Brasil

“Precisamos criar a Geração Ecológica no Brasil”

A proposta é do senador Jaques Wagner, presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado, que participou do painel “O Poder Legislativo e a Proteção do Meio Ambiente” da 7ª Brazil Conference

Texto: Redação / Foto: Dida Sampaio/Estadão

08 de abril de 2022 | 15h50


O senador Jaques Wagner (PT-BA) foi o convidado de honra do painel “O Poder Legislativo e a Proteção do Meio Ambiente” da 7ª Brazil Conference Harvard & MIT, liderado pelo copresidente da BC, João Puggina Ferraz. A conversa encerrou o terceiro dia de trabalhos do evento, neste 13 de abril, com transmissão ao vivo pela internet. A programação pode ser acompanhada pelo portal do Estadão, parceiro na cobertura do evento, além dos canais da conferência no Youtube e Facebook a qualquer tempo.

O senador afirmou que há problemas históricos e também atuais ligados ao meio ambiente no Brasil, como o desmatamento recorde no ano passado, “o maior dos últimos 12 anos”; as queimadas que destruíram 26% do Pantanal em 2020; as enchentes em Minas Gerais; e os ciclones bombas em Santa Catarina; os dois últimos efeitos das mudanças climáticas.

Recém-eleito presidente da Comissão de Meio Ambiente (CMA) do Senado, Jaques Wagner tem ampla experiência na política brasileira e falou sobre a relação do legislativo com o meio ambiente e a sustentabilidade. Listou algumas medidas como a aprovação da PEC da Água, em 2018, o que apontou ser um resultado do Fórum das Águas. A sanção da Lei 14.119 que institui a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) e a Lei de Política Nacional de Segurança de Barragens, “que infelizmente foi fechado somente depois dos desastres em Brumadinho e Mariana”, em Minas Gerais.

Para o senador, o Brasil vive crises sanitária, econômica e ambiental, que pioram com o “governo negacionista”. “A visão de quem está dirigindo o país é uma visão totalmente negacionista e não reconhece a importância das questões ambientais, o que dificulta a retomada do Brasil”, disse.

Ele defendeu a retomada por parte do governo e participação de todos os setores da sociedade, das ações de mitigação do efeito estufa por parte do Brasil e dos projetos de sustentabilidade e Bioeconomia. “Queremos trazer à pauta a Agenda Nacional de Construção da Geração Ecológica. O momento de agir é agora”, afirmou.

Wagner acredita no potencial do Brasil e aposta no tripé sustentabilidade econômica, ambiental e social. “Como presidente da Comissão de Meio Ambiente, quero me colocar à disposição para fazermos intercâmbios, pontes, e colocar a Comissão de Meio Ambiente do Senado como instrumento para fazer este diálogo, esta concertação entre atores sociais e construir este plano de uma Geração Ecológica no Brasil'', finalizou.


Confira o evento na íntegra


O Poder Legislativo e a Proteção do Meio Ambiente

● Jaques Wagner: Presidente da Comissão de Meio Ambiente (CMA)
● João Puggina Ferraz: Copresidente da Brazil Conference e Líder do Painel


João Puggina Ferraz - Eu sou João Ferraz, copresidente da Brazil Conference 2021. Um prazer estar encerrando nosso terceiro dia de conferência, ainda mais com o conhecimento tão especial do senador Jaques Wagner que é um político brasileiro, filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT), foi governador da Bahia de 2007 a 2014; Ministro Chefe da Casa Civil de 2015 a 2016, em 2018 foi eleito senador e é presidente da Comissão de Meio Ambiente (CMA). Jaques, por favor.

Jaques Wagner - Quero dar o boa noite a todos vocês. Cumprimento o João Ferraz em nome de que cumprimento toda a organização da 7ª Brazil Conference 2021 de Harvard e MIT, todos os estudantes, professores. Mas eu imagino que o cansaço deva ser grande, tem gente que está com mais de 12 horas de trabalho, mas acho que essa fermentação, principalmente no ambiente universitário, considerou extremamente positiva. Comecei a fazer política no sentido amplo da palavra na Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC) quando eu estudei Engenharia, em 1973, e acho que a universidade é isso mesmo, a gente dorme cansado, mas também satisfeito com tudo o que a gente fez de fermentação das ideias que é próprio do ambiente universitário. Queria parabenizar todos vocês, as duas instituições, e agradecer um convite para falar do tema Meio Ambiente. Acabei de assumir a presidência da Comissão de Meio Ambiente (CMA) do Senado, fui vice-presidente nos dois primeiros anos, em 2019-2020 o presidente era o senador Fábio Contarato (Rede), portanto agradeço muito e espero contribuir para a reflexão de vocês.

Eu quero fazer só uma preliminar, porque principalmente para vocês da juventude, eu acabei de fazer 70 anos, eu acho que é muito importante vislumbrar um mundo mais equilibrado social, ambiental e economicamente. Um mundo que garanta as futuras gerações, e o elemento fundamental para entender que na democracia não há apenas a sua verdade absoluta, a verdade na democracia, na minha opinião pelo menos, é aquela que você constrói em consensos progressivos e sucessivos a partir do confronto de ideias. A democracia não teria graça se todo mundo pensasse igual, mas é muito importante que dentro da diversidade do pensamento a gente consiga ter unidade no propósito de construir um planeta mais acolhedor, uma casa maior e mais acolhedora para todo mundo. Nós, aqui internamente, a equipe que me ajudou a montar essa fala, a gente batizou essa fala de “a Construção da Geração Ecológica no Brasil”, é óbvio que se refere a essa geração de vocês que, cada vez mais, está assumindo postos de inteligência, comando de empresas ou de instituições, ou de governo, e acho que a gente tenha sempre esse balizador: a diferença entre o veneno e o remédio é a posologia”. E na minha opinião a gente precisa ter cabeças abertas, sem dogmas, sem sectarismo, sem querer construir polarização e dicotomia, e sim construir confronto de ideias, isso é fundamental. É óbvio que eu digo isso tudo, porque o Brasil neste momento, a sociedade brasileira sofre e padece exatamente deste mal, uma espécie de vírus do fanatismo, de construção de conflito, que em minha opinião, não vai levar a sociedade brasileira a lugar nenhum. O que a gente precisa é ter a paz da democracia, da convivência dos diferentes para chegar lá.

Eu começo dizendo que hoje a gente vive uma verdadeira tragédia histórica que afeta a todos nós, e empenho aqui a minha solidariedade às mais de 350 mil famílias enlutadas no Brasil. Torço e rogo para que a gente consiga obter as vacinas e manter um grau de isolamento social para que a gente tenha menos contágio e a gente possa diminuir a curva de contágio, de internação e de óbitos. E nós também ao lado deste drama sanitário, um drama social, fiscal e econômico, que eu vejo na imagem de 20 milhões de brasileiros sem emprego ou sem atividade produtiva que lhe dê o mínimo de condição de vida. Muita gente viveu com o Auxílio Emergencial de R$ 600, agora foi aprovado um Auxílio Emergencial de R$ 150 por pessoa, eu continuo defendendo o valor de R$ 600 e aqui vai uma outra diferença, é óbvio que o liberalismo é parte do pensamento moderno, mas o liberalismo que está se aplicando no Brasil, na minha opinião, é um liberalismo ortodoxo, dogmático e que não consegue ter o bom senso da posologia de encontrar o nível de responsabilidade fiscal necessária, estou muito à vontade para falar sobre o tema, pois sou do PT, governei oito anos a Bahia, agora é outro governador do PT que está no sétimo ano, e nós estamos com o Estado com o segundo maior investimento do país, só perdemos para São Paulo, com as nossas finanças equilibradas, pois tem de ser assim. Em um momento de pandemia, de tempestade, de turbulência como este que estamos vivendo com a chegada de uma pandemia, você precisa modular isso. Não é dizer não à responsabilidade fiscal, na minha opinião a responsabilidade com a vida dos seres humanos é maior do que a responsabilidade fiscal. Quem está falando isso, alguém pode alegar porque você é de esquerda, não, quem está falando isso é o mundo inteiro que está dizendo que a hora agora é de buscar a economia, socorrer as pessoas que estão desempregadas, e ajudar estas pessoas a ultrapassarem a pandemia, é óbvio que depois nós vamos dar os apertos necessários na questão fiscal. Eu digo sempre que, por exemplo, quando você tem uma enchente, você cuida de salvar primeiro as crianças e as pessoas, depois quando passar você vai rearrumar a casa. Acho um absurdo, por isso que dogmaticamente dizer não posso porque tenho um teto de gastos, não posso investir em ciência e tecnologia, em habitação, e puxar a geração de emprego e a recuperação da economia. E quando chega no tema ambiental, eu diria que isso piora, é óbvio que vocês acompanham o que está acontecendo no Brasil, e a visão de quem está dirigindo o país é uma visão totalmente negacionista, que nega e não reconhece a importância que o mundo inteiro reconhece com as questões ambientais. Isso dificulta a retomada quo Brasil, estamos com uma crise econômica que já existia antes da pandemia e piorou, estamos com uma emergência climática que se apresenta no Brasil com 26% do nosso Pantanal, essa nossa referência de Biodiversidade, queimado, evidentemente por conta de uma seca e do aquecimento global, as enchentes em Minas Gerais e os ciclones bombas em Santa Catarina. Nós temos recorde de desmatamento, em 2020 foi o maior dos últimos 12 anos e queimadas como acabei de citar, 26% do Pantanal em 2020. Por incrível que parece, neste cenário de dificuldade ambiental que o mundo inteiro, nos Estados Unidos se fala no “green no deal”, na China que se fala da civilização ecológica ou na Europa onde todo mundo está preocupado com as mudanças de matrizes, com carros elétricos, por exemplo, nós estamos aqui no Brasil com o desmonte da estrutura de fiscalização e praticamente com o desmonte do Ministério do Meio Ambiente. Hoje, para 2021, o Ministério do Meio Ambiente tem o menor orçamento dos últimos 21 anos, só para se ter uma ideia, sem atualização, em 2001 tivemos orçamento de R$ 3,2 bilhões, em 2010 R$ 5,9 bilhões, 2017 R$ 4,4 bilhões e 2021 é R$ 1,7 bilhão. Ou seja, o orçamento da pasta é metade do que foi há 21 anos. Bom essa crise climática, é seguramente a crise das crises. E não é à toa, e por isso eu quero insistir que não se trata de ser liberal ou não, os liberais de bom senso sabem que nós precisamos cuidar, definitivamente da convivência com o planeta, e não existe dicotomia entre preservação, cuidado com o meio ambiente e desenvolvimento e crescimento econômico, não é verdade. Essa é a falsa dicotomia que os adversário do Meio Ambiente, e que minha opinião se encontram nas duas pontas, eu digo sempre que nós temos dois inimigos do meio ambiente: os fanáticos da motosserra, que eu digo parodiando o poeta, que “acham que tudo vale a pena, quando a grana não é pequena", e também os fundamentalistas da contemplação, que acham que tudo é intocável, algumas coisa são intocáveis, Abrolhos é intocável, o restante que a gente tem menos de 7% de Mata  Atlântica é intocável nesse momento, mas não quer dizer que a gente não possa continuar produzindo e desenvolvendo o planeta. Nós temos exemplos como a Holanda, que hoje é o segundo maior produtor de alimentos que economiza na produção 90% da utilização de água em várias produções, atingindo um nível fenomenal, tanto que virou, apesar de um país de pouca extensão territorial, o segundo maior produtor de alimentos.

Bom, como eu disse, essa é a crise das crises, na minha opinião o desenvolvimento só pode ocorrer com as florestas em pé. Há também acontecimentos positivos no Congresso, e nosso papel aqui é do legislativo referente ao Meio Ambiente. Nós aprovamos agora em março, tive orgulho de ser o relator, quem era o autor da PEC da Água, de 2018, consequência do Fórum das Águas que aconteceu aqui em Brasília, já aprovamos no Senado, falta aprovar na Câmara, colocou a água como um direito fundamental. É proclamatório? Sim, é proclamatório, mas eleva o nível de responsabilidade dos agentes públicos sobre a oferta de água potável para as pessoas e populações. Só para registrar, gostaria de dizer que me orgulho muito nos oito anos do meu governo na Bahia, foi o período de maior investimento na Embasa (Empresa Baiana de Água e Saneamento) exatamente no levar água e saneamento para o interior do Estado. É emocionante ver pessoas de 40 anos, 50 anos que pela primeira vez estão vendo a água sair das torneiras ou tomar um banho de chuveiro. Também no Congresso foi sancionada a Lei 14.119 que institui a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) que insere o Brasil nas modalidades que podem gerar renda a partir da preservação dos biomas. E foi aprovado também a Lei de Política Nacional de Segurança de Barragens, que infelizmente fechamos somente depois dos desastres em Brumadinho e Mariana (ambos em Minas Gerais) e que foram desastres que deixaram rastros de destruição ambiental e ceifaram muitas vidas.

O que eu chamo de “Agenda Nacional de Construção da Geração Ecológica? A ciência e a realidade estão demonstrando para todos nós de bom senso eu repito, que o momento de agir para a construção dessa geração é agora. O mundo inteiro se movimenta para atingir as metas de 1,5 grau Celsius do Acordo de Paris, os Estados Unidos vão investir US$ 2 trilhões em dez anos, a Europa € 1 trilhão e a US$ 15 até 2050. Só para pegar o exemplo dos Estados Unidos, obviamente é uma economia muito maior do que que a nossa, você divide US$ 2 trilhões por 10 anos, você tem US$ 200 bilhões por ano, ao preço do dólar hoje, isso daria R$ 1,1 trilhão o que é quase o orçamento do Brasil que está na casa de R$ 1,5 trilhão. Os recursos virão, em sua maioria do governo, do setor público, e aí quero dar exemplos que os norte-americanos conhecem, que vocês conhecem, que muitas das inovações tecnológicas foram geradas, gestadas e bancadas com orçamento público. Um exemplo disso nos EUA é o Darpa- Agência de Projeto e Pesquisa Avançada de Defesa -  que foi um grande investidor público em tecnologia, sempre nos EUA. Agora os norte-americanos criaram o Arpa-E para o desenvolvimento de energias, que é grande desafio que nós temos no mundo todo, é claro que a nossa matriz energética é uma das melhores do mundo, mas o fato de a gente ter essa matriz energética, essa Biodiversidade, não quer dizer que a gente possa relaxar nestes cuidados.

E nós temos bons exemplos disso, da capacidade tecnológica brasileira. A Embrapa é um belíssimo exemplo de que a gente exporta tecnologia, exportamos muito para África e países mais carentes do que o Brasil e que dependem dessa tecnologia para desenvolver o plantio de alimentos, e a própria Embraer que vai para ponta da tecnologia na construção de aviões, fez acordo com empresa norte-americana, desfez o acordo, e de qualquer forma hoje ganha mercado com a tecnologia embarcada nos produtos Embraer. Eu fui ministro da Defesa durante 10 meses no governo da ex-presidenta Dilma Rousseff, e evidentemente a gente teve isso muito de perto. A Embraer foi fundamental na parceria que a gente está fazendo com a Suécia, com os novos caças brasileiros com transferência de tecnologia e a Embraer será a receptora disso. Portanto, eu já falei aqui, temos exemplos como o da Holanda, que se tornou o segundo maior produtor agrícola com economia de até 90% de água em seus processos. Nós precisamos de um plano que coloque o ser humano em harmonia com a natureza. O ser humano, historicamente, sempre esteve em harmonia com a natureza. Insisto em dizer que é uma visão um pouco predatória que quer fazer as coisas pensando só na base do aqui e agora, no máximo daqui a um ano, que foi fazendo a escalada do aquecimento global e da destruição da natureza. Insisto, e fui governador da Bahia, vou repetir durante oito anos, a gente fez inovações, como empreendimentos de baixo impacto, admitiu o autolicenciamento fiscalizados pelos órgãos de controle aqui do Estado da Bahia, como a gente declara o Imposto de Renda, e óbvio que se tiver feito coisa errada, eventualmente, a fiscalização vai nos punir.

A minha ideia nesse mandato de dois anos da Comissão de Meio Ambiente (CMA) do Senado, é transformar este espaço político numa grande concertação de atores da sociedade civil para montar um agenda legislativa para a construção da “Geração Ecológica no Brasil” e, me alegro muito por ter sido convidado para este desafio, porque já tive encontro com o embaixador da união Europeia aqui no Brasil, com o embaixador da China no Brasil, no dia 15, depois de amanhã, teremos reunião com parlamentares dos EUA e deputados e senadores brasileiros para fazer um intercâmbio, até porque vamos ter a conferência virtual no fim de abril, e a gente quer trocar ideias e fazer com que o parlamento e os legisladores acompanhem e fiscalizem aquilo que o Executivo está fazendo nessa área. Por isso eu falei de fermentação de ideias para que a gente possa transformar a CMA numa espécie de quebra de preconceitos uns com os outros, não vamos evoluir se a gente tiver preconceito com o desenvolvimento econômico ou com a necessária preservação do meio ambiente do planeta.

A nossa base de trabalho, criada quando eu era vice-presidente da CMA, é a subcomissão do Desenvolvimento Sustentável que batizamos de “o grande impulso pela sustentabilidade”, que é a base do tripé: sustentabilidade ambiental, social e econômica. Eu gosto sempre de insistir que a maior força do ser humano é o seu instinto de sobrevivência, e, portanto, não há como falar em preservação do planeta, se não falarmos em sustentabilidade social. A usura é predatória, e a extrema pobreza e a exclusão também são predatórias. Hoje nós temos pessoas que voltaram a cozinhar com lenha no Brasil, pelo preço inacessível, muitas vezes, do gás de cozinha de botijão que hoje tem um preço, para se ter ideia o Auxílio Emergencial foi votado em um piso de R$ 150, podendo chegar a R$ 350 e um botijão de gás está custando R$ 100. Com o Auxílio Emergencial ou a pessoa tem um botijão de gás e mais R$ 50.

Nosso desafio é criar um plano que coloque o cuidado com a natureza e o bem-estar e a prosperidade do cidadão como eixos centrais deste programa de construção da “geração ecológica” no Brasil, com diretrizes para proteger nossos biomas, reduzir as emissões de gases estufas enquanto geramos empregos e renda. Estou falando nesta noite com vocês e amanhã, às 9 horas, o governo da Bahia vai assinar com uma ONG alemã, um acordo de monitoramento no Estado da Bahia dos gases de efeito estufa, para localizar onde temos o maior volume de emissão desses gases e tenta, evidentemente, traçar um plano de redução dessas emissões.

A nossa ideia é fortalecer a capacidade produtiva e competitiva do país diante do novo paradigma verde que está espalhado no mundo inteiro. Em nossa opinião não basta só trocar a combustão pela eletricidade e chamo a atenção para a necessidade de investimento público. O carro elétrico para ser difundido no Brasil vai precisar de uma rede de postos para a recarga de baterias, rede de postos privados, mas quem vai estender a rede toda de energia própria para o reabastecimento dessas baterias? Isso é investimento público na veia, para puxar este desenvolvimento de um modelo de transporte que seguramente será mais correto do ponto de vista ambiental.

É preciso de um plano de longo prazo, e não só de medidas emergenciais, pautado na inovação, pesquisa e desenvolvimento, e aí de novo meu sofrimento, a mesma coisa que falei sobre o Ministério do Meio ambiente, o Ministério de ciência, tecnologia e Inovação, está completamente arrasado do ´ponto de vista do seu orçamento, sem dinheiro para investir e alavancar pesquisas no Brasil. O orçamento do CNPQ é um dos exemplos do que foi reduzido drasticamente.

Com a criação de capacidades nacionais, nós poderemos fazer a transformação verde com benefícios à nossa população. Precisamos proteger os ciclos da natureza e a nossa Biodiversidade, que é a maior do mundo. Zerar desmatamento e as queimadas, principalmente as ilegais e criminosas como acontecem, infelizmente, na Amazônia. Promover a agricultura sustentável de escala e a interligada às cidades verdes. Inovar em geração de energia renovável, a gente já tem muito aqui no Nordeste, a gente na verdade trabalha muito aqui na Bahia, Rio Grande do Norte e Ceará com energia eólica e solar, e o desenvolvimento disso tem trazido o resgate de cidadania em várias regiões do Estado, como por exemplo, no semiárido onde há uma dificuldade grande de produção, no caso da Bahia nós temos ventos extremamente favoráveis e muitas vezes o pequeno agricultor aluga para a instalação de um, das, três torres eólicas, e aquilo dá a ele uma renda que complementa o seu trabalho na agricultura.

Precisamos inovar em eletromobilidade, química verde e saneamento básico e outras áreas, como por exemplo, aqui na Bahia ainda temos um volume de lixões muito grande. E precisamos construir aterros sanitários e a nossa ideia é fazer consórcios, a exemplo das áreas de saúde e infraestrutura, exatamente porque cada município pequeno de 20 a 30 mil habitantes não tem a capacidade de administrar um aterro sanitário, mas se o governo fizer um consorcio de municípios, constrói o aterro com orçamento do Estado e com o consórcio partilha a manutenção entre vários municípios que vão usar o aterro.

Eletrificar a frota de veículos é possível, visitei uma cidade na China que é Shenzhen, que tem 15 milhões de habitantes, população com o tamanho da Bahia, lá você não tem táxi e nenhum veículo da frota pública que seja sequer híbrido, todos eles são 100% elétricos. A BYD, empresa chinesa de baterias, está na ponta do desenvolvimento e já tem baterias que duram centenas de milhares de horas, portanto todo o transporte público de lá é bancado com eletromobilidade.

Precisamos urgentemente fazer a regulação dos mercados de crédito de carbono, delinear os parâmetros para a Bioeconomia, e trazer segurança para os investidores. Este é outro problema do Brasil, neste momento, a instabilidade do governo atual, a instabilidade jurídica, a guerra entre nossas instituições e entre os poderes, acaba gerando muita desconfiança. Acabamos de perder a Ford no Brasil, saiu da Bahia, é um drama para nós, estamos conversando com a Ford para saber quais são as compensações devidas ao Estado e, eventualmente à federação, é óbvio que os motivos não só da instabilidade, mas um ambiente de instabilidade jurídica não estimula ninguém a fincar pé aqui no Brasil e a imobilizar capital.

Por exemplo, sabemos que o mercado de hidrogênio tem o potencial de mobilizar US$ 420 bilhões no mundo. A gente vai se preparar ou não? Com este afastamento de investimento em tecnologia, será que a gente vai virar só fornecedor, só o celeiro do mundo, o que é uma para que a gente tenha tecnologia de ponta, apesar de várias autorizações de agrotóxicos nestes últimos dois anos do atual governo, muitos deles proibidos.

Acho que a pandemia vai mudar o padrão de consumo, por que a população no mundo inteiro, principalmente a juventude como vocês que estão na universidade, fazendo MBA e investindo em vocês mesmo na área do conhecimento, na minha opinião estão mudando o padrão de consumo alimentar, porque a pandemia acabou por fazer a gente valorizar coisas que seguramente são mais importantes que a roupa bonita ou o último modelo do carro, nada contra, mas sem dúvida um abraço, um aperto de mão, uma amizade, curte uma música ou os amigos, a gente começa a sentir a importância disso.

O Brasil é grande demais na sua biodiversidade, é espetacular na criatividade da nossa gente. E digo isso com orgulho, porque como governador da Bahia, ouvia da Ford ou da Basf da Alemanha, a melhor produtividade que a gente tem no mundo é a de Camaçari na Bahia. A Ford fechou aqui, mas manteve mil engenheiros de desenhistas de projeto na fábrica de Camaçari, exatamente pelo potencial que eles têm.

Nós temos o potencial, mas é preciso que o investimento público puxe este desenvolvimento apontado o caminho que o mundo inteiro está fazendo, que eu batizei aqui de Geração Ecológica no Brasil. Os investimentos serão feitos, especialmente, no Norte e Nordeste, por que estas são áreas ainda de maior grau de preservação e tem potencial para esta construção que tem de moldar o futuro do país com a redução da desigualdade.

Eu quero insistir no conceito da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) não existe sustentabilidade ambiental se não for no tripé: sustentabilidade econômica, é evidente que os investimentos têm que dar retorno e que temos de ter responsabilidade fiscal, mas nós temos que equilibrar a responsabilidade fiscal com a responsabilidade ambiental, com responsabilidade social, senão a gente não vai construir um mundo país que a gente quer.

Diante dessa maior tragédia recente do Brasil, acredito que temos a oportunidade de aproveitar os recursos naturais e iniciar a transição para esse modelo de um Brasil ecológico, de uma sociedade que respeite o meio ambiente. E isso não é só um programa, por isso é importante este nosso bate papo e o dia todo de trabalho na 7ª Brazil Conference, sei que a Marina Silva (ex-ministra do Meio Ambiente) passou por aqui, a Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente da Dilma, muita gente boa de empresários e ambientalistas, gente que pensa o desenvolvimento integral do planeta, por isso é fundamental, pois esse é um processo de convencimento, não é na guerra que a gente vai preservar o meio ambiente, é muito mais na construção da hegemonia ao demonstrar para as pessoas que não adianta, repito fazer pensar só no interesse do negócio, as coisas tem que se equilibrar e isso é absolutamente possível como está demonstrado em vários países do mundo.

Este é o momento da construção da Geração Ecológica no Brasil, e, portanto, este debate tem de estar nas universidades, aqui nas escolas, na mídia, na ciência, na economia real e está sendo debatido para toda a população.

Fico emocionado, por que, eu já tive muita experiência como governador, de levar água no interior e falar sobre preservação, e é impressionante como, primeiro, a juventude é apaixonada por esta questão, e depois as pessoas que vivem no interior, no campo, têm uma ligação com a natureza muito grande. Então, precisamos introduzir tecnologia para melhorar a produção, saber como se faz uma produção sem degradação e a agroecologia que cada dia cresce mais, produtos orgânicos crescem, vocês sabem, pois, estão nos Estados Unidos, sei que tem o fast food, mas eu tranquilo a comida, mas lenta, por que eu ela me garante mais tempo de vida. Perdi minha mãe há um ano, ela tinha 96 anos, totalmente lúcida e, portanto, eu acho que a saúde é o que entra pela boca e, desculpem o termo, quanto menos porcaria, mais coisas saudáveis e naturais, melhor para todos nós. Já tenho filha mais velha do que vocês com 47 anos e tenho 7 netos, então, a experiência também pode valer algo, além do que aqui no Brasil a idade está valendo para tomar a vacina. Eu já tomei a primeira dose e estou esperando pela segunda e vocês ainda têm de ficar mais um tempo na fila.

O que eu desejo, que pretendo como presidente da Comissão de Meio Ambiente, queria me colocar à disposição, não só para essa conferência, mas para fazermos intercâmbios, pontes, e colocar a Comissão de Meio Ambiente do Senado como instrumento para fazer este diálogo, esta concertação entre atores sociais e construir este plano de uma Geração Ecológica no Brasil. Então, queria encerrar por aqui e mais uma vez parabenizá-los. Já participei de evento como este pensando o Brasil na Universidade de Oxford, em outro momento, e tenho a maior alegria, agradeço muito vocês terem me convidado para esta pauta do meio ambiente, que é uma pauta que cada vez ocupa mais a minha energia, porque eu efetivamente considero que é impossível a gente continuar uma marcha da insensatez só focando no negócio e crescimento econômico, sem a gente abarcar. Eu realmente só estou onde estou, porque eu acredito muito no diálogo, detesto gente dogmática, porque não dá para conversar. O cara quando é fundamentalista não adianta argumentar porque ele não lhe ouve, e eu brinco sempre com as pessoas ao dizer que “se Deus nos deu dois ouvidos e uma boca” deve ser nos recomendando “ouça o dobro do que você fala”, seguramente você vai falar com mais consistência. Então obrigado a vocês, bom trabalho. Sei que vocês vão até sábado. Espero que esta jornada da 7ª Brazil Conference Harvard e MIT 2021 seja muito produtiva para a formação de. Obrigado e boa noite.




Expediente

 Editor executivo multimídia Fabio Sales / Editora de infografia multimídia Regina Elisabeth Silva / Editor de Política Eduardo Kattah / Editores Assistentes Mariana Caetano e Vitor Marques / Editores assistentes multimídia Adriano Araujo e William Mariotto / Designer Multimídia Bruno Ponceano, Dennis Fidalgo, Lucas Almeida, Vitor Fontes e Maria Cláudia Correia / Edição de texto Fernanda Yoneya, Valmar Hupsel e Mariana Caetano

Mais conteúdo sobre:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.