Lei de cotas e ações afirmativas precisam extrapolar o ambiente público e serem adotadas no setor privado. O tema foi discutido no Painel “Equidade racial nas organizações” na 7ª Brazil Conference
O painel “Equidade Racial nas Organizações”, da 7ª Brazil Conference Harvard & MIT, foi realizado neste 16 de abril e transmitido ao vivo pela internet. A programação pode ser acompanhada pelo portal do Estadão, parceiro na cobertura do evento, além dos canais da conferência no Youtube e Facebook, a qualquer tempo.
O estudante de Economia de Harvard e líder do painel, Camilo Vasconcelos, apresentou os convidados para o debate: a fundadora e diretora do Instituto Identidade do Brasil (ID_BR), Luana Genot, o advogado e conselheiro federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), André Costa, a professora do Departamento de Sociologia FFLCH-USP Márcia Lima e a jornalista Ana Cristina Rosa que moderou o encontro.
Os painelistas abordaram a temática ao citar a efetividade da Lei de Cotas e ações afirmativas para estudantes negras, negros e indígenas nas universidades públicas, que ocorrem há 20 anos, assim como no serviço público federal. Para eles, além da continuidade dessas iniciativas, é necessário expandi-las para o setor privado, além dos programas de estágio e trainees focados na população negra e que é preciso envolver todos na luta antirracista.
Na avaliação do líder do painel, Camilo Vasconcelos, “seja na esfera pública ou na esfera privada, parece que as organizações brasileiras finalmente começaram a entender a importância de agir para promover a equidade racial, mas esse processo ainda parece que acontece com pouca celeridade”
O painel questionou o que será necessário para a efetiva existência da equidade na sociedade brasileira e qual a melhor maneira de sensibilizar a população em relação à importância dessas políticas e como torná-las ainda mais efetivas.
Para a professora Márcia Lima é necessário repetir o que chama de mantra. “Sociedades extremamente desiguais não têm mecanismo meritocrático. Uma vez dito isto, é preciso criar políticas de equidade para alcançar a igualdade.”
Na avaliação de André Costa, são ações afirmativas que possibilitam a efetiva equidade racial na iniciativa privada e no poder público, por meio de metas, objetivos e ações, e bolsas destinadas a negras e negros.
À frente do ID_BR, Luana Genot desbrava a equidade racial no mundo corporativo e luta por indicadores tangíveis que permitam a presença de pessoas negras no mercado de trabalho privado. “Sou fruto destas políticas públicas por ter ingressado na universidade e luto para que essas políticas sejam implementadas no mundo privado, para que a gente possa experimentar uma primeira geração CEOs de C-levels nesse ambiente.
Camilo Vasconcelos - Oi boa noite a todos. Meu nome é Camilo Vasconcelos, eu sou estudante de graduação em Psicologia e Economia da Universidade Harvard e hoje vou apresentar para vocês o painel Equidade Racial: como implementar políticas e iniciativas organizacionais mais efetivas. A Lei de Cotas, aprovada em 2012, aproxima-se do seu período de revisão. Ela prevê que parte das vagas de instituições públicas federais de ensino superior sejam destinadas a pessoas pretas, pardas e indígenas, em paralelo, surgem também programas de estágios e trainees focados nessas populações. Seja na esfera pública ou na esfera privada, parece que as organizações brasileiras finalmente começaram a entender a importância de agir para promover a Equidade Racial, mas esse processo ainda parece que acontece com pouca celeridade, e pensando melhor, será que num país marcado por mais de 300 Anos de escravidão, medidas que visam aumentar somente quantitativamente a participação de grupos pouco representados bastam para promoção de um país com mais Equidade Racial? Como sensibilizar a população quanto a importância dessas políticas e como criar políticas ainda mais efetivas? Para discutir essas e outras questões a gente terá este painel moderado pela jornalista Ana Cristina Rosa e contará com a participação de Luana Genot, fundadora e diretora executiva do ID_BR, André Costa, autor das leis de cotas da OAB, advogado e conselheiro federal da organização e a doutora Márcia Lima, coordenadora do Afro Cebrap e professora do departamento de Sociologia FFLCH-USP. Para dar início ao painel eu gostaria de passar a palavra para Ana Cristina Rosa. E aí Ana Cristina, como é que você está?
Ana Cristina Rosa - Oi Camilo. Boa noite a todos é um prazer estar aqui contigo e com todos vocês para realizar a moderação desse painel nessa noite. Eu Quero Agradecer o convite dos organizadores da Brazil Conference, para estar aqui hoje realizando a moderação, participando desse evento, sobretudo para discutir um tema tão importante, tão relevante, quanto é a Equidade Racial nas Organizações, especialmente em um país como o nosso país, tão desigual. Nas colunas que eu escrevo na Folha de S. Paulo eu tenho tratado não só, mas preferencialmente, da questão da desigualdade racial no Brasil e de todos os efeitos deletérios que resultam da desigualdade racial. Nosso país é um país racista e isso precisa ser dito, ser debatido em alto e bom som. E um dos lemas desta conferência, uma das propostas dessa conferência, é justamente de bater para transformar o Brasil. E com certeza é muito necessário debater questões importantes como é a questão racial e todas as suas implicações. Se nós quisermos de fato transformar a realidade brasileira. Camilo então eu me sinto assim muito gratificada de poder estar aqui nesta noite para tratar de tema tão importante como é a igualdade racial nas organizações. Como já foi dito por várias pessoas, para gente mudar o Brasil, para a gente transformar essa realidade, a gente precisa entender essa luta, não sozinho e não só os negros, mas também os não negros, essa é uma luta de todos nós, de toda a sociedade brasileira e as organizações estão aí inseridas com certeza nessa batalha para a gente fazer essa luta antirracista que é uma luta de todos nós. E é uma luta imensa, é uma batalha imensa. Porque fazer frente a promoção da igualdade racial numa sociedade estruturalmente racista não é pouca coisa, não alguma coisa fácil. Eu gostaria de passar já para o nosso debate, é muito assunto, para pouco tempo, e já passar a bola para os nossos debatedores. Eu estou extremamente feliz de poder estar que virtualmente ao lado de painelistas tão capacitados, tão qualificados, para tratar de um tema como esse, como são a professora Márcia Lima do departamento de Sociologia da USP e coordenadora do Núcleo de Pesquisa sobre Raça, Gênero e Justiça racial o Afro Cebrap; Luana Genot, fundadora e diretora executiva do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR) e André Costa, autor das leis de cotas da OAB, advogado e conselheiro federal da organização. E espero que nós tenhamos um debate bastante produtivo, que a gente possa contribuir para as reflexões futuras e agregar aos debates nos estudos e nas pesquisas de vocês estudantes Harvard, mas não só aos estudantes de Harvard, mas para toda a nossa audiência, não só hoje, mas para quem vier a assistir esse painel futuramente, porque fica gravado e disponível. É preciso alterar a realidade brasileira e conferir aos negros uma possibilidade de exercer plenamente a condição de cidadão brasileiro. Sem mais delongas vamos passar ao nosso painel, e eu queria começar justamente um tema que tu trouxeste na abertura Camilo, que é a questão das cotas raciais, da instituição as cotas raciais. Eu gostaria de saber os nossos painelistas. Iniciando pela professora Márcia Lima. Qual é o entendimento de vocês em relação a instituição da nossa política de cotas no Brasil? Nós temos a reserva de vagas em universidades, reserva de vagas para negros e indígenas, e deficientes no caso de concursos públicos, nós temos recentemente uma conquista do nosso advogado André, em relação à reserva de cotas dos advogados negros no conselho da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Gostaria de saber de vocês, se vocês entendem que as ações afirmativas, se as políticas de cotas em vigência, se elas são suficientes para garantir a participação efetiva das pessoas negras em todas as esferas da nossa sociedade brasileira, por favor Professora Márcia palavra com a senhora.
Márcia Lima - Boa noite a todas e a todos. É um enorme prazer estar aqui. Obrigada, Camilo pelo convite. Obrigada Brazil Conference. Quero cumprimentar também os colegas de Harvard, uma parceria que eu gosto muito. Gente, este debate é muito importante, eu acho que as políticas de cotas elas devem se somar a outras políticas e estratégias. Ao longo desses anos todos que a gente tem implementado essas políticas, a gente viveu e enfrentou muitas polêmicas em relação às políticas de cotas. Eu acho que a gente deve falar de políticas de ações afirmativas e ampliar a forma de entender que cota é uma forma de ação afirmativa, cota é uma possibilidade que a gente tem de enfrentar esse problema, ela não é a única maneira da gente agir em relação a isso. No caso das universidades públicas, a gente tem essa política antes da Lei 12711/12, ela iniciou na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), no começo de 2000, a UERJ completa 20 anos essas políticas. A política federal vai completar 10 anos ano que vem, mas mesmo antes da implementação da lei federal, várias universidades foram implementando essas políticas, criando os seus próprios modelos, eu acho que isso é muito importante. Como as instituições foram criando as suas formas de implementar essa política. Nós temos a política da Lei 1290/14 que implementou as políticas para o serviço público nas instâncias federais. Eu acho que essas políticas são bem avaliadas, no caso das políticas de ações afirmativas no ensino superior nós temos bons resultados, mas a gente precisa que elas permaneçam por muito tempo no Brasil, porque nós no Brasil ainda precisamos enfrentar um debate, que eu acho que essa mesa se propõe, sobre como funcionam internamente a questão da permanência na universidade, da mesma maneira que quando tratamos das organizações públicas ou privadas a gente tem que discutir o ambiente institucional, a gestão da diversidade, a gente não pode pensar só no ingresso ou na política formulada para o acesso. A gente tem que pensar tanto na permanência no caso da universidade, mas também como que a gente precisa pensar é esse processo da gestão, diversidade, ações afirmativas, cotas, todo esse processo, o sucesso dessas políticas deve ser pensado na forma como a gente vai gerir essa política, e gerir essa política envolve a gente enfrentar o racismo cotidiano que a gente tem no Brasil.
Ana Cristina Rosa - Isso é falta de gentileza e cavalheirismo, mas eu gostaria de ouvir agora o doutor André e vou deixar a Luana para o arrematar, para a gente começar e fechar essa primeira rodada com mulheres, por favor doutor André.
André Costa - Boa noite, para mim é uma alegria e uma honra participar desse evento. Primeiro pelos temas, pela importância, nós estamos na 7ª edição da Brazil Conference. Segundo pela alegria de estar ao lado da professora Márcia Lima, da Ana Cristina Rosa e da Luana Genot, que eu não tinha conhecimento anterior, mas assim que eu sou da formação do painel eu fui conhecer a trajetória de cada uma, e para mim é uma honra estar ao lado de vocês mulheres poderosas e que têm a capacidade de lutar por algo que é fundamental, o que é preciso no Brasil e no mundo, é preciso lutar para conquistar o direito das mulheres, como também os direitos das pessoas negras. Quero agradecer a organização, especialmente uma pessoa do Camilo Vasconcelos, que me localizou, e me convidou a participar desse evento, o que muito me honra. Eu quero dizer que o Brasil um país marcado por 368 anos de escravidão apenas de 132 anos de pós-abolição, uma abolição inacabada, falar em ações afirmativas ainda continua sendo essencial. A gente tem muitas pessoas que são contra as ações afirmativas, e uma delas na modalidade de cotas, de forma que não entende a importância desse tipo de política pública e política privada. Por exemplo, a OAB, uma instituição que completou 90 anos somente agora em 14 de dezembro de 2020, a OAB instituiu uma política afirmativa. Hoje eu sou o único conselheiro negro, entre os 81 titulares. A grande força da ação afirmativa, a grande importância, é exatamente a desnaturalização do lugar do negro. Somente com essas políticas e aqueles que criticam não consegue apresentar uma alternativa, quando vem com aquele discurso que é necessário que bastam políticas universalizantes, generalistas, eu pergunto: - E o jovem negro, o jovem que não têm oportunidade de entrar na universidade? Por que o discurso do mérito, nós sabemos que não trata da realidade. Então cotas, para mim, são fundamentais, são temporárias, eu já não discuto professora Márcia, Luana, a questão da constitucionalidade, pois isso o Supremo Tribunal Federal resolveu em 2012, quando teve aquela grande polêmica entre 2009/2012 - se as cotas no ensino superior público eram ou não eram constitucionais, e o Supremo resolveu, quando foi 2014, com base na Lei de Cotas, vários juízes e diversos tribunais diziam que a Lei de Cotas era inconstitucional. O Conselho Federal da OAB entrou com ação declaratória de constitucionalidade no Supremo Tribunal Federal, a DC/41, e o Supremo disse sim, as contas temporárias são políticas importantes para implementar igualdade, não meramente formal, mas a igualdade substancial, igualdade material. O Supremo Tribunal Federal já teve funcionamento, então as leis, a política de cotas, as políticas especiais, elas não ferem o princípio da igualdade, na verdade elas promovem a igualdade material. E, claro, que isso é influência do movimento negro, de quem lutou pela igualdade racial, é influência os brancos não racistas, por que nós sabemos que a luta contra o racismo no Brasil, contra o preconceito racial, é uma luta que os protagonistas são os homens negros e as mulheres negras. E as mulheres negras na perversidade que é o racismo sofrem muito mais do que os homens nós sabemos disso, e falou isso, não por que estou no painel com mulheres, isso porque diálogo e sei o que é o dia a dia, conheço a experiência disso. Minha experiência pessoal é de que sou a primeira pessoa a ter curso superior na minha família. Eu sei o que os meus antepassados passaram. Então, eu trago na minha história, as vitórias do mundo da advocacia, mas não esqueci o lugar de onde eu vim e o lugar onde nós temos de chegar. Então, ações afirmativas para mim são fundamentais, porque não vai haver na minha concepção, não vai haver equidade sem você ter políticas de ações afirmativas implantadas tanto pela iniciativa privada, como o poder público. Olha a grandiosidade, eu não canso de dizer isso, onde nós passamos. Talvez as pessoas não tenham o conhecimento do que seja a potência que é uma instituição como a OAB. Vou resumir a Ordem dos Advogados, que deveria ser da advocacia do Brasil, até porque são homens advogados e mulheres advogadas, representam quase 1,3 milhão inscritos hoje no Brasil, é a maior entidade de classe do mundo. Através da OAB você preenche cargos nos tribunais superiores, nos Tribunais Regionais Federais, nos Tribunais de Justiça que a gente chama de "quinto constitucional”, a OAB tem direito de participar deste processo de preenchimento dos tribunais. Imagine que espaço poderoso para ter a diversidade, a representatividade, a divisão de poder. Então, a partir da aprovação dessa proposta de ações afirmativas na OAB, saibam aqueles que ainda não conhecem e coincidentemente Ana Cristina, foi publicada essa semana, foi aprovada a proposta que eu tive a iniciativa de subscrever para apresentar o conselho federal, em junho do ano passado, claro, que é um acúmulo de luta de diversos setores, diversos advogados, diversas entidades, e foi aprovado em dezembro de 2020. Esta semana foi publicado o provimento da resolução. A partir dessas eleições do conselho federal da OAB, os conselhos seccionais de todos os estados nas subseções, a partir de 2022, 30% dos cargos que existem em todos os órgãos, em todos os estados, e subseções e nas caixas de assistência, ou sejam todos os órgãos da instituição OAB, deverão ser preenchidos 30% por advogadas negras e advogados negros. Para se ter uma ideia ficou especificado que cada estado elege três conselheiros federais titulares e três suplentes. A partir 2022 um titular tem que ser um advogado negro ou advogada negra ou suplente tem de ser advogada negra ou advogado negro. Isso significa que a partir de 2022 hoje são 81 conselheiros, são três por estado, então a partir 2002 a gente vai ter no mínimo 27 advogados negros e advogadas neste órgão de classe que é tão importante para o Brasil. Olha a mudança, isso vai ser durante 30 anos no mínimo, durante 10 mandatos. Para fechar essa primeira intervenção, sim eu só acredito hoje, na situação, na conjuntura que nós vivemos em outras lutas como a professora Márcia colocou muito bem e certamente a Luana vai colocar, mas não tem como prover equidade, não tem como democratizar o acesso ao poder nas organizações e entidades sem haver políticas de ações afirmativas.
Ana Cristina Rosa - Isso vai se dar a partir da próxima eleição na ordem é uma verdadeira revolução, não é doutor André. Eu queria passar a palavra para Luana, por favor, Luana.
Luana Genot - Obrigada Ana Cristina. Gente boa noite a todas e a todos. É um prazer estar aqui com vocês, com a professora Márcia Lima, também com André Costa. Obrigada a Brazil Conference e Camilo pelo convite e a todas e todos que estão organizando esse painel e essa conferência tão importante. Bom, eu sou Luana Genot, sou a diretora executiva do Instituto identidade do Brasil ID_BR, que promove a campanha “Sim à igualdade racial”, e eu digo isso porque igualdade racial está no cerne do que a gente faz, e do que a gente acredita. Pessoalmente eu sou filha de políticas públicas, sou filha de cotas, sou a primeira mulher negra da minha família a ter o ensino superior e jamais poderia deixar de enfatizar isso, num discurso, e no painel que fala sobre a importância desse tipo de políticas públicas. E também obviamente que ecoa no setor privado. A gente está falando sobre olhar a situação do Brasil, tal qual ela é, como desigual, e dar oportunidade direcionadas para grupos que não têm um acesso igualitário às oportunidades, bem como o André já citou, que a gente tem o histórico de desigualdade de quase quatro séculos de escravidão, e por isso a gente ainda sofre as consequências disso ainda nos dias atuais. Então, é só para complementar ao que já foi dito aqui, eu acredito muito que o papel que o Instituto Identidade do Brasil, tem hoje, é muito o de complementar o que já tem sido feito pela esfera pública, pelos movimentos negros de sociais de maneira geral, por todos aqueles que estão envolvidos diretamente ou indiretamente com a pauta antirracista, para que a gente consiga fazer com que as leis existentes, tentando responder um pouco as reflexões propostas aqui, tentando fazer com que essas leis saiam do papel dentro do mundo corporativo. Então, a atuação do Instituto Identidade do Brasil é no setor privado, especialmente hoje, a gente se propõe a ajudar a acelerar a promoção da igualdade racial no mundo corporativo, a gente tenta fazer uma virada de chave que parece muito sutil, do campo do discurso, mas que ajuda também na prática. A gente costuma propagar que mais do que dizer não ao racismo, a sociedade precisa dizer sim a igualdade racial, porque dizer não ao racismo não significa muita coisa. Dizendo sim à igualdade racial, você diz às ações afirmativas, você diz sim a um posicionamento efetivo, a um projeto de ações e atividades ao longo dos anos visando implementar metas, prazos e investimentos em uma série de atividades que são promovidas em prol da igualdade racial, olhando a gestão de pessoas, a comunicação, o discurso do ou da CEO, olhando se há transparência nos dados em relação à sociedade civil, porque seria superimportante que toda e qualquer pessoa pudesse acessar o site das 500 maiores empresas do Brasil, pelo menos, e ver lá tal qual tem um relatório de sustentabilidade que elas dissessem quantas pessoas negras estão ali, como tem sido feita a gestão dessa diversidade, me fazendo valer aqui das palavras da professora Márcia. Como essa diversidade tem sido tratada, em termos de promoção, em termos de desenvolvimento, de capacitação e de jornada ao longo do seu do seu tempo. O que que a gente vem percebendo? Que a maioria dos profissionais negros daqueles que conseguem entrada nas empresas, eles permanecem congelados em suas carreiras, então, a maioria deles não recebe propostas para subir naquele ambiente ou acabam sendo empurrados para outras oportunidades fora daquele mundo corporativo. São pessoas que geralmente não chegam no topo das lideranças. Hoje nosso cenário é que, segundo o Instituto Ethos, dentro das 500 maiores empresas no Brasil a gente tem apenas 5% de profissionais negros nos cargos de liderança, em menos de 1% é profissional negra dentro desse corpo da liderança, estou falando de cargos de diretoria, de conselho de administração, e próprio Instituto Ethos projeta que a gente pode demorar 150 anos para mudar essa situação. E por outro lado, a gente tem pesquisas com a da Mckinsey Company que vão mostrar que as empresas que têm mais diversidade étnico-racial, dentro do seu quadro, performam 35% a mais, ou seja, a diversidade e inclusão, para além de um aparato de uma base, além de ter uma base legal, ela também dá subsídios para que as empresas cresçam, porque são populações que trazem soluções para produtos e serviços que antes não existiam dentro dessas empresas, quando têm o poder de liderança, são pessoas que vão trazer novas visões, que vão fazer com que aquela empresa consiga dialogar com mercados, que ela antes não dialogava, então a gente tem justamente levado essa pauta para as empresas de uma maneira bem palatável, mostrando para essas empresas esse resultado, e que a promoção da igualdade racial, ela é legal e precisa também se dar no âmbito real e com metas, prazos e investimentos ao longo de uma jornada bastante promissora, mas que leva tempo, gente está falando de cultivo que leva tempo, cultivar leva tempo. E para encerrar minha fala neste primeiro bloco, eu queria dizer que ainda dentro do mundo corporativo quando a gente vai falar sobre cotas ou ações afirmativas, isso ainda é muito demonizado, no sentido de “nossa os negros não merecem passar por isso, é quase uma subversão”, então, quando a gente conversa com CEOs de grandes empresas, ainda é muito comum, infelizmente, mesmo estando em 2021, a gente que lida com as empresas, ainda precisa dizer isso. Muitas delas ainda têm muito medo de falar sobre a temática, mesmo após George Floyd, ainda meio que estranho e acham “vou fazer aqui uma política para uma pessoa negra, eu não vou estar subestimando a sua inteligência?”, então, a gente precisa explicar o básico para essas empresas, explicar que é um direito, explicar as cotas e as ações afirmativas não começam com a população negra, existiriam tantas outras leis, doutor André sabe explicar melhor do que eu, e a gente está aqui tentando corrigir de maneira temporária uma desigualdade direcionando oportunidade para grupos que vêm sendo negligenciados e vulnerabilizados. Então a gente ainda está muito falando básico, o ABC nas empresas, tanto é que a gente diz que a gente faz o ABC da raça. Eu acho que uma forma também de a gente avançar seria comunicando, de uma forma em massa, sobre a necessidade das cotas. O que eu vejo também é que mesmo entre profissionais negras e negros, muitos deles são convencidos de alguma forma por esse discurso de que não deveriam aplicar para um processo seletivo direcionado, porque não querem se fazer valer de algo que pode subestimá-los. Então existe um tabu muito grande em relação a essa temática. Eu acho que uma campanha de comunicação também que explicasse que cotas é direito, isso poderia ajudar para a gente poder avançar.
Ana Cristina Rosa - Como se houvesse um desmerecimento, como se tivesse associado ao mérito, não é Luana. Eu queria fazer um comentário, nós temos aqui um painel com quatro pessoas negras e dessas que nenhum de nós quatro é um matusalém ou está caindo aos pedaços, dessas quatro pessoas, três são a primeira pessoa em suas famílias que conquistaram um diploma no curso de nível superior. Isso eu acho muito significativo do que é o racismo estrutural no Brasil. Eu acho que isso é uma coisa bastante ilustrativa do que é a sociedade brasileira, do que é o racismo estrutural, uma das faces do racismo estrutural na sociedade brasileira. Bom, feito esse comentário que eu achei bastante ilustrativo das falas de vocês, vieram uma série de coisas que têm a ver com o nosso debate, o que nos leva para nossa próxima rodada. A pergunta é a seguinte: a professora Márcia trouxe a questão da gestão da diversidade e da permanência dessas pessoas, dos cotistas, da gestão dessa permanência. O doutor André trouxe a questão de desnaturalizar o lugar do negro, e a Luana trouxe a questão da diversidade como valor agregado do que se ganha com a diversidade em termos de criatividade e também de performance, do que a diversidade traz para o business mesmo, além de agregar em termos de criatividade também é bom para o negócio. Então eu queria ouvir de vocês, e queria começar pela Luana, sobre o que vocês entendem que é necessário fazer para segurar a permanência, vamos dizer assim ,e o crescimento das pessoas, garantido o acesso por meio de ações e políticas de ações afirmativas, garantir a permanência e o crescimento dessas pessoas no mercado, e já trazendo junto com isso, queria direcionar para a Luana que tem um contato mais intenso com o mundo corporativo, se tu sente Luana, que as empresas estão dispostos a reconhecer que elas precisam de fato mudar, se existe de fato essa intenção de reconhecer que é preciso mudar.
Luana Genot - Obrigada pela pergunta Ana. Eu queria trazer aqui alguns dados, institucionalmente o ID_BR vem tentando mapear qual é a diferença de investimento na pauta antirracista no Brasil e nos Estados Unidos. Então até agora, na verdade, a gente tomou como base levantamento feito pelo blog Candid que disse que de 2011 a 2019 foram investidos US$ 2.3 bilhões na pauta antirracista nos Estados Unidos. Depois do George Floyd, foram investidos somente no primeiro semestre US$ 4 bilhões, ou seja, a gente teve os em 2020 mais investimentos na pauta antirracista do que em um período de quase dez anos nos Estados Unidos. Quando você vê o que que a pauta de George Floyd causou no Brasil, a gente ainda tem movimentos muito tímidos das empresas em relação a quanto elas estão investindo na pauta. Então quem está aqui assistindo pode sentir mais do que a vontade, nos sites, nos blogs, nas páginas do Instagram das empresas e perguntar: - quanto você investe na pauta antirracista? E você dificilmente vai encontrar esse dado. E os poucos que a gente encontra são dados relacionados às respostas a problemas como a varejista que a gente teve Alberto morto, ou um caso notório de racismo midiático, onde você vai ter ali quantias significativas, de alguma forma de R$ 20 milhões, R$25 milhões para investir na pauta antirracista ao longo de um X de tempo. O que a gente costuma dizer, se no Brasil pensando em uma conta bem simples, a gente investe 800 vezes menos na pauta antirracista no mundo corporativo, estou aqui levando em consideração esse quadro onde a gente mapeia, como a gente quer criar novos Barack Obama e Oprah Winfrey etc., porque geralmente a grande pergunta do mundo corporativo é onde está o Obama brasileiro? A gente tem milhões de Obamas brasileiros, milhões de Micheles brasileiras, e a gente tem só esse olhar sobre o que acontece lá fora etc., mas quando a gente vê o dever de casa que a gente está fazendo aqui ele é muito incipiente.
Ana Cristina Rosa - Luana, será que a gente, a gente que eu digo, será que o mundo corporativo e a sociedade brasileira como todos realmente querem encontrar o Obama brasileiro, a Michele brasileira? Eu sinceramente me pergunto isso.
Luana Genot - Então, a questão é a gente não vai ter a bola da vez na internet, agora é a história do polígrafo, a gente não vai ter um polígrafo para poder detectar o que as empresas estão pensando, mas a gente pode ter delas metas, prazos e investimentos, e particularmente a nossa filosofia no ID_BR Ana, para a gente, não tem como medir a intenção, mas independentemente de ter de ser pela dor ou pelo amor, o é importante é que faça. Eu acho que vai muito pela toada do que o André falou da OAB, a gente quer ver números, quer entender quantas as pessoas negras vão estar aqui, mas mais que isso, a gente quer entender qual é a meta de promoção, qual é a meta de desenvolvimento, qual é a meta de treinamento dentro do âmbito corporativo para que as pessoas possam ter mais contato com a pauta antirracista. É um pouco complicado a gente dizer o que as empresas querem? As empresas são compostas por pessoas que pensam de maneira diferente, às vezes você tem uma gestão que até tem determinado engajamento mais próximo com
a pauta, ou por razões pessoais ou por algum motivo, e de repente esta gestão, e tudo muda também, mas às vezes as pessoas que estão na média gerência, algumas mais afinidade, outras menos, mas o que a gente tem percebido de maneira factível e que tem dado resultados são empresas que bonificam seus funcionários por atingimento de metas relacionadas à diversidade e inclusão, e não fica só no campo individual de fazer porque gosta, porque essa causa toca o coração etc., não, isso vai ser o seu bônus no final. Então, eu acho que tentando responder aqui brevemente a pergunta, eu acho que quanto mais a gente criar indicadores tangíveis para esta questão, mas a gente pode medir os avanços de uma forma menos do eu acho que eles estão querendo fazer isso ou não, pois vamos poder medir isso, assim como nós somos a primeira geração da família a ter acesso ao ensino ao ensino superior, e esse foi fruto de políticas públicas e que sejam agora essas políticas privadas sendo também implementadas no mundo privado, para que a gente possa experimentar uma primeira geração CEOs de C-levels nesse ambiente é o que a gente espera. E isso só se dá com metas, prazos, investimentos, acompanhamento e pressão da sociedade civil, é assim que a gente acredita.
Ana Cristina Rosa - Doutor André.
André Costa - A verdadeira doutora aqui é a professora Márcia (risos) a gente tem esse cacoete de chamar advogado de doutor, mas Ana, vamos olhar nossas trajetórias as pessoas têm um discurso muito forte do mérito como se a pessoa sozinha tivesse conquistado isso, ninguém na vida conquistou algo sozinho, ou teve ajuda dos pais, ou teve ajuda de alguém que o adotou, teve ajuda um professor ou teve oportunidade. Por exemplo, eu parto de qual lugar? Eu sou o seu advogado que atua na área de Direito Público, com ênfase em Direito Eleitoral, Direito Político, tive a possibilidade de advogar, atuar e ser reconhecido na área, só que as pessoas às vezes exigem que a gente seja vitoriosa individual e esqueça de onde viemos. A grande diferença de nós e que nós não esquecemos de onde viemos e a gente quer trazer um grupo de gente conosco, porque não tem justificativa plausível que, nós sendo a metade da população, a gente ainda não tenha tido no Brasil um presidente negro. A gente fala do Barack Hussein Obama lá nos Estados Unidos e a professora Márcia, acho que teve muito contato lá nas universidades, sabe que lá só tinha 3% da população que se declarava negra. Se você pegar do momento da declaração dos direitos civis à eleição do Obama foram mais de 100 políticos, senadores, governadores e pessoas com destaque. Quem é a atual prefeita de Chicago? Quem é Barack Obama? Alguns dizem que o Barack foi igual aos outros presidentes. Não estou discutindo isso. Que de direito dos negros de erraram ou acertarem, pois nós queremos a divisão do poder, porque? Porque não se justifica ter um advogado, um médico, às vezes eu vou para alguns diálogos, e aí eu pergunto professora Márcia, Ana, Luana, eu pergunto qual foi a última vez que você se consultou com um médico negro ou uma médica negra? Você acha que o apartamento ou a casa que você mora casa foi um engenheiro negro quem construiu? E Ana colocou, é por falta de capacidade? Não. Luana, nós só temos os grandes escritórios, conforme a Folha de S. Paulo publicou no ano passado, somente 1%nto dos advogados e advogadas são negros ou negras. E tem uma campanha que lançaram há alguns anos, Ana Cristina, que eu acho fantástica, porque tem uma pergunta, que eu acho que em vez da resposta, Preto Zezé da Cufa, você tem que vir através do constrangimento. Onde você guarda o seu racismo? É na fala de que “cotas são mimimi”, é na ideia de que “todo mundo tem igual a oportunidade”? A Luana tocou bem, nós tivemos quase quatro séculos de escravidão, é verdade, mas como diz o Silva Almeida, que acho que é um livro que deveria ser adotado em as escolas, dentre outros, mas o autor do Racismo Estrutural, ele diz uma coisa fantástica - O racismo no Brasil tem uma tecnologia tão eficaz que mesmo percorridos mais de 132 anos da Abolição, os negros e as negros, apesar de serem metade da população, não têm a metade da riqueza. Porque querem colocar a gente num dilema entre classe e raça. Não, tem desigualdade provocada pela questão da classe plástica sim; tem desigualdade provocada por muitos motivos, mas no Brasil a cor da pele, a raça, etnia podem definir o lugar da pessoa na relação social, na relação econômica, na relação jurídica. Com os avanços das cotas o Conselho Nacional de Justiça, em 2015, baixou resolução dizendo que a partir dali todos os concursos para a magistratura deveriam ter ao menos 20% das vagas para candidatos e candidatas negros e negras. Isso tem que permear todos os espaços. Primeiro, acho que deveria haver um critério falando que o poder público tem a obrigação pela nossa Constituição Federal de 1988 de promover igualdade. Segundo, deveriam vincular os financiamentos, os investimentos das empresas à questão da diversidade, à questão da inclusão, porque o Estado sabe que são as pessoas negras no Brasil. Não estou aqui querendo diminuir o discurso, porque as pessoas têm dificuldade e dizem quem é negro no Brasil? É aquele que se autodeclara negro que inclui os pretos e os pardos. Vocês vão ver daqui a alguns anos, na OAB que pode ser exemplo para outras entidades de classe, para as outras organizações, porque está dando exemplo. Porque vejam bem, a OAB vive uma espécie de contradição, porque ela defendeu as cotas no ensino superior em 2012, defendeu a Lei de Cotas e as cotas no serviço público em 2014, mas não tinha feito essa transformação interna que vem agora. Não é só uma questão de justiça, também é uma questão de justiça. Tem vários estudos que a Luana falou sobre a questão que a diversidade promove o desenvolvimento também daquele empreendimento, e as pessoas refletem que está tendo uma política afirmativa e vai ver que a população negra, apesar de ser pobre, também tem muita gente que investe. Então, seja pelo lado da Justiça, seja pelo lado da diversidade, até pelo utilitarismo, nós temos de promover a diversidade. O que não podemos mais aceitar é que, ao olharmos para o lado, a da gente não saber onde são as negras e negros, nós temos de olhar para o lado e saber que temos advogados, juízes, desembargadores, jornalistas, diretores dos jornais negras e negros. Esse debate aqui é muito importante, a organização deste evento, está fazendo essa mesa aqui. É importante discutir é Equidade Racial na educação, na organizações, mas eu quero que nos eventos, e eu digo isso não OAB que eu não quero só o advogado ou advogado na comissão de Promoção da Igualdade Racial, ou uma comissão de Reparação da Escravidão Negra, eu quero advogado (a) negro (a) na comissão de Direito de Família, na comissão de Direito Eleitoral, na comissão de Estudos Funcionais, então é importante que tenhamos painéis como esse, mas eu quero olhar e ver cadê o painel Desenvolvimento Econômico, tem uma pessoa negra pessoa, e não só aquela questão da representação, porque nós também não cairmos na armadilha de ter um que representa o todo. Nós queremos estar em todos os espaços, homens e mulheres negras, porque somos capazes, quantos doutores nós formamos tanto em políticas de cotas nas universidades, nós falamos com orgulho, nós não falamos com gostam de usar “vitimismo”. Sim eu fui a pessoa conquistar uma graduação na minha família, a Luana, Ana Cristina, não sei a história da Márcia, mas depois a gente já teve outros, porque qual é grande importância e eu quero concluir, também de tudo que a gente falou em relação às ações afirmativas? É que a criança e ao adolescente negro e negra possam dizer: o André conseguiu, o Ana Cristina conseguiu, a Luana conseguiu e a Márcia conseguiu e eu posso conseguir. Porque quando a gente diz que os próprios negros às vezes têm medo ou receio das políticas de cotas, é porque vem sendo incutido, desde quando a criança, você vai vencer pelo mérito individual, não conta a realidade, a realidade é que ninguém vence sozinho, de um modo de outro, já falei isso aqui, teve uma ajuda. Se nós formos pensar em nossos antepassados, as pessoas negras são vítimas no Brasil das mais diversas violações que o estado provoca, as pessoas negras também devem ter o direito as políticas propositivas, políticas de inclusão. Nesta perspectiva, deveríamos vincular políticas de Estado, por exemplo, bancos públicos financiam empresas privadas porque não pode impor critérios de inclusão, e não só critérios econômicos, mas critérios para promover a diversidade dentro desses locais. É para essa finalidade o papel do Estado, para distribuir renda e riqueza, para gerar oportunidades, e não pode gerar oportunidades somente para um setor da sociedade, tem que gerar para todos para tratar a desigualmente, já sabemos disso, não é de hoje, é preciso promover a igualdade.
Ana Cristina Rosa - Professora Márcia, por favor.
Márcia Lima - Eu comecei a estudar desigualdade racial no mercado de trabalho na minha iniciação científica. Então, eu estudo esse tema há 30 anos. O que acompanho na minha agenda de pesquisa são muitas transformações, não só na forma como a gente investiga este tema, mas também como a agenda tem se transformado, desde quando eu comecei a minha trajetória como intelectual, estudando esse tema, e também sou da primeira geração de universitários na minha família. Mas eu acho que as ações afirmativas fizeram uma diferença muito grande nesse processo. O que diferencia nós, dos jovens negros hoje, pelo menos na minha experiência, é que quando eu fui a primeira da família, junto com as minhas irmãs e um irmão, a primeira geração de universitários negros da família, na sala de aula na universidade, eu era a única negra, ou talvez eu e mais uma ou duas pessoas. Me lembro que tínhamos eu e Luana Nascimento Nunes Pereira, uma grande amiga, mas eram as duas únicas na turma que entrou em Ciências Sociais da UFRJ em 1989, nós éramos as duas alunas negras em uma turma de mais de 100 pessoas. E o que hoje a gente vê nas ações afirmativas é que você, quando jovens negros entram na universidade tanto pública quanto privada, porque o Prouni é uma política de ação afirmativa, esses jovens não entram mais isoladamente, não têm mais essa experiência solitária que a gente teve, muito desafiadora. Eles têm hoje um outro movimento e isso faz muita diferença para a trajetória que eles têm dentro da universidade né acho que isso é uma coisa é muito importante da gente marcar, pois é uma geração de estudantes que estão entrando, isso faz muita diferença na trajetória, nas possibilidades, nas redes de relações que eles criam dentro do espaço Universitário. Pensando nessa questão de iniciativas, de permanência, de como é sobreviver nesses espaços, eu acho que acho que a Luana falou muito bem sobre a questão organizacional, eu acreditaria que eu que a gente tem alguns espaços, que não são espaços organizacionais, mas que precisam também de a gente ter essa reflexão. Eu sou professora da Universidade de São Paulo Universidade (USP), maior universidade desse país, e a Universidade de São Paulo tem menos de 5% de seu corpo docente de professores negros. Eu acho que as ações afirmativas, a gente já tem quase 20 anos pelo menos da UERJ, e de outras universidades, a gente já tem docentes negros no Brasil suficientes para ocupar mais espaço nas universidades. O mundo acadêmico não é o mundo organizacional, não tem as mesmas regras do mundo organizacional, mas ele tem o fomento público maior, principalmente, na academia em termos de pesquisa, eu acho que essa ideia de a gente investir na formação de jovens universitários negros, a gente tem que estender esse debate para a docência também, porque ela é fundamental. Eu vejo a diferença que faz para os alunos, a USP começou uma política de ação afirmativa três anos atrás, é uma das últimas universidades brasileiras a pensar dessa forma, e eu vejo como os alunos sentem, eles falam para mim sobre a importância de ter uma professora negra em sala, faz uma diferença na formação deles, a ideia dessa identidade, é muito importante. Mas acho que a gente tem que ocupar os espaços organizacionais e tem uma preocupação Luana, que eu acho que vocês também devem ter nesse debate com as empresas, porque quando eu comecei a estudar o mercado de trabalho de igualdade racial nos anos 1990, quando você falava de política de diversidade racial na empresa, que é um debate muito incipiente ainda no Brasil, a diversidade racial, as empresas eram tão brancas, que a diversidade racial era ter pessoas negras em cargos muito subalternos, e isso acontecia muito, eu lembro que o Programa Nacional de Ações Afirmativas criado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, essa política chegou a tentar um modelo André, que era justamente contratar empresas que tinham diversidade ou apresentavam alguma forma de diversidade, eles contratavam pessoas negras para servir café, motorista, e falavam que tinha uma diversidade racial. Então, em relação à diversidade racial, a gente tem que também levar em consideração que lugar essas pessoas estão ocupando, se elas têm possibilidade de ascensão, e tem que levar para dentro das empresas a discussão sobre o racismo, e não apenas entre as pessoas negras que estão nas empresas, esse debate tem de ser trazido para o todo, o corpo da empresa tem que falar disso. A gente tem o sociólogo Oracy Nogueira, que estudou relações raciais no Brasil, ele ficou muito famoso por falar da diferença do preconceito no Brasil nos Estados Unidos. E Oracy Nogueira tem uma frase quando ele fala da etiqueta das relações raciais no Brasil, ele fala que “no Brasil não se pode tocar no assunto da cor”, que a gente não pode tocar no assunto do racismo e nós criamos a nossa ideologia racial no silêncio, é de não falar nesse assunto, de não tocar nesse assunto, e a gente não pode reproduzir isso, quando a gente cria políticas de diversidade nas empresas, porque se a gente fizer isso, ou seja botar pessoas negras nesses espaços e silenciar essa questão, a gente está produzindo mais angústia, mais dificuldades que essas pessoas, elas precisam poder falar disso, essas políticas têm que envolver toda empresa, todos os níveis hierárquicos da empresa, isso tem que ser conversado, tem que ter oficina, tem que ter workshop, tem que ter espaço para falar disso. E o Oracy Nogueira falava muito dessa ideia, a expressão que ele usava era: “em casa de enforcado, não se fala em corda”, e no Brasil a gente não fala na corda, mas a gente continua usando a corda para enforcar. Então, acho que isso é uma questão que é muito importante, que a gente precisa realmente estar atento e tem outra dimensão que não é organizacional, mas que acho que a gente precisa também articular essas instâncias, acho que a questão da política é fundamental. Agora que a gente agora que financiamento de campanha é com dinheiro público, a gente tem que discutir sim, essa lei tem que ser implementada, é dinheiro público e ele tem que contemplar a diversidade racial. Esse debate é importante, ele tem que avançar, e André, isso o que você falou, mas se ele vai ter uma agenda conservadora etc., porque a gente não cobra isso dos homens e mulheres brancas que estão lá dentro? Por que a gente tem que cobrar isso dos homens negros as mulheres negras? Deixa eles se a ver, deixa ele chegar lá lidar com o racismo desses espaços, como um político negro, como deputado negro, como um senador negro, ou mesmo como um vereador negro, a lidar com as consequências disso. Se ele vai ser conservador ou não, a agenda que ele vai defender, a gente tem que avançar nesse debate. Racismo é uma estrutura de poder, se a gente não reestruturar isso, a gente não tem como a gente mudar a realidade do nosso cotidiano, a gente não muda o cotidiano do racismo se a gente não mudar as relações de poder as estruturas e relações de poder da sociedade. A gente só vai mudar essas estruturas de poder, se pensarmos tanto na perspectiva estrutural e também na perspectiva organizacional e cotidiana do racismo. São diversos níveis, nós na Sociologia a gente fala isso na pesquisa, quando você observa um determinado fenômeno, a mesma coisa para enfrentar esse fenômeno, então racismo é um fenômeno que tem que ser enfrentado nessas diferentes esferas. A gente fala muito da questão do racismo estrutural como se não tivesse solução, é estrutural como se fosse uma coisa que a gente não pudesse transformar. Por isso que a gente precisa de políticas, mas elas não são suficientes para a gente não introduzir no cotidiano um debate sobre racismo e preconceito, cotidiano.
Ana Cristina Rosa - É muito, muito relevante esse ponto que tu trouxeste Márcia e o André também, até porque a questão é tão complexa, tão desafiadora que precisa ser acompanhada de um debate interno, porque, quando propuseram esse debate eu fiquei pensando “Equidade Racial nas Organizações”, sendo o Brasil uma sociedade tão desigual e tão racista estruturalmente falando, como é que é isso? Olha que desafio que a Luana tem pela frente quando lida com as corporações. Então, é assim a sociedade brasileira é racista, mas é uma sociedade racista sem racismo? Aí eu entro na empresa, do elevador para dentro é Equidade Racial, da porta para fora é racismo estrutural, coisa mais complicada, não é? Então, se não trabalhar isso dentro da organização, dentro da corporação fica muito difícil mesmo, mas tem que ter uma mudança que vá além da introdução das pessoas, dos corpos negros nas organizações. Eu recebi uma mensagem que o nosso tempo está se esgotando. Eu queria pedir para que vocês brevemente fizessem as considerações finais, se pudessem resumir, de uma maneira sucinta, o que vocês fariam se tivessem esse poder, essa capacidade de colocar em prática uma ação para que pudessem tornar a equidade racial no mundo corporativo, nas organizações, vocês fariam o que? Começando pela Luana.
Luana Genot - Olha Ana, você pediu para ser sucinta, eu vou dar meu máximo. Primeiro queria agradecer pela oportunidade de estar aqui, foi um prazer, uma honra, quem quiser conhecer mais o trabalho do ID_BR www.https://simaigualdaderacial.com.br E, se eu pudesse fazer uma coisa, eu vou tentar ser o mais prática possível, eu chamaria todas as pessoas que estão no painel “Futuro do Brasil”, que são pessoas brancas que estão ali pleiteando talvez a presidência, ou pensando esse futuro onde a gente não vê pessoas negras aqui na Brazil Conference, para que a gente fizesse um debate só com esse presidenciáveis para entender como é que eles pretendem pautar o antirracismo como plano de governo. Eu sinto muita falta de pessoas brancas pautando o antirracismo, assim como a gente está vendo o Joe Biden nos Estados Unidos com Kamala Harris, no sentido de colocar igualdade racial como pauta de governo. Eu queria muito provocar essa discussão no painel “Futuro do Brasil” porque parece que o futuro continua sendo branco e a gente está aqui discutindo igualdade nas organizações. Eu quero que essa discussão também se expanda para esse painel e, que se possível, a gente possa fazer um fórum para os presidenciáveis, ainda no próximo mês, antes do burburinho das eleições, para entender o que se pretende fazer em termos de políticas públicas para todos aqueles que querem se prestar à presidência. Estou organizando essas ideias com o Tom Mendes que trabalha comigo aqui no ID_BR. Eu quero convidar os presidenciáveis para a gente poder pensar em pautas antirracistas para os próximos anos. É isso, obrigada.
Ana Cristina Rosa - Por favor, André.
André Costa - Vou dividir três sugestões. A primeira eu queria agradecer a alegria em poder participar desse evento e poder dialogar, ainda que minimamente, trocar ideias com vocês. Segundo, que o próximo evento, em cada edição, esse painel “Equidade Racial nas Organizações”, tivesse a Ana Cristina como mediadora e todos os debatedores fossem os quatro ou cinco maiores empresários do Brasil para perguntar o que eles fazem para promover a equidade. A equidade racial só vai tomar frente da gente sair desse cercadinho onde nós discutimos entre nós mesmos, para discutir com quem tem o poder econômico. O que eles estão fazendo para incluir a população negra? Concordo com a ideia da Luana, mas eu acho que ele trazer política e as grandes corporações, porque que se o universo chamado mercado, eu quero aproveitar para mandar um abraço para o amigo Tom Mendes, que eu conheci o ano passado e deu uma força na luta também da questão das cotas na OAB, esse universo da política ele tem um contraponto com o mercado, porque se o mercado, essa entidade imaginária, esse conjunto de forças, ele também produz e concentra a riqueza, precisamos saber o que o mercado pretende fazer para promover a diversidade e inclusão das pessoas negras no Brasil. E por fim, dentro dessa proposta, para mim Ana, toda entidade privada, todo o poder público tem que ter políticas de ações afirmativas. O que são cotas? Cota é uma coisa simples, cotas são metas. Quantas pessoas negras você vai incluir em determinado período? As cotas não são eternas, as cotas não são para sempre. Quando eu falo as cotas em 20 universidades, as pessoas ficam reclamando do tempo, o que são 30 anos diante 358 anos de escravidão? São 15 anos de política afirmativa. Seriam essas ideais Ana - ações afirmativas na iniciativa privada e poder público, só se faz equidade racial com ações afirmativas, só se faz equidade racial com políticas concretas, equidade não pode ser uma palavra solta, discricionária demais, é preciso ter metas, objetivos com prazos determinados em um ano, três anos, cinco anos, em dez anos, ou se tem públicas concretas, ou a gente vai continuar discutindo equidade como se fosse uma bondade, de justiça que o outro faça, não é só um ato de generosidade.
Ana Cristina Rosa - Não é favor.
André Costa - Não é favor. Você jovem está nos escutando e está com bolsa, veja que todo mundo recebe uma bolsa, todo mundo tem uma ajuda, e para terminar preciso deixar claro: o racismo não é um problema dos negros e das negras, o racismo é um problema dos brancos, eles são racistas conosco. Por isso, que eu digo, nós somos os protagonistas dessa luta, mas nós temos que trazer para nós os brancos não racistas, porque sem esse apoio, a gente não vai conseguir avançar. Muito obrigado, Ana pela oportunidade. Obrigado, professora Márcia. Obrigado, Luana. Obrigado a todos que estão nos assistindo, estar aqui com vocês foi uma alegria para mim, muito obrigado.
Ana Cristina Rosa - Professora Márcia, por favor.
Márcia Lima - Foi um prazer enorme, passou tão rápido, foi uma conversa super agradável, deliciosa, um prazer enorme conhecer o André, a Ana, a Luana, mais uma vez obrigada a Brazil Conference pela oportunidade. E muito sucintamente, a primeira coisa que eu quero dizer é um mantra que a gente precisa repetir: “sociedades extremamente desiguais não têm mecanismo meritocrático”. Não existe meritocracia com desigualdade. Uma vez dito isto, sociedades extremamente desiguais precisam criar políticas de equidade. A equidade é um processo para alcançar a igualdade. Não existem princípios universais se você tem situações de extrema desigualdade, portanto nós não temos outro remédio para corrigir desigualdades sociais que não sejam políticas de ações afirmativas públicas e privadas. Mesmo os governos mais progressistas que nós vemos, o mercado de trabalho não foi exitoso, as políticas para o mercado. A parte mais difícil de implementar política, foi no mercado de trabalho, portanto, temos que dar continuidade à Lei de Cotas no serviço público, por que ela é a única que tem validade, porque as ações no ensino superior ela tem que ser avaliados em mais de uma revisão, uma avaliação, mas ela não tem mais validade. Eu acho que ela tem que ser ampliada, no meu ponto de vista, para outras formas de contratação do serviço público. O serviço público não contrata só por concurso. Temos que expandir essas políticas para níveis estaduais e municipais, a gente fala poder do serviço público federal, a gente pode expandir isso, acho que a gente tem que usar com força também a questão no setor privado. A relação dos governos federal, estaduais e municipais com a instituições privadas no Brasil é muito forte, todo discurso liberal na nossa sociedade, a sai que quando a coisa aperta a relação é custeada com financiamento BNDES, são vários recursos públicos aplicados sem política de diversidade. Não deve existir acesso aos recursos públicos sem política de diversidade. Eu acho que a gente deveria usar mais do Termo de Ajuste de Conduta (TAC) não só apenas para casos de discriminação, mas também para casos de empresas que têm pouca diversidade, ela deve também trabalhar com o Termo de Ajuste de Conduta, e isso ajudar também a diminuir e a criar mais diversidade nos quadros organizacionais, levando em conta as adversidades. Não deve concentrar nem negros, nem mulheres, em determinadas funções e quadros dessas empresas. E eu vou repetir o que eu falei na minha última fala, nós precisamos falar sobre racismo sobre desigualdade dentro dos ambientes organizacionais. A gente não vai poder colocar as pessoas dentro das empresas, dentro desses espaços organizacionais e deixá-las isoladas, sem que a gente toque nesse assunto, sem que a gente conversa sobre isso dentro desses espaços, eduque e converse com as pessoas não negras sobre essa transformação que está em curso dentro da empresa. Muito obrigada pelo convite, foi um prazer enorme estar com vocês.
Ana Cristina Rosa - Quero agradecer aqui e registrar, mais uma vez, a relevância desse painel. Eu quero agradecer a Brazil Conference por ter esse evento organizado por estudantes brasileiros em Harvard, pela sensibilidade de ter destinado espaço para debater temas tão relevantes, tão importantes e furar um pouco a bolha, sair um pouquinho do seu universo e olhar um pouco para o universo das desigualdades do Brasil. Eu tenho entendimento de que o mundo acadêmico, não estudei em Harvard com a professora
Márcia teve a oportunidade de ter essa experiência, mas eu sei que é um universo acadêmico diverso que congrega a gente do mundo inteiro, mas o perfil do estudante brasileiro em Harvard é majoritariamente, me corrijam se eu estiver errada, estudante branco, de família rica, então eu quero parabenizar os organizadores desse evento pela sensibilidade de ter incluído na programação temas referentes às desigualdades. Esse painel sobre “Equidade Racial nas Organizações”, por terem pensado fora da caixa, por ter incluído mais pessoas negras da edição desse evento, e incluindo pessoas transexuais entre os painelistas, entre os moderadores. Foi um prazer, uma honra e obrigado. Obrigada aos painelistas que tão aqui comigo. Desejo a todos um boa noite a todos que estamos acompanhando e se cuidem e fiquem bem, usem máscara e lembrem do futuro do Brasil tem que deixar de ser o passado com outro nome. Obrigada.
Editor executivo multimídia Fabio Sales / Editora de infografia multimídia Regina Elisabeth Silva / Editor de Política Eduardo Kattah / Editores Assistentes Mariana Caetano e Vitor Marques / Editores assistentes multimídia Adriano Araujo e William Mariotto / Designer Multimídia Bruno Ponceano, Dennis Fidalgo, Lucas Almeida, Vitor Fontes e Maria Cláudia Correia / Edição de texto Fernanda Yoneya, Valmar Hupsel e Mariana Caetano