Segundo dados da Trata Brasil, País tem 35 milhões de pessoas sem acesso à água potável e 100 milhões sem coleta de esgoto. Tema foi debatido no painel Infraestrutura e Saneamento Básico da 7ª Brazil Conference
O painel “Infraestrutura de saneamento básico como fator da redução de desigualdade no Brasil”, realizado pela 7ª Brazil Conference Harvard & MIT em 14 de abril, contou com transmissão ao vivo pela internet. A programação pôde ser acompanhada pelo portal do Estadão, parceiro na cobertura do evento, além dos canais da conferência no Youtube e Facebook, a qualquer tempo.
Participaram do debate o presidente do G10 Favelas, Gilson Rodrigues, a chefe da Assessoria Internacional do Ministério do Desenvolvimento Regional, Carla Barroso Carneiro, o diretor de Infraestrutura, Concessões e PPP no BNDES, Fábio Abrahão, e o presidente executivo do Instituto Trata Brasil e moderador da conversa, Edison Carlos. O painel foi liderado por Fabian Bruzzon.
Em plena pandemia de covid-19, os números apresentados por Edison Carlos, da Trata Brasil, preocupam, pois o País ainda tem 35 milhões de pessoas que não têm acesso à água potável e 100 milhões de pessoas não têm coleta de esgoto. “Com certeza é uma das maiores carências do Brasil.”
O G10 Favelas criou dez iniciativas de mitigação da crise causada pela covid-19. “Somada à crise sanitária vem uma crise econômica. Então nós criamos dez iniciativas de apoio à economia da favela, porque a gente não quer depender da cesta básica e da marmita”, afirmou Gilson Rodrigues.
Os painelistas discutiram a importância do saneamento básico e da infraestrutura para um país em desenvolvimento como o Brasil. Segundo eles, a água tratada e o cuidado com o esgoto têm impacto direto na vida de comunidades em todo o País. Ainda há muitos lugares onde há falta de água, de tratamento de esgoto e de acesso a essas estruturas, classificadas como uma das maiores dificuldades enfrentadas pela maioria dos brasileiros. Para eles, é necessário seguir para além do debate e construir parcerias e projetos que caminhem em direção da solução dessas necessidades das populações em diversos locais do território nacional.
Fabian Bruzzon - Boa noite a todos, eu me chamo Fabian Bruzzon, sou estudante de MBA aqui no MIT. Bem-vindos ao painel de Infraestrutura e Saneamento da Brazil Conference. Nesse painel vamos explorar o tema “Infraestrutura de saneamento básico como fator da redução de desigualdade no Brasil”. Contaremos com a presença de Fábio Abrahão, diretor de Infraestrutura, Concessões e Parceria Público-Privada do BNDES; Carla Barroso, que é diplomata de carreira no serviço de relações exteriores do Brasil há 26 anos, atualmente detém o título de Ministra de Segunda Classe, é chefe histórica nacional do Ministério do Desenvolvimento Regional; Gilson Rodrigues, que é presidente do G10 Favelas, é empreendedor social, consultor e líder comunitário. Como moderador de nosso painel temos o senhor Edison Carlos, presidente executivo do Instituto Trata Brasil. Eu gostaria de desejar a todos um ótimo painel e passar a palavra ao meu colega Edison.
Edison Carlos – Queria agradecer a todos que estão nos vendo, agradecer à organização da Brazil Conference, agradecer ao Fabian e a todos pelo convite, ao Instituto Trata Brasil, para moderar esse painel tão importante. Estamos nessa semana na Brazil Conference, estamos falando de várias questões, várias potencialidades do Brasil, mas também várias carências e, entre elas, a carência de saneamento básico. Talvez seja a infraestrutura mais atrasada que nós temos no Brasil, né. Nós temos ainda 35 milhões de pessoas que não têm acesso à água potável e 100 milhões de pessoas não têm coleta de esgoto, então com certeza é uma das maiores carências e nós estamos aqui com um grupo seleto de debatedores, que vão falar desde o micro do universo dessas áreas vulneráveis, onde o saneamento certamente trará uma mudança na qualidade de vida das pessoas, que é o Gilson, mas também o Fábio do BNDES, banco que está cuidando da maior parte das modelagens para esse novo momento que o saneamento passa a ter a partir do novo Marco Legal do Saneamento, e a Carla Barroso com a visão importante, uma visão nacional e internacional também, que vai nos apresentar um pouco a sua a visão. Então, eu queria aqui agradecer a todos eles e aproveitar e passar já a primeira pergunta para o Gilson. Bom, Gilson, você na G10 tem feito um trabalho fenomenal né, a gente estava aqui te dando os parabéns antes de começar o painel, então queria te agradecer...
Gilson Rodrigues - Antes de começar eu queria chamar atenção para um assunto, que é um assunto muito importante que está acontecendo no Brasil, e que tem a ver também com a resposta, que se chama “novo normal”. Esse novo normal significa, neste momento, menos comida no prato, significa uma fila de milhões de pessoas desempregadas, que fazem fila aqui em Paraisópolis onde eu estou neste momento agora, para pegar uma marmita que chega às nove horas da manhã, e por vezes meio-dia a comida acaba e a fila continua, isso é um retrato de um Brasil que está passando fome. Eu queria, antes de responder essa pergunta, pedir licença para ler uma cartinha de uma criança chamada Yasmin. Ela fala assim: “Eu moro em Paraisópolis, na Rua Itamotinga, numa casa não muito grande, e nem muito pequena, mas sou muito feliz com a minha família. Gilson, tem como você dar uma cesta básica para minha mãe? Ela está desempregada e tem vergonha de pedir”. Então essa é a situação no Brasil, de panelas vazias, e é um retrato de um Brasil que está, neste momento, com muita dificuldade, e que esses problemas todos, inclusive ligados ao saneamento, foram evidenciados durante esse processo todo, e que pouco foi feito. Falta política pública, eu não tenho percebido progresso nesse sentido, principalmente porque a gente percebe que esse assunto é um assunto mais complexo de lidar no Brasil porque ele não dá voto. E aí, milhares de famílias, no Brasil inteiro, têm que conviver num ar que fede, não dá para viver em paz num ar que fede. Nós aqui em Paraisópolis temos três mil famílias morando em cima de um córrego, que é o Córrego do Antonico. Avançamos com a canalização de um córrego, mas existem outros tantos milhares de pessoas vivendo em cima de córregos como parte dessa situação, sem acesso ao saneamento básico, sem acesso à água potável, sem acesso à política pública de fato, de integração, vivendo de maneira aglomerada, em espaços pequenos, insalubres, então esse é o Brasil que nós estamos vivendo neste momento, a realidade aqui, o pé no chão, é que o progresso não está chegando, que falta política pública e passamos a olhar, ao mesmo tempo em que a gente percebe que esse problema todo foi evidenciado. Não dá para dizer que as pessoas não sabem que no Brasil existem esses milhões de brasileiros, de alguma forma largados nesse momento à sua própria sorte, vivendo um Brasil de home office, vivendo um Brasil de home office e outro Brasil, da fome, outro Brasil da falta d'água, outro Brasil da falta de saneamento básico e de infraestrutura, e a gente acha isso um novo normal. Então temos que mudar essa realidade, para criar condições para que o Brasil possa construir infraestrutura para atender à população que mais precisa, e a água deveria ser um bem de todos, mas a realidade é que está faltando água na favela do Brasil, e que as pessoas falam de maneira natural de que nós temos que nos proteger, usar álcool em gel, usar máscara, quando não tem água na nossa casa. 8 horas da noite, aqui em Paraisópolis, algumas regiões falta a água. Então não dá, as pessoas usam um balde para poder se limpar, para poder tomar banho, essa é uma realidade no Brasil. Então nós precisamos evidenciar cada vez mais, mas mais do que evidenciar, criar infraestrutura para que a gente possa sair dessa, para que a gente não possa viver essa situação e achar que isso é normal. Então não estou vendo progresso, a situação está muito crítica, precisamos criar políticas públicas e pressionar para que a gente possa realizar ações necessárias para que, resolver esse problema.
Edison Carlos - Obrigado, Gilson. É, quando a gente fez todo esse movimento pelo novo Marco Legal do Saneamento, a principal bandeira que a gente debatia no parlamento é justamente como não deixar essas áreas de fora do novo Marco Legal, porque a gente já estava vivendo numa lei de 2007, onde pouco avanço a gente conseguiu justamente nessas áreas. Então a gente viu um certo progresso nos bairros regulares, mas muito pouco progresso nessas áreas, seja por vários motivos, às vezes problemas fundiários, falta de dinheiro, enfim. Então aproveito e emendo, primeiro eu já queria aqui me desculpar com a Carla que, normalmente a gente começa com as damas, mas aqui por uma questão de ela ter esse contexto nacional e internacional, a gente deixou ela na última pergunta dessas primeiras, nesse primeiro papo aqui, para ela poder dar a visão macro dela. Então queria aproveitar essa conversa aqui com o Gilson viu Fábio, porque o BNDES tem sido o principal articulador das novas modelagens do saneamento, é o BNDES que está pensando o saneamento do novo Marco Legal do Saneamento, estruturando, analisando a situação de cada estado, de cada município, para propor aos prefeitos e governadores uma saída para esse, para esse momento inclusive em que a pandemia deu à luz, que o Gilson falou bem. Então Fábio, quais têm sido os desafios que o BNDES tem encontrado na formulação dessas modelagens para incluir essas áreas? Como você está no Rio, e a gente está prestes aí a ter os leilões da Cedae, e o Rio de Janeiro é um espelho da dificuldade acho, que o BNDES teve para incluir todas essas áreas aí. Me conta um pouco desses desafios e como é que vocês têm sentido isso. Obrigado.
Fábio Abrahão - Boa noite Edison, boa noite Gilson, boa noite Carla. Eu vou começar, normalmente a gente lembra do BNDES como operação financeira né, empréstimos, etc. A gente há um ano e meio atrás, a gente montou o que a gente chama de “banco de serviços". Então, qual é a função? O banco de serviços, ele entra justamente para estruturar esses projetos e torná-los realidade. Então na realidade, significa ter o projeto bem feito e conseguir trazer investidores para poder implementá-los, né. Essa é uma função bem diferente do que o banco tem feito historicamente, mas num país como o nosso, até chegar no momento em que o banco possa entrar com a operação típica de fomento através do crédito, antes disso você tem que ter a oportunidade estruturada. No saneamento, o saneamento é um carro chefe para a gente, a gente hoje e os nossos projetos, a soma deles, eles impactam uma população por volta de 55 milhões de pessoas e tende a crescer, então é um impacto gigantesco. E como é que funciona isso? A gente entra em determinados estados, alguns casos municípios, mas a gente tenta fazer uma solução em escala, e ajuda o poder público a justamente identificar o que que é preciso ser feito, como precisa ser feito e depois como atrair os recursos, e por fim, acontece o leilão, está. Então esse é o ciclo completo. A questão do saneamento né, a gente costuma falar que ela foi posta à prova nas últimas décadas com vários modelos né, das estatais municipais, das estatais estaduais, autarquias, várias cores de governo e a verdade é que não deu certo, o modelo corrente no Brasil não dá certo, então é isso que você falou Carlos, são 100 milhões de brasileiros em tratamento de esgoto. É algo medieval. É o que o Gilson falou, de um lado você tem o desemprego, do outro você tem os efeitos negativos na saúde da população, que nas últimas décadas nunca viu a solução, de fato, ser implementada. Como é que a gente está fazendo? Não existe uma regra de bolso, então cada situação é uma situação. A gente pega o Rio de Janeiro por exemplo, a gente inclui em todas as metas as áreas urbanizadas e não urbanizados, no interior né. Na capital, como é que a gente faz? A gente coloca ali uma meta, uma obrigatoriedade de investimento mínimo nas favelas, no caso do Rio é próximo a R$ 2 bilhões. No caso de Alagoas, que foi o primeiro leilão que a gente fez, muito bem-sucedido, a gente coloca um atendimento para todos os aglomerados aí, incluindo os rurais, que tenham pelo menos três mil habitantes, ou seja, são realmente aglomerações muito pequenininhas. Então dependendo da situação a gente tem uma solução. Dando mais um exemplo, no caso do Rio a gente está atuando bastante na tarifa social. Hoje, o estado do Rio de Janeiro conta com algo em torno de meio por cento da população com acesso, a gente vai chegar a quase dez vezes isso. Então qual é o fundamento disso tudo, né? Para esse projeto, ele ser bem-sucedido, a gente encara que ele tem que atender, de um lado a população; a população carente, a população de classe média, o serviço ele tem que estar com foco no cliente final, na população. A política pública tem que ser atendida também, e no terceiro, a gente tem que ter uma viabilidade econômica para aquilo ali ficar de pé ao longo do tempo. É claro que isso é muito difícil, mas é possível. Então hoje a gente tem projetos no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco, Paraíba, Amapá, no estado do Rio Grande do Sul, então assim, é uma extensão que pega todas as regiões do país, né. Tem outros projetos, comentei alguns aqui, e a gente está bastante otimista, tem dado certo, né. O primeiro leilão foi em Alagoas, ele foi com muito sucesso e aí eu diria Gilson que tem um impacto que hoje em dia ainda é mais importante, que é na geração de emprego, por quê? A obra de saneamento, ela gera emprego na ponta, e é intensivo. No Rio de Janeiro, a gente calculou, sendo conservador, na casa de 45 mil empregos diretos. Isso é mais do que as operações de indústria naval com altos subsídios que criaram lá no pico 2015. E são empregos que são duradouros, porque você pega um projeto como esse da CEDAE, a gente está falando de 12 anos intensivos em obra. São 12 anos ali ó, um volume muito grande. Então de fato ele inclusive ajuda a passar por esse momento mais crítico de pandemia, um início realmente de ativação econômica muito grande. Então a gente olha, a gente trata com esse olhar, né, um olhar de atendimento para o consumidor, geração de emprego, atração de investimento e sustentabilidade ao longo do tempo.
Edison Carlos - Legal. Quer dizer, a gente teve um espectro aí do Gilson né, de uma pessoa que convive com isso, que acompanha o dia a dia, que sente na pele se a água está chegando mais ou tá chegando menos, teve essa visão do Fábio, de alguém que tá olhando, que tem o desafio de incluir isso, incluir a solução, o novo Marco Legal, transformar uma lei que é um papel em algo concreto, que essa é a dificuldade, como é que você inclui toda essa população dentro de uma política obrigatória a partir de agora, então agora o operador que assumir a cidade, ele não vai poder mais “não, essa favela eu não vou pegar”, é obrigatória né, noventa e nove por cento das pessoas tem que ter água, então vai ter de entrar onde nunca entrou. Então é legal agora a gente, eu estou muito feliz de ter a Carla aqui porque, eu já fiz nem sei quantos eventos de saneamento, é muito difícil a gente encontrar alguém da área da diplomacia, ou ligado ao Itamaraty ou ligado ao ministério, mas com uma cadeira no Itamaraty, então eu estou muito feliz aqui de ter você viu, Carla e queria te perguntar, você que tem essa grande experiência nacional e internacional, que já conviveu com políticas de vários lugares, como é que você vê isso hoje o contexto do Brasil comparativamente a esses outros países, você consegue notar diferenças, quer dizer, esse governo, não cabe dúvida, ele está muito empenhado na solução do saneamento básico, mas como é que você enxerga esse momento do Brasil do saneamento comparativamente a essa grande experiência que você tem de fora também? Muito obrigado.
Carla Barroso Carneiro - Sou eu que agradeço a Carlos, agradeço aos meus coparticipantes aqui nesse painel, com os quais eu tenho certeza que vou aprender muito. Agradeço aos organizadores pela oportunidade de conversar sobre esse tema tão importante pra população inteira do Brasil, e eu queria começar dizendo aqui pro Gilson que, mesmo que a gente olhe do ponto de vista internacional e que a gente esteja construindo uma política pública com o viés de trazer um investimento direto estrangeiro, a gente nunca deixa de olhar pra essa menina da carta da Rua Samoti, ela é objeto que nós todos temos quando nós estamos aqui com essa missão de construir uma política pública para melhorar a vida das pessoas. É, bom eu queria então contar para vocês, a primeira coisa que é importante levar em consideração quando a gente faz uma comparação internacional sobre saneamento, é um tema Carlos, que eu acho que as pessoas não falam muito; saneamento não é uma coisa só no mundo. Quando a gente fala em saneamento no Brasil, a gente está falando de quatro grandes atividades né, que é o fornecimento de água, de esgoto, de tratamento de resíduos sólidos, coleta de resíduos sólidos e drenagem urbana. Esse é um conceito, com essa abrangência, ele só existe nesse formato no Brasil. Então é bom levar em consideração quando a gente está fazendo uma comparação internacional, que a gente pode estar comparando peras e maçãs e é sempre bom tomar um certo cuidado. Dito isso, eu não, você está certíssimo ao dizer que a situação internacional, no que diz respeito ao saneamento, ela é muito díspar, ela é tão díspar ou mais díspar do que, quanto àquela que existe no Brasil, onde a gente também tem situações muito diferentes. Infelizmente a gente ainda tem muito a andar no Brasil e esse é justamente aquilo em que o governo está empenhado em fazer, em universalizar o acesso até 2033. É, mas eu queria contar também que independentemente dessa diferença, você tem um desafio básico que é comum. As infraestruturas sociais, gente, entre elas são dinâmicas. Por quê? Porque elas visam atender à população, certo? E a população, ela muda no espaço, ela muda do tempo, uma mesma família muda no ciclo biológico de vida, e os bens públicos, que ela demanda do estado, eles mudam ao longo desse processo. Então, mesmo aqueles países que já têm uma estrutura de acesso ao saneamento mais avançada, eles ainda enfrentam muitos desafios. Então, por exemplo, eu conto para vocês que a Holanda, ela tem um programa de treinamento, é muito interessante, de tentar gerar energia, ou recuperar a celulose dos esgotos, que é um projeto bem interessante, mas que mostra como todo mundo está o tempo todo procurando melhorar o acesso da população àquelas infraestruturas sociais, ela é um desafio permanente. Dito isso, outro elemento que é importante levar em consideração é a estrutura do estado né, nós no Brasil temos uma estrutura bastante complexa com a titularidade local e obrigações em todos os níveis, isso é um desafio, mas nós temos também alguns modelos no mundo que são parecidos, que são, que foram inclusive os que foram usados para quando nós incorporamos as melhores práticas internacionais que deram novo Marco Legal de saneamento, que ele, então, é uma legislação bastante moderna e bastante em sincronia com o que existe no mundo nessa área, né. Então você tem, por exemplo, a França, que ela descentraliza os serviços nessa área bastante, ela é bastante descentralizada né, é uma economia desenvolvida, mas que tem o modelo que é completamente diferente, por exemplo, do de Portugal, e completamente diferente do da Espanha. Então, eu diria, para repetir um chavão, mas que vale aqui, que não tem uma equação só, não tem uma solução só. A gente tem que olhar para as nossas meninas da Rua Samoti e ver como é que a gente pode ajudá-las, e eu estou confiante de que o governo está empenhado e conseguirá avançar em direção à universalização aí, até 2033.
Edison Carlos - Obrigado Carla, muito bom. Muito bom ter essa visão de quem conhece o sistema, que é muito comum nos debates de saneamento, quem é contrário ao movimento que o Brasil adotou a partir do novo Marco Legal, sempre chama a atenção de outros países, e se o que está sendo proposto não deu certo, aí fala de vários países. Mas como você disse, é muito mais profundo, a análise tem que ser muito mais profunda, porque são países, primeiro, que fazem essa infraestrutura há muito mais tempo que o Brasil, né. Eles começaram esse movimento pró-saneamento há décadas atrás, então é importante que a gente compare laranja com laranja né, e não banana com maçã como a gente costuma fazer. Mas eu queria aproveitar aí o Gilson, ô Gilson, queria fundir duas perguntas em uma. Nós do Trata Brasil, a gente executa projeto em áreas muito vulneráveis também, a gente vai ver o que está acontecendo, fala com os líderes comunitários, procura ajudar para que a empresa de água e esgoto da cidade entre com um serviço, fala com o ministério público e muitas vezes têm impedimentos jurídicos para entrar com serviços mesmo que o operador de água e esgoto queira entrar, existe alguma uma barreira judicial para se chegar. Mas também a gente encontra muitos lugares onde as pessoas nem sabem que têm direito a essa infraestrutura, o nível de carência é tão grande que quando a gente fala para a pessoa que ela tem direito a ter um serviço de água, o serviço de esgotamento sanitário, elas nem sabem. Isso é assim também, você concorda com isso, que as pessoas também estão aprendendo a reivindicar os serviços de infraestrutura que, era um serviço que ficava, como você disse, obra enterrada, ficava escondida até para aquele cidadão que mais precisa? E se você acha que está mudando também, a gente teve alguns exemplos clássicos na Rocinha por exemplo, Fábio conhece bem essa questão, havia um movimento político anos atrás de instalar o teleférico lá, e houve um movimento da própria Comunidade da Rocinha pedindo saneamento, quer dizer, eles foram contrários à obra, aquela obra faraônica de botar mais um teleférico sendo que a pessoa não tinha água para beber, ou seja, na nossa visão Tratar Brasil, isso tá avançando, mas eu queria saber de você. Você sente que isso está mudando também na percepção das pessoas que moram nessas áreas, de que isso é um direito e que tem que ser cobrado?
Gilson Rodrigues - Eu tenho impressão de que nós temos percepção do direito com relação à água, com relação a tudo que nós precisamos para crescer e para se desenvolver, afinal eu não sonhei em morar na favela. 85 por cento da população que vive aqui são nordestinos ou filhos de nordestinos, que vieram, na maioria das capitais e das favelas, elas vieram com um sonho de transformar sua vida, de dar educação para os filhos e ficar rico, ninguém sonha em morar em cima do córrego, ninguém sonha em morar em cima da ribanceira e em partes que falta água ou dificuldades. As pessoas sonharam em buscar alternativas e por isso que muitas delas vieram para as capitais e criaram grandes favelas no Brasil. Quando a gente fala do orgulho de ser favela, nós estamos falando das pessoas e não da dificuldade e da necessidade. Mas esse momento, o que a gente percebe é que nós estamos vivendo dois Brasis, um Brasil do “fica em casa”, o Brasil do home office, para aqueles que conseguem ter acesso a tudo, e um outro Brasil, que por anos vive em cima dum córrego, falta água e passa fome. Esse é o retrato desse Brasil hoje e que a gente considera isso como um novo normal. Eu tenho a impressão de que falta tanta coisa, que às vezes esse assunto, a pessoa se acostumou. É como o cheiro do córrego, que você mora em cima do córrego, quando você chega, uma pessoa diferente, você sente aquele cheiro muito forte, mas aquelas famílias que vivem lá não estão mais sentindo aquele cheiro, se acostumou com aquele cheiro. Esta é a realidade de muitas pessoas favelas adentro do Brasil inteiro. Então, quando está faltando comida, quando falta espaço de moradia adequada, com falta, às vezes, de saneamento, água, alguma coisa assim, parece um luxo né, então isso está virando luxo. Apesar de ter percepção da necessidade, a gente a partir do G10 na favela, nós temos procurado encontrar soluções e temos sido otimistas inclusive, a gente não tem buscado, não tem achado que é ruim, tanto é que, na ausência de política pública com relação à favela durante o processo de pandemia, nós fomos criando a nossa própria política e um modelo de organização que tem ganhado o Brasil inteiro, que é um movimento chamado “presidente de rua”, onde a cada 50 casas tem um morador voluntário cuidando de 50 famílias. Esse movimento hoje está em mais de 300 favelas do Brasil, em 14 estados, então é um modelo que está se organizando cada vez mais, nós temos uma meta de ter oito mil presidentes de rua ainda esse ano, então vai ser um processo de mobilização gigantesco, e nós acreditamos que este grupo onde existe 50 famílias, um presidente, uma liderança, um presidente, um vice-presidente, ele se torna a partir de agora uma cadeia de mobilização que se volta a melhorar sua rua, para a canalização do córrego, para poder ligar a água, pela educação, então eu tenho a impressão que o nosso maior legado hoje é a organização da comunidade, ajudar esses líderes locais, que por vezes nem sabiam que são líderes, a cuidar dessas famílias e se mobilizar para o bem comum, para pensar iniciativas que possam ajudar a favela a prosperar. Nós, por exemplo, agora durante o processo de pandemia, nós criamos dez iniciativas de mitigação do Covid-19 que têm sido um sucesso, nós criamos casas de acolhimento, contratamos ambulância, fabricamos máscaras, distribuímos mais de 1,5 milhão de marmitas, fizemos essas ações. E agora nós percebemos que, somada à crise sanitária vem uma crise econômica. Então nós criamos dez iniciativas de apoio à economia da favela, porque a gente não quer depender da cesta básica e da marmita. A melhor forma de combater a desigualdade nesse momento é colocando o dinheiro no bolso. Então nós criamos o G10 Bank Participações, que pretende ser a maior rede de apoio aos pequenos e micro negócios de favela, nós criamos uma empresa de logística, que é a Brasil Favela Express, que está ajudando, inclusive, dentro dos programas de distribuição de festas básicas, tem uma parceria com a ZIT e a B2W, então estamos criando um conjunto de programas e sendo otimista e dando, mais do que isso, o exemplo para que a sociedade possa olhar para onde o lugar onde as pessoas olhavam e viam carência, marginalidade, possam ver potência, possam ver organização, gestão, nós fomos atestados pelo Instituto POLI de que a nossa gestão aqui é das melhores da cidade de São Paulo né, nossa taxa de contaminação é menor, mas a gente percebe que está faltando governo, está faltando política pública. Paraisópolis, por exemplo, vai fazer 100 anos esse ano. Em 100 anos, nenhum governo conseguiu efetivamente transformar Paraisópolis num bairro. Houve avanço nesse processo em algumas gestões né, nós temos uma, na época da gestão, por exemplo, da Elizabete França e Maria Tereza Diniz, estava liderando na prefeitura, houve avanços, Paraisópolis virou o maior programa de urbanização do mundo e várias favelas do Brasil puderam se espelhar nisso, mas são programas que, por vezes acontece, pontuais ou de um governo específico e quando muda, perde-se a prioridade. Precisamos ter política pública efetiva para que, independente do governo que entrar, essas ações acontecer, e ter recurso para isso. A gente percebe é que, passado um ano da pandemia, tudo foi evidenciado. Os córregos estão aí, está faltando água, está faltando um conjunto de coisas, mas o que foi feito até agora? Muito pouco, então nós precisamos criar e dar pressão, a gente fica aqui numa situação, é muito complicada porque, quando a gente reivindica alguma coisa nos dão uma cor, nos dão uma bandeira, e a gente só está reivindicando isso. Nós tivemos que entrar aqui em Paraisópolis com uma ação na justiça para garantir água. Estamos com processo hoje para garantir água aqui. Então olha que situação nós tivemos que fazer, e até agora não foi resolvido. Então são situações complexas e nós estamos expostos a isso e que, na prática a gente percebe que tem movimentos ou coisas acontecendo, mas que não chega, é como essas campanhas todas de comida, de alimentação que a gente vê, e não está chegando. Eu vou até criar uma campanha, “Não Está Chegando”, porque essa situação realmente está muito grave.
Edison Carlos – É, você tem razão, a gente, por muito tempo, a gente criou políticas de governo, nós não temos políticas de estado né, ou seja, a gente fica sempre, a cada quatro anos a gente toma um susto né, para saber se aquilo continua valendo, se não continua valendo. Mas ainda nesse espírito aí que você comentou, queria perguntar para o Fábio. Fábio, existe um grande receio dessas pessoas, principalmente quem mora nas áreas mais vulneráveis, de que esse novo movimento do saneamento significará aumento de tarifa, aumento de preço, e a gente aí, o Gilson é testemunha aí, mais do que ninguém, da dificuldade que as pessoas têm hoje de pagar qualquer coisa, quanto mais o de tarifa, é algo, então há um grande receio desde, durante toda a tramitação do Marco Legal, sempre houve esse receio de que, com essa mudança do cenário do saneamento, novas empresas vindo, que essas pessoas sofressem aumento de tarifa inteira, e quem mora nessas áreas também. Mas a gente está vendo, e eu sou testemunha, que o BNDES está tendo uma grande preocupação em não atrelar essas novas modelagens a aumentos de tarifa. Claro, quando a tarifa aumenta por conta da inflação e tal, mas aumentos aqueles aumentos abusivos. É isso mesmo? Quer dizer, o banco está sensível a esse momento que o Brasil está vivendo nas modelagens do futuro do saneamento que vocês estão vendo?
Fábio Abrahão - Sem dúvida Edison, até eu comentei um dos exemplos, comentei anteriormente né, no caso da CEDAE a gente subindo aí quase que dez vezes o acesso à tarifa social, então isso é uma preocupação central nossa, porque o saneamento, para ele ser democratizado, têm que acontecer duas coisas: uma, eu acho muito importante o que o Gilson falou, o cidadão que mora na favela é um cidadão, ou seja, ele não é um incapaz, pelo contrário, ele entende que tem que ter responsabilidades e entende que tem que ter oportunidades. Toda oportunidade exige uma responsabilidade, então o cálculo que a gente faz é sempre considerando, tem áreas ricas das cidades que podem fazer, viabilizar a expansão para áreas mais pobres e a gente considera isso. Têm regiões ou cidades né, capitais que têm uma capacidade de pagamento maior, isso viabiliza a expansão para o interior. Então todos esses cálculos, a gente faz, a gente entende que todos são consumidores, têm a legitimidade de exigir o serviço né. Aquilo que é simplesmente dado, primeiro que não existe nada dado, sempre existe um custo, então a gente tem a preocupação de alocar aquilo ali dentro de um sistema que funcione. Uma vez que esse sistema funcione e ele é estável ao longo do tempo, ou seja, ele não vai ser interrompido, também não adianta fazer uma obra maravilhosa, daqui a pouco a água falha né, não vem, né. Então a gente pensa sempre na sustentabilidade. Vamos, de uma forma geral, como vai ser o pagamento, a relação de consumidor né, ou seja, às vezes vai pagar pouquinho, vai pagar uma tarifa social. Paga a tarifa social, ele é um consumidor, ele tem direitos, ele pode chegar na companhia e exigir, porque ele é um consumidor. Ele não recebe de favor. E eu diria mais Edison, o saneamento hoje, quando falamos em estrutura, muito provavelmente é o setor que tem a maior capacidade de geração de emprego líquida do Brasil. Por quê? É uma quantidade enorme de obras, é um déficit gigantesco acumulado aí em séculos na verdade, nossas cidades quando a gente olha de fora, como você falou, têm cem anos né, a Paraisópolis né, se você pegar as favelas do Rio de Janeiro são antiquíssimas também e nunca foi solucionado. Na verdade, aqui no Rio é pior né, porque hoje em dia, todos aqui bebem água com gosto ruim e com cheiro ruim, e comprar água mineral que pode. E quem não pode? Então, esse processo a gente vê ele como um todo, a gente vê como uma oportunidade de geração de emprego e rápido, e duradouro, não é emprego de seis meses, um ano, a gente vê como uma oportunidade de trazer para o lado de cidadania às pessoas que são excluídas, porque passam a ser consumidoras e passam, pagam pouquinho? Pagam pouquinho, pagam dentro aqui da capacidade, mas é um consumidor, tem capacidade aí, de exigir. Então é um processo muito maior, né. De geração e obviamente né, dos impactos positivos de você passar a ter um saneamento em determinada região né, de não existir doenças né, enfim. São coisas de impacto ambiental, impacto nos rios, impacto nas praias e assim por diante. Então nesse tripé da gente ter uma recuperação ambiental de um lado, cidadania e geração de emprego e renda, é o que a gente vê como um resultado direto de tudo isso que a gente está fazendo. Isso é muito otimista, não é algo que, digamos assim, essas obras e intervenções são longas né, não vou dizer para você que vai resolver um problema que está aí há 500 anos o País, em dois dias, isso não existe. São projetos longos, eles têm maturação longa, mas eles geram impacto desde o primeiro momento, geram impactos duradouros e estáveis. Então é isso que a gente tem que, que tem que focar, bom que a gente é bastante otimista, a gente está tendo já resultados muito bons, a gente está aqui para ajudar a transformar o país.
Edison Carlos – Legal. Eu falei isso porque, eu fiz essa pergunta porque eu participei desses, todos esses anos de tramitação do processo em Brasília, desde a geração aí das medidas provisórias, que culminou depois com a lei e havia essa dúvida, essa preocupação de que esse movimento fosse feito a partir de tarifas maiores que poderia comprometer, e aí a gente testemunhou essa dificuldade que o BNDES fez para encaixar esse aumento da população que possa ser atendido tarifa social e, ao mesmo tempo, colocando no próprio edital a quase que proibição de aumento de tarifa. Quer dizer, passou a ser algo concreto né, não era mais discurso de parlamento, então foi bem legal. Agora Carla, a gente no Trata Brasil, a gente fala muito que a infraestrutura mais transversal que tem no Brasil, que pode melhorar o país de uma forma mais completa é o saneamento, porque ele reduz custo de saúde, a criança que tem melhor saúde vai melhor na escola, então há uma melhoria da educação a gente tem estudos que provam que as pessoas que moram em locais cuja situação sanitária é muito difícil, muito ruim tira nota pior no ENEM, que é hoje em dia a porta de chegada na universidade, então existem várias consequências, né. O saneamento melhora o turismo, porque ele melhora as condições ambientais. Você também acha, você acha que, quando o Brasil se compara com o mundo a evolução do saneamento também não pode ser uma vitrine desse novo país que a gente quer construir em termos de índice de desenvolvimento humano, atendimento dos objetivos de desenvolvimento sustentável, ou seja, existem índices hoje internacionais que meio que ranqueiam os países né, e o saneamento básico, por estar na raiz de vários dos, das carências nacionais, ao ser resolvido ele pode levar o Brasil a um outro patamar no mundo. Você acha isso também ou eu estou viajando aqui, como apaixonado pelo saneamento?
Carla Barroso Carneiro – Não, eu não acho que você está viajando não, muito pelo contrário. Eu acho que essas metas de universalização do saneamento, elas são absolutamente estratégicas no caminho do crescimento do Brasil. Então, só para dar alguns números né, um real investido em saneamento são, números da OMS, que são conhecidos não é, não estou falando nenhuma novidade, só trazendo novamente aqui essas evidências internacionais que já existem né, um real investido em saneamento significa R$ 4,00 a menos gastos em saúde. Um bilhão de reais gasto em obras, como Fábio falou, gera 60 mil empregos. Empregos esses que, também como o Fábio muito bem disse, tendem a se manter ao longo de bastante tempo, porque não é uma obra que tem um ciclo curto, muito pelo contrário, é uma obra que tem um ciclo longo. E tem vários outros números que a gente poderia trazer para mostrar que investimento em saneamento, ele tem efeito transversal em toda a economia e o IDH né, ele tem como os principais elementos da sua composição saúde, educação e renda, né. E são justamente esses elementos que você mencionou Carlos, então se você tem melhor saneamento, você tem melhores índices na área de saúde, você tem mais acesso à escola porque você tem menos ausências né, as pessoas deixam de faltar tanto à escola, você gera renda porque você gera emprego num volume muito alto. Eu não estabeleceria uma relação causal entre saneamento e melhora imediata do IDH, mas sem dúvida uma correlação existe e esse é justamente um dos principais motivos para tentar trazer o capital estrangeiro para atuar nessa área, mas eu acho que a gente vai falar um pouquinho mais sobre isso daqui para frente, né.
Edison Carlos – Legal. Gilson, a gente do Trata Brasil, quando eu comecei no Trata Brasil, uma preocupação que eu tinha era de verificar quais eram os impedimentos que faziam com que o saneamento não chegasse nessas áreas, porque a gente tinha aquela percepção de que é má vontade de alguém que excluía essas áreas né. Ao mesmo tempo, são áreas que têm muita gente, até do ponto de vista eleitoral faz todo sentido fazer alguma coisa nessas áreas porque são muitas pessoas, então até olhando do ponto de vista político faria sentido levar os serviços para essas áreas. Então a gente foi conversar com o ministério público, com a defensoria pública, com os tribunais, e a gente viu que em alguns lugares realmente existem impedimentos ou até falta de diálogo, não com vocês com as organizações das comunidades, mas até entre os entes do próprio governo. Então a área habitacional não fala com a área de saneamento, aí a secretaria X não fala com a secretaria Y, enfim, sempre se criam barreiras que acabam impedindo que os serviços cheguem mais rápido aí, sejam barreiras econômicas ou judiciais. Isso tem mudado, você, quer dizer, vocês são muito articulados, cada vez mais bem articulados, nessas conversas que vocês têm com os governos vocês sentem que isso está mudando? Ou essas barreiras ainda são desculpas, muitas vezes para não se levar, não se enfrentar o real problema de urbanizar melhor essas áreas, conseguir levar o serviço para essas áreas? Qual o sentimento você, que é um líder aí, nato do problema no Brasil?
Gilson Rodrigues - O nosso sentimento é de que, não é só uma percepção, é uma política de exclusão, onde as favelas têm crescido de maneira desordenada em cima de áreas de mananciais, de córregos, sem acesso à água, sem infraestrutura, com pouco olhar do governo e com pouco processo de integração. É difícil você conseguir fazer programas de transformação social integrando todas as secretarias, ou governos e tal, fica uma disputa de alguma forma, por exemplo disputas políticas de quem é o dono, e os egos, nesse momento, eles inflam bastante, penitenciando a população. A população tem cobrado isso, então a gente percebia anteriormente de que a população era, falava pouco sobre saneamento básico, sobre as necessidades, mas nós estamos agora buscando cada vez mais integrar, porque nós percebemos isso que a Carla acabou falando, do quanto representa de investimentos em saúde, ou doenças que, a gente acaba tendo que viver aqui, situação de dengue ou de outras doenças têm acontecido, se tivesse sido investido no córrego, teria se poupado dinheiro com relação à questão da saúde e é uma situação grave, porque nós estamos vivendo uma situação de saúde neste momento, em que muitas pessoas estão passando dificuldade por estarem tendo pouco acesso à água, saneamento, entre outras coisas. A gente não consegue seguir aqui as recomendações da Organização Mundial da Saúde, então a gente percebe que existe um descaso, uma falta de integração e que os poderes acabam brigando entre si para não fazer. Essa é a realidade assim, briga para não acontecer, então nós temos brigado para que essas ações e que esse processo de integração aconteça. Ao mesmo tempo em que, geralmente as obras de saneamento, ou obras de canalizações ou de asfalto né, elas são muito ligadas à remoção né, e por vezes as pessoas associam essas obras de urbanização por exemplo, à remoção das pessoas. Aquela política do Maluf de arrancar tudo né, ela está muito presente na cabeça das lideranças e da população, então, à medida em que a gente conseguir aproximar de fato da comunidade e abrir um diálogo, e isso é muito difícil, porque muito técnicos não estão preparados para ouvir a comunidade, porque a comunidade está cheia de opinião, quer participar, a gente quer fazer parte da solução, não queremos fazer parte do problema, e por vezes chegam projetos que pegaram na gaveta, padrãozinho, sem diálogo, em que a comunidade quer ficar, quer enfiar goela abaixo na comunidade. E a gente está no processo de participação, de envolvimento, de querer o melhor, né. Nós queremos o melhor para a gente, né. Como alguém falou aqui já, os nossos R$ 50,00 valem tanto quanto os R$ 50,00 do cara que mora no Morumbi, nós não queremos viver dois Brasis, um Brasil do Alphaville e do “Alfavela”, somos de um Brasil só, somos todos brasileiros, e queremos ter acesso a todos os direitos e deveres, para que a gente possa prosperar, para que a gente possa se envolver, é assim que o G10 Favelas tem buscado, criar um novo olhar para a favela, mostrando a favela como potente, como agente de sua própria transformação, participando de todos os espaços. Então nós temos articulado e por isso foi criado o bloco inclusive, quando eu criei o bloco das favelas do Brasil, é para quem, ao invés de Paraisópolis, Heliópolis, Rocinha, trabalhar de maneira separada, a gente junte as maiores favelas e vamos juntos falar com o governo. Nós temos feito, inclusive, uma rodada de visitas aos prefeitos de capitais. Eu estive recentemente com o prefeito João Campos de Recife, para falar sobre Casa Amarela, estive recentemente alguns dias com o vice-prefeito aqui de São Paulo Ricardo Nunes para falar das iniciativas, vamos visitar o prefeito em São Luís para falar de Coradinho, estamos visitando uma série de repente prefeitos de capitais para pensar alternativas de desenvolvimento da favela e mostrar que a favela é potente, fazendo parte da solução e não do problema. Não estamos preocupados, neste momento, em achar culpados, é importante apontar que existe um problema. Nós estamos preocupados em, como é que a gente cria soluções para resolver o conjunto dos problemas que estão evidenciados nessa pandemia, para que a gente possa prosperar, mas a gente sente que falta integração entre os governos, que falta uma lei específica que você pudesse juntar tudo, é difícil até de criar lei né, se aprovar essa lei, a gente pudesse estar mais integrados, mas existem boas soluções aqui, que já existem hoje, mas falta vontade política ainda de fazer. A comunidade quer, está falando mais sobre esse assunto, mas se você está integrado dentro de um programa de infraestrutura que garanta moradia para quem vai remover, que garanta a água para quem vai estar ali, que não seja uma cicatriz dentro das comunidades das favelas que separa ricos e pobres um lado, ou mesmo na favela separa lados, onde parece que existem essas classes quando todo mundo é igual, a gente está nesse momento buscando essa integração e dialogando mais.
Edison Carlos – É, muito legal. Essa estratégia de você não buscar culpado é uma estratégia que o Trata Brasil usa desde o começo, quer dizer, a gente chega numa determinada autoridade e a gente fala “a gente não veio aqui culpar quem não fez, a gente veio aqui ver como é que a gente faz”.
Gilson Rodrigues - Mas uma coisa importante Edison, que a gente tem feito, é precisamos apontar quem são os responsáveis, porque senão fica fácil. Então assim, tem responsável com relação a isso, então é importante que a gente aponte de quem é a responsabilidade de fazer aquilo e a gente se integra nesse período. Eu vou postar daqui a pouco no meu Instagram @GilsonRodriguesBR a situação de córregos e de água de algumas favelas, para vocês olharem como está, e como estão os pedidos de articulação para poder avançar. Mas tem coisa que não avança, falta vontade política.
Edison Carlos – Obrigado. Muito bom. Fábio, nós estamos já caminhando para o final, depois eu vou devolver a palavra para o Gilson dar o tchau dele, mas eu vou aproveitar o seu final da sua fala, você já pode se despedir, e já te agradeço, agradeço a todos. Fábio, a gente também, um grande ganho do Marco Legal, foi a inclusão dos pequenos municípios que, assim como nós estamos aqui falando de comunidades mais vulneráveis, nós temos municípios muito vulneráveis, que são os municípios pequenininhos, que ficaram a vida toda à margem das políticas de saneamento. Estavam ligados a alguma companhia pública ou privada, mas a gente sabe que, na prática, eles estavam ali meio abandonados, e isso passa a ser resgatado pela política de regionalização. Você também vê nisso uma grande oportunidade para estes municípios pequenos, vulneráveis, que muitas vezes o prefeito luta lá, para conseguir pagar a folha de funcionário e agora serão obrigatoriamente incluídos na política Federal?
Fábio Abrahão - Sim, há a oportunidade, até porque vários deles não teriam capacidade de escala para atrair investimentos para suas populações, então a lógica de regionalização é fundamental para o país. Agora, o marco criou uma inovação importante, que foi justamente viabilizar a competição, por quem vai prestar o serviço e, portanto, o melhor ali para expandir e atender às populações ali, daquele lugar. Mas continua evidentemente na mão dos municípios, uma questão inclusive da nossa Constituição, a decisão, ele é o poder concedente. Então o que o marco, ele inclusive auxilia, isso que o Gilson comentou né, de os municípios se organizarem junto com o estado, e a partir daí, formar um bloco e poder evoluir num processo competitivo, seja com uma estatal, seja com uma companhia privada, ampliar o serviço. Por outro lado, realmente eu concordo 100 % com o que vocês comentaram, é importante a exposição e o debate é fundamental. Vamos pegar dois casos aqui: o estado do Amapá por exemplo, tanto o governo do estado quanto a nova prefeitura de Macapá estão num exercício muito frutífero para justamente poder ter o leilão no estado inteiro, todos os municípios, então capital e interior, já esse ano. A nossa ideia é até o início do segundo semestre, é um exemplo muito positivo. Por outro lado, a gente pega o estado do Acre. O estado do Acre é um estado que tinha um projeto pronto, com dois anos de trabalho, e que a gente viu como adicionar, a Prefeitura de Rio Branco decidiu é tocar ali, o saneamento com um, uma estatal municipal. E aí dois anos de trabalho foi inviabilizado, e vamos lembrar que estados como o Acre, ele depende de a capital estar dentro do projeto, porque a população é considerada na capital e ela é que viabiliza justamente o atendimento do interior, à população mais afastada né, com maiores carências. Então aí, no caso do Acre é o oposto né, é justamente essa dissonância né, essa desconexão é que fez aí com que, no caso a prefeitura tomasse essa decisão de encerrar o projeto. Então ainda assim, por mais que o Marco Regulatório tenha dado o caminho, que ele tenha pavimentado a solução, por outro ainda assim existe um esforço né, de tentar unificar políticas públicas, visões comuns para a população a ser atendida. Portanto, esse exercício né, Gilson comentou, de debates, de exposição, mostrar quais são os caminhos, ele é fundamental para que a população, enfim, faça parte aí desse debate né, e que torne ele, aí, uma realidade. Eu vou me despedir Edison, eu gostaria de agradecer imensamente a oportunidade, esse aqui é o debate, como eu comentei né, quando a gente olha para a infraestrutura do Brasil, ele é o mais importante por todos os benefícios que pode gerar, por toda a ativação de economia rápida, geração rápida de emprego que é capaz de trazer e pelo déficit que a gente tem. Então ele ataca o meio ambiente né, num sentido ele resolve um problema né, histórico no nosso meio ambiente, ele ataca esse problema, ele ajuda a resolver a questão do emprego e, do outro lado, toda a questão de saúde né, ele é inclusivo, ele é o processo de estrutura mais inclusivo que a gente visualiza. Então eu estou bastante otimista, o banco está aqui, como eu disse, à disposição, os nossos projetos aí, atuam em algo em torno de 55, 60 milhões de pessoas né, e tem muita disposição aí, para fazer a nossa parte nessa mudança.
Edison Carlos - Eu que agradeço a Fábio. Muito obrigado aí pela presença, obrigado, parabéns pelo trabalho que vocês têm feito no BNDES. Eu queria passar também para Carla as considerações finais. Carla, como é que é esse esforço que o governo tem feito para trazer novos recursos para o Brasil, para essa infraestrutura e para outras? Eu sei que vocês têm feito um trabalho muito grande para trazer novas fontes de financiamento, novos recursos. Conta um pouco de seu trabalho e depois pode se despedir. Muito obrigado viu Carla, fiquei muito feliz de tê-la aqui, no nosso painel.
Carla Barroso Carneiro – Bom, então eu queria contar aqui, como a gente tem conversado, o saneamento ele tá chegando agora ao mercado 20 anos depois do que chegou a infraestrutura de logística, onde já tem toda uma estrutura regulatória, já testada, de concessões e PPPs, aeroportos e energia né, então o saneamento ele tá chegando agora, ele tá chegando agora e ele tem um desafio muito grande, que monta a centenas de bilhões para que a gente consiga suprir essa lacuna que existe, e que o governo sabe que existe, e está empenhado em, de alguma forma resolver. Para fazer isso, nós dentro do ministério desenvolvimento regional, que lá é onde está a secretaria nacional de saneamento e Agência Nacional de Águas, como todos sabem, nós fizemos um amplo, é, pesquisa para entender como nós poderíamos criar um ambiente que fosse atraente para os investimentos diretos estrangeiros, e nós chegamos à conclusão de que o governo deve atuar aqui como uma espécie de organizador de todo esse movimento internacional em torno do ASG né, ambiental, social e governança, mas todos os outros conceitos e requisitos que existem em torno ao investimento, que estão cada vez mais migrando do que é um aspecto reputacional, e de imagem das empresas, para uma questão estatutária, então hoje a maior parte dos grandes investidores institucionais do mundo, os fundos de pensão, os fundos soberanos, as grandes seguradoras, elas têm obrigação estatutária de ter um volume dos ativos dela, em projetos ASG e isso, então, migrou do que era reputacional e imagem para uma obrigação estatutária e depois, agora, a gente tá chegando no momento em que tá ficando claro que aqueles projetos que já estão alinhados com os critérios internacionais, ASG, PRI, de blended finance, esses projetos, eles têm menor risco, e portanto eles são mais atraentes. Então, esse é um momento, e a princípio nós vamos avançando em maio, junto com BNDES e com vários outros atores inclusive do setor financeiro, que acho que é um outro elemento que a gente não falou aqui, que eu acho que vale a pena aproveitar o meu minutinho aqui final para falar, é o seguinte: é muito comum você ter um concessionário que assina um contrato e ele volta para buscar financiamento dos bancos, dos bancos nossos, do BNDES, do banco público, do BDNG, do BRDE, a princípio, obviamente não há nada de errado com isso, mas porque não trabalhar com o que existe de melhor prática internacional? Hoje, que é a questão de blended finance? Então, se nós tivermos um concessionário, que ele assinou um contrato que já tinha um projeto e estava alinhado com os ASG, o custo de transação para que esse concessionário emita título verde, é muito menor. E nós já vimos duas grandes emissões no ano passado de empresas na área de saneamento, que conseguiram captar com custo baixo, então é um ciclo virtuoso que nós criaremos quando nós conseguirmos incorporar, em todos os novos projetos, o alinhamento aos ASG e aos PRI, então nós temos aqui como parceiros o BNDES, mas também o CBI, que é o Climate Bonds Initiative, o PNUD que é o executor entre as agências da ONU dos ODS, vocês sabem que o ODS 6 é água, o BID, o Banco Interamericano de Desenvolvimento, o Banco Mundial, enfim nós temos todo um ecossistema de parceiros, bancos, como o BRDE, ou Banco de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul, o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, que vão ajudar justamente nessa parte de capacitação, porque hoje saiu uma pesquisa da XP que eu achei bem interessante, de que todo mundo fala de ASG, mas muito pouca gente sabe exatamente como fazer para investir, emitir, alinhar um projeto ao ASG. Então a ideia é que nós possamos capacitar os agentes do setor privado, para que eles possam atuar alinhando esses projetos ao ASG. Então, eu queria também me despedir, agradecer a todos, desejar um bom, continuidade de discussões para todos. Obrigada.
Edison Carlos - Não Carla, muito legal porque realmente não há nenhum ganho ambiental melhor para um país do que saneamento, porque ele corrige muita coisa ao mesmo tempo, então quando chegou esse conceito do ISG aí no Brasil, as empresas de saneamento demoraram um pouco para vislumbrar, mas hoje não há roda de conversa que não se fale desses mecanismos justamente porque é um ganho ambiental impressionante, além de social, além de econômico né, e isso acho que vai ter uma grande aderência aí, parabéns pelo trabalho do governo brasileiro em trazer essas fontes aí, como nós estamos falando e aí R$ 500 bi a R$ 700 bilhões, vai ter que tudo isso vai ter que aparecer para que a gente cumpra. Bom eu queria passar a palavra então o final para o Gilson. Gilson, eu deixei você de propósito que, na verdade é uma honra tê-lo aqui e parabéns pelo trabalho que vocês estão fazendo no G10, na Cufa, no Mães de Favela, todos esses movimentos, Amigos do Bem, eu acho que a situação só não é mais caótica graças a movimentos como o de vocês e você é um símbolo desses movimentos. Eu queria aqui, te dar os parabéns aqui, nossa alegria como Trata Brasil, de ter gente como você. Suas palavras finais, o meu, o nosso agradecimento aí Gilson, muito obrigado viu.
Gilson Rodrigues - Agradecimento é meu, muito obrigado Edison, Fábio, Carla. Eu acho que a mensagem final é que todos que estão aqui, que estamos num evento internacional, que ama o Brasil, que é um evento que está discutindo o Brasil, que a gente não permita viver dois Brasis, um Brasil que divide, um Brasil que acredita no novo normal que está agravado com a fome, com o desemprego, com a falta d'água, nós precisamos nos unir cada vez mais, porque só assim vamos conseguir superar essas crises. Então que a gente possa estar unido e aqui no G10, nós temos buscado dar o exemplo, mostrar que é possível, onde antes as pessoas esperavam apenas que a gente fosse para a avenida queimar pneu, nós temos criado programas de apoio, de capacitação, de realização para que a gente não viva o caos, que a gente não espere o caos acontecer. Ainda dá tempo de se organizar, ainda dá tempo de ajudar quem mais precisa, então que a gente possa fazer isso e discutir ações efetivas. Com relação ao saneamento, eu vou com a Carla no ministério, para que a gente pudesse criar algum tipo de sentido que fosse específico para pensar a favela, para que a gente possa criar soluções, e que a gente começasse com algumas, pegasse um grande, pegasse modelos que possam ser replicados. Isso para a gente é muito importante, ter eventos que possam ser aplicados, então pensar alguma coisa que possa ser efetiva. Também provocar o Fábio, porque nós estamos aqui pensando, assim temos duas, dois momentos, duas crises né, que a situação econômica deve se agravar. A favela quer fazer parte da solução. São 14 milhões de brasileiros vivendo nas favelas, 168 bilhões circulam lá. Só no G10 são R$ 7 bilhões que nos ajuda para que a gente possa fortalecer a economia da favela e prosperar, para que as coisas possam acontecer. E a todo mundo que está ouvindo, que é técnico e quer pensar ações de saneamento, quer pensar urbanização, que nos procure. Nós estamos precisando de gente boa e querer discutir, dialogar e fazer as coisas acontecerem. Quem quiser me acompanhar, no Instagram @gilsonrodriguesBR, e vamos trabalhar, que o Brasil precisa de gente boa trabalhando.
Edison Carlos – Obrigado Gilson, obrigado Fábio, obrigado Carla, obrigado a Brazil
Conference, obrigado a todos que nos viram. Foi um grande prazer discutir saneamento num evento tão importante, que todos fiquem seguros, que todos se protejam, que todos se higienizem e que todos façam o possível para se isolar, porque a gente precisa vencer esse momento. Muito obrigado gente, boa noite a todos.
Editor executivo multimídia Fabio Sales / Editora de infografia multimídia Regina Elisabeth Silva / Editor de Política Eduardo Kattah / Editores Assistentes Mariana Caetano e Vitor Marques / Editores assistentes multimídia Adriano Araujo e William Mariotto / Designer Multimídia Bruno Ponceano, Dennis Fidalgo, Lucas Almeida, Vitor Fontes e Maria Cláudia Correia / Edição de texto Fernanda Yoneya, Valmar Hupsel e Mariana Caetano