A o ouvir falar em cuidados paliativos, é comum pensar na morte. Mas essa especialidade é, na verdade, centrada na vida. Cada vez mais reconhecida como parte importante do cuidado integral, a abordagem ganha espaço no Brasil e começa a romper o estigma de que cuidar é sinônimo apenas de curar. O tema foi pauta no painel “Cuidados paliativos e qualidade de vida: humanizando a jornada oncológica”, durante o Retratos do Câncer.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define os cuidados paliativos como uma abordagem que visa melhorar a qualidade de vida de pacientes e suas famílias, por meio da prevenção e do alívio do sofrimento. Eles são indicados a pessoas que enfrentam doenças graves, progressivas e potencialmente fatais.
A OMS reconhece, ainda, que esse tipo de cuidado deve ser entendido como um direito humano acessível a todos. No Brasil, porém, dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) mostram que cerca de 625 mil pessoas precisariam desse tipo de assistência, mas que há pouco mais de 230 serviços especializados cadastrados, insuficientes para atender a essa demanda.
Paliativo é acompanhar o paciente que vai evoluir até a morte ou até a cura. E a equipe faz com que aquela jornada seja a mais confortável possível.
Renata Freitas, Diretora do Hospital do Câncer IV – Unidade de Cuidados Paliativos do Inca
Com o objetivo de ampliar o acesso, o Ministério da Saúde lançou, em 2024, a Política Nacional de Cuidados Paliativos, que tem como foco a humanização do tratamento, reconhecendo o sofrimento em todas as suas dimensões: clínica, emocional, social e espiritual.
Desde o diagnóstico
Para Renata Freitas, diretora do Hospital do Câncer IV - Unidade de Cuidados Paliativos do Inca, o incentivo aos cuidados paliativos é fundamental. “Paliativo é acompanhar o paciente que vai evoluir até a morte ou até a cura. E a equipe faz com que aquela jornada seja a mais confortável possível.”
No Hospital do Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graacc), os cuidados paliativos são integrados ao tratamento desde o início, como explicou Carolina Kasa, enfermeira especializada em Cuidados Paliativos em Oncologia Pediátrica. “Trabalhamos com o conceito de paliativo de fato: quem tem sintoma e sofrimento de difícil controle é elegível.” E, para reforçar que esse é um cuidado contínuo, o atendimento ambulatorial da equipe de paliativos acontece no mesmo dia das consultas com os oncologistas. “Mesmo quando a doença progride e o tratamento curativo deixa de ser possível, seguimos juntos no atendimento. Isso evita a sensação de abandono e preserva o vínculo com o paciente e a família”, afirmou.
A recomendação é encaminhar o paciente para os cuidados paliativos em até oito semanas após o diagnóstico, mas ainda há um atraso nesse encaminhamento.
Toshio Chiba, Chefe do Serviço de Cuidados Paliativosdo Icesp
Até mesmo após a alta hospitalar, o cuidado é permanente. “Já acompanhamos crianças indígenas que voltaram para suas aldeias de origem e criamos vínculo com as equipes locais, orientando e cuidando a distância”, contou. “Mesmo longe, seguimos em contato.”
Qualificação
O avanço dos cuidados paliativos no Brasil depende, sobretudo, da formação de profissionais aptos a oferecer esse tipo de atenção. “A recomendação é encaminhar o paciente para os cuidados paliativos em até oito semanas após o diagnóstico, mas ainda há um atraso nesse encaminhamento”, destacou Toshio Chiba, chefe do Serviço de Cuidados Paliativos do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp). “É uma questão de garantir o acesso à informação adequada, tanto para os profissionais quanto para os pacientes.”
Trabalhamos com o conceito de paliativo de fato: quem tem sintoma e sofrimento de difícil controle elegível.
Carolina Kasa, Enfermeira no Graacc
No Icesp, cerca de 140 residentes passam anualmente pela área. Ainda assim, o número está longe de suprir a demanda nacional. “Nos últimos anos, aumentou a formação de profissionais preparados para lidar com situações complexas, como a dor total, aquela que envolve sofrimento físico, emocional e espiritual. Só uma equipe multidisciplinar consegue acolher esses casos e é por isso que reforço a importância da educação”, disse Chiba.
Renata Freitas também chamou atenção para o papel da formação como motor de mudança. “Precisamos furar a bolha: nós, que somos paliativistas, sabemos como funciona esse cuidado, mas esse conhecimento precisa chegar em outros profissionais.”
Até para falar sobre a morte – afinal, os cuidados paliativos também acompanham o paciente nesse momento, garantindo conforto e autonomia – é preciso capacitação. “Em países com alta longevidade, o debate franco sobre a morte já faz parte da cultura. Precisamos falar sobre a nossa finitude com lucidez. Você deveria poder escolher como será sua despedida. Isso também é cuidado paliativo”, finalizou Chiba.
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