Brasil

Diálogo e união de forças para recuperar o Brasil

Em debate, temas fundamentais como enfrentamento da covid no País e valorização da ciência

Texto: Redação / Foto: Tiago Queiroz/Estadão

08 de abril de 2022 | 15h50


O painel “Desafios do Brasil” encerrou a 7ª Brazil Conference Harvard & MIT neste 17 de abril. O evento foi transmitido ao vivo pela internet. A programação pode ser acompanhada pelo portal do Estadão, parceiro na cobertura do evento, além dos canais da conferência no Youtube e Facebook, a qualquer tempo.

Políticos e presidenciáveis marcaram sua presença no debate de fechamento da conferência: o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT), o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e o apresentador de TV Luciano Huck. A conversa foi mediada pela jornalista Eliane Cantanhêde e pelo ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República Hussein Kalout.

Os painelistas e presidenciáveis destacaram no debate assuntos fundamentais como o enfrentamento da covid-19 no Brasil, a luta da ciência, a dificuldade do governo federal em enfrentar a crise agravada pelo “negacionismo do presidente Jair Bolsonaro”, o atraso na compra de vacinas, o elevado número de óbitos pela covid-19.

Todos foram unânimes em dizer que a saída para a crise passa pelo diálogo e união de todos em prol do Brasil, independentemente se as posições políticas estejam mais à esquerda, centro ou direita. Todos unidos devem buscar soluções para uma agenda em que a democracia deve prevalecer.


Confira o evento na íntegra


Desafios do Brasil

● Ciro Gomes Ex-ministro da Fazenda
● Eduardo Leite Governador do Rio Grande do Sul
● Fernando Haddad Ex-prefeito de São Paulo
● João Doria Governador de São Paulo
● Luciano Huck Apresentador de TV
● Eliane Cantanhêde (moderação) Jornalista
● Hussein Kalout (moderação) Ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República
● Núbia Caversan Copresidente da Brazil Conference e Líder do Painel



Núbia Caversan - O painel dessa noite é de encerramento desta conferência, e o nosso objetivo se esmera em debruçar sobre os grandes e graves desafios que o Brasil enfrenta. Não é novidade para ninguém que a crise sanitária ganhou contornos dramáticos e continua ceifando a vida de milhares e milhares de brasileiros. Estamos chegando (em abril) próximo à triste e lamentável marca de quase 400 mil mortos no Brasil. Acreditamos que o combate à pandemia requer, acima de tudo, o esforço e a união de todos. Tergiversar sobre a importância e o papel da ciência num momento como esse não é nem mais uma opção para nós. Não menos importante, pensamos que é imperativo lançar luz sobre os retrocessos vistos nas mais diversas áreas da nossa sociedade, tais como desigualdade social, educação, meio ambiente, a economia, e até mesmo as ameaças à democracia e aos direitos fundamentais. Sabemos que todos esses assuntos irão ditar o futuro do Brasil e do seu bravo povo, e a responsabilidade dos senhores presentes aqui nesta noite será determinante. É preciso ainda lançar luz sobre o anacronismo que acomete a nossa sociedade. A falta de representatividade de diversas minorias como gênero e raça no cenário político brasileiro. Sabemos que isso precisa mudar, e precisa mudar agora. Por fim, queremos sair dessa discussão com um plano de ação para o nosso país. Não queremos ser uma nação falida, não aceitamos ser uma nação falida. Acreditamos que juntos podemos mais, e podemos sim, fazer melhor. Sem mais delongas, eu tenho a honra de convidar o ilustre professor Hussein Kalout, cientista político, pesquisador da Universidade de Harvard e ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Professor Hussein, o senhor com a palavra.

Hussein Kalout - Agradeço o convite. Quero apresentar a minha colega hoje na moderação deste painel. Ela é uma das mais brilhantes e competentes jornalistas do jornalismo brasileiro: Eliane Cantanhêde. Queria agradecer à Brazil Conference, na pessoa da Núbia Caversan pelo estupendo trabalho que eles têm feito à frente dessa conferência. Bom, antes de apresentá-los, propriamente, eu queria dizer que é um desafio e uma honra para nós tentar moderá-los, e ao mesmo tempo que é um desafio. Eu queria pedir encarecidamente que os senhores, por favor, se a tenham dentro do possível ao tempo que lhe será destinado. É uma tarefa sempre muito dura para o moderador ter de lembrar quem está falando no tempo, e eu não gostaria de ser indelicado um nenhum momento tendo de lembrá-los de serem um tanto quanto concisos nas respostas, até para dar tempo a todos. O convite aos senhores, que foi formulado, ele foi formulado porque sem dúvida nenhuma os senhores reúnem importantes denominadores, entre os quais o verdadeiro espírito democrático e a imperativa a crença no governo, das leis, o respeito às instituições do Estado, a valorização da ciência e da educação e, por fim, um grande amor pelo Brasil e por seu povo. E é isso o que faz com que todos nós aqui estejamos é neste painel de encerramento da Brazil Conference Harvard & MIT 2021. Se me permitirem eu queria fazer a apresentação dos senhores, mas a apresentação será feita por ordem alfabética.

O nosso primeiro convidado é Ciro Gomes, ex-governador do Estado do Ceará, ex-ministro da Fazenda e ex-ministro da Integração Nacional e três vezes candidato à Presidência da República. O nosso segundo convidado é Eduardo Leite, ex-prefeito de Pelotas e atual governador do Rio Grande do Sul. Eduardo estudou Políticas Públicas na Universidade Colúmbia, aqui em Nova York, Estado vizinho. O nosso terceiro convidado é Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, ex-ministro da Educação e candidato à Presidência da República em 2018, tendo recebido mais de 47 milhões de votos. Haddad é professor da USP e do Insper. O nosso quarto convidado é João Doria, ex-prefeito da cidade de São Paulo e atual governador do Estado de São Paulo e homem e não perdeu a tenacidade em sua luta na busca de proporcionar aos brasileiros a vacina. O nosso quinto convidado é Luciano Huck, apresentador de televisão da Rede Globo, empresário e empreendedor social de movimentos de renovação política como o RenovaBR e também o movimento Agora!. Feita a apresentação eu queria passar a palavra para Eliane Cantanhêde endereçar a ela primeira pergunta. Lembrando que seguiremos por ordem alfabética e depois, a partir da segunda rodada, a ordem será aleatória, dirigida por perguntas advindas da Eliane e de mim. Eliane, por favor, a palavra é toda sua.

Eliane Cantanhêde - Boa noite Hussein, convidados e boa noite a todos e todas que nos assistem neste debate tão importante pelo qual eu agradeço muito ao pessoal de Harvard e MIT, muito importante. A primeira pergunta para todos é bem genérica e muito na linha do que a Núbia falou aqui para nós. É claro que a pandemia atingiu o mundo inteiro. Isso é uma realidade, mas no Brasil a gente tem uma pandemia com mais gravidade do que o resto do mundo, e a gente vive uma conjunção muito desfavorável. A gente teve aí recuo na política externa, no meio ambiente, na educação, na cultura, com tanta coisa, a gente até esquece do que estão fazendo com a cultura, a gente tem problemas graves na economia. Aliás, o Brasil já estava crescendo um pouco. Cresceu muito menos do que podia, em 2019, enfim, estamos numa situação muito, muito difícil, e eu gostaria de saber de cada um de vocês, por favor, primeiro o que é prioritário para reconstrução do Brasil, e, segundo, quais são as linhas prioritárias nessa reconstrução, começando pelo senhor Ciro Gomes por favor.

Ciro Gomes - Eu quero cumprimentar todos os estudantes de Harvard e MIT, pena que desta feita é primavera em Boston (EUA) e eu não possa estar aí como das outras vezes, mas, quem está nos assistindo, Eliane, talvez não saiba: os brasileiros são o único grupo de estudantes na grande Boston que tem mais de 500 mil estudantes, que conseguem fazer uma empreitada comum juntando essas rivalíssimas Universidades de MIT e Harvard. É uma peculiaridade que só os brasileiros, pelo carisma, pelo talento, têm. E eu gostaria de poder abraçar todos. Abraço simbolicamente a Núbia. Quero cumprimentar você, Eliane, e agradecer pelo privilégio de tê-la na mediação dessa conversa. Ao meu querido Hussein Kalout, nosso professor, nosso ministro. Cumprimentar o governador de São Paulo, João Doria, o governador Eduardo Leite do nosso Rio Grande do Sul, cumprimentar o prefeito Fernando Haddad, cumprimentar o Luciano Huck, enfim e a todas as pessoas que estão nos assistindo pela internet.

Acho que a primeira providência, Eliane, é a gente tentar estabelecer um método. Se não fizermos isso, o Brasil não vai achar o caminho. Deixa eu tentar explicar com números o que sustenta como argumento. O Brasil, entre 1945 e 1980, crescia 6,34% ao ano. Em meio século, foi o País que mais cresceu na história do capitalismo mundial. Na década de 80, quando a gente quebra, vamos ver o episódio contemporâneo da alta unilateral de juros norte-americanos, mas também da sofisticação e velocidade dos ciclos tecnológicos, que impôs padrões de produtividade que nós não vimos acontecer. Esse modelo está desafiando de lá até cá a morte do velho modelo nacional-desenvolvimentista e a elite brasileira para tentar solucionar isso. E a Constituição de 1988 passou ao largo disso e anunciou duas coisas que eram muito importantes: a reinstitucionalização dos nossos costumes democráticos, e nós jamais imaginávamos que fosse voltar estar em discussão por esse governo fascista que nós temos, de um genocida boçal, como é na minha opinião, com todo respeito a quem pensar diferente, o governo do senhor Jair Messias Bolsonaro. Mas o outro capítulo, que é o desenho da economia política, foi uma promessa que se revelou mentirosa. Ela nunca foi cumprida. A promessa de um estado de bem-estar social que desenha as bases desse estado de “welfare state” para o Brasil, mas que nunca foi capaz de dar os passos consequentes para que isso fosse para além de uma letra generosa da Constituição de 1988, uma prática que se oferecesse à cidadania brasileira.

De lá para cá, penso eu, veja o que aconteceu tirante ali o episódio traumático da morte do Tancredo Neves, tirando o episódio do Collor, que já foi ali a primeira contradição com esse pacto social democrata, nós elegemos por seis eleições seguidas um pensamento progressista. Eu não estou falando da coerência entre o discurso e a prática, eu estou dizendo que é o que se ofereceu ao povo brasileiro, e se ofereceu ao povo brasileiro um discurso social democrata, progressista, comprometido com esse ideário que forma a base do imaginário europeu, por exemplo, essa desejo que o brasileiro tem, e fracassamos. Se a gente não tiver claro isso, eu vou sustentar isso com o número até chegarmos no hoje onde estamos, na minha opinião, no fundo do poço. Fracassamos porque aquele crescimento de 6,34% cai para 2,2 % ao ano, em média. É absolutamente insuficiente para descomprimir um passivo histórico que nós temos por superar de um legado escravista, de uma reforma agrária que não foi feita ainda do século XIX, de uma interrupção precoce do esforço de industrialização do País, de uma infraestrutura precaríssima que impõe custos sistêmicos impagáveis para a competitividade crescentemente globalizada.

Mas, o mais grave para apontar o fundo do poço é que entre 2010 e 2020 o Brasil parou de crescer a 0,2% negativo - em 10 anos 10% da população brasileira, hoje vivente, nasceu com o País parado, e olha como é chocante para nós receber esses números, como o problema não é Chico, Maria ou Manuel, e sim os regimes dos mais díspares. Seis desses dez anos foram administração do PT, dois de Michel Temer, e dois de Bolsonaro. E aí nós temos a clareza de como nosso problema é muito mais de concepção estratégica, do que propriamente dessa discurseira com fortes traços caudilhescos e personalistas e despolitizantes da população brasileira. Essas médias, elas às vezes, não me explicam por que houve pequenos voos de galinha na sequência do real, um momento de felicidade pela reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, ou do nacional consumismo da primeira fase do PT no governo federal com Lula. Mas, isso daí, como o país estrategicamente não tem projeto, representou imediatamente sequência de crises que têm aí o fundo do poço com Jair Bolsonaro.

Sob o ponto de vista popular, nesse momento 130 milhões de brasileiros não têm segurança alimentar, 20 milhões não vão comer amanhã ou já não comeram hoje. O Brasil tem, pela primeira vez na sua história, mais da metade da sua população apta ao trabalho empurrada para a informalidade, perdendo renda e sem nenhuma proteção, nem hoje nem na velhice futura. O Brasil tem o maior desemprego da história, passando de 14,2 % de desemprego aberto. Não é num País em que a seguridade social, que também está se precarizando de uma forma dramática, vamos pelo lado agora da questão do como nós nos preocupamos com a saúde do Estado brasileiro. O Brasil tem um déficit atualizado de R$ 900 bilhões de reais e a dívida galopa para 90% do PIB. Pela primeira vez na história o País perdeu 25% da sua riqueza no ano passado. Se nós tivermos paridade de poder de compra, com dólar, e essa foi a perda também na Bolsa de Valores, portanto, todo mundo está perdendo e a insistência numa modelagem tosca de um falso consenso precisa ser removida para que nós possamos colocar um debate plural e aberto em novas alternativas. E alternativa, precisa na minha opinião, é um projeto nacional de desenvolvimento com metas, objetivos, orçamento, divisão de tarefas, novas instituições, sem o que o Brasil não vai sair disso.

Eliane Cantanhêde - Obrigada governador e ministro Ciro Gomes. E agora governador Eduardo Leite, por favor.

Eduardo Leite - Boa noite para todos, Eliane, Núbia e Hussein, e também os meus companheiros de painel: Ciro, Luciano, Haddad, Doria. Eu acho que a gente parte da seguinte base de desafios: o Brasil parte da base de retomada de uma política em que respeite a opinião do outro. Acho que essa é uma base fundamental: a recuperação de valores da democracia. Eu tenho muito orgulho do que a gente tem feito no Rio Grande do Sul, um Estado que tem a pior situação fiscal, entre todos os Estados do Brasil. Mas, mais do que a gente tem feito em termos de reforma, a gente fez uma reforma previdenciária mais profunda que nos outros Estados, uma reforma administrativa que alterou estruturas de carreiras do funcionalismo público no Estado, mas tem orgulho de como a gente tem feito sempre com muito respeito. Eu tive a oportunidade de ir a cada um dos sindicatos, apresentar a cada um deles, receber a cada um deles, sempre com muito respeito também às forças de oposição, porque eu entendo que quem é oposição ao governo, não é simplesmente uma cadeira de um partido ou um parlamentar de oposição, é uma parcela da população que está ali representada que deve ser respeitada.

Então, essa é a base da primeira mudança que eu acredito que a política é mais do que abrir novas cicatrizes é sobre cicatrizar as feridas, e o Brasil precisa cicatrizar feridas neste momento. E, a partir dessa base, uma retomada, uma crítica feita com respeito a três eixos para mim são fundamentais: o primeiro deles, o emprego e renda. A gente precisa dar condições de o País gerar emprego para sua população. Depois de ter observado entre 2015 e 2016 uma recessão econômica enquanto mundo crescia, o Brasil se meteu numa enrascada partir de aumento dos gastos públicos, apostando na despesa do governo como forma de incentivar a economia, o Brasil perdeu confiança, credibilidade e gerou um ambiente de desconfiança que retirou daqui recursos, o que consequentemente gerou recessão, da recessão o desemprego, depois mudou de lado com 1% na economia.

Agora, novamente, estamos numa recessão, é claro devido à pandemia global. Para retomar confiança e tranquilidade, o País vai ter que avançar, especialmente depois ter expandido tantos gastos em função da pandemia, ele vai ter que mostrar comprometimento com o equilíbrio fiscal a partir de reformas para dentro da máquina pública, com privatizações, com a reforma administrativa para o gasto público com a própria folha de pagamento ser reduzida, e conseguir apresentar condições de cumprir os compromissos nos próximos anos no horizonte que se avizinha para melhorar o ambiente de negócios no País. Aí vem as reformas tributária, também redução de burocracia é fundamental para retomar a confiança, retomar o investimento para gerar emprego e renda para a população. Mas, em seguida, outros dois eixos são fundamentais e ligados à economia de alguma forma: a educação, neste momento que a gente vive de profunda transformação da economia em função da tecnologia, a nossa educação não está formando os jovens para o futuro à medida em que somos muito fracos no aprendizado da matemática, que aquilo que desenvolve a capacidade de raciocínio lógico para desenvolver programas, para formatação de softwares, e também na capacidade de interpretação de texto. Temos um déficit de aprendizagem monumental e vamos ter um desafio, especialmente na retomada da atenção desses jovens em relação à escola e recuperá-los para a escola, por tanto tempo com as escolas fechadas.

Além disso, para mim, a questão ambiental é o outro eixo fundamental, senão pela compreensão, pela consciência da necessidade de a gente proteger o planeta em que vivemos, até pela questão econômica, uma vez que a gente precisa ter alinhamento melhor com os nossos parceiros estratégicos para quem nós queremos comercializar aquilo que a gente produz, e de quem nós queremos investimentos nosso País, a gente precisa estar alinhado aos valores de proteção ao meio ambiente. O que a gente viu nos últimos anos foi desestruturação de órgãos de controle ambiental, e a gente observando em março os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostrando o maior desmatamento da Amazônia desde o início da série histórica de pesquisas, só para dar alguns exemplos, além do enfrentamento a ONGs que colocam o meio ambiente, o Brasil sendo cobrado mundialmente pela proteção ao meio ambiente. Eu colocaria nesses três eixos principais desafios.

Eliane Cantanhêde - Obrigada, governador Eduardo Leite. E agora ouvimos o ex-prefeito e ex-ministro Fernando Haddad.

Fernando Haddad - Quero cumprimentar a Núbia, em nome da organização, cumprimentar a Eliane e o Hussein que nos acompanham no painel, os debatedores Ciro, Eduardo, João e Luciano. Muito bom estar com vocês. Temos um problema de curtíssimo prazo que precisa ser salientado aqui. Nós temos um grave problema pandêmico que exige providências do governo, que não estão sendo tomadas. Acho que é responsabilidade de todos nós por parte de um evento tão importante, frisar que a pressão sobre o governo pelo cronograma da vacinação tem que ser intensificada, sobretudo agora que o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a instalação da CPI da Covid-19 para apurar responsabilidades dos gestores públicos na pandemia. Lembrando que o Brasil (em abril) responde por 12% dos óbitos, com menos 3% da população. Isso significa que o número de óbitos no Brasil é quatro vezes superior, proporcionalmente à média mundial. Isso significa dizer que 270 mil brasileiros morreram, não em função do coronavírus, mas em função da péssima gestão que se faz em relação à pandemia.

O segundo aspecto é o Auxílio Emergencial, nós lutamos, e toda a oposição democrática e progressista lutou para que se mantivesse o Auxílio Emergencial em R$ 600 até o término da imunização e, infelizmente, a maioria do Congresso votou para um auxílio de R$ 150 o que compra pouco mais do que um botijão de gás. Então se nós aqui não tivermos compromisso em socorrer as famílias nesse momento, serão ainda alguns meses pela frente. Acho que nós vamos ter muita dificuldade de discutir 2023. O segundo aspecto é o futuro. Resgatar o futuro significa recuperar cultura, educação, ciência e tecnologia, questão dos nos piores níveis de investimento há décadas, há muito tempo não vemos atingir um patamar tão sofrido de investimento nessas três áreas que significam o futuro do Brasil. Não haverá futuro sem essas três áreas.

Eu chamo atenção que a educação está sendo pouco discutida pelo Brasil e pela imprensa nesse momento. Nós vamos ter um passivo acadêmico pós-pandemia, que não se sabe estimar e não há nenhum plano para quando houver segurança de volta às aulas, de recuperar esse déficit acadêmico que vai ocorrer, e tem que ser medido em primeiro lugar, ele dramático, e tem que haver um plano plurianual de recuperação dessa juventude. Essa juventude que viveu uma década extraordinária, na qual tive a honra de participar. Fala-se muito do governo Lula, e o governo Lula foi aquele que mais ampliou os investimentos em educação. O Bolsa Família, que chegou a R$ 20 bilhões de investimento, e era considerado um gasto excessivo pela elite brasileira, nós saltamos de R$ 20 para R$ 100 bilhões de investimento apenas do governo federal em educação, por meio da expansão da rede federal de educação superior e profissional e por meio do Fundeb. Vejam o que aconteceu com a educação no Nordeste recebeu os recursos do Fundeb. Superou a qualidade da educação do Sul e Sudeste em pouquíssimos anos que o Fundeb está em vigor. Recuperar essas três áreas é fundamental.

O segundo ponto importante em relação à educação, cultura, ciência e tecnologia, eu disse que são o futuro, mas nós temos que recuperar investimento em infraestrutura. Nós não temos condição de enfrentar o desafio dos nossos competidores, sobretudo do sudeste asiático, sem recuperar os investimentos em infraestrutura, que começaram a ser feitos com muita energia quando nós atingimos 21%, 22% do PIB em investimento que há muito tempo não se fazia no Brasil. Você investir 21%, 22% do PIB em estrutura, e nós chegamos a isso, em investimento total em 22%, mas com recorde e investimento em infraestrutura. Sem investimento em infraestrutura não nós não vamos aumentar a competitividade da economia brasileira.

Educação e infraestrutura são setores muito sensíveis e nós precisamos retomar esses investimentos. Há uma agenda institucional que não posso deixar de mencionar. Nós estamos vivendo uma destruição institucional como a Núbia colocou na sua introdução, o retrocesso em meio ambiente, direitos humanos, o retrocesso institucional, o aparelhamento da Polícia Federal, do Ministério Público, o aparelhamento até do Poder Judiciário. Há uma série de providências a serem tomadas no sentido de garantir a retomada da republicanização do Estado brasileiro e o fortalecimento dos pilares da democracia. Jornalistas sendo perseguidos, militantes e ativistas sociais sendo perseguidos, pessoas sendo processadas indevidamente e ameaçadas pelo governo federal, pela família Bolsonaro, o que é inaceitável e nós não podemos esperar até 2023 para essa agenda. A agenda de direitos humanos, no que diz respeito à agenda das mulheres, agenda LGBTQUIA+, agenda de combate ao racismo, devem voltar à ordem do dia. Tudo isso é uma questão democrática e republicana fundamental, e eu diria que essas são as prioridades que deveriam nos tomar desde já. Não deveríamos esperar 2023 para enfrentar no Congresso Nacional o governo que representa o governo do desmonte. Eu repito: nós temos quatro vezes mais o número de mortes do Brasil do que na média mundial e isso é inaceitável. Quando o presidente é acusado de genocídio, ele não está sendo ofendido, são dados objetivos que demonstram que o governo brasileiro falhou na grave crise que nós estamos enfrentando. Muito obrigado, Hussein.

Eliane Cantanhêde – Obrigada, prefeito Fernando Haddad. E agora vamos ao governador de São Paulo, João Doria.

João Doria - Boa noite a todos. Boa noite Núbia, Eliane e Hussein. Boa noite aos meus amigos e companheiros Fernando Haddad, Luciano Huck, Ciro Gomes e Eduardo Leite, que estão aqui nesta noite participando da 7ª Brazil Conference. Aliás, foi uma grande conquista da Brazil Conference colocar essas pessoas juntas para discutir o Brasil. Entendo que esse é um fato histórico muito importante, nesse momento difícil da vida brasileira, e muito respeito por todos que estão aqui participando pelas suas biografias, pelas suas histórias, e principalmente por aquilo que podem fazer pelo Brasil, diferentemente daquilo que acontece nesse momento.

Eu elenquei aqui dez pontos, Eliane de maneira bastante objetiva daquilo que entendo como mais necessário, o Brasil mais precisa nesse momento. Começando por vacinas para salvar, para proteger. São as vacinas que vão ajudar a mudar o Brasil a voltar à sua normalidade. O governo Bolsonaro errou e errou gravemente ao não fazer a compra de várias vacinas desde agosto do ano passado, quando poderia ter feito. Negou as vacinas, negou a pandemia e negou, literalmente, o direito à vida de milhões de brasileiros e milhares que já se foram, infelizmente. O segundo ponto é a saúde, a saúde pública brasileira está extremamente machucada e prejudicada pela circunstância de uma pandemia, que já levou a vida de mais de 369 mil brasileiros (em abril), e a disruptura completa do SUS (Sistema Único de Saúde) que sempre funcionou muito bem no Brasil, e foi uma referência internacional em todos os governos. Os governos passados, bem ou mal, não importa de qual partido, preservaram o SUS e esse governo Bolsonaro destruiu o Sistema Único de Saúde.

Terceiro ponto importante do que o Brasil precisa é de compaixão. Alguém pode indagar, mas compaixão? Sim, porque o Brasil perdeu a compaixão, com um governo negacionista como é o governo Bolsonaro estimulou a falta de compaixão, estimulou os atritos, os conflitos, os ataques, as agressões, as ameaças a jornalistas, escritores e aos cientistas, a nós que fazemos parte da vida pública, às pessoas que têm o pensamento contrário e negou o direito à vida. Falta de compaixão. Quarto ponto, a educação, e concordo aqui com o que disseram os meus antecessores, o Fernando, o Ciro e o Eduardo. Um país sem educação não conseguirá jamais ser uma nação. O Brasil, nesses dois anos, já perdeu dez anos. Nós retrocedemos uma década em educação, se perguntar a todos aqui, rapidamente, quem é o atual ministro da Educação, provavelmente, ninguém saberá dizer sequer o nome, já é o quarto ministro da Educação no governo de dois anos, que despreza a educação. Sem educação o Brasil, repito, jamais será uma nação.

Quinto aspecto: emprego, como já foi mencionado aqui. Temos hoje um volume brutal de brasileiros desempregados. Ciro Gomes mencionou isso, são 18 milhões de brasileiros, nesse momento, desempregados, nós temos 25 milhões de brasileiros desalentados. Há mais de 15 milhões de brasileiros que não têm o que comer. Eu ratifico aqui o que disse o Ciro: nunca se deve um quadro tão dramático quanto esse. Renda, a necessidade de novos investimentos, de apoiar investimentos privados, sejam eles nacionais ou internacionais, apoiar obras de infraestrutura que são fontes geradoras de emprego e renda, de riqueza e de oportunidades para os brasileiros, além de oferecer também melhoria na qualidade de vida de todos, seja qual for a sua região, a sociedade, o seu local de residência. Sétimo aspecto, já foi mencionado também, respeito ambiental. O Brasil conseguiu andar 20 anos para trás no que diz respeito ao meio ambiente. Hoje o Brasil também é um exemplo negativo de desrespeito ambiental e nós perdemos bilhões de dólares de investimentos por parte de investidores japoneses, sul-coreanos, europeus, canadenses e norte-americanos exatamente pelo desrespeito do Brasil à proteção ambiental. O Brasil é a pior referência no contexto ambiental do mundo neste momento, e o pior, fazendo um péssimo papel.

Oitavo ponto, proteção aos mais pobres. Nós temos que ter uma visão, uma ação de proteção aos desvalidos, aos vulneráveis, aos mais pobres, eu já mencionei aqui os volumes são brutais, é a maior taxa de pobreza da história do Brasil nos últimos 50 anos. Nunca houve tanta pobreza, tanta miséria e tanto desespero em brasileiros de todas as regiões, até estados mais fortes, mais ricos como São Paulo, vivem também a pressão da miséria da pobreza nas ruas e no campo. O nono ponto, respeito à democracia, Eliane, respeito à democracia sim, porque este governo desrespeita a democracia, desrespeita você como jornalista, desrespeita o jornalismo como atividade fundamental e importante na preservação do processo democrático do País, desrespeita os direitos humanos, desrespeita o direito ao contraditório, basta ser contraditório e falar a verdade em relação ao governo Bolsonaro você é assacado, atacado, intimidado pelas redes sociais. Um gabinete do ódio que de Brasília multiplica em robôs ataques e ameaças a todos aqueles que se posicionam contrariamente a um governo genocida, como esse governo Bolsonaro. E por pouco, por muito pouco, não se colocou em questão a democracia, porque além de todos nós ameaçados, também o Supremo Tribunal Federal (STF) foi ameaçado, o Poder Judiciário, o Poder Legislativo, as instituições no Brasil, e um presidente da República, o tal mito que eu chamo de “mito da morte” que todas as semanas faz um discurso ameaçador, vocês vão ver falta pouco, esperem, aguardem, como se fosse um ditador eleito a ponto de ameaçar aqueles que são contraditórios lhe fazem oposição.

E, por último, também o apoio, mas não menos importante, à ciência e a tecnologia como foi bem lembrado aqui pelo Fernando, e também pelo Eduardo Leite. Nenhum país evolui sem apoiar, sem investir em ciência e tecnologia. Nenhum país consegue independência e capacidade de multiplicar as suas inteligências e preservá-las se não investir em ciência e tecnologia, e este governo, o governo Bolsonaro abandonou a ciência e a tecnologia, aliás, faz ameaças à ciência e tecnologia constantemente, e por último, não faz parte dos dez pontos, mas o Brasil precisa de esperança. E esperança é isso que nós aqui, que vocês tiveram a gentileza de convidar, podemos oferecer aos brasileiros - esperança Luciano Huck, esperança Eduardo Leite, esperança Fernando Haddad, esperança Ciro Gomes, esperança aos brasileiros que nos acompanham neste momento para mudar o Brasil, e mudar definitivamente o nosso País. Muito obrigado.

Eliane Cantanhêde - Obrigado governador Doria. E eu gostaria de chamar o Luciano Huck, por favor.

Luciano Huck - Boa noite a todos. Obrigado pelo convite a Núbia, em nome da comunidade Harvard e MIT, dos brasileiros que organizaram a 7ª Brazil Conference. Hussein e Eliane, obrigado. Quero agradecer a parceria e dar boa noite ao Ciro, João, Haddad, Eduardo, muito bom estar com vocês no painel. Ouvir todos aqui foi muito interessante, porque acho que a solução perfeita para a gente encarar os nossos desafios foi muito bem levantada por todos vocês, não vai ser a solução perfeita, porque todos nós, parte a parte da sociedade como um todo, vamos ter de fazer concessões. Eu acho que a gente vai ter que iluminar as coisas que nos conectam, e não as coisas que nos distanciam, que nos afastam. Então eu queria primeiro, todos vocês têm muitos títulos, governadores, ministros, então eu queria justificar o porquê que eu estou aqui, porque eu aceitei participar deste painel. Todos vocês sabem que eu não sou político, eu me sinto aqui com parte da sociedade civil mesmo, como alguém que tem viajado pelo País dos últimos 21 anos e que tem visto os problemas do dia a dia, olhando olho no olho das pessoas mesmo, e que nos últimos tempos tem tentado juntar, curar, procurar as melhores cabeças, as melhores ideias, melhores projetos que possam colocar o Brasil como um país mais eficiente, um país mais afetivo que olha para as pessoas, e de maneira nenhuma como um projeto pessoal ou partidário. Acho que eu sou parte da sociedade civil, que é mesmo dar a cara a tapa, de participar do debate, de quimono aberto, que tente trazer soluções e projetos para os nossos problemas.

Acho que, como vocês colocaram aqui, o Brasil precisa de um projeto. Isso é claro e no protagonismo atual, da política atual, eu só tenho enxergado narrativas e discursos que olham muito para o Brasil do passado, que veem o País pelo retrovisor, que tem muita dificuldade de olhar para frente que em vez de iluminar fica se vangloriando do passado e eu não acho que seja bom. Eu acho que para curar as feridas que estão abertas hoje no Brasil, não adianta pensar com a cabeça do século passado, a gente verdade tem que olhar para frente, com novas ideias para os problemas que estão pela frente, as oportunidades que virão pela frente, e acho que aqui nesse grupo, esse grupo ampliado, a gente vai ter que deixar de lado as nossas vaidades e exercitar nossa humildade, entender que mesmo, um enorme potencial desse país o Brasil não deu certo. A gente tem 12% da água do planeta e mesmo assim existem 100 milhões de pessoas sem saneamento básico e 30 milhões de pessoas sem acesso à água, isso é inaceitável. Acho que a gente toma muito cuidado nesse não ficar discutindo os centímetros a mais que o outro conseguiu avançar nas últimas décadas, por que para ficar bom mesmo, a gente vai ter que avançar quilômetros. E só vai ser possível se tiver um projeto claro.

Na semana passada, eu tive uma conversa com o Jeff Sachs, que é um cara super respeitado, ele falou que na verdade que ninguém aprende nada quando está no governo. O governo se sobrevive no dia a dia, todos aqui vocês acharam cargos no governo podem dizer se isso é verdade ou não, mas o fato é que está a pensar agora a arquitetura, a engenharia, o mestre-de-obras, para gente conseguir executar um país que resgate a esperança das pessoas, do povo para valer. A gente precisa produzir um projeto claro, com caminhos possíveis, que possam reduzir as nossas desigualdades abissais. Acho que o Ciro colocou no começo, a gente tem 125 milhões de brasileiros se alimentando mal, boa parte deles passando fome, num país que produz, que alimenta hoje um bilhão de pessoas todos os dias mundo afora, como é que a gente pode ter fome ou não ter capacidade de se alimentar direito aqui dentro. A gente precisa de um país que entenda que o mundo é digital, a gente tem hoje uma sociedade digitalizada, a gente tem mais aparelhos celulares ligados do que brasileiros, em um governo ainda muita analógico, uma educação analógica. A gente a pensar na tecnologia para todos, aqui ninguém consegue viver sem conexão, então, se a gente não consegue viver sem conexão, por que que o coleguinha ao lado deveria poder, o gari que está recolhendo o lixo das nossas casas, da cidade, serviço essencial durante a pandemia, porque o filho dele, não o nosso tem de estar conectado e o dele não.

Tem de ser um projeto de oportunidades para as pessoas, que os jovens, independente do CEP, sair dessa loteria cruel do CEP, por que a gente vive hoje, o local que você nasce determina o local que você vai morrer. A gente preciso de um projeto de empreendedores, não só da Faria Lima, dos bairros ricos do Brasil afora, mais empreendedores na base da pirâmide, nas favelas, nas comunidades, um projeto que fale de verdade com o verdadeiro tripé econômico brasileiro que é: Uber, bolo de pote e revenda de cosméticos, que é a realidade do povo. Então eu busco juntar a ideia de um país que tem a consciência de que pode e deve ser a maior potência a verde desse planeta, a maior potência agroindustrial sustentável do planeta, líder na agenda de descarbonização até 2050, que acabe com esse falso litígio de que não dá para produzir e ser sustentável ao mesmo tempo, isso é fato também do século passado, um país que entenda que a educação é a ferramenta mais poderosa de transformação social, um país onde educação seja prioridade de Estado, e não de um governo de outros.

Vocês sabem melhor do que eu, não falta dinheiro nessa área, não falta cimento, tijolo, escola, professor, aluno. O que falta é valorizar esse processo todo, um projeto de execução de Educação de verdade no Brasil. O Doria falou, que eu adoro isso e fiquei pensando aqui, tentando lembrar o nome do ministro da educação, acho que só se for no Google. Temos até aqui um bom ex-ministro da Educação e acho que o Haddad deve ter pensado também, ele sabe qual o nome do ministro da Educação. Enfim, estou aqui como cidadão ativo que quer fazer parte do debate, que vai fazer parte do debate. Eu quero contribuir, não quero confundir. Não existe “salvador da pátria”, não existe uma solução individual, e só a gente vai ter um projeto verdadeiro se deixar as nossas vaidades em casa. E aceitar estar hoje aqui nesse painel tão relevante é realmente para provocar todos para que a gente ilumine um caminho para o Brasil, com um projeto que tenha conexão com as ruas, o povo, com a verdade, porque se for um projeto de gabinetes, das elites pensantes, acadêmico, político partidário ou que nasceu num grupo do WhatsApp não vai vingar, não vai ter conexão com o dia a dia, com o povo e com as pessoas. Então muito obrigado pela abertura.

Hussein Kalout - Me permita, Eliane, tomar a palavra. Eu queria já endereçar a segunda pergunta para vocês, mas essa pergunta será dirigida primeiramente ao ministro Fernando Haddad e, subsequente pergunta será endereçada pela Eliane ao governador João Doria. Antes disso, eu acho que é nítida a preocupação de vocês com o Brasil. São nítidas as formas convergentes como vocês elencaram diversos dos problemas nacionais de brasileiros, e das quais todos me parecem concordar com a necessidade de ter a educação como uma plataforma central, a ciência e tecnologia como vetores de impulsão da nossa sociedade, sem os quais o Brasil não conseguiria se desenvolver. Ao mesmo tempo, vocês levantaram um tema que não vinha à pauta a política brasileira, que é a fome. Podia se discutir a desigualdade sim, que existe, mas a pauta fome como vetor central a ser discutido no dia a dia, isso havia estado fora das preocupações imediatas do nosso sistema político e isso volta hoje, o que demonstra a gravidade da situação. Ministro Haddad, o senhor foi, talvez, o mais longevo ministro da educação do Estado brasileiro e, obviamente, vendo o Brasil, o governo atual tendo quatro ministros da educação em menos de dois anos, isso é algo grave, algo anacrônicos, enseja, no mínimo, uma falta de planejamento, ou de uma falta de uma diretriz efetiva para a solução desse problema. Quais são, na sua visão, os principais gargalos e graves erros cometidos pelo governo Bolsonaro, se o senhor puder elencar rapidamente.

Fernando Haddad -  Hussein, a educação é uma das áreas que mais sofreram retrocesso e, infelizmente, isso não está sendo pautado, pois a pandemia tem ocupado o noticiário com razão, porque é da perda de vidas que nós estamos falando. Nós temos que discutir a questão do desemprego. É absurdo, e a falta de iniciativa do governo de recuperar as empresas é ainda maior. Então, a educação está pouco fora do radar, mas eu chamaria atenção para retrocessos que estão acontecendo. Em primeiro lugar, a Educação Básica. Ela não tem absolutamente nenhum apoio do governo Bolsonaro, mesmo antes da pandemia, ou seja, a Educação Básica que vinha em um ritmo de crescimento quantitativo e qualitativo sofreu um baque importantíssimo. Felizmente o Congresso Nacional, que não depende do governo, prorrogou, o que, na minha opinião, é a maior iniciativa de financiamento da educação, que é o Fundeb. Mas, isso não passa pela mesa do presidente da República, e por isso que nós fomos bem-sucedidos e garantimos o recurso do Fundeb, e, me permita dizer, quando se fala que não falta dinheiro para educação, eu quero mencionar o fato de que durante todo o século XX o Brasil investiu menos do que a média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) como proporção do PIB em educação. Nós só superamos a média da OCDE na primeira década deste século, e eu tive a honra de ser o autor neste feito durante o governo Lula, e isso não é pouca coisa e nem deve ser desconsiderado. Aprender com a experiência de todos também é uma forma de pretender governar bem. O olhar para trás não é necessariamente ruim. Você aprende olhando para trás para planejar o futuro. Importante saber a história do Brasil, conhecer na prática as políticas públicas. A segunda coisa importante é que a universidade é alvo do governo Bolsonaro. Ela é considerada o inimigo público número um do atual governo federal. O governo Bolsonaro não respeita a autonomia financeira, não se respeita a autonomia didático pedagógica e administrativa das Universidades, vários e institutos tiveram reitores - interventores nomeados pelo governo Bolsonaro, se não fosse pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Bolsonaro ainda estaria nomeando interventores. Não respeita a lista tríplice, tem escolhido pessoas sem nenhuma empatia com a comunidade acadêmica. E, sem a universidade, você não vai ter ciência, porque 90% da produção científica no Brasil é produzida em universidade pública, é feita na rede pública de universidade. Então, se a gente não apoiar as universidades públicas, nós vamos cair no ranking de ciência. Lembrando que o Brasil responde por 50% da produção científica de toda a América Latina, não somos uma potência mundial, mas somos uma potência regional na produção de ciência e tecnologia.

Eliane Cantanhêde - Eu gostaria de perguntar para o governador João Doria, ainda nesse tema crucial que é a educação, as questões estruturais que o Fernando Haddad abordou muito bem, mas nós temos questões emergenciais. A gente tem a pandemia tendo um efeito dramático drástico sobre uma educação que já tem esses problemas estruturais desde sempre, e a pandemia é ela aprofundou a distância entre a escola pública a escola privada, entre a as regiões do país, entre os estados brasileiros, entre as cidades e entre as famílias. Ao final das contas, governador João Doria, a educação é instrumento de inclusão, é o instrumento de facilitação, de acesso de igualdade, mas a gente está tendo exatamente o inverso nesse momento. Como fazer para compensar o tempo perdido de todos e para, principalmente, tentar resgatar essa parcela que ficou atrás, que ficou sem o computador, sem internet, sem aula completamente abandonada? Governador Doria, estou perguntando a questão emergencial.

João Doria - A questão é emergencial, você colocou bem, eu também queria cumprimentar o Fernando pelas colocações feitas, em termos de educação. É preciso sim respeitar o passado, e entender que passado pode projetar adequadamente os movimentos do presente. A questão da educação será inclusiva quando tivermos um governo que acredite na educação e coloque pessoas competentes para administrar a educação do país. Eu não quero que fulanizar o atual ministro da Educação, nem sei o nome dele, mas não estou falando isso para desprezá-lo, é que o grau de desimportância que o atual governo Bolsonaro dá a educação com quatro ministros, em menos de dois anos, é o retrato disso dessa disruptura total e completa em relação à educação, em todos os níveis, e principalmente, como disse o Fernando, no plano universitário. Nós temos um governo que não dá a menor atenção não só a educação superior, como em todos os demais níveis de educação. É um desastre completo no Brasil, repito, andou dez anos para trás em Educação, neste período. Não fossem os governos estaduais, vários e muitos, até para ser justo, governadores que conseguiram colocar a educação dentro de patamares prioritários como nós fizemos aqui com o Rossieli Soares, que foi ministro da Educação, foi um dos sucessores do Fernando Haddad, um homem sério e compenetrado, respeitado no mundo da Educação, no mundo da ciência, que foi secretário de Educação do Estado do Amazonas depois feminina educação no governo temer e hoje o nosso secretário de educação, depois foi ministro da Educação no governo Temer e hoje é nosso secretário de Educação, com uma competente equipe de profissionais de colaboradores, eu destaco aqui também o Haroldo Correa Rocha, que foi secretário de Educação do Estado Espírito Santo e colocou o Estado do Espírito Santo na liderança do Ideb, com hoje São Paulo volta a liderar o Ideb em nível nacional, Mas, foi porque a opção clara de governos, e no caso do governo de São Paulo e ter pessoas competentes, de compreender a importância da Educação, de destinar recursos para a educação, de colocar a ciência próxima a educação. São Paulo tem a as Universidades, talvez de grande relevância, na questão da ciência e da tecnologia, não quero que também desprezar os outros estados que possuem universidades de grande valor, mas é estabelecer isso, gestão, qualidade, opção, investimento na educação e ter a coragem também, Eliane, aí eu concluo, de fazer o que São Paulo fez, de ter a retomada das aulas de forma gradual, de forma percentualmente e segura para professores, alunos e os pais dos alunos, ter a coragem de fazer isso tanto a área pública, quanto na área privada, não ter medo de cara feia e nem medo e temor de posições sindicais, mas respeitando a educação e direito das crianças e dos jovens de retomarem as suas aulas. E por fim da questão digital, São Paulo investiu, como outros estados também fizeram, quase R$ 2 bilhões apenas na digitalização com a compra de computadores, tablets, wifi nas escolas e também de transmissões ao vivo pela TV Cultura e através do Centro de Mídias, durante o período da academia, para permitir que alunos pobres ou ricos, alunos de todos os segmentos da sociedade e, sobretudo, na rede pública Estadual de Ensino, pudessem ter acesso ao ensino mesmo durante o período recomendado pelo Centro de Contingência para que fizesse o distanciamento social. Estimulamos também que escolas privadas pudessem adotar o mesmo procedimento. O mundo digital é um mundo adequado, necessário, mas isso exige investimentos e comprometimento do setor público. São essas as considerações que queria fazer sobre educação Eliane.

Hussein Kalout - Ministro Ciro Gomes, quero tentar envelopar duas perguntas em uma está bem? A primeira pergunta é a seguinte: o senhor representa um modelo “nacional desenvolvimentista”, modelo que dentro de um segmento econômico há muita convergência em torno desse modelo. É um modelo que é visto como uma forma de recuperar a plataforma industrial brasileira e dinamizar a capacidade produtiva do país, mas por outro lado temos estudiosos que entendem que o modelo econômico no qual o senhor procura canalizar o seu projeto, ele é o modelo que guarda certa semelhança com o modelo “nacional desenvolvimentista” os anos 60, e que vis a vis, entre um modelo e outro, este modelo pode não estar concatenado digamos com a dinâmica da economia internacional. Há esta crítica, mas há uma preocupação no que diz respeito à capacidade produtiva, à capacidade de recuperar a indústria brasileira sobre o qual o principal o senhor apresenta. Dito isso, num projeto como o senhor pretende trabalhar? Como combinar duas coisas fundamentais: o investimento público e privado? Porque hoje o estado não tem como, por exemplo, em infraestrutura arcar com os investimentos. Nós temos um déficit de 5 trilhões de investimento em infraestrutura para recuperar a infraestrutura brasileira como um todo, o Estado não tem como a aportar isso, e sem resolver o problema da infraestrutura não tem como melhorar a capacidade produtiva e competitiva. Como isso se encaixa no seu projeto econômico?

Ciro Gomes - Veja, a gente tem como responder às questões por dois métodos possíveis. Um é a nossa observação empírica, a nossa própria intuição, nossa inteligência. A outra que pode dar uma certa preguiça para nós, que é mais fácil e mais rápida, é olhando a experiência dos outros. Numa questão e noutra me parece absolutamente não mais contestável que há três premissas para o desenvolvimento civilizatório exitoso, parece que não falta em nenhuma das experiências exitosas do mundo três colunas: a primeira coluna um alto nível de poupança doméstica, o que mata a ilusão quem tem guiado a mitologia brasileira de que nós cumprindo o manual do “bom moço “internacional vão ser salvos da nossa tragédia social e econômica, de infraestrutura, de saúde, de ciência e tecnologia de meio ambiente, uma tragédia humana sem precedentes, com dinheiro dos outros. Isso não tem precedentes na história da humanidade, e ao contrário do que o mito diz, não é “mito” que está aí no poder autorreferido, mas sim a mitologia sobre o nível de poupança de uma sociedade não é obra do acaso é consequência de arranjos institucionais que a política faz ou deixa de fazer, No meu caso eu estou avançando bastante explicitamente em desenhar uma dinâmica que mexe com sistema tributário, mexe com o sistema previdenciário, de maneira a dar coerência e a construir essa coluna no Brasil, se tivermos tempo vamos aprofundava. A segunda coluna é independentemente de ideologia, de intoxicação ideológica, vendido como ciência boa, parece ser pacífico que a sociedade que prospera é aquela que consegue atingir um nível ótimo de coordenação entre o governo poderoso, no sentido aqui de musculoso, dotado de alto nível de energia, o investimento, com a capacidade grande de liderar a hegemonia moral e intelectual da sociedade, de ter força na concepção que eu defendo, de ter pela força do povo na democracia, mas em regimes autoritários também é presente. É uma coordenação estratégica entre governos fortes, energizados, empresariado convergente, portanto importante iniciativa privada é elemento essencial do eixo civilizatório, a China agora está dando essas demonstrações mais evidentes, e por fim investimento em gente. Sabe com sete anos e meio de escolarização média, que é o que nós impomos ao jovem brasileiro, metade da Argentina, esqueça desenvolvimento no país. Esse é um juízo de quantidade, quando a gente vai olhar qualidade do ensino que se oferece ao povo brasileiro, esse paradigma do decoreba, nós ensinamos a garotada a ser raso, superficial em tudo, ninguém aprofunde nada ensinamos a repetir passivamente informações que já estão postas no Google, quando o que nós precisamos é de um paradigma pedagógico que ensine a perguntar, a pensar, a refletir, a reagir sobre informações existentes e ao associadas criar uma informação nova. Todos já mencionaram a importância da educação emancipadora. Quero só fazer aqui um aparte ao meu amigo governador Doria, o melhor Ideb do Brasil do Ceará a mim I’m sorry, com todo respeito aí a riqueza do poderoso Estado de São Paulo, onde eu enterrei o meu umbigo, pois eu nasci lá em Pindamonhangaba, peguei o pau de arara na direção inversa foi criado no Ceará. E o terceiro polo que é esse que eu estou falando. No caso do Brasil, me parece também, uma evidência flagrante veja, como é que nós vamos superar Hussein, a assimetria competitiva com o mundo, a personalidade o custo do capital no Brasil é desse tamanhinho, o volume de capital de risco, de seed money, de angel money, de venture capital é desse tamanhinho como proporção, porque nós temos uma distorção grave no mercado de crédito brasileiro e que permitimos ao longo do passado Luciano, é importante conhecer o passado sim, não para ficar amando e querendo voltar, porque muitas vezes o passado é uma roupa que não nos serve mais, mas o povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la como farsa ou como tragédia, essa frase não é minha, não é, também não há mais de ser citado o autor dela, o Hussein já riu por que conhece  bastante bem o contexto da frase. Então, veja o perfil do capital vis a vis do mundo com o Brasil que mata a economia brasileira. Segundo, o nível de maturidade tecnológica varia de região para região, já não é nem mais de nação, olha atenção que está acontecendo na Califórnia (EUA) entre os imigrantes mexicanos e os garotos que conseguem chegar em uma plataforma como o Google, no Vale do Silício, Isso é uma coisa muito grave, a nova esquerda mundial tem que pensar no desenho institucional que aproprie esses extraordinários ganhos de produtividade das novas ciências, das novas tecnologias, das disrupturas, dos algoritmos, do 5G para o ócio ou para a classe trabalhadora que vai ficar sem oportunidade de trabalhar. E termino, depois há uma assimetria na escala, portanto, a economia política que eu advogo não ela volta aos anos 60, é apenas aquilo que eu compreendo como necessário, não existe a economia desenvolvida sem uma parceria do Estado, eu vivia numa certa solidão quando denunciar isso, e hoje vem em meu socorro o anúncio do Biden, não é mais o Oriente só, o Reino Unido acaba de anunciar um banco para financiar infraestrutura. O Haddad cometeu um pequeno erro aí de estatística, o nível de investimento do Brasil em infraestrutura ou investimento global do Estado federal brasileiro tem estado abaixo de 2% ao ano ao longo dos últimos 15 anos, 22% foi melhor nível de formação bruta de capital envolvendo a iniciativa privada, mas o setor público federal é um fator de despoupança grave e a gente tem que encarar isso, se tiver oportunidade, eu não quero abusar, a gente vai conversar coisas práticas, como é que vira  esse jogo?

Eliane Cantanhêde - Você vai falar Hussein? Ok, eu queria chamar Luciano Huck. Já foi falado aqui, o próprio Luciano falou, agora o Ciro também sobre a importância das novas tecnologias. E o Brasil está no momento de discussão, por exemplo de 5G, como tudo nesse governo é tratado sobre aspectos puramente ideológico, a política externa ideologizada, a educação, a cultura, ciência, tecnologia, tudo há o grande temor sobre a decisão do governo Bolsonaro em relação ao 5f que é uma decisão que vai deixar uma herança durante décadas aqui no Brasil, além disso Luciano, eu sei que você é um estudioso da questão da internet, das redes sociais, há também do outro lado a questão política, e já temos documentários muito bem feitos mostrando que uma sociedade, como a sociedade americana com toda a informação, toda a cultura, todo lastro, elege um Donald Trump. Como o Brasil elegeu um Bolsonaro, como chegamos na Hungria, na Polônia, enfim, qual o papel da internet nisso. Então eu gostaria que você, Luciano, como conhece, estuda, que você falasse sobre a questão objetiva do 5G, mas também da questão envolvendo a política, a manipulação de corações e mentes via redes sociais e novas tecnologias.

Luciano Huck - Obrigado, Eliane. Ciro concordo com você sobre conhecer nosso passado é o melhor jeito de construir o futuro, isso não quer dizer que a gente tem que estar amarrada nos erros do passado, vamos olhar para frente, tem que pensar com a cabeça do século XXI para endereçar problemas que começaram no século XX. Acho que conecta bem com que a Eliane colocou agora aqui, eu acho que o mais importante, primeiro eu vou começar de trás para frente. Vou começar com a gente reconectar a sociedade. Hoje tem um governo muito analógico, você vê por exemplo, qual foi o esforço que a gente fez para conseguir pagar o Auxílio Emergencial no começo da pandemia, auxílio necessário e importantíssimo e que de fato evitou um colapso social, que a gente viveria, então foi muito necessário, mas a desorganização e a falta de processo para gente conseguir fazer com os R$ 600 chegassem à mesa da família brasileira, foi um périplo, as pessoas faziam fila, no auge da pandemia fazendo fila na Caixa (Econômica Federal), ou seja, você vê o quanto você não saber quem é o indivíduo dificulta focalizar as nossas políticas de proteção social. Você pega o caso da Índia, por exemplo, programa “Aadhaar” que entre 2009/2012 cadastrou mais um quase 1,2 bilhão de indianos, ou seja, era uma caixinha na rua botava sua digital, olho, rosto e a pessoa passava a participar ou fazer parte do sistema bancário, você passava a ser cidadão, independente se fosse o empresário ou alguém em situação de rua, e a Índia no início da pandemia, em menos de uma semana pagou US$ 200 para 300 milhões de indianos,  sem fazer fila, então a tecnologia para mim pode ser o atalho para muitas das nossas ineficiências que a gente vive hoje. Acho de verdade que o governo que não se transforma em plataforma digital de fato, passa com o tempo a perder a capacidade de governar, porque hoje a sociedade é digital, e o governo não pode ser analógico. Um ponto importante que você fala na questão das redes sociais o que aconteceu no Brasil, acho que a gente tem que ver as potencialidades disso, nunca se discutiu tanto a política no Brasil, as pessoas querem participar, estão no debate, querem dar suas opiniões, a gente está aqui debatendo e na rede social está um burburinho, por que as pessoas querem participar. Quando eu comecei a fazer televisão, em 1990, começou aquele negócio de baixar a música pela internet de graça, o Napster, e na época diziam que o Napster vai acabar com direitos autorais, vai destruir a indústria fonográfica. Hoje, quase 30 anos depois de uma única empresa nesse setor, vale mais do que aquela indústria daquela época toda e inclusive, nunca se pagou tanto direitos autorais e nunca se consumiu tanto a música, então neste momento, está se falando de política. Está ruim está, a polarização gerou briga do WhatsApp na família, as pessoas se desentendendo, as pessoas que não dividem as mesmas ideias começam a se enxergar como inimigos, se você não é daqui você não pertence, tem uma relação de ódio ligada à política que é muito ruim, assim não se constrói nada. A relação com a política não tem que ser igual futebol, que quando seu time está na segunda divisão você continua torcendo por ele. A relação com a política é como estar contratando um serviço, arquitetura, engenharia e como vai começar a construir, e se ficar mal feito você troca. Então não é uma relação de paixão para a vida, você tem que se enxergar naquele projeto. Então, eu acho que a gente precisa sim trabalhar na reconexão da sociedade com a política, é necessário, eu como cidadão, como sociedade civil, a gente pode juntar todos os filantropos do Brasil, que o nosso controle de desigualdade não vai mexer, e quem tem o poder da transformação exponencial é o Estado, e o Estado é gerido pela política, então a gente forma novos políticos e capacita uma nova geração para se aproximar da política, e eu acho que voltando no passado Ciro, sobre o que você falou, eu acho que a gente teve um pecado grande no passado foi de salgado as grandes lideranças do Brasil salgaram o terreno à sua volta para que não se formassem novas lideranças. E aí a gente fica com poucas opções, o que é muito ruim. Eu acho que essa reconexão da política com a sociedade, essa reconexão no diálogo, novos projetos, novas ideias, quem sabe no futuro a gente consiga superar essa polarização que tanto faz mal para democracia, para as pessoas e possa encontrar um caminho de diálogo e debate de ideias e que possa ajudar. As pessoas querem falar, a gente está isso aqui discutindo os desafios do futuro do Brasil, eu vi o esforço da Brazil Conference em trazer mulheres, negros, indígenas para o debate, mas aqui homens brancos e privilegiados discutindo o futuro do Brasil, assim a gente não vai construir. Então eu acho que a internet veio para fortalecer e que as pessoas possam contribuir com o debate e não que elas fiquem brigando, jogando pedra ou tomate uns nos outros. Então, acho que esse ponto que você colocou é muito importante, tanto do ponto de vista da gestão pública e se tornar cada vez mais digital, isso passa pelo 5G, pela conexão das escolas, como vocês colocaram aqui muito bem, o governador João Doria, Ciro e Haddad falou também. Por outro lado, também a gente curar as feridas do que está acontecendo agora, para que a gente consiga criar um debate mais propositivo e não tão destrutivo como a gente tem hoje.

Hussein Kalout - Obrigado, Luciano. Acho que você lança luz sobre um assunto muito importante que a conferência procurou endereçar ao meu ver que é a questão da diversidade, obviamente que imperfeições existem, e isso significa que nós temos sempre que melhorá-los e se a gente pretender ser de fato uma democracia plural, inclusiva sobretudo. O papel das mulheres, nós usamos de lideranças femininas sim, elas precisam ter espaço sim, nós precisamos de mais negros na política, mais indígenas. Mais negros, indígenas e mulheres em posição de comando, infelizmente nós não temos isso, o nosso sistema é supremacista por essência que acaba impedindo essa capacidade de as mulheres ascenderem, basta verem os diretórios políticos no país, basta ver no Congresso Nacional, quer dizer a representação no Congresso Nacional, a participação feminina está muito aquém daquilo que é desejável, porque também os partidos não estimulam … a questão dos negros no Brasil uma questão que é fundamental ser muito bem endereçada, criar-se, aperfeiçoar-se o mecanismo para que mais possam participar da política, assim como tem sido feito no setor privado. Agora vou ao governador Eduardo Leite e queria endereçar uma pergunta partindo de algo que você mesmo disse Eduardo, sobre governabilidade. Você entabulou vários aspectos sobre a governabilidade ou a incapacidade de governabilidade do governo Bolsonaro, ao tentar dizer de forma extremamente bem-educada que o Brasil vai enfrentar uma recessão, o país não tem perspectiva, falta confiança e credibilidade. O Brasil precisa endereçar a reforma administrativa, reforma tributária. Bom, como fazer isso no governo absolutamente anacrônico? Onde você olhar, em qualquer posição, você vê uma falta clara de planejamento, de articulação intersetorial no governo. E o senhor se colocou, que dizer não se colocou, mas enfim, demonstrou a sua vontade de um dia postular ser o presidente da República, e é sempre sadio ver jovens como o senhor nessa posição, olhando para frente tendo algo a contribuir. O que você faria em termos de governança, o que mudaria e o como mudaria? E qual é o problema estrutural grave do governo Bolsonaro, em termos de capacidade de gestão do governo.

Eduardo Leite - Primeiro, o grande problema do governo Bolsonaro é que não tem uma agenda clara. Esse é o grande problema. O presidente da República não tem convicção numa agenda. Eu entendo que um presidente, Hussein ele tem que ter duas capacidades, não dá para ficar delegando duas capacidades essenciais, não dá para ficar delegando tudo a um “posto Ipiranga”, você tem que ter noção básica de gestão, tem que ter rotina de acompanhamento junto aos seus ministros dessa agenda que está estabelecida e tem que focar energia em construir, e não destruir. Toda a energia do governo Bolsonaro está colocada em destruir algo, é destruir quem pensa diferente, destruir o opositor, destruir um passado. Tem uma frase que eu gosto muito que diz que: “o segredo da mudança está em focar sua energia em construir o novo e não um destruir o velho”, quando a gente coloca a energia em destruir o que passou, aqui está falando muito sobre passado, isso foi trazido por vários os painelistas aqui, quando você coloca a sua energia em destruir o passado por que você não concorda com ele, você perde a oportunidade de construir o futuro. O presidente da República não tem uma agenda clara, delegou a um “posto Ipiranga” os assuntos mais importantes de reestruturação econômica do Brasil, e como o presidente não acredita nessa agenda, ele sequer chancela essa agenda, não estou nem defendendo se ela é certa ou errada, mas vejam que foi reforma tributária para o Congresso, foi a reforma administrativa e o presidente da República não faz qualquer esforço para que isso ande, ele não faz, a política é justamente o instrumento para, e essa é a segunda capacidade, que o presidente deve ter, é essa capacidade política de articular as forças da sociedade que estão representadas no Congresso Nacional para sustentar essa agenda, sem fazer política um governo não consegue ser ousado do ponto de vista de gestão, não consegue avançar no ponto de vista da modernização dos serviços, das reformas estruturantes, porque vai encontrar uma série de obstáculos, vai tirar da zona de conforto alguém que está vivendo ou tirando algum proveito da situação como ela está você, vai ter atributos quando você quer ser mais ousado e inovar na gestão pública, e você faz política unindo forças para conseguir dar sustentação para esta agenda de transformação. Então, o governo não tem uma agenda do ponto de vista de gestão porque o presidente não tem visão de futuro, toda a missão dele está em acabar com quem pensa diferente dele e não faz política para sustentar uma agenda de gestão inovadora, ele faz a política agora forçado para apenas se sustentar no poder, é isso que está acontecendo. A política feita pelo governo é meramente para conseguir ter sustentação suficiente para evitar constrangimentos e tentar construir uma base para um futuro processo eleitoral e, não efetivamente, para fazer mudanças estruturantes no país. A política é justamente um instrumento para que a gente possa conviver entre as diferenças, estabelece ritos, organização partidária, para gente conseguir viver entre os diferentes e o presidente não compreende isso e nem usa dos instrumentos da política para ter sustentação, porque se quer ele tem essa agenda clara para ele.

Hussein Kalout - Obrigado Eduardo. Eliane queria te propor, se você me permitir a gente inverter, assim eu pergunto para o Luciano e você pergunta ao Ciro para que eu não repita, assim a gente troca. Essa semana examinamos os nossos convidados, nas mais variadas questões, Luciano, me permite fazer uma pergunta, que me parece ser uma pergunta muito cara a você. Quando você esteve aqui em Harvard, me recordo que nós conversamos sobre as assimetrias sociais no Brasil, sobre o problema da desigualdade, e muito de alguém que conhece o Brasil de ponta a ponta. Eu fiquei muito impressionado com a quantidade de cidades que você menciona de Norte a Sul do Brasil, do Nordeste ao Sudeste, nome de pessoas relatando a experiência e as mazelas de cada bairro, ou de cada ruela nas cidades que você visitou. Enfim, não quero fazer um prejulgamento, mas aqui entre nós você andou muito. A pergunta que eu coloco para ti: como endereçar o problema da desigualdade, de que forma e em quanto tempo? Como transformar isso como o projeto central das nossas políticas públicas?  Porque se não for central, ele permanecerá por longas e longas décadas.

Luciano Huck - Obrigado pela pergunta, realmente acho o que me traz para essa conversa aqui e me deixar confortável, que eu não sou um técnico nada e não tenho a experiência política que a maioria tem aqui, mas eu sou um cara que conhece o dia-a-dia da realidade que eu aprendi nesses últimos 21 anos rodando o país, se quiser discutir como é que vivem os indígenas isolados na Amazônia, como estão venezuelanos na fronteira em Roraima, como é que são as comunidades Brasil afora, eu fui, ninguém me contou. Sou o tipo de pessoa que quando passa por um problema eu me sinto parte dele, então, eu podia muito bem-estar recolhido e protegido nos meus privilégios. Minha vida está ótima, mas eu quero estar aqui no debate público, de quimono aberto, porque de fato eu quero contribuir, para mim o principal problema quem tem é a abissal desigualdade. Isso passa por várias coisas que estão aqui, passa primeiro pelo o que Eliane falou de tecnologia, sem dúvida nenhuma. Outro dia estava lendo um estudo do CDPP (Centro de Debate de Políticas Públicas) sobre focalização de políticas públicas e tem um número só que eu queria colocar aqui que é muito interessante, eu não sou igual Ciro que sabe tudo de cabeça, que é um Google ambulante, estava lendo que você tem hoje as Olimpíadas Públicas de Matemática das escolas públicas, e têm em média 18 milhões de alunos que participam todos os anos, e todos os anos você tem se distribui 7.500 medalhas, ou seja, de 18 milhões de alunos você distribui 7.500 medalhas, e de 2011 até 2017 quase 1.300 jovens que receberam a medalha da Olimpíada de Matemática são jovens onde as famílias são assistidas pelo Bolsa Família. Cadê estes jovens, o que aconteceu com eles? A gente não faz a menor ideia, eles se perdem pelo caminho, então único jeito de você fazer política social de proteção social focalizada, e isso passa pela educação, isso passa por criar uma Renda Básica, que eu acho moderno, necessário no século XXI que você pense, repense, é possível com responsabilidade fiscal, com planejamento, com capacidade de execução, que não adianta ficar blá fica falando um monte de coisa e ficar brincando com a esperança das pessoas de novo, se promete coisa que não entrega, olha onde a gente está, em um beco sem saída que mais uma vez a gente chegou por não ter projeto. Dá para ter uma Renda Básica? Sim, organizando todo mundo que precisa pode perceber, é que é um grande um antídoto ou um remédio não amargo para gente começar a endereçar as nossas desigualdades. O Brasil precisa começar a gerar oportunidade para as pessoas, não adianta fazer políticas de proteção social que sejam da soma zero, que não gere oportunidade. Então, você passa por tecnologia, você passa a educação, que é fundamental. Enquanto a escola de quem nasceu numa família menos abastada não tiver a mesma qualidade, não falando de piscina olímpica, de Apple, de tela plana, estou falando de qualidade de ensino, de professor, do ciclo de aprendizado, enquanto você não conseguir que as crianças, independentemente de onde tenham nascido, que elas saiam com o ciclo de educação parecido não vai dar certo. A gente não está falando aqui de redução de desigualdade, eu não quero falar que se pegue o salário do presidente da empresa e você vai dividir entre a turma que está trabalhando no caixa, não é isso, eu quero que quando ela chega aos seus 19 e 20 anos, e ela queira fazer trainee e entre como caixa na empresa, que ela olhe para o presidente da empresa e ela saiba que ela tenha toda a potencialidade para chegar lá, porque ela foi preparada para isso. Isso é redução de desigualdade para mim. É a geração de oportunidade. Então, principalmente, educação, política social de proteção focalizada, renda básica, tecnologia, ou seja, um pacote de coisas, não tem um único antídoto para isso, mas eu acho que todo mundo concorda aqui, que se a gente não endereçar as nossas desigualdades de maneira definitiva, repensar o capitalismo 4.0. Não conheço nenhum sistema de governo que tenha mais gente da pobreza do que o capitalismo, mas gerou uma desigualdade abissal, então a gente repense o capitalismo no século XXI, que eu falei, vamos olhar para frente ou esse país vai colapsar se não endereçar as suas desigualdades.

Eliane Cantanhêde - A minha pergunta então é para o Ciro Gomes. Ciro, tudo o que a gente está falando aqui tem uma conexão direta com o mundo, afinal das contas a gente vive em um mundo globalizado e um dos desastres do governo Bolsonaro é exatamente na política externa. A gente viu o presidente Bolsonaro pessoalmente atacando a China, o filho do presidente ataca a China, o ministro da Educação atacar China, que é o nosso maior parceiro comercial. E o próprio presidente bateu de frente com a França, Chile, Argentina, Alemanha, Noruega, enfim, ele foi colecionando inimigos e foi destruindo tudo que o Brasil construiu na política externa ao longo de governos, de anos e até de partidos diferentes no poder. O presidente Bolsonaro também bateu de frente com os organismos internacionais como o multilateralismo, com a OMS com a própria ONU, com a OMC em favor da OCDE, enfim, só sobraram ruínas depois que o Trump, que foi o único foco da política externa brasileira, não era um país e não era uma política externa, era o foco no Trump e o Trump caiu e ruiu tudo. Primeiro eu queria o seu diagnóstico e segundo o que é possível fazer para recuperar a imagem do Brasil, os contatos e a credibilidade do Brasil se uma das questões agora é retomar uma interlocução razoável com o governo de Washington, exatamente em cima do meio ambiente, com que armas, com que cartas o Bolsonaro vai poder tentar abrir esse canal com o governo Biden, só trocando o ministro, tira o Ernesto Araújo e põe o França (Carlos Alberto França), isso é suficiente Ciro? O que é preciso fazer na política externa?

Ciro Gomes - Eliane, nós estamos no fim de ciclo histórico, eu quero muito que desse debate saia especialmente para estudantes brasileiros a compreensão disso e nós não vamos sair disso mais do mesmo. Nós precisamos celebrar um Projeto Nacional de Desenvolvimento com começo, meio e fim, com o objetivo estratégico, vou dar uma pitadinha na pergunta anterior, porque isso é objetivo, devia ser objetivo consensado entre todos nós da política e da elite brasileira, no sentido melhor que o tema elite possa ter sob o ponto de vista sociológico, a tarefa é superar a miséria, a desigualdade, a pobreza e suas sequelas na violência, na doença, na deseducação, num prazo objetivamente anunciado com orçamentação objetiva, com a divisão de tarefas entre capital nacional e capital estrangeiro, papel do estado, papel da iniciativa privada, tudo isso pode ser aclarado no ambiente de um Projeto Nacional de Desenvolvimento. Esse projeto, ele não consegue se pôr de pé, se ele não entender duas coisas: nós precisamos recuperar o modelo de defesa nacional, tirando o que está acontecendo, não faltava mais nada e agora temos também uma questão militar, nós estamos com 4.800 militares dobrando o salário, encravados na fisiologia do governo federal. Dobrando salário militares da ativa, isso no primeiro dia se algum dia serviu esse país como presidente, vou baixar uma norma: quem quiser participar do governo vai ter de tirar a farda. Isso não existe, isso está transformando a cúpula das Forças Armadas em um partido político, portanto a capacidade de dizer é necessária para poder termos um projeto nacional. A outra centralidade, que muitas vezes o povão não tem direito de saber e você coloca isso com a maior como o brilho como lhe é característico, é uma política exterior.  Porque repare bem, nós podemos em todas as críticas ao Bolsonaro, mas o Brasil entrou na pandemia entrou no governo Bolsonaro dependente de insumos industriais básicos. Vamos concordar que o Brasil está muito no lugar da fila e não é por culpa do Bolsonaro apenas. O Bolsonaro não soube importar direto, mas o Brasil sabe fazer vacina há mais de um século e agora estamos dependentes de princípios ativos básicos que nós estamos importando, 86% da química fina brasileira, um Tylenol é

importado do estrangeiro, máscara de proteção individual, monitor de UTI, cama de hospital,  bengala, prótese, olha todo o bem de capital, toda química fina, é um desastre a desnacionalização da economia brasileira por essa prostração ideológica, portanto, para termos um projeto Nacional, precisamos ter uma política exterior que tenha duas guias, na minha opinião, primeiro recuperar aquilo que você com muita correção registrou, a linha do Barão do Rio Branco, nós podemos falar mal do serviço público para o Itamaraty era modelo de burocracia profissional, imune aos governantes, olha passou a ditadura, entraram outros governos, nós projetávamos o Brasil lá fora dentro de uma linha muito concreta, não-intervenção em assuntos domésticos, solução pacífica dos conflitos, uma ordem multilateral assentada no direito e de na violência, em favor da autodeterminação dos povos etc., precisamos recuperar isso. Mas, a segunda grande tarefa de uma política exterior moderna que conecte o Brasil com os desafios monstruosos, não é, de uma inserção internacional não subordinada que está nos destruindo como nação, é buscar três coisinhas muito práticas: um regime de preferências comerciais e industriais, não adianta a gente imaginar que o mundo vai conceder passivamente, para o Brasil, espaço nessas questões, o mundo na divisão do trabalho hoje vai ser o seguinte, o Brasil um buraco para tirar petróleo e minério barato uma grande fazenda para tirar proteína barata sem agregação de valor, a política exterior brasileira precisa cavar um regime de preferências industriais, comerciais industriais. Segundo, para falar em tecnologia, com esse brutal hiato, a velocidade e complexidade, nós precisamos buscar no mundo também um regime de transferências tecnológicas sensíveis, nós fizemos exemplarmente isso, com a SAAB, o governo da Suécia e com a Embraer, por isso que eu enlouqueci, preciso subir as paredes, quando o Brasil fez o KC-390 e conseguimos o caça Gripen com 100% do pacote tecnológico transferido. O capacete, governador Eduardo, é feito no Rio Grande do Sul, o capacete ultrassofisticado que se comunica com avião wifi e que dá ao Gripen a melhor relação entre a atenção que o piloto tem que dar para pilotagem e para o jogo tático de defesa ou ataque que esse caça que tiver de fazer, isso é outro objetivo o de buscar o regime de preferência de transferência de tecnologia. E por fim, buscar no mundo, nas nossas relações, um regime de “financiamento rebelde às interdições toscas de “Bretton Woods”, de Fundo Monetário Internacional (FMI), que estão até melhorando, quando eu vejo aí Hussein, o ex-reitor de Harvard, que foi Secretário do Tesouro americano contemporâneo comigo, que escrevendo e falando que ele está falando, eu me animo por que a solidão está diminuindo. Enfim, Eliane, o Brasil precisa de um projeto que tem que ter objetivo de superar a miséria, com prazos, metas, objetivos, avaliação, controle, divisão de tarefas objetivas, a virada começa por apoiar o endividamento explosivo das famílias, que é o primeiro motor de ativação econômica. Nós estamos com 80 milhões de brasileiros humilhados no SPC (Serviço de Proteção ao Crédito); o segundo é restaurar a condição do crédito para o empresariado brasileiro que está com 6 milhões de empresas no Serasa; o terceiro é restaurar a condição de financiamento do setor público, começando por um fundo de infraestrutura, cujo os detalhes eu posso discutir se houver oportunidade; e o quarto é trabalhar para superarmos o desequilíbrio externo estrutural que proíbe o Brasil de crescer, se o Brasil cresce dois pontos, a gente quebra. Porque? Porque esse crescimento é todo no consumo, vai tudo para a importação e aí explode a importação e o país não consegue fechar a conta, desvaloriza o Real, vem a inflação, vem o juro alto, é um filme velho que derrubou lá atrás a popularidade Fernando Henrique, que está na base da destruição dos da experiência do PT no governo. Nós não podemos mais continuar nesse filme macabro.

Hussein Kalout - Ciro, obrigado. Eu queria passar a palavra ao Ministro Fernando Haddad tentando puxar um pouco ainda na linha da política externa, porque acho importante mencionar e tentar puxar um pouco do papel do Brasil no contexto latino-americano. É fato que o Brasil perdeu peso gravitacional internacionalmente, e perdeu seu peso gravitacional especialmente em seu espaço geoestratégico que é a América do Sul. Um país que não consegue liderar sua própria região, dificilmente vai liderar outras regiões mundo afora. Além disso, o Brasil deixou de ser um indutor de desenvolvimento no contexto regional, e esse vácuo de poder está sendo ocupado por potências extra regionais, que desenvolvem a nossa região em função da nossa própria incapacidade. Nós não temos um projeto efetivo para a América do Sul, para quem o atual governo deu as costas para a região. É importante mencionar que eu no governo do presidente Lula nós tivemos uma política externa específica para a região, independentemente entrar no mérito, erros e acertos, mas havia uma visão estratégica regional. Na sua avaliação, qual é o maior risco ao nosso interesse nacional pelo fato de o Brasil se manter distante de sua vizinhança, de se manter de costas para os problemas que acometem a nossa região, com desmatamento, ilícitos transnacionais, migrações e por aí vai?

Fernando Haddad - Hussein, em primeiro lugar, eu acho que a gente tem que ver isso num contexto mais geral. Vou citar um exemplo que é muito pouco lembrado hoje, mas se o Brasil não tivesse acumulado cerca de US$ 370 bilhões em reservas cambiais, o Brasil  não teria a menor chance que atravessar as crises que atravessou, sobretudo, a crise institucional e crise política provocada a partir de 2014, quando o resultado eleitoral não foi aceito e criou-se o ambiente institucional que resultou no afastamento sem crime de responsabilidade patrocinada pelos perdedores da eleição com o MDB gerou uma crise institucional sem precedentes. Se a gente não tivesse R$ 370 bilhões em reserva, nós não teríamos atravessado essa crise, muito menos a pandemia, a crise de 2008. Se nós não tivéssemos investido em ciência e tecnologia para prospecção de petróleo em águas profundas, sobretudo no pré-sal, nós hoje estaríamos importando óleo cru. Se nós não tivéssemos blindados a economia brasileira, no período Lula, depois de três crises internacionais México, Rússia e Sudeste Asiático, não teríamos conseguido gerar os superávits primários que geramos, reduzindo a dívida pública brasileira a praticamente metade, como proporção do PIB. Isso precisa ser lembrado, por que isso tudo dependeu de uma política externa patrocinada por aquele que foi considerado o maior chanceler do mundo, Celso Amorim, que abriu no mundo inteiro. O Brasil era o líder nos BRICS, o Brasil era líder no Mercosul, o Brasil era líder no G20, o Brasil era respeitado na Unasul (União de Nações Sul-americanas), não tinha um único fórum internacional em que o Brasil não era respeitado. No mundo árabe, eu tenho descendência árabe, nunca comercializamos tanto Oriente Médio, nunca se abriu tantas portas em todos os lugares do mundo para produtos brasileiros, para serviços brasileiros, eu sou da opinião e aí não fala em nome de partido, estou falando em nome pessoal, se nós não fizemos uma radicalização da política de integração latino-americana, sul-americana no âmbito do Mercosul, nós não ganharemos densidade específica para competir, não teremos peso específico para competir. Outra coisa importante, nós temos que liberar o estado brasileiro das amarras atuais, nós temos três regimes fiscais e estamos indo para cinco, e o que quis dizer, quero ser claro agora, é que quando nós atingimos 21% 22% de investimento global, na economia como proporção do PIB, quem puxou foi investimento público. É errado imaginar que sem investimento público o setor privado vai substituir, aquilo que no país semiperiférico, de renda média como o Brasil, depende ainda da atuação do Estado. As amarras podem acontecer, são saudáveis muitas vezes, para a gente controlar custeio, para a gente controlar a despesa, isso tudo é correto, mas tem algumas despesas, que na verdade são investimentos. Educação é uma delas, e nós aumentamos um investimento em educação como nunca naquele período. Infraestrutura é outra, se nós não ampliarmos o investimento público em infraestrutura, o investimento privado não vai vir. As PPPs (Parcerias Público-privadas) por exemplo, eu tive a honra de ser o formulador do projeto de lei que criou as PPPs, uma delas inclusive o Prouni, que talvez seja a maior PPP da história do Brasil, ela depende de financiamento público, porque conta não fecha. Quando se fala em saneamento, e nós temos um desafio enorme no saneamento, é uma mentira imaginar que setor privado vai resolver o problema de saneamento, sabe por quê? Porque as famílias que não têm, tão pouco têm recursos para pagar a conta do saneamento, então é preciso sim investimento público, não dá para fazer o quê a elite quer fazer agora que é dispensar o setor público de uma agenda de desenvolvimento, isso não significa que o Estado tem que inchar ,nada disso, significa que tem que sobrar recurso para abrir uma agenda de investimento que é a praia, o setor privado e a gente possa superar o recorde de 21% 22% de investimento global na economia brasileira como proporção do PIB.

Eliane Cantanhêde - Obrigada. Bem eu queria fazer uma transgressão, sabe que o jornalista gosta de transgredir, não é? Quero pedir licença para fazer uma pergunta para os dois governadores aqui presentes, Eduardo Leite e João Doria. Porque a gente tem um problema grave que já foi trazido aqui, nessa noite, que é a questão da institucionalidade, a questão da democracia, do estado democrático de direito, que fica sempre pairando no ar nesse governo Bolsonaro. E objetivamente, eu sinceramente nos meus longos anos de praia, nunca pude imaginar que o presidente da República, e eu nem vou falar que ele era o capitão insubordinado, mas já falando, mas o presidente da República que demitiu o ministro da Defesa, um general de quatro estrelas, demitiu todos os comandantes militares e exatamente no dia seguinte, por acaso, um dos maiores aliados dele, o major Vitor Hugo, líder do PSL, apresentou na Câmara dos Deputados um projeto retirando dos governadores o controle sobre as polícias estaduais durante a pandemia, só durante a pandemia. Além disso, esses fatos se somam à obsessão da família Bolsonaro, e do próprio presidente, pelas armas. O presidente derrubou três portarias do Exército e fez um decreto retirando poderes do Exército sobre o controle de armas e munições em mãos de civis. Como o presidente e a família têm ligações efetivas, conhecidas com as milícias, eu pergunto Eduardo Leite e João Doria, primeiro vocês têm ideia de qual é o objetivo do presidente ao demitir os comandantes militares ao tentar retirar o comando sobre as polícias de vocês, aumentar as armas e como é que está a situação com as polícias de São Paulo e Rio Grande do Sul, por favor?

Eduardo Leite -  Sem dúvida nenhuma é um tema que preocupa, começou também isso Eliane, já se visualizava a essa tentativa de se apropriar, se conectar, por parte do governo federal como as polícias militares dos Estados, quando na reforma da Previdência, o governo federal buscou se alçar na estruturação aí da política da contribuição previdenciária das polícias militares. O sistema contributivo é definido pelos estados entre os seus servidores, cada estado define em relação aos servidores civis e militares, a forma, o valor, o percentual de contribuição previdenciária que os servidores deverão arcar para sustentar a previdência, o fundo Previdenciário. E o governo federal buscou atrelar o sistema previdenciário para os militares, das polícias militares, ao projeto da reforma da previdência militar dos militares federais, e isso já foi, sem dúvida nenhuma, uma interferência do governo buscando de alguma forma interferir, como eu disse, na relação da dos governadores com os seus policiais militares, bastante grave já naquele momento. O Rio Grande do Sul não se subordinou a isso e, nós fizemos a nossa própria estruturação do nosso modelo Previdenciário Militar no Rio Grande do Sul, sempre buscando estabelecer o diálogo adequado a nossa Polícia Militar do Estado, a Brigada Militar é de enorme valor, tenho muito respeito e admiração por uma instituição de cerca de 180 anos como Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, e que tem tido absoluta tranquilidade na relação com o governo estadual, mas são inúmeras as tentativas de desestabilizar esta relação como aqui foi falado. E a gente observou, tu trouxeste aqui, do Major Vitor Hugo tentando federalizar as polícias militares na nesse movimento, sem dúvida nenhuma grave, o presidente da República não parece reconhecer o que é a estrutura federativa, a distribuição e a repartição de poderes e de que a União é a soma das partes. Se ele é o chefe do estado brasileiro, chefe de governo e representante desta União, ele tem de reconhecer que esta União é a soma das partes. Um outro problema, só para agregar aqui nesta questão, é a manifestação de que o governo federal teria distribuído aos estados brasileiros um dinheiro para enfrentamento da Covid-19, que na verdade era obrigação constitucional dele. Somou todos os valores que são repassados por obrigação constitucional a título de participação dos estados do Imposto de Renda, por exemplo, e saiu dizendo por exemplo, que tinha mandado para o Rio Grande do Sul R$ 40 bilhões para o enfrentamento da Covid-19. Então, mentiras, fake news, desestabilização da relação com as polícias militares, é sem dúvida nenhuma uma forma de tentar subtrair, diminuir os poderes de governadores e de outras instituições, são os ataques ao STF, são os ataques ao parlamento, ataques aos governadores, tentando colocar a política e as instituições sempre sob suspeita por parte da população, é grave, mas nós temos resistido. Eu confio muito na Brigada Militar que a gente tem no Rio Grande do Sul, mas temos que estar atentos, sem dúvida nenhuma, aos movimentos do governo, a partir não às vezes por parte do presidente diretamente, mas, por parte dos seus aliados, dos seus subordinados que acabam fazendo, porque ele não consegue conviver com as diferenças, e um sistema político como nós temos, com a distribuição de poderes em instâncias federativas, sem dúvida nenhuma, é um obstáculo para este presidente que tenta, exercer com seus arroubos autoritários, a sua visão de mundo, impor ao país e não tolera pela intencionalidade, pelas distribuição de poderes que ele tem de exercer dessa forma o governo.

Eliane Cantanhêde - Governador João Doria, por favor.

João Doria - Eliane, antes de falar, eu gostaria de responder à outra intervenção do Eduardo Leite, que foi muito boa, eu queria apenas dizer que o “Posto Ipiranga” já faliu, já fechou. O governo Bolsonaro não tem mais o “Posto Ipiranga”. E ao Ciro, não discordando, o estado do Ceará, Sobral a cidade de sua família, são exemplos de procedimento correto na educação brasileira. Nós até utilizamos vários exemplos aqui na educação em São Paulo. Eu fui levantar aqui rapidamente, apenas para colocar, sem discordar de você, eu não quero polemizar. São Paulo no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) 2019 foi o primeiro lugar do 6º ao 9º ano da rede pública estadual no Ensino Fundamental II; primeiro lugar na rede pública do 1º ao 5º ano Ensino Fundamental I, e o maior crescimento ano Ensino Médio e agora nós estamos no quarto lugar, ou seja, estamos chegando aí do lado do seu estado do Ceará e seguindo o exemplo de que a educação é fundamental é essencial no Brasil. Estamos juntos nessa luta. Em relação a esse tema que você colocou na institucionalidade, Eliane, o governo Bolsonaro flerta com o autoritarismo, flerta permanentemente, desde o seu primeiro mês, quando eleito vem flertando com autoritarismo. Você sabe e os que estão aqui participando também, eu sou filho de um deputado federal cassado pelo golpe militar 1964, meu pai foi o 17º da primeira lista do Ato Institucional Nº 01, que cassou políticos, intelectuais, integrantes da cultura brasileira, jornalistas. Eu fiquei dois, dos dez anos no exílio do meu pai, eu fiquei ao lado. Morávamos lado a lado com Samuel Wainer, no exílio, então eu sei o que é a tristeza, a dor, os amigos de meu pai foram torturados, foram mortos, foram assassinados, esse é um governo que flerta permanentemente com autoritarismo, e incentiva e estimula como tentou fazer com esta deliberação de tentar tornar polícias militares em milícias do governo federal, um absurdo completo que foi rechaçado pelos deputados federais do Rio Grande do Sul, de São Paulo, e de outros estados também, no âmbito do Congresso Nacional. Mas, esta ameaça vai continuar, Eliane, este Jair Bolsonaro tem uma propensão absoluta para ser ditador, aliás se pudesse ser já teria sido, em 2019, quando atentou quanto o Supremo Tribunal Federal, o ano passado, o ano retrasado, contra as instituições brasileiras, contra os veículos de comunicação. O grupo Globo, no qual você atua tanto no jornal O Globo quanto na televisão, GloboNews e na TV Globo, constantemente ameaçado, assim como a Folha de S. Paulo, Jornal Estado de S. Paulo, a revista Veja e outros veículos de comunicação. Este é um governo que não tolera nenhuma espécie de contraditório, ou de colocações críticas a ele, isso é típico de governos autoritários. Os autoritários, os ditadores não toleram, de nenhuma forma, qualquer tipo de crítica, e esse é o governo autoritário, ainda que tendo sido eleito pelo voto, é um governo com a propensão muito clara ao autoritarismo. É um absurdo completo querer dominar a polícia militar dos estados rompendo o pacto federativo. Isso é absurdo só em um governo ditatorial poderia ocorrer uma coisa com essa. E o Eduardo explicou e eu endosso as colocações feitas por ele. São Paulo tem a polícia militar, são 125 mil policiais militares. São Paulo quase 200 anos de uma polícia militar competente, séria, bem treinada aqui, ainda que Bolsonaro tem de constantemente fazer aliciamento de pessoas que integram as forças da Polícia Militar de São Paulo, não vai conseguir porque o treinamento, a capacitação, a formação e o zelo da Polícia Militar de São Paulo não vão sucumbir ao desejo pessoal ou dos filhos de Bolsonaro, e muito menos no âmbito da Constituição Federal, no âmbito do Congresso Nacional. Mas estejamos atentos Ciro, Luciano, Fernando e você Eduardo, meu colega de governo nesse momento, porque continuam as tentativas para calar os jornalistas, para silenciar cientistas, para emudecer artistas, e para silenciar também governadores e prefeitos, parlamentares, senadores e deputados que se posicionarem contra esse governo. Mas eu tenho certeza que Eduardo e eu, e todos que estão aqui, até pelas manifestações já feitas, aqui não tem mordaça não Jair Bolsonaro. Nós vamos falar a verdade doa a quem doer, seja você, seja 01, 02, 03 e 04 (referência de como os filhos são chamados pelo presidente) o tanto zeros como você têm na sua casa, que aliás começa com sua inteligência que beira o zero. Obrigado.

Ciro Gomes - Amiguinho (Hussein), me permite uma frase neste ponto pela gravidade do assunto.

Hussein Kalout - Por favor, Ciro.

Ciro Gomes - O delírio do Bolsonaro, a educação, correto equilíbrio e a serenidade dos nossos dois governadores já deixou claro, mas eu posso fazer sem a responsabilidade de estar governando nesse momento, mas eu sou do Ceará, onde um experimento já aconteceu, e o meu irmão senador da República levou dois tiros no peito, não morreu porque Deus foi grande e salvou a vida dele, o delírio do Bolsonaro é formar uma milícia para resistir de forma armada a derrota eleitoral que se aproxima.

Hussein Kalout - Obrigado o Ciro. Estamos chegando praticamente ao fim, então vamos tentar concluir essa rodada de forma rápida com perguntas muito objetivas, com respostas objetivas, para a gente ir para as considerações finais. O painel está muito bom ,muita gente assistindo e tem gente está caindo e não está conseguindo se conectar de novo, as pessoas estão interessadas a ver todos os senhores aqui juntos, e se esmerando por ideias absolutamente democrática, dentro do direito do contraditório cada um tem Luciano, eu queria te fazer uma pergunta sobre desenvolvimento sustentável e meio ambiente, a razão da minha pergunta é muito simples, semana que vem vai ter reunião convocada pelo presidente Joe Biden sobre as mudanças climáticas. É um tema muito importante da agenda internacional, o que vai governar, na verdade, a geopolítica mundial na próxima década será a diplomacia ambiental e isso é inescapável, que as mudanças climáticas têm interface com várias coisas: crescimento econômico, Bioeconomia, proteção da biodiversidade, infraestrutura, migrações, tem a ver com uma série de arcabouços. E sobre a Amazônia, o Brasil no tema ambiental sempre foi soberano, muito positivo, nós temos um Código Florestal, aliás desenvolvido pela então ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, no governo do presidente  Lula e depois no governo da presidenta Dilma Rousseff, Código Florestal muito moderno, e hoje está havendo desmantelamento de dois pilares fundamentais que é o aparato de fiscalização o Ibama e o aparato de inteligência ambiental para impedir de fato a expansão da devastação criminosa na região Amazônica. E sob esse aspecto Luciano, eu sei que você entrevistou várias pessoas, muitas das entrevistas que você fez e foram publicadas no Jornal O Estado de S. Paulo, tiveram uma ressonância significativa, e nesse aspecto hoje um perigo estratégico, um perigo para nossa segurança nacional, a forma como a Amazônia está ganhando um corpo próprio. A Amazônia está se transformando na agenda internacional muito porque o Brasil está perdendo o controle da narrativa sobre a proteção da Amazônia. Eu queria te ouvir sobre esse tema.

Luciano Huck - Obrigado, Hussein, Primeiro, eu gostei muito das falas do governador Eduardo Leite do Doria e o retoque final do Ciro, outro importante. É importante trazer esta questão agora nessa conversa, é de suma importância. Eu tenho mergulhado muito nesse tema tentando aprender, ouvindo e o que eu posso te dizer, ouvi muito, muito do agro mais moderna, ouvi muito a turma pensando meio ambiente, e é muito interessante como é muito simples você derrubar esse falso litígio que existe entre produção e sustentabilidade, que é um pouco a cerne dessa questão aqui. O Brasil é um país que reproduz hoje e alimenta um bilhão de pessoas dia, podendo alimentar 3 bilhões podendo triplicar a produtividade dos 25 maiores produtores do Brasil, no restante, mas mais importante que isso acho que o Brasil é um país que nasceu com pensamento de que a riqueza viria da destruição da natureza, eu acho que a nossa maturidade, que é o que a gente tem que conversar aqui, por isso que me interessa, é mostrar que a nossa maturidade tem que ser diametralmente oposta, já que o tema é  natureza, nós somos um país rico por natureza e pobre por escolha, se for fazer uma frase aqui. Porque, não acho que no espaço de uma geração a gente vai produzir tênis mais barato que a China ou o chip de celular mais barato que Taiwan, mas a gente pode ser uma potência verde global, acho que o Brasil deve ser a maior potência agroindustrial do planeta.  Como eu disse, liberar essa agenda de estabilização, por exemplo, não existe nenhuma combinação parecida no planeta com o Brasil. Um país desse tamanho, responsável pela maior floresta tropical do planeta, e acho que a gente tem exemplos bons, você pegar Embrapa na década de 80 até hoje, a gente colhe ainda os frutos plantados na ciência, o Haddad falou da ciência aqui no começo, as sementes plantadas da tecnologia lá atrás na Embrapa, até hoje estão sendo colhidos. A gente desenvolveu uma tecnologia de produção tropical que não existe em nenhum lugar do mundo. O Brasil não tem outro modelo “copy and paste" como você colocou agora, como é que a gente vai fazer a gestão dessa floresta, não existe modelo. Ou a gente conversa com a sociedade em todas as suas esferas ou a gente não vai encontrar esse modelo. E para começar a liderar essa agenda, começa a pensar nos 25 milhões de brasileiros que moram na floresta, dentro dela ou nas suas franjas. Se a gente não cuidar dessa população para valer, precisa educar, preparar e dar oportunidade para essa população, não tem jeito deixar a floresta em pé. Essa população tem que compreender que a floresta em pé vale muito mais do que a floresta do chão. Então, eu acho que alguém passou aqui também, a gente, eu acho que Doria falou isso, tem muito dinheiro na mesa hoje e você tem mais de US$ 50 trilhões no mundo hoje para ser investindo em energia limpa, investimentos limpos, que iam para petroquímica, óleo e gás e que agora estão migrando para esse setor, é muito importante.  Eu pessoalmente acho que a Amazônia tem tudo para ser o Vale do Silício da Tecnologia global, valorizando nossa cultura ancestral que vale muito, como você mencionou, o nosso Código Florestal é um enorme avanço, se a gente simplesmente conseguir implementar o que está escrito lá, já dá um salto qualitativo enorme, e eu acho que o Brasil hoje não lidera nenhuma agenda global como você falou, esta agenda que poderia ser nossa e que apontaria o Brasil para ser maior potência verde global, a gente está virando nesse momento pária do mundo nisso. A carta que eles mandaram para o Biden é uma piada, se você vê o que esse governo fez na agenda ambiental nos últimos anos, da “história da boiada”, você vê aquela carta é uma peça de humor. Beleza, é o que a gente precisa estar lá escrito, mas realmente esse governo vai mudar 180 graus a sua política ambiental, a sua política na relação com agro e colocar nesse caminho para valer? Seria ótimo para todos nós, seria uma grande vitória. Agora entre a fala e a realidade tem uma imensidão a ser atravessada.

Eliane Cantanhêde - Eu queria fazer uma pergunta para o prefeito Fernando Haddad. Haddad, já que a gente fez esse diagnóstico tão dramático da situação brasileira, com as várias boiadas passando na política externa, passando no meio ambiente, na educação e na cultura, eu queria agora focar no lado positivo de tudo isso. Eu há muito tempo não via, desde a época da transição com Itamar Franco, a união de diferentes como eu estou vendo agora. A gente vê os ex-ministros do Meio Ambiente de vários governos, diferentes governos unidos para defender a causa, você vê ex-chanceleres de diferentes governos também defendendo unidos, pressionando por uma política externa minimamente eficaz e pragmática; você vê os banqueiros unidos com economistas, com ex-presidentes do Banco Central, ex-ministros da Economia tentando pressionar e pedir racionalidade. Você vê a pressão internacional sobre o Brasil da mídia, dos fundos de investidores, enfim, há união. Você tem a união de governadores, são mais de 20 governadores, que assinam, que participam e que pressionam. Minha pergunta objetivamente para você Fernando Haddad, que hoje me pareceu mais focado em defender as vitórias e os governos do PT, do que falar do conjunto e do futuro. A minha pergunta objetivamente para vocês é a seguinte: a gente pode usar o governo Bolsonaro como um fator de aglutinação de forças políticas divergentes para o construir o nosso futuro, uma união, uma transição, como foi no governo Itamar?

Fernando Haddad - E vou te responder com um exemplo pessoal, pois eu acho que os exemplos pessoais são os melhores, porque dizem respeito a uma experiência vivida. Eu fui, como você sabe, durante sete anos ministro da Educação, eu convivi durante todo esse período com o ministro Paulo Renato, que durante oito anos foi ministro da Educação, do governo Fernando Henrique Cardoso. Nós pensamos igual? Não, nós tínhamos divergências, mas as nossas divergências estavam num plano pedagógico, que era possível construir consensos, e tanto eu quanto ele sabíamos que teríamos condição de com generosidade, não impor a vontade da situação ou da oposição, mas nos valendo justamente daquilo que eu estou procurando valorizar aqui nesse debate, estou defendendo a experiência, muito importante defender a experiência, e ao dialogar com  Paulo Renato, divergindo conseguia me valer da experiência dele para aperfeiçoar as propostas do governo, e conseguir obter consensos no Congresso Nacional. Estou dando esse exemplo, porque assim tem que funcionar democracia, e não pode ser de outra maneira. Nós temos que ser tolerantes com as nossas divergências. Aqui nós temos convicções sobre o que a gente pensa, mas não é possível que todos nós aqui tenhamos absoluta certeza de que aquele que pensa um pouco diferente está completamente errado. Nós temos que dar alguma margem para o diálogo, você não pode se ver como dono da verdade, você não pode se ver como uma pessoa autoritária que ou leva tudo, ou perto de tudo, como funciona o governo Bolsonaro, é no tudo ou nada em 100% dos assuntos. Então, o que está colocado aqui, eu espero que a gente chega a essa conclusão que óbvia, é que nós podemos sim tolerar as nossas diferenças no clima da normalidade institucional, quem tem de arbitrar é o povo, é o voto. Esse é o senhor da razão, esse erra e se corrige, porque até o povo pode cometer erros, mas é ele próprio que tem que se corrigir, ou não, no ciclo seguinte. Soberania é popular, é assim que eu aprendi, é assim que eu dou aula de Teoria Política, a soberania é do povo, ele que toma na mão os destinos do país. Se a gente tiver essa convicção, a gente não vai ter problema de conviver com toda e qualquer divergência que a gente possa ter, porque quem vai dar a última palavra é o voto, e se o voto se arrepender de uma decisão que tomou, é o voto que vai corrigir. O que nós precisamos é de um pacto, na verdade não porque esse pacto na verdade já existe, ele só que você consequente. É intolerável ter um governo autoritário no país da importância do Brasil, não dá não. Nós não podemos viver com uma espada da cabeça. Eu queria terminar, até em respeito à sua pergunta que é muito generosa, me solidarizando com os dois governadores que estão aqui, que são do PSDB, mas que têm sofrido ataques indignos, intoleráveis, um presidente que se comporta da maneira como Bolsonaro, frente a dois governadores de oposição, porque querem para o seu país algo diferente do que o presidente da República está oferecendo não pode sofrer o tipo de ataque que eles estão sofrendo, isso é indigno da nossa democracia, isso não pode ser tolerado por nenhuma força política. Eu queria registrar o meu repúdio ao tratamento que os governadores vêm recebendo em geral, mas aos dois presentes em particular, passou de todos os limites o que o Bolsonaro está fazendo em termos de dignidade das pessoas, todo mundo aqui merece ser respeitado, já teve mandato, já teve cargo importante, todo mundo honrou, da maneira que soube, deu o melhor, então não é aceitável o que está acontecendo no Brasil.

Hussein Kalout - Obrigado, ministro Fernando Haddad, obviamente, um breve comentário antes de endereçar uma pergunta para o governador João Doria. Eu queria apenas dizer que acho que todos os senhores, como mencionei no início, as virtudes os trouxeram a este painel, que é o compromisso com a democracia, o respeito ao governo, às leis, a divergência saudável sobre agendas programáticas, e quanto tem uma agenda programática dá para divergir, o que não dá para divergir é a forma como o presidente da República procura desrespeitar o trabalho dos governadores, prefeitos e tantos outros brasileiros. Importante salientar também que se não fosse o federalismo que está funcionando o Brasil a despeito do presidente da República, que se não fosse a união dos governadores e ele se ajudarem eu creio que nós estaremos uma situação muito pior e isso é importante deixar de lado, digamos, a política partidária e focar um pouco naquilo que o país precisa. Obviamente não quero ser “Pollyano”, para a política no Brasil cada três meses é uma Era Geológica, então daqui a um ano, enfim, passamos por umas três eras geológicas até lá e as coisas vão mudar, então, por hora o único aqui candidato declarado oficial é o Ciro, cujo partido o lançou, aí do partido se não tivesse o lançado (risos) com todo respeito Ciro, E, obviamente, não queria fechar o painel, sem finalmente, endereçar a questão política eleitoral, porque é uma questão fundamental. O Bolsonaro diz deixou, desde o primeiro dia, de trabalhar pelo segundo mandato, ele não saiu do palanque, razão pela qual ele naturalmente antecipou a disputa eleitoral, e como o governo fraco e incompetente, que não tem um projeto de fato para o país, torna-se mais necessário para o país a discussão da sucessão, razão pela qual o Ciro é candidato e, obviamente, o ministro Fernando Haddad foi candidato na eleição passada, teve voto de confiança de cerca de 48 milhões de brasileiros, o governador João Doria e o governador Eduardo Leite se colocam à disposição de ajudar o Brasil numa condição de presidenciáveis, o Luciano tem vontade de ajudar o Brasil, e o mais importante como ele disse o início, que é o fundamental é trabalhar sobre as convergências não sobre as divergências, e que dará contribuição dele independente da forma como seja. Não é uma disputa simétrica com o PT e o PSDB, porque Bolsonaro não é um democrata. O PT e o PSDB consolidaram a democracia nos últimos 30 anos e reconstruíram a democracia no período pós-ditadura militar. E independente de acertos e erros PT e PSDB são forças democráticas e não é justo colocar na mesma balança Bolsonaro, PT, PSDB, Ciro, Fernando, Eduardo e João Doria. Em um eventual segundo turno, há espaço para construir uma possível aliança mais adiante? Essa pergunta que eu deixo para vocês dois.

João Doria -Hussein vou usar para a prerrogativa da ordem alfabética para que o Ciro comece (risos).

Ciro Gomes - Vamos lá, eu acho que 2022 impõe a nós brasileiros, a todos os democratas, duas tarefas, não é uma só e já começo a responder de forma muito objetiva e pragmática, porque eu sou homem vivido.  São duas tarefas - uma tarefa é banir o bolsonarismo, que é uma coisa assim, de muitas camadas, mas ele é o intérprete ainda da camada mais resiliente, que é essa direita hidrófoba, violenta, homofóbica, misógina, entreguista, moralista de goela, bandida, enfim, não falta adjetivo para qualificar aquilo que para mim, eu não esperava testemunhar jamais, a pior tragédia e já se abateu sobre a vida brasileira. Entretanto, não é essa a única tarefa, a segunda tarefa é o que nós pretendemos colocar no lugar da terra arrasada que ele está produzindo? E isso talvez seja mais nos comova, porque com o andar da carruagem, nós vamos começar a perceber que, aparentemente, o Bolsonaro é o perdedor da eleição futura. O Trump já foi um sinal importante, e olha que o Trump está a anos-luz em matéria de assessoramento, de mínima qualificação, de representatividade de um conjunto de valores não é, que a sociedade norte-americana tem, e ele soube interpretar com mais fidelidade. O Bolsonaro é um boçal, é um boçal genocida, assassino, corrupto, enfim, é uma tragédia que se abateu sobre a vida brasileira. Para gente resolver a questão para o futuro, e aí eu tenho que ser muito delicado, porque se faz parte do processo de construção desse dessa alternativa na terra arrasada, precisamos entender porque com a gente tão amada e generosa, como a gente brasileira, votou nesta aberração, e não sabe, por autocomiseração para condenar a 12 chibatadas, mas no sentido superior de reconciliação. Ou gente entende com muita humildade, não é, o que que fez com que 70% do eleitorado do estado de São Paulo, que deu tantas vitórias, deu seis vitórias ao nosso campo, tomando aí do Fernando Henrique para cá, seis eleições nós ganhamos, aí chega o estado de São Paulo, que é a locomotiva do Brasil, dá 70% dos votos contra um homem com a qualidade moral e intelectual, de pessoa boa, de uma biografia respeitabilíssima, como Fernando Haddad, que está aqui entre nós. Não foi por causa do Fernando Haddad, ou a gente entende isso meus companheiros que estamos assistindo, especialmente os jovens, ou a gente não vai se reconciliar com o Brasil. A segunda tarefa é botar as coisas no lugar, vou ficar com um argumento, para não cansar os mais do que a sua paciência e generosidade e de permitir nessa noite, que eu estou amando está participando com cada um de vocês e falando para o jovem que mais me interessa hoje, superar a miséria de massa no Brasil deve ser o compromisso ancestral e disciplinar de todos nós. Agora deixa eu dizer uma coisa aqui que é extremamente grave, se o país não cresce, distribuir renda é simplesmente impossível. Todos os experimentos de distribuição de renda que a humanidade experimentou, sem crescimento, tiveram a característica média da violência. A Revolução Cultural na China para ficar aqui como a tragédia que matou muita gente, muitos outros momentos da história humana, se o país não crescer, e crescer não é consequência fatalista do acaso. Nós precisamos deixar nossas convicções que tem hegemonizado de forma asfixiante o debate no mundo e, vulgarmente, no Brasil que aqui tem uma componente de vulgaridade, para refletir sobre a experiência de quem está tendo sucesso no mundo, e sobre as condições objetivas do Brasil, vou dizer de novo, esse país em 50 anos, meio século, foi a maior experimento de crescimento da história do mundo capitalista, a China ainda não tomou esse nosso recorde. Se o céu abençoado pelo Cruzeiro do Sul é o mesmo, se a nossa generosidade em nossas bases físicas, estava o Luciano mencionando a nossa produtividade na agricultura, esse acervo de biodiversidade, de uma nova farmácia de uma nova biotecnologia que a floresta pode fazer, água potável, minérios em prodigalidade sem conta, o Bolsonaro vivia falando em grafeno, em nióbio, abandonou o assunto, mas são sintomas de uma riqueza física, que ainda temos mais capacidade que o petróleo do pré-sal não estava sequer ponderado. E se o povo hoje é um povo infinitamente mais preparado para o desafio do futuro, ainda que com muitas de debilidades, caramba, devemos ter clareza que o que está falhando é a política, e aí irmão desculpa, mas o consenso Eliane, não pode ser contra o Bolsonaro, percebe? É gravíssima a recomendação de que nós consertamos para bani-lo da vida brasileira pelo voto, mas a tarefa que deve ser aprofundada é a inteligência do que aconteceu com o Brasil para chegar a essa tragédia, e isso vai dar as pistas do que nós temos botar no lugar.

Eliane Cantanhêde - Já que você me citou Ciro, na verdade ela não disse que seria um consenso contra. Você não constrói consensos contra, mais a um fator aglutinador no país contra tudo que o Bolsonaro representa, mas a favor de retomar o trilho…

Ciro Gomes - pede a palavra - Estamos juntos e a partir daí tudo é dissenso, ou a gente esclarece metodologicamente a qualidade desse dissenso, tendo como premissa o nosso compromisso com a democracia ou a gente simplesmente vai reproduzir uma coisa que não é o país não suporta mais.

Hussein Kalout - Governador Doria.

João Doria - Quero só perguntar, Hussein, esta é a última rodada?

Hussein Kalout - Sim, terminando eu passarei para as considerações finais dos senhores.

João Doria -  Primeiro agradecimento ao Fernando Haddad, falou também em nome do Eduardo que vai ter oportunidade também de agradecer a você pelas colocações que você fez. Eu sou testemunha também, quero deixar claro aqui, da dignidade, da postura que foi a transição da Prefeitura de São Paulo com Fernando Haddad, quando nós vencemos eleições São Paulo, fizemos uma transição tranquila, democrática, equilibrada apesar das nossas diferenças, que foram expostas durante a campanha, mas em nenhum momento fomos ofensivos, agressivos, distantes e nos maltratamos, ao contrário, fizemos uma  transição equilibrada, democrática e construtiva na Prefeitura de São Paulo, e eu queria fazer esse registro Fernando, Lembrando que isso é parte também da sua boa biografia, eu testemunhei isso pessoalmente. E o compromisso com a democracia Hussein, estabelece a capacidade de tolerância, de convivência, de aceitar o contraditório, como acabou de dizer o Ciro, com a veemência que ele tem, e que eu também entendo porque diante dos atentados e das ameaças que recebemos, nós temos de ser contundente sim. Aliás, a Eliane também fez de forma contundente as suas colocações, porque diante de um fato real de que nós temos um governo que além de inepto incapaz é um governo que atenta contra a democracia, contra os democratas. Bolsonaro não governa, Bolsonaro desgoverna e faz isto desde o primeiro dia. Demitiu 17 ministro, 4 ministros da Saúde, 4 ministros da Educação, em duas áreas básicas em plena pandemia, com 370 mil brasileiros mortos, demitiu 4 ministros da Saúde e o quarto não vai durar muito, porque quando recomenda o uso de máscara, recomenda distanciamento, o presidente da República vai para rua e diz: - “olha, máscara para que, não faça distanciamento; está na hora de recuperar a economia, vamos intimidar os governadores que fazem quarentena”, é um desastre completo como já foi dito aqui por todos. O Brasil precisa sim estar unido dentro da Democracia, respeitar o contraditório Hussein, como nós estamos fazendo aqui. As nossas posições não são iguais aqui, você tem quatro pessoas aqui que não são iguais na política, duas que estão exercícios, Eduardo e eu como governadores, Ciro que foi ministro, governador e tem uma longa trajetória de vida política, Fernando Haddad como prefeito e ex-ministro, Luciano como representante da sociedade civil, com toda a com toda a verdade que ele possui ao longo de tantos anos na televisão, mas nós não somos iguais, mas nós temos que ter a capacidade de nos unir e é o que estamos fazendo aqui, aliás a Brazil Conference está de parabéns. Parabéns Hussein, Eliane e Núbia, por que isso aqui é a convergência, apesar de termos pensamentos sobre determinados temas que não são absolutamente iguais, mas pela defesa do Brasil, a defesa dos brasileiros, nós estaremos juntos mas devemos estar juntos e iniciativas como esta Hussein, propõe e mostram que isso é possível, tolerância, capacidade de dialogar, de entender as nossas diferenças, mas trabalhar dentro dessa avenida democrática de proteção ao Brasil e ao seu povo.

Eliane Cantanhêde - Acaba de sair a notícia de que 2.865 brasileiros morreram de Covid-19 nas últimas 24 horas, ou seja, além da média móvel já estar acima de 3 mil mortes, a gente vai chegar efetivamente a mais 3 mil mortos no Brasil por dia. Essa é a primeira questão, isso poderia ter sido evitado, porque todos os especialistas dizem, e porque o então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta foi demitido, exatamente, porque alertava para isso. Então, a minha pergunta curta, sucinta, é: qual é a expectativa em relação à CPI Covid-19, que é o grande foco do país nesse momento, o foco político do país nesse momento. Quem começa? Eduardo Leite, por favor.

Eduardo Leite - Então, com objetividade aqui, a CPI da Covid-19, a gente viu aí uma tentativa do governo federal de trazer os governadores para esse debate, quero dizer claramente que o Rio Grande do Sul não teme qualquer debate sobre aplicação de recursos federais, e a postura que foi a tomada pelo governo do estado, em relação a Covid-19,  aliás nós mais do que triplicamos o número de leitos de UTI no estado do Rio Grande do Sul, tivemos uma atuação para proteger as vidas, o distanciamento, o presidente ele tem uma mania de perseguição, ele realmente acredita que governadores têm uma espécie de conluios com o distanciamento social para tentar desestabilizar o presidente da República ou inviabilizar sua eleição porque isso vai afetar a economia e vai atrapalhá-lo, ele realmente acredita nisso, é uma coisa absurda, porque nós temos 27 governadores, cada um com a sua ideologia, com o seu partido político, e acreditar que haveria um conluio entre governadores, para nada mais do que usar as práticas que são estabelecidas e  reconhecidas internacionalmente pela ciência como a capaz de fazer parar a circulação do coronavírus, ou ao menos reduzir a incidência do vírus, é um absurdo que só pode ser explicado aí por quem consiga de forma, pela psicanálise e explicar a cabeça do presidente que infelizmente uma mentalidade doentia com esta mania de perseguição que ele apresenta. Mas, eu quero nas considerações finais, também de forma objetiva, trazer que a democracia base, o nosso apreço pelas liberdades, o valor da democracia base para o nosso entendimento, mas a gente precisa reconhecer que mais do que os arroubos antidemocráticos do presidente da República, a gente enxerga, infelizmente, uma parte da população brasileira, apreço por esta posição, por esta postura do presidente, não é apenas o presidente, um grupo político que os cerca, que desprezam a democracia, a gente vê acolhimento a esta ideia por parte da população, e a gente tem que entender, como falou o Ciro quais as razões disso. Na minha visão, as razões disso estão na falta de entregas para a população, uma certa frustração com a democracia, com que ela foi capaz de entregar para a sociedade, a educação a gente estava falando aqui, ela efetivamente por mais esforços que tenham sido feitos, estamos aqui com o ex-ministro da Educação que tem a sua atuação, sem dúvida dedicada ao tema e reconhecida, como já foi debatido aqui, mas ela ainda não atingiu, não conseguiu sofrer a revolução, o choque que precisa ter para que a gente consiga inserir essa juventude, para o que o mundo vai exigir, com capacidade de criatividade, capacidade emocional para as tantas mudanças que o mundo demanda neste momento, porque a tecnologia rompe completamente a forma como se produz, como se relaciona, e se nós não conseguirmos dar para esta juventude a capacidade de raciocínio lógico, de interpretação de textos mínimos para que ela se insira nesta sociedade, com capacidade para achar o lugar dela no mercado de trabalho, de produzir, de se adaptar às mudanças do mundo, a gente vai ter uma sociedade cada vez mais frustrada com a própria democracia. E a democracia acaba sendo atacada, então, o respeito às instituições é base do nosso entendimento aqui, mas se não houver a preocupação, eu digo o centro que a gente defende para o futuro do Brasil, não basta ser centro de evitar conflitos e disputas entre nós, tem que ser centroavante, centro para frente, centro com missão de entregas para que a sociedade reconheça a democracia como o caminho para que ela seja atendida nas suas necessidades básicas, especialmente, de emprego, que é o que dá dignidade para a população e,  do emprego vem a questão da educação, do meio ambiente que são também  fundamentais para criação de um cenário econômico melhor para que o emprego seja a atendido. Era isso, obrigado pelo espaço. Obrigado Hussein, obrigado aos meus colegas painelistas.

Ciro Gomes - Quero dizer que eu sou muito cético em relação aos resultados da CPI, sabe eu conheço muitas personalidades todas e tal, e posso destacar figuras extraordinárias, como Tasso Jereissati, que é um grande senador, é um republicano modelo que está lá na CPI; Randolfe Rodrigues, também está lá na CPI. Eles vão espernear, vou ficar só em dois para não ser injusto com mais ninguém, não quero desmerecer nenhum outro, mas o que eu vejo hoje é que pouco importa o resultado, assim como eu luto muito pelo impeachment, já assinei três pedidos de impeachment. Aí os pragmáticos, os politiqueiros aí dizem: “mas não tem condição porque ele tem o centrão” Olha não conhece a história do Brasil, o centrão sempre esteve em todos os governos, estava com Collor e nós fizemos o impeachment do Collor. Porque aquilo é um instrumento democrático que estado de direito tem no presidencialismo e é o único em que um vetor de pressão popular pode-se afirmar, e os políticos têm muitas conveniências, mas não rasgam dinheiro e não comem cocô, como a gente diz aqui no Ceará, desculpando-me pela escatologia. Então, eles vão roer o osso aí do Bolsonaro, vão tomar o dinheiro, esse Orçamento que eles fizeram é de uma aberração inédita na história da humanidade, isso para manter a picaretagem de um tempo de gastos que já nasceu morto, e que é impressionantemente defendido por quem não para estudar em a experiência internacional, nem a impraticabilidade dessa geringonça que está com status constitucional no Brasil, isso é outro assunto, outro debate. Mas veja, quer dizer o quê? Farra fiscal, não. Eu não tenho um dia de déficit na minha longa vida pública como prefeito, governador, ministro, nem sequer dia de déficit. Mas, voltando à nossa questão, se a gente abre esses blocos, a CPI da pandemia, o nível de aberração do Bolsonaro, de responsabilidade criminosa dele, da equipe dele, tende a diminuir drasticamente, porque você tem um lugar onde se apresenta um requerimento imediatamente convocando um Pazuello, palerma, irresponsável, bandido, genocida, general da ativa, já está respondendo por improbidade, o exército brasileiro se compenetrar, um general da ativa acabou de ser nomeado numa sinecura para poder manter fórum privilegiado e tal, que o Supremo veja aqui saiu um chute na dignidade do Supremo Tribunal Federal, o Bolsonaro criar uma sinecura para botar um genocida que é general da ativa do exército, quando eu chegar lá também se for algo meu destino, um dia, também vão mudar os critérios de formação e promoção por que tem uma anta dessa não pode  virar general. É um negócio que eu tenho que dizer em homenagem aos 380 mil brasileiros que morreram e aqueles ainda que vão morrer para a gente criar essa pressão, assim como o impeachment. O impeachment pode não acontecer, preço de hoje não acontece, mas é uma espada de Dâmocles que a gente tem que colocar para que o Bolsonaro, que é um frouxo, tenha medo das reações que a população vias instituição democrática do estado de direito pode manifestar-se, conveniência, juízo de oportunidade deixa o Bolsonaro ficar fazendo. Bom falei que só, me senti abusando, mas eu quero agradecer essa noite. Agradecer aos estudantes de Harvard e MIT, é um privilégio para mim estar com vocês. É para vocês que eu hoje joguei tanta energia assim, com muito entusiasmo, com muita esperança, com muita indignação e revolta que eu procuro transformar em militância, mas esse prazer aumentou muito pela qualidade dos companheiros que participaram desse debate. Fernando Haddad prazer em revê-lo, faz um tempo, um forte abraço. Governador Eduardo um forte abraço. Governador Doria um forte abraço. Luciano forte abraço a você. Meu caro Professor Hussein, inveja da primavera de Boston, mas vamos caprichar aí, não é. Eliane você deu o traço mais charmoso, mas eloquente e de maior qualidade, sem desmerecer nenhum dos cavalheiros presentes aqui nesta noite. Obrigado.

João Doria - Hussein e Eliane, quem não deve não teme. São Paulo, assim como o Rio Grande do Sul, como disse o Eduardo, não tem temor nenhum de CPI. Quem tem que temer a CPI da pandemia é o negacionismo Jair Bolsonaro e seu governo inepto, incapaz, e os seus ministros da Saúde que negaram a pandemia, não compraram vacina, compraram a cloroquina, negaram a equipamento de oxigênio na gravíssima crise que o estado do Amazonas viveu e, especialmente, a sua capital; que confiscaram agora os medicamentos necessários para intubação nas UTI, erro após erro. Um governo, Eliane, que não comprou seringas e agulhas, inacreditável, mas isso aconteceu e quis confiscar seringas e agulhas dos estados que compraram e fizeram a sua lição com antecedência. São Paulo  e os outros 26 estados, não fosse uma medida que nós impetramos no Supremo Tribunal Federal, teríamos tido o confisco de seringas e agulhas para iniciar a vacinação aqui no Brasil, porque simplesmente o secretário executivo da Saúde, do Pazuello, já estão bem lembrado aqui pelo Ciro Gomes, na sua inteligência, na sua capacidade, esqueceu de comprar seringas e agulhas, negaram a compra de vacinas da Pfizer ao dizer que “imagina comprar uma vacina que precisava de uma temperatura inferior, ela não era necessária aqui no Brasil”. Criaram todas as dificuldades possível para aquisição da Coronavac para a manutenção do acordo que fizemos com as Sinovac, o laboratório privado chinês, e se não fosse a pertinência, à luta, vontade a determinação do governo de São Paulo, e modéstia parte, a minha pessoal, nós não teríamos vacina neste momento no Brasil. Teríamos 5 ou 6 milhões no máximo de vacinas, mas milhares de pessoas teriam morrido. O desastre completo. Então, quem tem que temer a CPI é o governo Bolsonaro. E ele teme, nós governadores não temos o temor de CPI. Repito, quem não deve não teme. Quero dizer que o Brasil, e aí o endosso a colocação feita pelo Ciro, o Brasil está na contramão do mundo completamente. O Brasil caiu da 9ª para a 12ª posição entre as maiores economias do mundo no governo Bolsonaro, nesses dois anos um desastre. A economia brasileira é a única a desacelerar entre os principais países, nós corremos o risco de cair para o 14º lugar ao final 2021 Hussein, um desastre completo. Por isso, que eu digo se tínhamos “Posto Ipiranga’, esse posto já fechou e não funciona, não tem mais “Posto Ipiranga” nenhum, aliás que governo autoritário compartilha decisões? Bolsonaro sabe de economia, de saúde, de vacina? Sabe de tudo e não sabe nada. Ele é um zero à esquerda, desculpe fazer aqui novamente esta menção, mas é um desastre completo ele não administra, ele prefere jogar videogame em casa depois das 5 horas da tarde, do que cuidar dos problemas reais do Brasil. Presidente Bolsonaro, Hussein e Eliane, vieram a São Paulo para inaugurar a reforma de um relógio no Ceasa, pintaram a torre da caixa d'água, arrumaram o relógio, e ele veio aqui para inaugurar. Foi a única inauguração que ele veio aqui em São Paulo, nesses dois anos, inaugurar um relógio, é o grau de competência que tem o governo Bolsonaro, grau de competência (risos), grau de incompetência completa. Mas quem paga por isso são os brasileiros site dos 370 mil brasileiros que já perderam a vida, os outros lugares como foi dito aqui, infelizmente vão perder a vida, vamos chegar muito em breve em meio milhão de brasileiros mortos no Brasil. Chegaremos ao final do ano com mais de 600 mil brasileiros mortos, a maior tragédia da história do país, de um governo negacionista e que insiste em ser negacionista, que insiste em intimidar a governadores e prefeitos que fazem as quarentenas e trabalham pelo distanciamento social, um governo que não compra vacinas. “A enxurrada de vacinas”, onde está Eliane, “a enxurrada de vacinas” que o ministro ex-ministro Pazuello, de novo tão bem referido aqui pelo Ciro Gomes, cadê a “enxurrada de vacinas”. Não há, nós não temos vacinas no Brasil. Não fosse o Butantan e o esforço que nós estamos fazendo aqui em São Paulo pelo Brasil, é nosso dever a nossa obrigação, o desastre seria ainda maior. E aqui Luciano, falando em ciência e tecnologia, o Butantan está desenvolvendo uma vacina aqui no Brasil, com apoio da Mont Sinai Hospital de Nova York, mas é uma vacina brasileira - a Butanvac - que já no segundo semestre, se a Anvisa não colocar dificuldade, nós já teremos também, além da Coronavac, a Butanvac. Ciência, tecnologia e investimento em uma instituição de 120 anos de idade que é o Butantan, um orgulho do Brasil, orgulho de São Paulo, mas é orgulho do Brasil. Estamos fornecendo agora 86 milhões de doses da vacina contra gripe 100 % de toda a vacina contra a gripe H1N1 e influenza está sendo produzida aqui em São Paulo e entregue ao Ministério da Saúde. Nós precisamos, como já foi dito aqui, e partindo para as conclusões finais, apoiar a educação nesse governo, não haverá isso, nós temos que construir um projeto de governo e todos nós juntos se possível, um programa de educação que permita aos mais pobres, aos humildes, aos negros, aos que vivem na periferia e também aos indígenas e aos quilombolas terem acesso à educação de qualidade. A recomposição internacional do Brasil, foi muito bem dito aqui, um desastre completo, O Brasil perdeu completamente a posição que conseguiu manter independentemente dos governos passados. Hoje somos pária do mundo, um pária da saúde, infelizmente, o Brasil é um país indesejado, e nós brasileiros também,18 países do mundo não aceitam o ingresso de brasileiros sem quarentena e sem comprovação de vacina, alguns países cancelaram voos como fez a França, na semana passada, um desastre, uma vergonha, nós temos que recompor desta forma aqui com a tolerância, que nós aqui todos apresentaram, cada um na sua forma e de maneira respeitosa, para unidos ajudarmos a salvar o Brasil. Espero que isso aconteça, e acredite Eliane e Hussein, vocês vão passo muito importante, nos colocando aqui pela primeira vez juntos, é o primeiro debate que eu parecido com Luciano Huck, com o Eduardo, com o Ciro e com Fernando Haddad juntos, nós temos diferenças, todos sabem disso, mas temos um ponto que nos une que é o Brasil, o povo brasileiro, e que nos une também é preciso dizer, contra esse facínora, genocida chamado Jair Messias Bolsonaro, o “mito da morte”, nós todos temos uma corrente democrática para vencê-lo no voto em 2022. Obrigado, Hussein.

Fernando Haddad - Respondendo à pergunta da Eliane, eu sou cético em relação à CPI, mas ela tem que ser feita, e ela pode ser usada no bom sentido, porque nós estamos no meio da pandemia ainda, estamos longe do fim desse pesadelo, e ela pode sim e deve ser usada para constranger o governo a tomar medidas não podemos esperar 2023. Eu comecei falando e vou terminar falando isso, nós não temos até 2023 para agir, nós podemos agir no Congresso Nacional, nós podemos aprovar leis importantes para a sociedade atravessar o deserto e a gente sim chegar na eleição em condições de derrotar o governo. Mas nós temos tarefas a cumprir até lá. Então, eu acho que a CPI, para além da sua missão de apurar responsabilidades, e é devido, nós temos um ex-ministro que tem que prestar contas do que não fez ao longo dos últimos meses, nós temos sim condições de constranger o governo a tomar medidas para salvar a população. Nós temos, eu repito, quatro vezes mais óbitos, proporcionalmente, do que a média mundial, isso não é aceitável sob nenhuma hipótese. Entendo a colocação de Eduardo Leite, que é correta, esse governo tem base social, tem pessoas que têm uma formação autoritária no Brasil, e desejam um caminho que não é a nossa vocação, nossa gente acredita no voto, a nossa gente acredita na participação, na democracia, a melhor maneira de corrigir equívocos é pelo voto. Essa é a melhor maneira. Nosso povo não vai aceitar soluções autoritárias, mas se o Bolsonaro chamar para briga, eu tenho certeza que tem muita gente aqui que vai topar a confusão, porque não vai aceitar que o Brasil retroceda para a Idade Média como é a proposta desse governo. Não dá para aceitar, aliás soube que na Idade Média, os padres fecharam as igrejas em época de pandemia, aprendi isso na semana passada. Então é pré-histórico esse governo e é insustentável a gente continuar, mas repito, nós temos que mirar também 2021, e não só 2022. Sobre as considerações finais, foi um prazer enorme participar desse debate, todo mundo sabe, mas repito eu represento sim um projeto político. Eu sou de um partido político que eu ajudei a construir, sou filiado a ele há mais de 30 anos, com muito orgulho e tenho muito respeito pelo legado que foi deixado no combate à desigualdade. Tenho muita esperança nessa geração, quero dizer isso, Eliane eu tenho muita esperança nos pobres que chegaram à universidade, eu aprendi com grandes historiadores, nacionais e estrangeiros, que um país só tem projeto nacional quando o pobre chega na universidade, porque até o pobre chegar na universidade, a universidade produz projetos para a elite, para quem está estudando lá, mas agora isso mudou. Hoje nós temos quase 70% dos jovens das universidades públicas que são egressos da escola pública. Essa moçada vai chegar e vai fazer a diferença, não existe projeto nacional da cabeça de iluminados, o que existe projeto nacional forjado a partir da base, se a gente olhar para essa juventude chegou lá por próprio mérito, mas com as oportunidades criadas, nós vamos poder contar com uma massa crítica extraordinária, e eu sei que muitos desses estão nos ouvindo agora,  é nessa geração que eu confio o destino do país, e eu tenho certeza que ele vai se recuperar muito rapidamente depois desse pesadelo. A gente precisa, como diz minha mãe, que é uma pessoa muito doce, a gente precisa prometer, todos nós, que não vai votar em psicopata no segundo turno de 2022. Um abraço. Muito obrigado.

Luciano Huck - Antes das considerações finais e do agradecimento, só para colocar o que a Eliane perguntou, eu acho que essa CPI ao meu ver é a democracia brasileira mostrando a sua força, pesos e contrapesos funcionando, acho gente teve uma gestão temerária da crise sanitária, das consequências econômicas que a gente está vivendo, como você acabou  de falar 2.300 famílias hoje perderam alguém amado, um avô, um tio, um vizinho, um amigo, tenho vários amigos hospitalizados passando dureza, então, chegou perto de todo mundo. Do seu lado também ontem, estava conversando com a turma da Central Única das Favelas (Cufa) que está fazendo um trabalho brilhante distribuição de cestas e chegando lá na base da pirâmide mesmo, e falando que tinha gente vendendo, famílias que tiveram problema com comida e tinham um fogão em casa e botijão de gás, estavam vendendo um fogão e o botijão de gás para poder comprar comida para cozinhar à lenha. É uma coisa inacreditável o que está acontecendo no Brasil hoje em dia, então acho importante a gente deixar sempre os olhos bem atentos e acho que a CPI é isso. E nas considerações finais, quero dizer que foi um privilégio enorme participar dessa conversa aqui, comecei falando das nossas convergências e não discordei de nada o que foi dito aqui nem pelo Ciro, nem pelo Haddad, nem pelo João, nem pelo Eduardo, nem pelo Hussein e nem pela Eliane, então é possível a construção de uma narrativa comum, ah, a gente vai ter a perfeição, o estado da arte do que a gente gostaria? Não, todos nós teremos de fazer concessões de parte a parte, para quem te ache um caminho alternativo para o Brasil. Eu acho que está vivendo um filme de terror mesmo, alguém precisa acender a luz, e acho que a luz vai ser acesa se a gente de fato conseguir construir um projeto que se conecte com as pessoas e que sejam alternativa, que as pessoas voltem a ter um projeto que possa ser, que não jogue ou não brinque com a esperança dela, mas que traga a realidade de uma esperança de um futuro melhor. Eu falei lá atrás que o Brasil não deu certo, eu quis deixar claro que o Brasil pode muito mais. O Brasil pode ser menos desigual. O Brasil pode ser mais alegre, mais justo, mais feliz, muito mais eficiente e muito mais afetivo. Eu amo esse país, eu amo as pessoas daqui, é com quem me relaciono de verdade, é o que e transformou de um jovem branco da elite paulistana, filho de professores universitários em alguém que de fato que a participar do debate, quer contribuir com o debate, não quer confundir o debate, foi vivência com as pessoas na rua, no dia a dia, conversando, entrando na casa, abrindo a geladeira, tomando cafezinho. É isso que me coloca aqui. Então, eu tenho uma relação de amor com esse país, eu não gostaria que a gente abandonasse esse sonho maior. A gente está aqui numa conferência organizada por estudantes que tiveram o privilégio de estar estudando no exterior e que muitos deles consideram não voltar. É uma riqueza que se perde nessa juventude, como o Haddad falou, eu concordo, em gênero, número e grau Haddad, o futuro vem das novas gerações, não vem dos gabinetes, não vem dos partidos, vem da molecada que está chegando. Outro dia para encerrar só, eu fui no Complexo da Coruja, que é um complexo de favelas aqui em São Gonçalo (RJ) que tem uma delas que se chama Morro do 40, e vou conversar com o menino chamado Douglas, até o vi no RJTV aqui, fazendo Uber solidário. Ele não tem carro, ele conseguiu cadastrar um monte que faz Uber para levar os velhinhos e velhinhas para vacinar, que não tem carro. Vi ele hoje na TV hoje, mas eu personagem meu de alguns anos atrás. A mãe dele morreu assassinada, o pai dele morreu assassinado, o primo dele morreu assassinado e ele virou para mim e falou: - “Luciano, chegou uma hora na minha vida que eu decidi que eu queria que a minha geração, que minha família fosse mais a formaturas do que em funerais”. E é isso que a gente precisa, a gente precisa acalmar esse país, precisa dar oportunidade para as pessoas, então, eu realmente estou muito feliz hoje aqui. Como eu disse desde o começo, me coloco aqui como a sociedade civil ativa, no exercício de cidadania ativa e fiquei muito feliz da conversa com vocês aqui, mostrando que é possível sim a gente convergir num projeto comum e que de futuro para as pessoas e traga esperança de volta muito. Muito obrigado Eliane, mesmo aí, pela gentileza. Hussein como sempre, obrigado. Ciro, Fernando, João e Eduardo foram um privilégio. Muito obrigado a todos os alunos que organizaram essa conferência e a todos os que assistiram, muita gente que nos assistiu hoje. Obrigado aí pelo tempo, hoje foi longe para o sábado à noite, e mais legal foi o cachorro do Haddad que passou umas 10 vezes atrás da gente, vou fazer um meme para contar quantas vezes o seu cachorro passou atrás de você (risos).

Hussein Kalout - De repente me passou uma pergunta na cabeça, mas eu fiquei com medo de vocês passarem horas e horas para respondê-la. O governo Bolsonaro tem alguma coisa positiva que fez em dois anos e alguns meses?

Ciro Gomes - A menor taxa de juro dos últimos 35 anos.

Hussein Kalout - Um ponto positivo.

Eduardo Leite - E eu acho que a reforma da Previdência foi um avanço importante, só que ela vem mais na esteira do governo anterior do que como ação concreta dele. E tem algumas questões na área de Infraestrutura, eu respeito ministro Tarcísio que está na Infraestrutura, ele tem feito um trabalho importante, a ministra Tereza Cristina na Agricultura, respeito o trabalho deles, acho que eles avançam, mas não é agenda do governo Bolsonaro, são alguns ministros que conseguiram avançar e não é mérito do presidente, infelizmente.

Hussein Kalout - Isso acontece a despeito do presidente.

Luciano Huck - Ter viabilizado o Auxílio Emergencial, a trancos e barrancos, mas foi importante durante a pandemia.

Hussein Kalout - Foi o Congresso Nacional, é importante lembrar isso.

Fernando Haddad - Minha resposta é não. Não acho que seja possível pontuar uma ação diante do descalabro que esse cidadão representa na presidência da República. Acho que isso aí você faz com o governo democrático, você não faz com o governo autoritário. No governo democrático você pode avaliar os pontos positivos e negativos, todos têm positivos e negativos, mas o Bolsonaro é um retrocesso civilizatório que não passa na régua, em qualquer juízo de valor.

João Doria - Concordando com o Fernando, mas apenas uma colocação da verdade, mas não discordando do que falou o Eduardo, em relação à Previdência. A Previdência só foi aprovada porque no governo Michel Temer ela foi construída lá para ser aprovada, então ela não é uma conquista deste governo, foi feita neste governo, mas do Congresso Nacional.

Ciro Gomes - Permite uma parte Doria. A informação cultural dessa da Previdência hoje é a maior da história.

João Doria - Gigantesco. E em relação ao Auxílio Emergencial, de novo, também, não quero discordar de Eduardo, por quem tenho grande admiração e estima e amizade pessoal, mas foi o Congresso Nacional que fez, não foi o governo. A proposta do governo era de R$ 200, capenga com a liderança do Rodrigo Maia, como o presidente da Câmara dos Deputados que colocaram R$ 600 e o Auxílio Emergencial se tornou uma conquista, mas não foi do governo Bolsonaro. O governo Bolsonaro não fez a o Auxílio Emergencial, e a única conquista, para terminar Hussein, com bom humor, é o fato de que o Bolsonaro se tornou o pária do mundo, essa é uma conquista, o Brasil nunca tinha tido um pária do mundo, hoje tem chama-se Jair Messias Bolsonaro.

Eliane Cantanhêde - Eu queria agradecer ao Ciro, Eduardo, Fernando Haddad, João Doria e ao Luciano Huck, a você meu amigo Hussein, a Núbia, mas eu queria mandar um abraço e os meus parabéns especiais para os alunos de Harvard e MIT. Realmente eu fico muito satisfeita de vocês estarem discutindo o nosso Brasil, contem sempre com a gente.

Hussein Kalout - Boa noite a todos vocês, antes de  encerrar eu queria agradecê-los pela  disponibilidade de todos que têm uma agenda extremamente ocupada, agradecer pela gentileza com a qual vocês atenderam ao convite da Harvard & MIT Brazil Conference, dizer que é um evento histórico juntá-los aqui e verificar que os denominadores democráticos e programáticos são mais próximos do que distantes, e por fim realçar a grandeza de todos que generosamente, a despeito da distopia do governo, buscaram com certa sensibilidade conhecer o outro ponto também. Por fim, quero agradecer, em nome da Brazil Conference, ao jornal O Estado de S. Paulo, que foi parceiro da Brazil Conference desde o início fazendo a cobertura dos mais variados painéis desta edição do ano de 2021. Viva a democracia. Viva o Brasil. E mando a minha saudação a todos vocês e também às famílias dos milhares de brasileiros que perderam os seus entes queridos lamentavelmente. Um abraço e boa noite.




Expediente

 Editor executivo multimídia Fabio Sales / Editora de infografia multimídia Regina Elisabeth Silva / Editor de Política Eduardo Kattah / Editores Assistentes Mariana Caetano e Vitor Marques / Editores assistentes multimídia Adriano Araujo e William Mariotto / Designer Multimídia Bruno Ponceano, Dennis Fidalgo, Lucas Almeida, Vitor Fontes e Maria Cláudia Correia / Edição de texto Fernanda Yoneya, Valmar Hupsel e Mariana Caetano

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