muito bacana. Eu queria pedir, Xenia França, para você também falar um pouquinho sobre o teu ponto de vista em relação à música como ferramenta de conscientização coletiva.
Xenia França - Bom, várias falas bonitas e interessantes, quando eu ouço a Raquel falar assim, eu me sinto contemplada muitas vezes, assim, quase 99% das vezes, porque eu também, basicamente, eu sou uma figura que não existia até outro dia, não estou falando de mim na primeira pessoa, mas uma figura que não existia, tipo, mulher negra, o que é isso? Onde é que tem? O que que é isso? Pode comer? Geralmente era, então é uma visão de mim mesma, de poder criar um histórico baseado em juntar caquinhos, juntar histórias, juntar, fazer, muitas vezes, recontar uma história que não foi contada, e a música me ofereceu isso grandiosamente, assim, então poder ser um artista, estar artista, melhor dizendo, nessa minha experiência de vida que me foi dada agora, a gente tem a responsabilidade, que eu não estou falando só de ficar fazendo música, gostaria, gostaria só de fazer música e ser artista e tudo mais, mas sabendo que eu tenho uma responsabilidade também, que eu estou falando de uma linhagem de um monte de gente que foi silenciada, um monte de gente que não podia dizer, eu não estou falando de muito tempo, que é muito tempo, é 70 anos atrás, a maioria das pessoas parecidas comigo não podiam nem fazer, nem chegar próximo do que eu posso fazer hoje, mais falando basicamente do meu histórico familiar e tudo mais, a música, ela por si só, ela tem essa capacidade de entrar nas nossas vidas sem pedir licença, a música é um fenômeno da natureza, tudo é música, tudo vibra, tudo é frequência da vibração, então naturalmente a música vai fazer o seu papel independente do que esteja sendo falado, porque a intenção já é muita coisa, porém a música que a gente conhece como MPB, música brasileira, sempre se colocou diante de situações opressoras, artistas muito importantes da nossa história, sempre colocaram um posicionaram a respeito do que já é urgente há muito tempo, porém eu, como artista negra, vista dessa forma dentro do meu, nunca fiz parte, historicamente, praticamente, disso, quando eu olho, na história, os artistas que parecem comigo, eles estavam nessa grande luta que é frequente da história da pessoa preta no Brasil, que é um constante escapar, a música serve como válvula de escape, escapar de fugir mesmo, fugir de uma estatística, fugir de um diagnóstico, ou de um preconceito, enfim, de todas essas coisas que são herança de uma histórico trágico e terrível que o Brasil, infelizmente, ainda se apropria, e as coisas são como são porque não existe boa vontade ainda a respeito das melhorias, e eu acredito que o povo que, de uma certa forma, consegue avançar dentro do histórico social do país, avança porque conseguem dar nó em pingo d'água, como eu costumo dizer no meu meio pessoal, conseguem dar nó em pingo d'água, é fruto disso, eu não consigo me enxergar muitas vezes dentro da música, do que é a música brasileira, vendo que a música brasileira, como ela é constituída, como ela cresceu e nasceu, ela é uma música apropriadora, em detrimento das figuras, da imagem, mas a linguagem sempre esteve lá, e o meu objetivo em estar cantora, em iniciar um trabalho, era, em primeiro lugar, poder me reconhecer dentro no mundo, um lugar no mundo, e aí a música me deu essa oportunidade de eu fazer um processo de cura, que ainda está longamente em um início, assim, mas eu entendo que a música tem essa força, a música tem essa luz, de poder nos curar, de poder traçar os seus caminhos dentro da gente, eu me aproprio muito da música nesse lugar, eu quero muito poder ser agente transformadora, não só de fazer as pessoas lembrarem do mal que elas sofreram, mas da luz que elas podem ativar dentro delas, e poder transpor, transcender mesmo, praticamente, essas condições impostas, estereótipos, não ser a algo que as pessoas olham para mim e acham que eu sou isso sou aquilo, até porque o meu processo com a música é muito, meio Frankenstein mesmo, eu sou cientista e eu sou Frankenstein, e eu estou no meu processo de autocura, eu estou fazendo música, isso acaba saindo no meu trabalho, então eu acho que, de alguma forma, todo mundo que tá aqui tá achando o seu lugar, ou já encontrou o seu lugar, eu não acho que a música brasileira, a indústria brasileira, mudou muito em relação a ser democrática, as redes sociais, elas mudam muito, assim, o papel de como uma pessoa anônima pode aparecer do nada, porém as estruturas, elas continuam as mesmas, os veículos continuam propagando os mesmos tipos de imagem, como a Raquel falou, e as pessoas que ficam famosas, e as pessoas que tem o amor do público de uma certa forma, são sempre as mesmas, têm o mesmo biotipo, a mesma figura, e nós, que não fazemos parte dessa norma, acabamos sempre tendo que a criar uma forma, se não tem espaço para mim, foi essa a maneira que eu encontrei de fazer a minha parada dar certo, se não tem espaço para mim, eu abro espaço para mim, eu crio espaço para mim.
Didi Wagner - Xenia, você comentou que a música tem, para você, o papel de autocura, e com essa autocura, eu entendo que você acabe levando a uma transformação coletiva, porque você alcança pessoas que querem te ouvir, querem te ver, querem conhecer mais sobre você, querem se identificar com você. Eu percebi que a Raquel ficou bastante emocionada ao ouvir você, eu queria, Raquel, que você falasse um pouquinho também sobre isso, eu percebi aqui que você ficou bem tocada com tudo que a Xenia França falou.
Raquel Virgínia - É porque a Xenia, ela, primeiro, eu sou muito fã, ela é a pisciana que eu respeito, e eu fui muito curada pelo disco da Xenia, eu ouvi muitas vezes, e muitas vezes, e já tive a honra de cantar com ela algumas vezes também, e o que ela diz é muito forte, porque, o que acontece, assim, as pessoas pretas sempre fizeram música no Brasil, desde que as pessoas foram traficadas e elas pisaram nesse solo, elas fizeram música, tá aí a tradição da capoeira, que é um jogo, que é de dança e música, provando que as pessoas sempre fizeram música, tá aí a tradição da música brasileira, então as pessoas pretas sempre fizeram músicas, sempre fizeram música para resistir, a questão é que a nossa a nossa musicalidade sempre está em detrimento da branquitude brasileira, então quem são as grandes damas da MPB, as grandes divas da MPB? Eu sou, eu, amor, eu sou, eu posso falar, porque eu sou, eu conheço a obra da Gal de ponta a ponta, eu conheço a obra da Betânia de ponta a ponta, mas quantas cantoras negras foram apagadas no processo, para que cantoras brancas fossem consideradas as grandes divas? Quantas cantoras negras foram apagadas? Quantas pessoas Trans fizeram música e não conseguiram mostrar sua música? Porque quando a gente fala assim, você lembra de alguma artista Trans nos anos 2000, na década de 90, na década de 80? Quando eu faço essa pergunta, eu não estou dizendo que pessoas Trans não faziam música, eu estou dizendo que pessoas Trans foram silenciadas, então, hoje, quando a gente pode se unir para fazer música, quando a gente pode ter um público, quando a gente pode deixar essa memória, isso não é só uma questão comercial, que eu até estava brincando antes de começar, que eu estava aqui para fazer negócio, mas não é só isso, isso quer dizer um reencontro de energias, isso que a Xenia falou é lindo, porque é, de fato, um reencontro de energias mesmo, toda vez que eu entro no palco, eu canto, eu tenho a sensação, dependendo da música, eu tenho a sensação que eu estou me conectando com pessoas que foram silenciadas, parece que eu estou dando som ao silêncio, eu estou dando som ao silêncio, ao que foi silenciado, toda vez, eu sou uma pessoa que, às vezes, eu sou até um pouco atacada nos bastidores, porque eu defendo muito a minha voz, eu defendo muito a minha música, a música das pessoas que parecem comigo, a música das pessoas que lutam a mesma luta que eu, porque tem muito silêncio no meio dessa música, tem muito silenciamento, tem muita morte, muita tragédia, infelizmente, eu adoraria ser uma brasileira que falaria assim, gente, a música brasileira é linda, mas a música brasileira, infelizmente, é uma música que muitas vezes silenciou muitos talentos, deixou muitos talentos para trás, e só evidenciou os talentos normativos, e etc., então eu luto muito para isso, para que seja o contrário, faço parte do grupo da Xenia, faço parte do grupo da Giulia também, muitas mulheres foram silenciadas, então Menina Solta, assim, eu acho que é um baita hit e potencializa um monte de meninas a se soltarem, assim, a gente sabe a força que tem uma música como a dela, que toca em tantas rádios, e assim como Johnny, que é o nosso bruxo, faz bruxarias na música, e quantos homens gays foram silenciadas ao longo desse processo, Rubel também, todas as pessoas estão aqui, mas especialmente com a Xenia, tenho que dizer, eu tenho uma ligação que não é nem sobre se a gente é amigas, colegas, ou o irmãs, que se amam ou não, é uma questão ancestral muito forte, porque a gente sabe o quanto pessoas como nós foram silenciadas ao longo da história da música brasileira.
Xenia França - Eu percebo uma coisa muito interessante também, existe um constrangimento ainda de a gente fazer, por exemplo, uma conversa como esta, percebo que a gente também, que tá todo mundo, de uma certa forma, pisando um pouco em ovos, porque ainda é, essa coisa de lugar de fala, e todas as coisas que estão sendo apontadas aqui, não tem a ver com deslegitimação da carreira de ninguém, assim, todo mundo tem seu talento, e todo mundo vai para cima como pode, lutar com as armas que tem, mas é muito difícil para mim, muito difícil para Raquel, tipo, eu acredito, elevar o nível cada vez mais da conversa, sem mencionar que nós somos, enfim, pioneiras dentro do nosso processo de poder recontar, muitas vezes, no caso da Raquel, não no meu, mas no caso da Raquel, de realmente criar uma ponte, criar um caminho que não existia, se colocar e desbravar o mato que ainda não existia, ser uma cantora Trans e poder ser respeitada pela sua música, muito mais do que pela característica, ou muito mais do que pelo seu gênero, mas você querer ser uma cantora e viver de música, como eu, querer ser uma cantora, e não ser uma mulher negra, ter esses adjetivos sempre, ser apresentada, e ter a noção de que o Brasil ainda tá bastante engatinhando nessas pautas, porque em qualquer lugar que a gente vai pelo mundo, existe uma abertura em querer ouvir a música primeiro, antes de questionar se é isso ou aquilo em relação a uma característica, aqui a gente tem três pessoas, tem três ou duas pessoas que foram indicadas ao Grammy, o Rubel, a gente teve no mesmo período no Grammy, e como é bom estar no lugar onde tem tanta diversidade na música, neste lugar, e você sente que você tá naquele lugar justamente porque você é músico, porque você é artista, e voltar para o Brasil e ainda ter que responder sempre às mesmas perguntas, estar sempre no mesmo lugar, você sempre ser colocada no mesmo lugar pela imprensa, que tem uma preguiça, às vezes, de estudar o que que é a história da música brasileira, o que é que aquele artista representa, então é difícil ainda a gente sair de algumas pautas, e não ser irresponsável ao passar por uma experiência como essa, que é uma experiência global, sem dizer que nós estamos aqui, representando o nosso tempo, dentro da nossa grande nave espacial individual, mas todo mundo tentando fazer o seu melhor, tentando ser o seu melhor como pessoas em primeiro lugar, porque eu acho que é isso que a arte faz com qualquer indivíduo, a arte melhora a gente, eu sou reflexo da arte que eu produzo, primeiro, eu melhoro, e cada vez que eu vejo uma coisa que eu jogo no mundo, eu tenho a oportunidade de ver quão melhor eu me tornei, como um ser espiritual, como pessoa, o meu melhor, as minhas relações, como eu me coloco íntegra diante da minha vida, e eu não vou permitir que o racismo paute a minha existência, eu vou permitir que a música paute a minha existência, que as minhas músicas pautem as minhas melhores escolhas, a minha existência, então esse é um presente, e é inerente a minha vontade, assim, a música, ela é uma deusa, é uma musa, e me abduziu, e tenho certeza que todo mundo aqui tem uma relação íntima e intensa com a música, que não pode deixar passar, e deixar que essa música dê ponte de discussões, não seja ponte de transformações na nossa vida e na vida das pessoas que ouvem a gente.
Didi Wagner - Bacana Xenia. Por isso a importância de um painel como esse, para abrir espaço para a gente conversar, enfim, se aprofundar sobre diferentes questões inerentes à música. O nosso tempo, infelizmente, está quase acabando, a gente tem mais alguns minutinhos, eu acabei sentindo que o Rubel e o Johnny Hooker falaram um pouco menos, então eu queria pedir considerações finais de vocês dois, mas, por favor, se atenham à questão de que a gente tem, assim, três minutinhos, então é um minuto e pouco para cada um, meninos, peço desculpas, mas a gente tem de seguir o cronograma.
Johnny Hooker - É isso gente, tem pouquinho tempo para falar, vamos tentar hackear essas estruturas deste mundo estragado, podre, velho, tenta ir para cima desse mundo, tentar botar nossa cara, nossa cara nordestina, nossa cara gay, nossa cara Trans, nossa cara, todas as todos os nossos rostos, tentar hackear um pouquinho, porque eu acho que, diante deste momento de conservador, de desestruturação do país, porque o país está aos pedacinhos, a arte se põe como um grande vetor, que pode juntar um pouquinho desses caquinhos que ficaram, para a gente juntar o espelhinho e poder se olhar no espelho de novo, depois da destruição toda que está acontecendo, é isso, obrigado gente, obrigado pelas palavras, eu amo vocês, vocês são todos os artistas incríveis que eu admiro muito, e eu fico muito feliz de estar nessa diversidade toda, que a música brasileira, estar representando Recife também aqui, e é isso gente, obrigado, beijo.
Didi Wagner - Valeu, eu passo a palavra Giulia Be, breves palavras, por favor.
Giulia Be - Gente, muito, muito obrigada por esse tempo, Raquel, Xenia, foi um prazer ouvir vocês, eu acho que é isso que o Rubel falou, é um momento meio que a gente está
corrigindo uma dívida histórica aqui, quanto mais a minha geração, a geração que está por vir, e a geração que está aprendendo, a gente também tiver consciência disso, eu acho melhor, contem comigo para absolutamente tudo, eu quero ver o sucesso de todos vocês, de todas as carreiras, o que eu puder fazer de divulgação, a gente tem que estar aqui, a nova identidade da música brasileira, eu acho é uma identidade de amor, de fato, a MPB antigamente era uma cara muito branca, inegavelmente, a história é essa, não tem como a gente mudar, que hoje essa nova MPB, a nova música popular brasileira, consiga ter todas as nossas caras, igual o Johnny falou, consiga mostrar todas nós, mulheres, e todos nós, homens, todos juntos, tudo mais humano, junto, é isso, com certeza é meu papel aqui, então muito obrigada pelas palavras lindas.
Didi Wagner - Obrigada Giulia. Xenia França, considerações finais, por favor.
Xenia França - Bom, eu só quero agradecer a oportunidade de poder trocar, enfim, a gente, nós somos pessoas muito profundas, isso eu pude ver aqui, todo mundo muito profundo, todo mundo tem muito o que dizer, tem muito a contribuir, enfim, tipo, é um tempo curto para poder gente dizer tanta coisa importante e urgente, a gente gostaria também de poder falar do processo criativo, de como é poder produzir, enfim, mas é isso que a gente tem para agora, tá todo mundo também um pouco denso por causa da situação que a gente está vivendo em geral, a situação de saúde pública, a situação do país como um todo, a degradação de todos os aparelhos do governo, então a gente tem que segurar as nossas perucas e se apropriar de quem a gente é, da força do nosso “ori”, da capacidade que a gente tem de se adaptar, porque foi assim que a humanidade chegou até aqui, transpondo situações adversas, já houveram situações parecidas ou piores do que a gente está vivendo hoje na humanidade, então a gente tem essa capacidade de se adaptar, e de se melhorar principalmente, porque o mundo vai mudar quando as pessoas mudarem, quando as pessoas melhorarem coletivamente, a gente vai apontar Fulano ou Ciclano que errou, que não sei o que lá, mas é dentro de cada um que tá essa mudança que a gente tanto quer, das pessoas, então eu acredito que nesse lugar, a música, ela é capaz de poder fomentar e mobilizar tanta gente de uma vez só, infelizmente, a gente não pode juntar nesse momento, para poder a gente se falar o que a gente tem que dizer, tocar a nossa música, tocar o coração das pessoas, mas eu sinto que tem uma consciência universal que liga todos nós e, como o Johnny falou antes, a gente tem capacidade de se juntar, mesmo que virtualmente, conscientemente, com o nosso público, não deixar a peteca cair, e manter a nossa saúde mental em primeiro lugar, em riste, para poder a gente não deixar isso cair, para a gente manter as pessoas que gostam do que a gente faz motivadas também, para quando, se um dia isso passar, e da forma que passar, na hora que a gente chegar lá do outro lado, no outro mundo, a gente estar completamente conscientes e melhor do que a gente entrou nessa, com certeza, tenho muita fé que o nosso espiritual vai prevalecer sempre.
Didi Wagner - Amei Xenia França, super obrigada pela sua contribuição aqui, no painel, contribuição esclarecedora, muito relevante, e muito importante para todos nós. Raquel Virgínia, suas considerações finais.
Raquel Virgínia - Eu vou ser muito breve também. Olha só, esses dias, no Twitter, a polêmica era falar que a Luísa Sonza tem cara de travesti, onde as pessoas estavam tentando ofendê-la, dizendo que ela tinha cara de travesti, isso viralizou nas redes sociais, dizendo que ela está com cara de travesti por conta das intervenções plásticas que ela fez no rosto dela. A coisa que eu quero dizer para vocês é: respeitem a cara das travestis, porque ter cara de travesti não é ofensa, é com essa cara de travesti que eu fui indicada duas vezes ao Grammy Latino, que eu ganhei prêmio da música brasileira, que eu estou aqui falando para Harvard, é com essa mesma cara de travesti que eu fui aluna de história na USP, e com essa mesma cara de travesti eu tenho ajudado a minha família inteira a ascender de várias maneiras, então respeitem as travestis, saibam que as travestis é cultura, e ter a cara de travesti é a coisa mais linda que eu poderia ter, que bom que, nesta encarnação, eu vim com cara de travesti, e é isso é isso que eu tenho para dizer, eu quero agradecer muito aos colegas, amigas, amigos, agradecer a você, Didi, pela brilhante mediação, é isso, espero ter contribuído, eu recebi uma mensagem da Liniker antes de começar a falar, e ela falou assim “obrigada por estar aí me representando”, então, para mim, é realmente uma responsabilidade estar representando tantos talentos Trans que existem no Brasil, tantos talentos Trans que existem naquele país, nesse país, é uma grande, imensa responsabilidade, e eu espero ter contribuído para diminuir um pouco o preconceito e aumentar mais os caminhos e as possibilidades para as pessoas como eu, que já existem, e as que ainda vão existir, é isso.
Didi Wagner - Lindo depoimento Raquel. Gente, queria agradecer muito, muito, muito a participação de vocês aqui, muito obrigada a todos que estão nos assistindo, obrigada mais uma vez à Brasil Conference at Harvard and MIT para mediar o painel Novas Identidades da Música Brasileira, e espero que, quando a pandemia passar, e a gente puder se encontrar com segurança, que a gente possa se ver ao vivo, em situações sociais, e eu quero vê-los no palco, porque o morro de saudade de ir a shows, eu amo ver vocês fazendo performance, eu adoro ver apresentações ao vivo, então tomara que logo mais a gente vença esse vírus maldito, e que as coisas possam ser retomadas com segurança, e que a gente possa vibrar de novo com trabalho artístico de cada um de vocês, parabéns pela carreira de cada um, todos executando sua carreira artística de forma muito singular, muito especial, muito autêntica, eu admiro todos vocês que estão aqui, muito obrigada pela participação.
Editor executivo multimídia Fabio Sales / Editora de infografia multimídia Regina Elisabeth Silva / Editor de Política Eduardo Kattah / Editores Assistentes Mariana Caetano e Vitor Marques / Editores assistentes multimídia Adriano Araujo e William Mariotto / Designer Multimídia Bruno Ponceano, Dennis Fidalgo, Lucas Almeida, Vitor Fontes e Maria Cláudia Correia / Edição de texto Fernanda Yoneya, Valmar Hupsel e Mariana Caetano