Brasil

Brasil pode ser o país da bioeconomia

Especialistas defendem a retomada das medidas de mitigação do efeito estufa, combate ao desmatamento e o início da transição energética no painel Brasil: Metas Climáticas, na 7ª Brazil Conference

Texto: Redação / Foto: Ricardo Moraes/REUTERS

08 de abril de 2022 | 15h50


A agenda de ações brasileiras para cumprir as metas das mudanças climáticas e a recuperação no mundo pós-covid-19 foram debatidas no painel “Brasil: Metas Climáticas” na 7ª Brazil Conference, realizada em ambiente digital, neste 13 de abril. Rosemburg Lopes foi o líder do painel que contou com a participação da ex-ministra do Meio Ambiente e ambientalista, Marina Silva; da cientista, pesquisadora e professora da Universidade de Brasília (UNB), Mercedes Bustamante e o fundador da Fama Investimentos, Fábio Alperowitch, com a mediação do coordenador executivo do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima, Oswaldo Lucon.

O evento contou com transmissão ao vivo pela internet e a programação pode ser acompanhada pelo portal do Estadão, parceiro na cobertura do evento, além dos canais da conferência no Youtube e Facebook, a qualquer tempo.

Em suas análises, os convidados apontaram que o Brasil sofre com uma paralisia relacionada ao cumprimento das metas climáticas. O país viu crescer o desmatamento e, segundo dados do Global Forest Watch e Instituto WRI, em 2019, o Brasil respondeu por um terço da perda de florestas tropicais primárias no mundo, muito próximo dos números da República Democrática do Congo e da Indonésia.

A ex-ministra Mariana Silva avalia que o governo deve assumir urgentemente o compromisso ético e recuperar a governança ambiental realizada nos governos anteriores e recompor os orçamentos do Ministério do Meio Ambiente, do Ibama, do ICMBio e do Instituto Florestal Brasileiro, além de realizar parceria com os governos estaduais, desdobrando o Plano Nacional de Prevenção e Controle do Desmatamento.

“Nós temos que ter um país que seja, ao mesmo tempo, economicamente próspero, socialmente justo, politicamente democrático, porque sem democracia não há como resolver esses problemas, ambientalmente sustentável e culturalmente diverso”, lembrou Marina.

Para Fábio Alperowitch, diante da crise da pandemia a sociedade percebe com mais clareza a importância da ciência e da sustentabilidade. Ele fez críticas à mudança nas métricas da emissão de gases do efeito estufa da NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada).

“É difícil a gente falar de sustentabilidade e negócios legais, quando as atividades ilegais são simplesmente toleradas ou até incentivadas sem o combate efetivo do desmatamento, que é ilegal”, disse a professora Mercedes.


Confira o evento na íntegra


Brasil: Metas  Climáticas

● Marina Silva: Ambientalista e política
● Fabio Alperowitch: Fundador da FAMA Investimentos
● Mercedes Bustamante: Professora na Universidade de Brasília
● Oswaldo Lucon (moderação): oordenador Executivo do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima


Rosemburg Lopes Neto - Olá, você está assistindo ao painel Brasil e Metas Climáticas da 7ª edição da Brazil Conference Harvard & MIT. Meu nome é Rosemburg Lopes Neto e sou aluno de MBA no MIT. O painel Brasil e Metas Climáticas busca explorar como o Brasil, umas das dez maiores economias do mundo e detentor de rica biodiversidade, deve se posicionar no estágio global frente à ameaça das mudanças climáticas. Como palestrantes é uma honra anunciar que teremos Marina Silva, ambientalista e política brasileira, Fábio Alperowitch fundador e diretor da Fama Investimentos e Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília e membro da Academia Brasileira de Ciências e na moderação temos Oswaldo Lucon, coordenador executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças de Clima. Muito obrigado a todos vocês por terem aceitado nosso convite, assim como o público que nos assiste. Passo agora a palavra para o Oswaldo para que comecemos o painel.

Oswaldo Lucon - O assunto mudanças climáticas é, logo depois da pandemia, uma das maiores ameaças que nós temos aqui para a nossa existência e faço disso o meu dia a dia já há várias décadas. É uma grande felicidade contar aqui com a amiga e colega Mercedes Bustamante, com o Fábio Alperowitch e com a ministra Marina Silva. Eu gostaria de convidar a todos, brevemente, a visitar o site do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas é o forumclimabrasil.org - e sem mais, eu já vou passar a palavra à Mercedes fazendo uma provocação. Vamos começar. Vamos olhar para o presente ou futuro, Mercedes se você hoje pudesse a dar algum conselho ao atual governo, o que você proporia? Eu vou emendar com uma outra pergunta, se em 2023 você puder aconselhar o governo eleito neste ano, o que você proporia?

Mercedes Bustamante - Muito obrigada, Oswaldo pela apresentação. Rosemburg muito obrigada pelo convite para participar desse painel. É um prazer estar aqui com os colegas para debater um tema que é tão importante. Eu preparei uma pequena apresentação, talvez se a gente pudesse projetar, e eu vou tentar então abordar as duas questões tão significativas que Oswaldo colocou para nosso debate. Inicialmente eu acho que abordarei um pouco do Brasil e as metas climáticas, eu gostaria então de passar para o primeiro slide, esse slide, se vocês conseguem observar são duas representações de dois cenários possíveis do clima. Um cenário de altas tensões e um cenário de mitigação, onde a gente conseguiria controlar o aumento da temperatura em relação aos níveis de temperatura pré-revolução industrial. Basicamente o que a gente coloca hoje para a humanidade é um balanço entre esses dois possíveis cenários para o clima. Passando para próximo slide e a gente percebe que diante desse desafio, nós tivemos no segundo semestre de 2020 e no início, agora, de 2021, movimentos importantes de duas grandes economias mundiais que são responsáveis também por uma boa parte das emissões globais de gases de efeito estufa. Então, em setembro de 2020, a China lançou o seu plano, numa reunião da ONU (Organização das Nações Unidas) de atingir seu pico de emissões de CO² antes de 2030 e de alcançar neutralidade de carbono antes de 2060, com uma redução drástica dos combustíveis fósseis compensando as emissões remanescentes e tudo isso implicaria num roteiro de aproximadamente aí US$ 15 trilhões em 30 anos. E, agora, recentemente, em março de 2021, o governo recém-eleito do presidente Joe Biden colocou um plano de reconstrução e modernização da infraestrutura nos Estados Unidos visando expandir as fontes renováveis de energia, e com isso criar milhões de postos de trabalho e adaptar o país aos efeitos da mudança do clima, e os custos previstos são cerca de US$ 2 trilhões de nos próximos oito anos. O próximo slide a gente pode ter uma síntese um pouco, enquanto os países se movem na direção de enfrentamento deste desafio, qual é a situação atual no Brasil. A gente pode observar que são duas notícias do portal do Supremo Tribunal Federal que se referem a duas audiências públicas. Uma delas é coordenada pelo Ministro Barroso para discutir os investimentos do Fundo Clima, e a segunda audiência, em outubro de 2020, quase que mês depois, coordenada pela Ministra Rosa Weber para discutir a situação do Fundo Amazônia. Então, quando a gente percebe uma movimentação de países importantes da economia global, importantes para mitigação das mudanças climáticas e na mobilização de recursos para o enfrentamento desse problema, o que a gente vê no Brasil dois fundos importantes, claro que não alcançam o que está sendo colocado pela China e Estados Unidos, mas muito importante no sentido da condução das atividades no Brasil paralisados em função de mudanças na área federal. O próximo slide que vocês vêm aqui é uma figura que foi elaborada pelo grupo do Clime Action Factor que acompanha as ambições colocadas no Acordo de Paris, em relação ao que elas significariam em termos de aumento da temperatura global. Na primeira coluna vocês podem observar que seria o aumento do esperado considerando todas as metas colocadas no Acordo de Paris, e que já nos deixaria fora da faixa de 1.5 de aumento da temperatura global, e nos colocaria ali numa média de 2.6. Se a gente for olhar agora a segunda coluna de azul mais escuro, ela representa o que seria esse aumento da temperatura em face das políticas correntes, e a terceira coluna uma ação mais otimista. Basicamente a mensagem é que as metas, que nós temos hoje colocadas na mesa até 2030, elas não são suficientes para nos colocar numa trajetória de redução da temperatura global, em função da redução das emissões para atingir a meta de 1.5. Esse gráfico, que vocês percebem com várias linhas, várias trajetórias; a trajetória em preto representa as nossas emissões históricas, e para que nós olhássemos essa trajetória em verde, que nos levaria por 1.5, implicaria em uma redução muito rápida e muito drástica das emissões já no período entre 2020/2030. Esse gráfico indica a necessidade de urgência na tomada de decisão e de ações mais ambiciosas de mitigação. No próximo slide, o que a gente traz aqui é o resultado é um relatório do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change) quando a Acordo de Paris colocou a meta de 1.5 - o IPCC foi demandado a preparar um relatório sobre o que significaria, em termos de ações de mitigação, o atingimento dessa meta de 1.5. E eu gostaria de chamar aqui atenção para um setor importante dentro das emissões globais, que é o setor de agricultura, florestas e outros usos da terra e, particularmente, relevante para o Brasil. E o que esse relatório do IPCC coloca é que, efetivamente, a limitação do aquecimento global a 1.5 vai demandar transições muito significativas em termos globais e regionais do uso da terra, e a escala dessa ambição vai depender precisamente desse portfólio de ações de mitigação associadas a diferentes transições de uso da terra. No próximo slide, por favor, o que vocês podem ver são as emissões de gases de efeito estufa do Brasil, nessas barras coloridas elas representam os diferentes setores da economia, e eu chamo atenção aqui, precisamente, para esse setor de agricultura, florestas e outros usos da terra, representados em verde, as barras de mudança de uso da terra em amarelas, as barras associadas atividades da Agricultura, que mostram que representam o perfil majoritário das emissões brasileiras de gases de efeito estufa. Próximo slide por favor, então a gente passa agora a olhar um pouco qual foi o compromisso do Brasil frente ao Acordo de Paris. O Brasil elaborou um primeiro documento, em setembro de 2015, que colocava a redução das emissões de gases de efeito estufa em relação aos níveis de 2005 -  37% até 2025; 43% até 2030. Essas metas tinham uma natureza incondicional, ou seja, o Brasil assumiu o ônus dessa redução, as ações associadas a essa redução, e elencava algumas metas específicas para o setor de florestas e uso da terra, como restaurar 12 milhões de hectares de floresta para 2030; eliminar o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030 e reforçar os esforços de implementação do Código Florestal. Aqui eu chamo a atenção para a meta de restauração, porque se a gente só seguisse o Código Florestal já seria uma necessidade de restauração de cerca de 21 milhões de hectares, até bem mais do que era colocado por essa meta em 2015. No próximo slide, por favor, o que vocês vão ver é o documento que o Brasil submeteu a NDC brasileira (Contribuição Nacionalmente Determinada) revisada em dezembro de 2020, e que mantém os percentuais de redução de gases de efeito estufa que foram colocados em 2015, enunciam objetivo indicativo, ou seja, não é um compromisso concreto de neutralidade climática em 2060, mas apresenta alguns pontos a considerar. Primeiro, ele teve uma participação muito baixa da sociedade civil, ele não traz as medidas concretas que existiam na versão de 2015, não fala de ações de adaptação que também estavam presente documento 2015, e coloca isso agora como compromisso condicional, ou seja, condicionada ao recebimento de recursos externos que a natureza bem diferente daquele compromisso incondicional colocar em 2015 e não cita também a própria Política Nacional de Mudanças do Clima que já previa, que em 2020, nós já deveríamos ter uma taxa de desmatamento na Amazônia inferior a 4 mil quilômetros quadrados, e essa taxa atualmente é de cerca de 9 mil quilômetros quadrados. O próximo slide, por favor, e como é que o Brasil está hoje? esses são dados de 2019, do Global Forest Watch apresentado pelo Instituto WRI, e a gente percebe aí que em 2019 o Brasil respondeu por um terço ( ⅓ ) da perda de florestas tropicais primárias no mundo, que é esse gráfico de barras verdes, indica o Brasil aqui bastante destacado, na sequência vem a República Democrática do Congo, Indonésia, assim por diante, e esse gráfico de pizza, o que ele indica aqui são as contribuições para perda de florestas primárias, entre 2002 e 2020, a gente percebe essa fatia majoritária do Brasil, também se a gente considera esse período de tempo. Então, em relação às considerações finais e aproveitando a provocação do Oswaldo, o que eu considero que seria importante é que o Brasil precisa realmente contribuir com metas muito mais ambiciosas de mitigação, o caminho mais imediato a gente já sabe, porque a gente está percorreu com relativo sucesso no passado recente, que a retomada das medidas de controle do desmatamento das atividades ilegais. É difícil a gente falar de sustentabilidade e negócios legais, quando as atividades ilegais são simplesmente toleradas ou até incentivadas. O reforço de instrumentos como o Cadastro Ambiental Rural (CAR) previsto também no Código Florestal brasileiro, o atingimento, o encaminhamento do nosso compromisso de restauração dos passivos ambientais e incentivo às práticas e negócios sustentáveis. Por fim, é importante considerar, entrou aí no meu último slide, e a prioridade deve ser a reconstrução da governança. São duas figuras do relatório Dasgupta Review da fala sobre a economia da biodiversidade e coloca, muito claramente, que aqui no topo dessa colmeia de construção de cooperação entre o capital social e as instituições está a confiança. E a confiança também é um aspecto importante novamente para efetividade das instituições. Sem essa reconstrução da governança, com base em confiança, a gente não consegue elencar essas soluções nem para 2021, nem para 2023, vou Oswald? Eu termino aqui e agradeço mais uma vez o convite.

Oswaldo Lucon - Muito obrigado, Mercedes. De fato, a confiança é o princípio da governança, de negociações multilaterais, e me permita fazer um pequeno aparte sobre os princípios do Fórum Brasileiro do Clima. Ao assumir a coordenação, estabelece que as posições do fórum se pautariam pela evidência científica, pelo reforço das instituições e pelo fiel cumprimento de todos os acordos internacionais do qual o Brasil faça parte. São essas as condições. A governança é uma condição sine qua non para que isso ocorra. Muito obrigado, mais uma vez. Eu vou passar agora para o Fábio Alperowitch que vai nos dar uma visão do setor privado. Fábio, a pergunta que eu tinha assim de roteiro era perguntar sobre o que o Brasil poderia fazer em termos de investimentos ESG, para cumprir a nossa NDC, mas eu acho que isso vai além a NDC é parte do caminho, o Brasil precisa depositar uma estratégia de longo prazo e sem o setor privado, sem as empresas, isso simplesmente não vai ocorrer. Eu gostaria que você abordasse isso e já vou fazer a minha provocação a você: - como é que a gente lida com o a “maquiagem verde”, o Greenwashing, e até mais com a captura regulatória, com a informação assimétrica, que existe ainda na tomada de decisão. Com você Fábio, fala obrigado.

Fábio Alperowitch - Boa noite a todos. É um prazer enorme estar participando de um painel dessa relevância. É um prazer também contar aqui com você professora Mercedes, ministra Marina, antes de mais nada espero que todos estejam bem e seus familiares bem, nesses tempos estranhos que estamos vivendo, espero que todos estejam saudáveis. Em relação a sua pergunta Lucon, eu queria primeiro dar um pouquinho mais de contexto sobre a questão, antes de entrar no setor privado, porque quando a gente fala sobre metas climáticas ou ambições climáticas do Brasil, quando a gente fala Brasil, a gente tem que é diferenciar bem que Brasil é formado por governo e formado pela sociedade civil também. Não necessariamente eles estão na mesma toada, e muitas vezes investidores estrangeiros ou imprensa etc., interpretam o Brasil como se fosse algo monolítico, uma coisa só, e a gente tem que fazer essa distinção muito claramente. Primeiro quero falar um pouco sobre o contexto, da minha visão, sobre governo e já chego na sociedade civil. O fato é que a gente enquanto governo não tem ambição climática. As nossas NDCs, as nossas metas são tímidas para um país que deveria ser protagonista na questão climática, a gente tem metas de carbono neutro em 2060, quando a gente deveria antecipar, a gente deveria ser modelo para os outros para os outros países, até pela questão nossas vantagens naturais como a biodiversidade e florestas estarem aqui, e as nossa matriz energética já ser muito mais avançada do que outros países Em relação às metas, além de todas as os pontos e a professora Mercedes trouxe, teve mais um ponto que incomodou bastante, as metas de redução de 37%, 43%, como ela explicou, são em relação ao inventário de 2005, porém o governo mudou o inventário de 2005. Então, ele aumentou o inventário em 40% e manteve a meta, ou seja, na verdade essa nova NDC possibilita o aumento das emissões e não redução das emissões. De fato, não há um compromisso aqui. Há outra evidência para apontar que as emissões em 2020, as emissões de CO², cresceram apesar do PIB ter contraído. O que é bastante pouco usual. Como isso pode acontecer, o PIB contrai e as emissões sobem e isso é por conta do desmatamento. Existe pouca vontade política de restringir o desmatamento, o país bateu todos os recordes possíveis em relação ao desmatamento no ano passado. E a gente também pode levar em consideração que das principais fontes de emissões a gente tem o desmatamento e os combustíveis fósseis. A gente já não tem uma luta contínua contra o desmatamento, mas quando a gente pensa na principal estatal brasileira que é de combustíveis fósseis, ela também não tem metas climáticas ambiciosas e não começou a fazer uma transição relevante para energias mais limpas. São vários sinais, que a gente vê é em relação ao governo, que indicam uma pouca ambição. O mercado de carbono não é regulado, enfim, temos várias questões. Acho que isso deve ser pontuado, mas a gente também tem que lembrar que, infelizmente, essas questões climáticas estão sendo apontadas pela comunidade científica há mais de 30 anos. Faz 30 anos que a gente vem, e quando digo a gente quero dizer o mundo inteiro, empurrando um problema seríssimo com a barriga e não toma providência nenhuma, só que chegou agora no momento de urgência. E esse momento de urgência não depende mais de governos, não é mais só uma questão do governo brasileiro, é uma questão da sociedade civil também. Ainda que tivesse uma vontade política do governo brasileiro em ter uma ambição ambiental, não seria suficiente. Então, a sociedade civil cumpre um papel fundamental para a gente não ter um colapso climático. O problema que a gente tem aqui no Brasil é que essa ficha ainda não caiu, por muito tempo o ambiente empresarial e, principalmente, o financeiro do qual é o participo, entendeu que as questões ambientais eram ideologizadas, e que não pertenceriam ao ambiente empresarial, ao mercado financeiro, rejeitavam essas questões, a gente teve um vácuo um debate sobre questões ambientais nos últimos 20 ou 30 anos e, portanto, essa compreensão está muito atrasada. Me colocando aqui como empresário atuante no mercado financeiro, o setor está começando a entender o problema agora, e a gente ainda acha que esse é um problema, vou fazer a linguagem aqui, a gente ainda acha que esse é um problema da árvore, não é, esse é um problema social terrível, é um problema que gera aumento de preço de alimento, a gera fome, aumento de refugiados, doença, vírus etc., uma série de questões sociais e que enquanto a sociedade civil não entender que são problema humano, o planeta vai sobreviver, quem não vai sobreviver somos nós. A gente precisa entender como a sociedade civil entende e encarar esse problema de frente. As empresas precisam ter essa responsabilidade, não dá para empurrar para o governo essa responsabilidade. Muitas vezes no ambiente empresarial e financeiro é usual que digam que são liberais e, portanto, que acreditam no Estado mínimo, mas quando existe um problema coletivo a gente empurra de volta o problema o Estado, e não é isso, esse é um problema nosso, da sociedade civil e as companhias precisam assumir essa responsabilidade. E juntamente com as companhias os stakeholders em geral precisam fazer algum tipo de pressão, como investidores que são stakeholders importante, os bancos como financiadores e provedores de créditos aos stakeholders importantes, os consumidores são stakeholders importantes, toda a cadeia de suprimento precisa ter uma responsabilidade ambiental na construção seus negócios.  Quando a gente fala de ESG, não tem nada de novo em ESG, a gente está agora impactada agora no Brasil por algo que é tem uma roupagem talvez um pouco diferente, mas esse é o Framework do mercado financeiro propriamente dito. E a gente precisa entender com um pouco mais de profundidade para não ficar na superficialidade. Muitas vezes empresas colocam questões sobre neutralização, escopo 1 e 2 ou 3 e o mercado financeiro entende como se tudo fosse positivo e não coloca uma meta de ser Net Zero lá na frente, por exemplo em 2060, e isso deixa de ser uma responsabilidade do investidor que diz, poxa se a empresa já assumiu essa responsabilidade eu vou cobrar da empresa em 2.059. E então alivia demais a pressão em relação às companhias. Estes debates que a gente está fazendo são fundamentais, mais fundamental ainda é o mercado entender a gravidade da questão e algumas particularidades. E você tocou num ponto Lucon que é o Greenwashing, a gente vai ter tempo para explorar um pouco não quero me alongar demais, mas existe agora, ao contrário de 2 anos atrás, um esforço descomunal das companhias para mostrar uma faceta de sustentabilidade, e por outro lado, elas controlam narrativa e obviamente não existe uma assimetria de informação, a empresa sabe muito mais dela mesma do que o público investidor e ou público credor. E como eu falei, existe um vácuo no debate durante 30 anos, então, vem a empresa e coloca narrativa do jeito que ela quer, e a gente não tem a capacidade crítica para fazer a segunda ou a terceira pergunta. A vida dos Greenwashers, ou seja, daquelas empresas que querem simplesmente parecer boas, mas sem de fato assumir compromissos, está muito fácil. A educação e conscientização são fundamentais para o combate do Greenwashing também. Obrigado.

Oswaldo Lucon - Muito obrigado, Fábio. Eu vou passar diretamente à ministra Marina Silva e vou fazer também a minha provocação. Vamos imaginar um cenário teórico em que a Marina Silva fosse eleita Presidente no Brasil em 2023, o que você faria?

Marina Silva - É uma satisfação estar aqui nesse debate tão importante, acho que as questões que estão sendo feitas são muito relevantes, O Fábio e a professora Mercedes já me pouparam aqui uma série de questões, que já foram muito bem abordadas, e a provocação feita, eu vou responder como alguém que está nessa agenda praticamente desde que nasceu, mas particularmente desde os 17 anos quando passei a militar junto com Chico Mendes, hoje com 63 anos. Eu vou falar é para qualquer governo que esteja, digamos, com a responsabilidade de governar o país que tem 11% da água doce disponível no planeta, 22% das espécies vivas, a maior sociodiversidade do mundo, e por ser o país que reúne todas as condições para ser, ao mesmo tempo, uma potência ambiental e uma potência agrícola. O que eu vou dizer é o que eu diria para qualquer governante independente de ser eu a governante. A primeira coisa é deter o processo de desmonte da governança ambiental no Brasil. A governança ambiental no Brasil foi construída ao longo de décadas, em diferentes governos, uns fizeram mais, outros fizeram menos, até na ditadura militar, não vamos nos esquecer que o Ibama, que é o único conselho deliberativo desta República, que agora foi mutilado nessa estratégia de desmonte da governança ambiental no atual governo, é o único conselho deliberativo da República foi criado graças ao nosso saudoso Professor Paulo Nogueira Neto durante a ditadura militar. Então, em todos os governos nós tivemos contribuições, uns mais, outros menos. Esse é o primeiro e em que você só tem perdas. E uma das grandes perdas é o desmonte da governança ambiental brasileira. É só verificar o que está acontecendo com o Ibama, com o ICMBio, o que está acontecendo com o Instituto Florestal Brasileiro, com a Agência Nacional de Águas, com a Funai, com todos os órgãos ambientais, inclusive aqueles que dão suporte de pesquisa e de conhecimento como é o caso do INPE, que uma das tarefas do governo foi trabalhar para que ele seja desmoralizado, inclusive seus cientistas. Uma das primeiras coisas é recuperar a governança ambiental brasileira. Uma outra questão igualmente importante é que qualquer governo que queira fazer a diferença nessa agenda terá necessariamente que recuperar as políticas públicas que deram certo. O Sistema Nacional de Meio Ambiente que deve trabalhar em parceria com os estados e municípios tem no governo federal uma das principais décadas, recuperar políticas públicas que deram certo. É um absurdo que o projeto o programa a ARPA (Áreas Protegidas da Amazônia) tenha sido agora abandonado, é um absurdo que o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia, que conseguiu fazer com que o desmatamento caísse por cerca de dez anos em mais de 80% fosse completamente abandonado nesse governo, recupera e botar em funcionamento os recursos que temos no Fundo Amazônia. O Fundo Amazônia foi criado durante a minha gestão todo pensado, assim como o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento, graças aos resultados de ter diminuído o desmatamento a gente conseguiu captar a fundo perdido recursos para ter mais ações. Esse fundo hoje está parado porque o governo queria usar o dinheiro para fazer regularização fundiária de terra que foi roubada na Amazônia. Recuperar a governança ambiental, recompor o orçamento do Ministério do Meio Ambiente, o Ibama, o ICMBio, Instituto Florestal Brasileiro, estão à míngua os órgãos ambientais brasileiros, recompor as relações republicanas o entre o Ibama e a Polícia Federal. Durante a minha gestão nós fizemos 25 grandes operações da Polícia Federal que e colocou na cadeia mais de 700 pessoas criminosas, nós apreendemos um milhão de metros cúbicos de madeira, implodimos 86 pistas clandestinas na Amazônia, aplicamos R$ 4 milhões em multas e fomos responsáveis por 25 grandes operações de inteligência que desmontou quadrilhas criminosas.  Então, você faz a revolução de forma republicana. Tínhamos o Coter (Comando de Operações Terrestres) do Exército como suporte logístico, a Polícia Federal para ações de inteligência, o desmatamento não caiu porque aconteceu uma mágica, aconteceu que tínhamos políticas públicas que deram certo. Inclusive na agenda de criação de unidades de conservação, foram criados 24 milhões de hectares de unidades de conservação na frente de expansão predatória. A professora Mercedes falou que o Brasil foi responsável por um terço (⅓) das florestas virgens que foram destruídas no período já desse o governo. Nós somos… do que foi desmatado no mundo. Durante a minha gestão, de 2003 a 2008, nós fomos responsáveis por mais de 78% de todas as áreas protegidas criadas no mundo. Isso é muito relevante. Vou até parar de falar aqui, porque se alguém me pergunta o que é para fazer, eu sei de cor e salteado. Agora, para que a gente possa fazer é preciso tem um governo que queira fazer, que faça uma parceria com a comunidade científica, que não seja negacionista, que olhe para o que a ciência está dizendo, que reconheça que as mudanças climáticas já estão acontecendo, á estamos vivendo, já estamos à beira do ponto de não retorno. O que é para fazer? É para trabalhar em parceria com os governos estaduais, desdobrando o Plano Nacional de Prevenção e Controle do Desmatamento, com planos estaduais, que era isso que nós iríamos fazer, na época em que acabei saindo do ministério. E por último, o que tem que fazer é ter uma gestão transparente republicana, é como diz o Gilberto Gil: - “O povo sabe o que quer, mas também quer o que não sabe”. Não se está no governo apenas para fazer aquilo que você vai lacrar com a galera. Às vezes, você tem que fazer coisas que são impopulares, quando nós começamos as ações de combate ao desmatamento da Amazônia, tudo isso que eu falei, rendeu muita pressão, imagina o que significa você colocar mais 700 pessoas criminosas, poderosas na cadeia. Imagine o que é fazer isso dentro da própria instituição, cerca de 125 funcionários envolvidos em corrupção, mas naquele momento, e isso eu posso dizer que todos os ministros que antecederam o Salles, uns fizeram mais, outros menos, mas todos tentaram com todas as forças fazer. Esse é o primeiro governo que com todas as forças tenta não fazer, e não faz, não é? A ponto de a Polícia Federal fazer uma investigação com toras de madeiras, milhões de metros cúbicos de madeira apreendida pela Polícia Federal, e o ministro vai tomar satisfação, desqualificar a Polícia Federal, ficando do lado dos contraventores. A primeira coisa que se deve fazer, qualquer que seja o governo, é ter uma gestão republicana dos maiores ativos ambientais do planeta, e parar de ter uma relação de violência com as comunidades locais, são nossos grandes aliados dos povos indígenas, E por último, acabar com essa história de que para fazer a nossa obrigação nós temos que receber dinheiro para poder fazer a nossa obrigação. Nós fizemos o que fizemos, reduzimos o desmatamento em mais de 80% a partir dos poucos recursos que tínhamos, e foi graças a esse esforço que nós conseguimos mais recursos, para fazer mais, a fundo perdido. Ninguém pode ter uma atitude mercenária de falar com outro governo e dizer eu só vou cuidar das minhas florestas, dos meus povos originários, da minha vida biodiversidade, da minha água, da minha terra, se vocês pagarem para mim. É vergonhoso, a gente fica revoltado, me desculpe, mas você me fez a pergunta e eu estou falando o que eu diria para qualquer governo de plantão, obedeça a Constituição, o artigo 225 da Constituição Federal, faça um governo republicano, defenda os nossos interesses estratégicos, nós estamos sendo prejudicados do ponto de vista econômico, social ambiental. Nós nos tornamos um pária pandêmico, nos tornamos um pária ambiental. Qualquer governo que assuma deve fazer o que tem para fazer. É fazer com que o Brasil ocupe o lugar que ele tem no mundo. O Brasil não é um lugar do problema, o Brasil é o lugar da solução. Nós somos a grande solução se o mundo quiser produtos a partir de energia limpa, aqui nós podemos ter uma matriz energética 100%. Se o mundo quer consumir produtos agrícolas de base sustentável nós temos o programa de ABC - Agricultura de Baixo Carbono - que pode fazer com que a nossa agricultura não precise mais derrubar um pé de árvore, agora se continuar colocando dos R$ 260 bilhões que vão o plano Safra, apenas 1% para o programa ABC, nós não vamos ser nunca isso. Então, ser governo em qualquer que tem o tempo é estar alinhado com o maior desafio que a humanidade já teve: encarar o problema das mudanças climáticas, estar à altura do desafio que está posto, e o Brasil é o país que reúne as melhores condições para fazer isso, tem as maiores vantagens comparativas, nós temos aqui a capacidade técnica, o que falta o compromisso ético-político e a competência para assumir o lugar de liderança que já tivemos. O Brasil era muito respeitado, passou a ser muito respeitado na agenda de biodiversidade, na agenda de clima e em todas as mesas de negociação. Hoje nós viramos párias, não conseguimos fechar acordo com o Mercosul com a OCDE e nós vamos para a cúpula agora, do presidente Biden, com pior cartão de visita dizendo que só vamos fazer alguma coisa que nos pagarem. É lamentável. Soberania pressupõe responsabilidade, quem é a governo deve ter responsabilidade com aquilo que tem soberania, e nós temos soberania sobre uma das áreas mais importantes para o equilíbrio do planeta, que é a Amazônia, e também uma das que pode se transformar numa das maiores fragilidades, e no atual governador ela é a maior fragilidade por causa dos desmatamentos, que é o nosso maior vetor de emissão é o desmatamento, queimada e uso da terra.

Oswaldo Lucon - Muito obrigado, ministra. Eu gostaria de deixar registrado que a missão do Fórum Brasileiro é conectar os stakeholders, governo um dos mais importantes, e eu procurei convidar membros do governo para esse painel aqui, não cabe a mim fazer qualquer tipo de contraponto, mas como eu estou de modelador, eu vou pinçar algumas palavras, e nós temos ainda uns 15 minutos. Eu vou fazer uma rápida rodada, pedir a vocês que reagissem rapidamente, para algumas questões que seriam, podem escolher uma delas se quiserem: a recuperação da Covid-19, diante de uma crise econômica; a situação geopolítica do Brasil diante das negociações da COP 26. Eu deixaria para esses qualquer um desses temas, primeiro para Mercedes, Fábio e finalizando Marina Silva, por favor.

Mercedes Bustamante - Obrigada, Oswaldo. Vou pedir só um minutinho para fazer um esclarecimento de um comentário que o Fábio fez a respeito da questão do Inventário Nacional de Emissões.  Que o Inventário Nacional de Emissões é conduzido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações com participação da comunidade científica e eu participei da elaboração do quarto inventário. Cada inventário novo revisa os dados anteriores e, às vezes, a gente é obrigado a fazer correções, problemas de mapeamento, melhoria das bases de dados. Então, temos dois momentos, a correção do inventário que, sim, que foi feita com todo o rigor técnico seguindo as guias do IPCC e, uma vez que o governo tinha um número novo relativo a 2005, aí sim eu concordo com você, deveria ter ajustado as metas. Só queria separar que não houve uma manipulação dos dados do inventário, é uma correção com todo o rigor técnico em função das bases disponíveis, mas uma vez que o dado foi alterado em função dessa correção que era necessária, a gente precisava de uma meta mais ambiciosa e isso só reforça a necessidade maior de ambição. Eu só queria fazer esse reconhecimento, porque a gente também não passe por cima de um trabalho que foi feito também, como já colocado aqui, com apoio da comunidade científica brasileira. Oswaldo acho que as duas questões que você colocou: como vai ser a realidade pós Covid-19 e a questão geopolítica, elas são extremamente relacionadas, o mundo todo está olhando, desenhando como vai ser essa realidade, uma recuperação da pandemia que não vai ser tão rápida no mundo inteiro e vai ser muito mais lenta no Brasil em função do negacionismo e da crueldade da gestão dessa pandemia. E como é que nós vamos nos posicionar no mundo nesse momento de retomada tem muitas a ver, exatamente, com a questão ambiental dentro dessa ótica Saúde Única, meio ambiente e saúde são extremamente interligados, as áreas de grandes diversidades nos trópicos são vistas com fontes potenciais de novas pandemias, caso elas não sejam bem conservadas o bem geridas, então, isso vai colocar mais uma vez, mais uma responsabilidade do Brasil, diante do que a gente viu que foi a questão da Covid-19. São dois itens que não se separam: a retomada que vem sendo discutida, a retomada verde, infelizmente o Fábio tem razão, a gente gostaria que ela fosse mais verde do que ela está sendo, a gente vai ter que pressionar para ela ser mais verde. E o Brasil novamente, a história do cavalo selado passando na porta, a gente perde oportunidade de embarcar neste momento, em que a gente teria efetivamente uma série de soluções que colocar. É com enorme tristeza que a gente abre jornal como a Folha de S. Paulo e vê o dado que saiu hoje sobre o do retorno da fome no Brasil, que era uma mazela se secular do Brasil, que junto com todos esses ganhos ambientais, eu acho que isso tem que ser colocado também, veio essa da redução das desigualdades sociais, e a gente se ver de novo nessa armadilha da desigualdade. Então, acho que aí, novamente, é preciso olhar a face da oportunidade que essa crise está apresentando para gente, de retomar a rédea desse processo de governança ambiental. Governança ambiental, você usar o capital social do Brasil, tem que ser construído na base da confiança, a gente precisa confiar naquele que senta na mesa para discutir com a gente. Então, acho que esse é um ponto importante e eu acho que nesse movimento geopolítico, se o Brasil se apresentar com esse cartão de visitas que a gente está vendo aqui, a gente tem muito pouca chance, nesse momento, de retomada de atrair os investimentos que vão ter que ser colocados para a retomada. São duas questões, mas eu vejo as duas extremamente interligadas. São dois anos, infelizmente, muitos críticos para o Brasil na arena global, onde infelizmente a gente não vê, e isso já foi colocado aqui, lideranças à altura desse desafio.

Oswaldo Lucon - Muito obrigado, Mercedes. Vou passar direto ao Fábio, por favor, cinco minutos para a gente ter mais cinco para o fechamento.

Fábio Alperowitch - Ok, Antes de mais nada, professora Mercedes, só para deixar super claro, o Novo Inventário Ambiental não foi problema. O problema era que na (inaudível) antiga tinha uma meta numérica, e essa meta foi suprimida e manteve a meta percentual, só que foi o percentual sobre uma base maior, portanto é um aumento, então, a manipulação estava aí e não na Novo Inventário, então me desculpe se não tinha ficado claro anteriormente. Vamos abordar a sua questão Lucon sobre a Covid-19, a recuperação da Covid-19, espero que seja em breve, mas, de novo, meu papel aqui enquanto investidor, eu vou tentar trazer essa conexão. E se tem algo positivo dessa situação que a gente

O que se está vivendo é que a ciência no Brasil era pouco respeitada, inclusive eu não me recordo da fonte, mas foi feita uma pesquisa entre os países grandes e o Brasil era um dos países que menos respeitava a ciência do mundo. Então, quando chega a Covid-19 a gente lança um holofote muito grande em cima da ciência, e o brasileiro começa a prestar atenção em questões que não prestava antes, inclusive a questão do clima.  Então, a Covid-19 tem um papel fundamental em dois aspectos: primeiro a volta do debate a ciência, o público brasileiro em geral, mainstream, mídia etc. entenderem quanto custa o negacionismo e quanto custa não escutar a ciência e assim sucessivamente e este é um debate fundamental. O segundo debate fundamental que veio a partir da Covid-19 são as empresas tentando entender o papel delas mesmas na sociedade. Então, até a Covid-19 as empresas, estou cometendo uma generalização aqui claro que não são todas elas, mas a grande maioria das empresas entendiam que o papel delas era vender produtos e serviços e ponto. E a partir da Covid-19, elas começam a entender que existe um papel mais abrangente do que só vender produtos e serviços. Elas precisam de certa forma, no mínimo, cuidar dos seus colaboradores, cuidar das comunidades do entorno e essa responsabilidade social ela começa a ser discutida a partir da Covid-19. Será que as empresas precisam fazer algum tipo de preocupação, além daquelas que eles tinham antes? Então, esses assuntos passam a ser alçados para a mesa dos CEOs, dos líderes empresariais e dos conselhos de administração e que não eram debatidas anteriormente. Isso acaba trazendo uma responsabilidade também na questão climática. A gente não pode que está diante de um desafio enorme que é a questão do clima, e foi muito bem colocado, isso é urgente, pois a gente está perto do ponto de não retorno, mas esse não é o único desafio ambiental que a gente tem, a gente tem outros desafios como o da água que é bastante relevante, o desafio de perda de biodiversidade que pode ser maior ainda do que a questão climática, e esses desafios não eram percebidos pela comunidade em empresarial e não eram percebidos pela  comunidade financeira. Então, a Covid-19 com todo o terror que ela é, ao menos nos traz um pouco desse debate e essa conscientização sobre ciência e responsabilidade das empresas perante a sociedade civil, neste sentido, eu acho que a recuperação do mundo pós Covid-19 vai trazer um saldo positivo nos sentidos de as empresas terem um pouco mais desse papel. E o outro ponto que, rapidamente, é muito relevante, que a gente está em meio a vários fenómenos simultâneos, e um deles é a transição do capitalismo, de um capitalismo mais hostil para um capitalismo de stakeholders, essa é uma transição lenta que acontece, mas existe uma outra transição, que é a transição geracional. A gente nessa nova geração, a geração Z, tem uma questão de propósito, tanto do lado social quanto do lado ambiental muito forte. E, obviamente, essa geração ainda não é muito relevante no sentido de poder discricionário de consumo, não é investidora, não está em políticas públicas, não está em cargos de liderança nas empresas, até pela idade, mas à medida que o tempo passa, essa geração vai ocupando esses espaços, vai herdando fortunas, vai entrando em política pública, liderando as empresas e assim sucessivamente. Essas pessoas, em geral, você não precisa desse processo de convencimento, é muito natural para as pessoas dessa geração essa questão da responsabilidade ambiental e social. Então, a gente vai passar rapidamente, estou falando do período de uma década, de um período em que é precisa se fazer muita força, é quase que de empurrar a sociedade empresarial e o mercado financeiro para uma agenda, que é uma questão uma força de fora para dentro, e essa força vai mudar de dentro para fora em dez anos. O problema é que a gente não tem 10 anos e por isso para fazer essa pressão neste momento.  Muito obrigado pelo convite.

Oswaldo Lucon - Muito obrigado, Fábio. Vou passar para a Marina Silva, por favor.

Marina Silva - Primeiro, mais uma vez obrigada pelo convite, parabéns pela iniciativa dos debates que estão sendo todos muito ricos. Esse tema da recuperação do contexto da pandemia, porque ela vai demorar para que a gente possa dizer que conseguimos sanar, inclusive em função dos graves problemas que temos acompanhado e, particularmente, aqui no Brasil. Hoje estava vendo um cientista falando de que no caso do Brasil, grande quantidade de pessoas se contaminar com o tempo todo por falta de isolamento social, a demora na em relação a imunização com a vacina, pode fazer com que o Brasil venha a desenvolver algumas variedades, algumas cepas da Covid-19, que inclusive podem colocar em risco o esforço de vacina que já conseguimos. Então, temos aí uma questão que é fundamental, e quando eu penso os processos de recuperação têm uma agenda. Primeiro é a agenda da cooperação internacional na área de saúde pública. Pode até ter algum tipo de competição e outros ramos da tecnologia, entre os gigantes da tecnologia da informação que estão nessa disputa, mas na área de saúde China, Estados Unidos, e União Europeia todo mundo vai ter que cooperar, porque o problema de um passa o seu problema de todos não há como fugir disso. Então, a cooperação na agenda de saúde é fundamental. A outra cooperação, que não temos como fugir, que ninguém vai resolver o problema sozinho, é a questão da mudança climática. E nessa agenda, que como disseram a Mercedes e Fábio, está muito imbricada uma com a outra, porque não vamos nos esquecer de que a pandemia é um problema de natureza na raiz ambiental, e hoje nós temos, principalmente na Amazônia, o risco nos tornarmos do foco de novos vírus que podem transbordar para os humanos, com problemas que sequer conseguimos imaginar. Do ponto de vista econômico, o mundo já descobriu que não tem um caminho que não seja, primeiro considerar o problema das desigualdades sociais, e a questão da crise ambiental global. Os esforços que teremos de fazer não terão de ser mais como na velha agenda do desenvolvimento a qualquer custo, a qualquer preço. Está colocada a questão da transição para uma economia de Baixo Carbono, mas também com sustentabilidade social e cultural, esse é o grande esforço de mudar o modelo de desenvolvimento. Acho que o movimento que os Estados Unidos estão fazendo, que a União Europeia está fazendo e que o próprio Reino Unido está fazendo, mesmo sendo um governo conservador, apontam para o caminho que é o plasma da sustentabilidade vai estar posto, independente do espectro ideológico, essa é uma questão que não temos como fugir. Se antes fosse socialista ou capitalista, conservador ou progressista, todos eram desenvolvimentistas, hoje o desafio que está posto para a humanidade é:  todos terão que ser sustentabilistas. Você é conservador, mas não terá como fugir da questão de resolver o problema da biodiversidade e, principalmente, o problema da mudança climática. Você é progressista, a mesma coisa. Então quem não entendeu essa agenda vai ficar trancado pelo lado de fora, a recuperação e os investimentos eles terão de apontar para um problema, como foi dito até acho que pelo Oswaldo, que no médio e longo prazo é muito mais difícil, complexo e deletério, por incrível que pareça, do que a própria pandemia, porque no caso do problema das mudanças climáticas, se chegarmos ao ponto de não retorno, o que está em jogo é a permanência da vida na Terra, porque não haverá tempo de adaptação, e no caminho que estamos não vamos conseguir a meta. É preciso que a gente tenha mais compromisso. Eu sei que a gente usa o termo ambição, desde o começo, lá em Paris, eu já dizia que talvez o termo ambição não seja o melhor. Nesse momento a gente tem que entender que foi muito a ambição que nos levou para onde chegamos, e talvez que neste momento é mais compromisso. As respostas técnicas, a maior parte delas nós já temos, mas precisamos o compromisso ético de recuperar as nossas economias e a saúde pública, com uma renda global integrando o Brasil no debate da disrupção tecnológica, do encontro entre Economia e Ecologia numa mesma equação, para que o mundo possa ter e bases sustentáveis de desenvolvimento e criar um novo ciclo de prosperidade. E aqui no Brasil é perfeitamente possível, paralelo a esse mundo pior, a gente soerguer um mundo melhor, eu vejo a crise, mas eu vejo muitas possibilidades. O Brasil está para o século XXI como os Estados Unidos chegaram para o século XX. Nós somos um país jovem, mas com um potencial de recursos naturais, com uma base de conhecimento razoável e tecnológica, e um pouco criativo, produtivo e livre, e se soubermos usar essas vantagens comparativas, com parcerias com o mundo, inclusive saindo dessa ilusão de transferência de tecnologia e começar a fazer acordo de cooperação técnico-científica para internalizar conhecimento e tecnologia, nós poderemos ser o país da nova economia, de uma economia que tem a matriz energética limpa e diversificada, distribuída do vento, da água, da biomassa, do sol. Nós podemos ser o país Bioeconomia,  só para a gente ter uma ideia, a poderosa Vale do Rio Doce entrega 20 mil pessoa, a cadeia produtiva do açaí, é um dos à nossa vida Bioeconomia, são mais 300 mil pessoas, hoje a cadeia produtiva do açaí já arrecada, segundo Professor Carlos Nobre, mais impostos para o Estado do Pará do que a Vale do Rio Doce, ou seja, nós somos o país que pode, em vez de insistir no paradigma do começo do século como estamos fazendo agora, ser o país que aponta novos paradigmas. E aí é um esforço, é governo, é empresa, é sociedade e para isso nós vamos precisar de pensar a saída da crise sanitária com saídas para a crise e nós estamos vivendo, de buscar um novo modelo, e agora eu repito do meu mantra e termino com isso: Nós temos que ter um país que seja, ao mesmo tempo, economicamente próspero, socialmente justo, politicamente democrático, por que sem democracia não há como resolver esses problemas, ambientalmente sustentável e culturalmente diverso.

Oswaldo Lucon - Muito obrigado. Muito obrigado, ministra Marina, muito obrigado Fábio, muito obrigado, colega Mercedes. Foi um excelente painel, muito rico e eu espero um dia poder replicá-lo dentro do Fórum Brasileiro do Clima convidando o governo. Eu gostaria de emendar aqui várias palavras, mas eu vou me fiar na neutralidade política partidária. O fórum é  absolutamente neutro nesse sentido, ele só bate o pé na evidência científica, na governança e no fortalecimento das instituições. Eu coloquei no chat um link de um grupo do Telegram do fórum brasileiro, vou deixar aqui para vocês esse convite, temos uma lista de WhatsApp também que está lotada, infelizmente, mas através do Telegram a gente consegue ampliar a participação. Toda e qualquer pessoa é membro do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, não há nenhuma designação por decreto. Fiz questão de que fosse assim, quem quiser entrar, inclusive não brasileiro, de qualquer credo, raça, cor, quem quiser pode ser membro do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Fica aqui o meu agradecimento. Foi um excelente painel, eu morri de vontade de falar um monte de vezes, mas vou ficar quieto porque aqui eu sou moderador. Agradeço mais uma vez. Agradeço a Harvard e MIT essa brilhante 7ª Brazil Conference. É muito importante falarmos do Brasil, dentro e fora do Brasil, e coloco o desde já aqui toda a nossa energia para fazer com que nós consigamos atingir uma boa recuperação da Covid-19 e uma boa recuperação também do nosso sistema climático global. Muito obrigado. Agradecimento especial ao Rosemburg que organizou tudo isso, muito obrigado.




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