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Como uma mulher lidera 7 mil pessoas em uma das provas mais importantes de automobilismo do Brasil

Rolex 6 Horas de São Paulo, única etapa na América Latina do World Endurance Championship, vai ser comandada por Aline Vilatte

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Foto do author Malu Mões
Aline Vilatte é a primeira mulher a ocupar o cargo de diretora-geral de evento em um campeonato da FIA no Brasil. Foto: Werther Santana/Estadão

Mulher no automobilismo sempre foi vista como alguém que estava ali só para passear, para embelezar, principalmente no Brasil, isso é muito forte aqui. Mas eu não me importo com quem acha que, porque sou mulher, não vou saber resolver uma situação. Eu jamais me preocupo com o que os outros pensam. Faço o meu trabalho e eu não tenho medo de enfrentar os desafios, porque eu acredito nas minhas competências, na experiência que adquiri”, conta Aline Vilatte, a primeira mulher a ocupar o cargo de diretora-geral de evento em um campeonato da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) no Brasil.

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A fluminense Aline Vilatte vai comandar a Rolex 6 Horas de São Paulo, única etapa na América Latina do World Endurance Championship, que contempla a famosa corrida francesa 24 Horas de Le Mans, na França. Contudo, para alcançar esse posto, a trajetória de Aline no universo das corridas, que já soma mais de 20 anos, não foi nada fácil: no primeiro trabalho com organização de prova, nas Mil Milhas Brasileiras de 2006, ela conta que os organizadores decidiram não pagar seus serviços.

“Eu trabalhei muito. Mas não acertei salário no início. Ficou aquilo ‘depois a gente vê’. No final, eles decidiram não me pagar. Falaram: ‘Você é mulher, a gente fez o favor de você trabalhar aqui’. E eu vivi isso várias vezes. Depois, acabei trabalhando em outras corridas como voluntária”, conta Aline, que na época já trabalhava com o piloto Tarso Marques, então na Ferrari, na parte de produção.

Em 2008, Aline foi chamada para atuar em Le Mans, na França, onde colaborou com equipes de pilotos e com fabricantes de carros de corrida. Paralelamente, continuava colaborando na organização dos campeonatos de endurance — modalidade de automobilismo que engloba corridas de longa duração. Em 2010, a FIA decidiu criar o World Endurance Championship (WEC), e no ano seguinte, Aline foi convidada para ajudar a elaborar uma prova brasileira. O projeto saiu do papel em 2012. Mas a etapa no Brasil só durou até 2014. Em 2017, Aline passou a ser consultora contratada pela WEC. E, depois de um hiato de 10 anos, o campeonato voltou ao Brasil em 2024. No ano passado, ela assumiu informalmente a liderança da organização da prova em São Paulo e, em 2025, tornou-se oficialmente a diretora-geral do evento.

Na posição, ela é responsável pela relação com governos (Prefeitura e Estado, por exemplo), alvarás, contratos, licitações, acompanhamento de obras, negociações com fornecedores e patrocinadores, e pelo planejamento da estrutura do evento e de todas as atrações. Ela lidera uma equipe de 7 mil pessoas para colocar a corrida de pé.

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“Enfrentamos o machismo todo dia. Às vezes com fornecedores, outras vezes com parceiros. Você marca a reunião e viram para você e falam: ‘Ah, legal, mas agora eu quero falar com quem manda’. E aí você tem que virar e falar assim: ‘Mas quem manda sou eu’. Cheguei onde estou porque trabalhei para isso. Não é nenhuma questão de ser egocêntrica. Mas eu trabalhei muito para poder ter a responsabilidade que tenho”, diz Aline.

Aline Vilatte: “Mulher no automobilismo sempre foi vista como alguém que estava ali só para passear, para embelezar, principalmente no Brasil, isso é muito forte aqui. Enfrentamos o machismo todo dia". Foto: Werther Santana/Estadão

A Rolex 6 Horas de São Paulo ocorre entre 11 e 13 de julho no Autódromo de Interlagos, na capital paulista, com a participação de dois pilotos brasileiros: Dudu Barrichello, pela Aston Martin, e Augusto Farfus, pela Equipe WRT, que representa a BMW.