A capa do Estadinho de hoje é sobre Rio, a nova animação em 3D, em cartaz nos cinemas. Clique nas páginas abaixo para ler a reportagem completa. E depois, saiba mais sobre outros tipos de araras-azuis na entrevista feita com a bióloga Neiva Guedes!
Foto: Divulgação
Mas, afinal, que bicho é esse?
Esse aí de cima é a Arara-azul, que está no livro Aves do Brasil - Pantanal e Cerrado. Você sabia que existe mais de uma espécie de arara-azul? Conversamos com a bióloga Neiva Guedes, do Projeto Arara Azul para entender melhor essa história. Veja:
A arara-azul é um animal brasileiro? De que região?
Praticamente, pois sua maior área de ocorrência era o Brasil Central. Hoje, a população é conhecida em três locais diferentes: No Pantanal, com maior parte da população, cerca de 5 mil indivíduos, abrangendo estados de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, além das áreas que fazem parte da Bolívia e do Paraguai. No Paraguai, elas foram praticamente extintas e hoje são vistas só para se alimentar, não tem registro de ninhos. Já na Bolívia, dois biólogos de lá estudaram a população e relataram que hoje tem mais ou menos 150 indivíduos. Então, por isso essa arara não é só brasileira. No Norte, no estado do Pará, Serra de Carajás, há cerca de 500 indivíduos. E na Região de Gerais, onde se encontram os estados de Tocantins, Piauí, Maranhão, Bahia e Goiás, há cerca de 1000 indivíduos. Totalizando 6500 aves, aproximadamente em ambiente natural. Quando o Projeto começou, a estimativa era apenas 1500 aves para o Pantanal todo, e como pode perceber acima, agora já são 5000. Já podemos perceber que a população do pantanal não apenas aumentou de número, mas também tem expandido para outras áreas onde não era mais encontrada, como cidades mais ao sul do Pantanal e na Bolívia.
Quantos tipos ou espécies de arara-azul existem? O gênero Anodorhynchus, do qual a arara-azul Anodorhynchus hyacinthinus faz parte, inclui três espécies de araras: A A. glaucus que está atualmente extinta, pois não é vista há cerca de 100 anos; A A. leari ou Arara-azul-de-lear, que se encontra muito ameaçada na natureza; e a arara-azul do Pantanal. Mas a ararinha-azul Cyanopsitta spixii, que agora só existe em cativeiro, não pertence a este gênero. (Clique aqui se quiser saber mais).
O que elas comem? Araras-azuis são aves especializadas na alimentação. Comem basicamente castanha de coco. Desde recém nascido, quando comem papinha de coco regurgitado pelos pais, até a fase adulta, quando quebram cocos extremamente duros para comer a castanha.
Quais são os hábitos dela? Elas acordam 15 minutos antes do sol nascer. Depois, se espreguiçam por uma meia hora. Comem entre 7 horas e 9 horas e descansam, brincam, pousam e voam. Nos horários de sol mais quente, elas só repousam. E às 15 horas, fazem um novo período de alimentação. Voam para o dormitório ainda antes do sol se por. Araras são aves bastante sociais e por isso, ao longo do dia fazem preening, uma espécie de carinho, que consiste na limpeza de penas desde a base até a ponta. Isso serve para tirar as peles que recobrem as penas em crescimento. Também fazem alopreening (essa limpeza de penas que fazem nelas mesmas). Ficam sempre juntas: família ou bandos. Quando estão reproduzindo dividem a tarefa de cuidado do filhote.
Como se reproduzem e de quanto em quanto tempo? Elas se reproduzem de julho a dezembro. Esse é o pico, mas alguns casais podem antecipar a postura para junho e outros retardar até dezembro. Ai vão criar os filhotes até março/abril. A maioria dos casais só se reproduzem a cada dois anos. Outros, se reproduzem todos os anos. Eu não fiz a proporção de cada um ainda.
Está ameaçado de extinção? Por quê? O status atual da arara-azul Anodorhynchus hyacinthinus é ameçada de extinção na Lista da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, publicada pelo MMA em 2003 e 2004; é citada como em perigo pela IUCN (União Mundial para Conservação da Natureza) em 2003 e está listada no apêndice I do CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas). As principais ameaças que a arara azul Anodorhynchus hyacinthinus enfrenta atualmente é o tráfico, a descaracterização ambiental (que resulta em perda de hábitat e escassez de cavidades) e a própria característica da espécie que tem baixa taxa reprodutiva. Apenas para citar um exemplo sobre o tráfico, em Novembro 2004, um traficante foi preso com oito filhotes de arara azul em Corumbá-MS. Menos de 15 dias depois, o mesmo indivíduo foi preso novamente, numa rodovia do interior do estado, com mais dois filhotes. Além disso, através de informações de um pesquisador boliviano, constatamos que ele conseguiu embarcar mais de 10 filhotes de Arara Azul em Santa Cruz na Bolívia, com destino a Colômbia e pelo menos outros 5 foram parar no Uruguai. Assim, verificamos que o tráfico infelizmente continua intenso, exceto no Pantanal, onde se não acabou, pelo menos diminuiu muito. Falamos isso, baseado nas fiscalizações que tem sido mais atuante no estado de Mato Grosso do Sul; da população humana que está mais atenta, informada e por isso faz mais denúncias e pelos resultados das análises genéticas que tem mostrado que as aves apreendidas nos últimos anos tem mais probabilidade de serem do Norte/Nordeste do Brasil do que do Pantanal.
O que é uma ave extremamente social? É que não vive sozinha na natureza. Vive nos primeiros anos de vida com pai e mãe (que são fies e só se separam com a morte de um dos indivíduos) e quando jovenzinhos vão para um bando de jovens, os teens. Aqui os teens do pantanal chegam a formar bando de até 80 indivíduos, sendo mais comum 14-20. São extremamente dependentes dos pais quando nascem para receber comida e calor. Precisam de cuidados como uma criança. Pais fazem limpeza de penas. Tem conversa específica entre pais e filhos. Eles se reconhecem no meio de um bando...