Vaticano permite que homens gays se tornem padres, desde que permaneçam celibatários

Diretrizes são válidas por um período experimental de três anos apenas em território italiano

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Por Elisabetta Povoledo (The New York Times)
Atualização:

O Vaticano aprovou novas diretrizes permitindo que homens gays ingressem nos seminários, contanto que permaneçam celibatários, ou seja, não pratiquem sexo. A decisão vale apenas para a Itália.

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De acordo com as novas orientações, os diretores de seminários devem considerar a orientação sexual como apenas um aspecto da personalidade de um candidato.

Por outro lado, elas não alteram o ensino da Igreja Católica de que as “tendências homossexuais” são “intrinsecamente desordenadas” e que homens com tendências gays “profundamente enraizadas” não devem se tornar padres.

Mas elas esclarecem que, se um candidato permanecer casto, sua orientação sexual não deve desqualificá-lo na iniciação ao sacerdócio.

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O Papa Francisco celebrou a Santa Missa da Epifania na Basílica de São Pedro, no Vaticano, no dia 6 de janeiro. Foto: Andreas Solaro/AFP

A Igreja Católica vem lutando há anos com uma contradição: o sacerdócio tem sido um refúgio para homens gays, enquanto os ensinamentos da igreja rejeitam as relações entre pessoas do mesmo sexo.

As diretrizes, adotadas pela Conferência dos Bispos Italianos em novembro e aprovadas pelo Vaticano, entraram em vigor na quinta-feira, 9, para um período de teste de três anos. Bispos em outros países, onde a homossexualidade é regularmente condenada, não devem considerar diretrizes semelhantes.

“Esta é a primeira vez que vejo em um documento aprovado pelo Vaticano que sugere que o discernimento pela entrada de um homem gay no seminário não pode ser determinado simplesmente por sua orientação sexual”, disse o reverendo James Martin, religioso de Nova York que defende uma igreja mais acolhedora para os católicos gays.

“A minha leitura disto — e é apenas a minha leitura - é que se um homem gay é capaz de liderar uma vida casta e celibatária emocionalmente saudável, ele pode ser considerado para admissão ao seminário”, completou.

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Francisco tem adotado uma abordagem mais acolhedora em relação à comunidade LGBTQIA+. Recentemente, ele permitiu que padres abençoassem casais do mesmo sexo em casos específicos.

Por outro lado, em maio do ano passado, o papa teria usado termos pejorativos para se referir à comunidade LGBT. A fala do papa virou manchete em diversos veículos italianos e argentinos.

Em 2016, ele deu luz verde a um documento sobre vocações sacerdotais que afirmava que homens com tendências homossexuais “profundamente enraizadas” não deveriam ser permitidos a entrar nos seminários, retomando um documento de 2005 aprovado por Bento XVI.

Diretores de seminários interpretaram essas instruções de maneiras diferentes, mas as novas diretrizes oferecem alguma clareza.

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As diretrizes, postadas no site da conferência dos bispos italianos na quinta-feira, citam a proibição do documento de 2016, mas também afirmam: “Ao referir-se a tendências homossexuais no processo de formação, também é apropriado não reduzir o discernimento a este aspecto sozinho, mas, como em qualquer candidato, entender seu significado dentro do quadro geral da personalidade do jovem.”

As diretrizes também dizem que “o objetivo da formação do candidato ao sacerdócio na esfera afetivo-sexual é a capacidade de acolher como um dom, escolher livremente e viver de forma responsável a castidade no celibato.” As seções das diretrizes sobre a importância do celibato não diferem baseadas na orientação sexual.

“É um avanço”, disse Francis DeBernardo, diretor executivo do New Ways Ministry, um grupo baseado em Maryland que apoia católicos gays.

“Isso esclarece declarações ambíguas anteriores sobre candidatos gays ao seminário, causando muito medo e discriminação. E esse esclarecimento trata candidatos gays da mesma forma que candidatos heterossexuais são tratados. Esse tipo de tratamento igualitário é o que a Igreja deveria visar em relação a todas as questões LGBTQ+.”

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