Longe da reserva no meio da Amazônia, onde a alta de casos de desnutrição e malária fez o governo federal decretar emergência em saúde, indígenas Yanomami que migram para Boa Vista sofrem com a falta de apoio. Uma parte deles vira morador de rua e se torna alvo de violência e preconceito. Sem falar português, eles têm dificuldade para conseguir trabalho e até para acessar auxílios do governo. Também é frequente o abuso de bebidas alcóolicas.
Um dos pontos de aglomeração fica embaixo do viaduto Peri Lago, no centro da capital roraimense, que já sofre a pressão de outro fluxo migratório ainda maior, o de venezuelanos que cruzam a fronteira em busca de melhores condições de vida.
“Morar na rua é ruim, mas não posso voltar para a comunidade, pois fui expulso”, diz Cauã Sanomã, de um dos subgrupos Yanomamis que vivem em Roraima. Segundo ele, muitas tribos diferentes vieram viver em sua comunidade, a mais de 200 quilômetros da capital, o que provocou conflitos. Por trás desse processo, está ainda a invasão de garimpeiros na terra indígena, que tiram o espaço dos indígenas e levam álcool e drogas.
“Também não tem local para os Yanomamis em Boa Vista. Aqui nos trazem comida e trocamos por bebida e assim vamos passando”, conta ele, que conversou com o Estadão na quinta-feira, 26, com a ajuda de um intérprete. Cauã estava acompanhado do pai.
No dia anterior, a reportagem também havia abordado outro grupo de três jovens entre 20 e 25 anos e um adolescente. Eles dormiam embrulhados em redes que foram transformadas em lençóis. Um deles, com o pouco que falava de Português, explicou que é do grupo Yauari da comunidade Xexena, um dos sub grupos Yanomami.
Esse grupo chegou a ser levado de volta para o Território Yanomani, onde vivem 30,4 mil indígenas, mas voltou a pé, fugindo das condições precárias da reserva. “O acompanhamento desses indígenas feito pela (associação) Hutukara e pelo CIR (Conselho Indígena de Roraima) . Mas não temos casa de apoio, nem abrigo, nem local para eles. O que fazemos é levar alimentação e dar abrigo quando pedem”, diz Nonato Cavalcante, voluntário que ajuda a fazer a ponte entre grupos indígenas e órgãos públicos.
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“Lá (na terra indígena) são vários povos e brigam entre si. Mas aqui na cidade tem muito preconceito e eles não estão seguros em nenhum lugar”, acrescenta ele. Outro agravante é a presença crescente de garimpeiros na reserva - estima-se que haja 20 mil. A invasão pela mineração irregular ameaça a saúde dos indígenas, uma vez que o mercúrio usado no processo contamina os rios e o barulho das máquinas afugenta os animais, usados para caça.
Enquanto o Estadão começou a falar com o indígena sob o viaduto, os demais acordaram e a ameaçaram a reportagem. A relação entre os Yanomami e o entorno é tensa - eles são alvo de queixas de comerciantes e feirantes. “Eles ingerem bebida alcoólica , brigam e andam despidos”, reclama Frederico Barbosa, que vende verdura, frango, entre outros itens.
Segundo os vizinhos, pequenos acampamentos de Yanomami surgem e são desmontados todos os meses - aumentam perto das datas de saque de benefícios sociais. Às vezes, famílias com crianças vão para o local. “Muitas (crianças) encostam na banca e pedem por goma ou farinha”, diz a feirante Francilene dos Santos.
Pouco habituados ao ambiente urbano, há relatos frequentes de indígenas quase atropelados. Foram pelo ao menos dez acidentes no trecho que liga essa área a BR-174 (Manaus-Boa Vista), de acordo com a Hutukara Associação Yanomami.
Mas a violência maior ocorreu em novembro. Uma jovem mãe, identificada como Ana Yanomami, foi morta a tiros, e dois outros indígenas ficaram feridos, após a montagem de um acampamento próximo a feira do produtor, com cerca de 20 pessoas, no mesmo local onde hoje estão esses jovens. Os atiradores passaram de bicicleta - nenhum deles foi preso até agora. Em nota, a Polícia Civil diz investigar o motivo e a autoria do crime.
Em reação na época, o Conselho Indígena de Roraima afirmou que o homicídio “não deverá nem pode ficar impune, pois uma criança está órfã e uma família perde um de seus membros em ato covarde e sem precedentes, novamente a um povo que saiu de suas terras devido ao contato forçado com invasores e garimpeiros onde perderam parte de suas terras”.
Procurada, a prefeitura de Boa Vista informou que atende as crianças e que em 2022, foram 703 internações de indígenas yanomami no Hospital da Criança Santo Antônio. Hoje, dos 62 indígenas internados, 46 são crianças yanomami. As principais causas dessas internações são: doença diarreica aguda, gastroenterocolite aguda, desnutrição, desnutrição grave, pneumonia, acidente ofídico e malária.
Já o governo estadual disse que os indígenas são assistidos pelo governo federal. “Não é o Estado que é responsável. É muito difícil fazer o controle”, disse ontem ao Estadão/Broadcast o governador Antonio Denarium (PP), que disse já ajudar com a entrega de merenda nas escolas estaduais, a distribuição de 12 mil cestas básicas a indígenas, dentre outras ações. Ele evitou responsabilizar somente a gestão Jair Bolsonaro (PL) pelo problema. “Os últimos 20, 30 anos têm o mesmo problema e passaram muitos governos. Então, todos eles têm responsabilidade pela morte das crianças Yanomami”, acrescentou.
O Ministério da Saúde respondeu que, após o reconhecimento da emergência, mobiliza esforços de servidores do ministério, profissionais de saúde, de voluntários da Força Nacional do SUS e de militares das Forças Armadas. Além do envio de equipes médicas para a terra indígena, foi montada uma estrutura de hospital de campanha na Casa de Saúde Indígena, nos arredores de Boa Vista.
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