Moscou aprofundou a parceria estratégica entre China e Rússia. O caráter global da aproximação foi sublinhado pela presença simultânea de Fumio Kichida na Ucrânia, na primeira viagem de um chefe de governo japonês a uma zona de conflito armado desde a 2.ª Guerra. Japão e China são adversários históricos.
Xi Jinping se reuniu com Vladimir Putin 39 vezes desde que chegou ao poder, há dez anos. Ambos anunciaram em Pequim sua “amizade sem limites”, em 2 de fevereiro de 2022, quando Putin concentrava 100 mil soldados na fronteira com a Ucrânia. Três semanas depois, lançou a invasão. Nesses 13 meses de guerra, altos funcionários dos dois governos se encontraram 21 vezes. A visita de Xi, os 14 acordos assinados e o convite para Putin visitar Pequim provam que a agressão à Ucrânia não abalou essa relação. Ao contrário. Aprofundou.
Desde a invasão, a China vendeu para a Rússia mais de US$ 12 milhões em drones – usados com eficácia nesse conflito –, segundo registros da Alfândega russa examinados. Empresas chinesas venderam mil fuzis, partes de drones e coletes à prova de balas aos russos, revelou investigação do site Politico.
Em 2022, o comércio bilateral aumentou 29%, atingindo US$ 190 bilhões. Metade do gás exportado pela Rússia vai agora para a China, e 40% do petróleo importado pelos chineses é russo. Os acordos preveem aumento da importação de energia russa. Com esse dinheiro, a Rússia pode comprar e fabricar armamento.
A estatal russa Rosatom está fornecendo urânio altamente enriquecido para a China produzir plutônio e expandir seu arsenal nuclear, afirmou John Plumb, secretário assistente de Defesa, ao Congresso americano.
Troca de benefícios
A China dá à Rússia sobrevida econômica, acesso a tecnologia e apoio político. A Rússia garante a segurança energética da China e lhe estende seu guarda-chuva nuclear. A China se projeta nos Mares do Leste e Sul da China e planeja invadir Taiwan.
Esses movimentos engajam países pacifistas ou neutros desde a 2.ª Guerra, como Japão, Alemanha, Suécia, Finlândia e Suíça. E elevam o engajamento de outros países da Europa e da Ásia-Pacífico, como Austrália e Coreia do Sul.
Ao se despedir, Xi disse: “Neste momento, há mudanças que não víamos havia cem anos e nós as estamos conduzindo juntos”. Putin respondeu: “Concordo”. A China se refere ao século 19 como “o século da humilhação”, por causa da Guerra do Ópio e abertura forçada de seus portos. O regime fala em “acerto de contas”. Putin considera o fim da União Soviética “a maior tragédia geopolítica do século 20″. Os dois líderes estimulam ressentimento e revanchismo contra o Ocidente.
A marca de seu revisionismo é o intento de provar que as autocracias são mais eficientes que as democracias, para justificar sua perpetuação no poder.