O escritor Marcelo Rubens Paiva foi uma referência na década de 1980, abrindo um novo mundo de força e possibilidades para adolescentes daquela geração. Sua história não apenas narrava a própria trajetória – o que já seria suficientemente marcante, mas também capturava um período do Brasil que muitos tentavam apagar da memória.
Lembro de uma única festa de aniversário que organizei na casa dos meus pais, um lugar sem nenhuma acessibilidade. Marcelo chegou e, sem hesitação, a turma toda o carregou até que sua “nave” – a cadeira de rodas – desembarcasse no meio da sala e da festa. Esse espírito de comunidade e inclusão dizia muito sobre o impacto que ele já tinha na nossa geração.
Leia também
Hoje, aos 61 anos, Marcelo Rubens Paiva segue contando histórias que desafiam nossas percepções de mundo. Ele me recebeu em sua casa na Vila Madalena, em São Paulo, onde jovens realizavam o minucioso trabalho de digitalizar as fotos da história de sua família – uma história que, de certa forma, também pertence a todos nós. Enquanto isso, seus filhos pequenos brincavam com amigos, num ambiente envolvido por uma moldura de amor e uma alegria delicada, porém sólida. Marcelo diz que não está mais concedendo entrevistas. Após o sucesso estrondoso de Ainda Estou Aqui, filme baseado em seu livro, a agenda ficou lotada. O interesse só cresceu depois que Fernanda Torres, que interpreta sua mãe, Eunice Paiva, venceu o Globo de Ouro e agora é forte candidata ao Oscar de Melhor Atriz. O processo de Ainda Estou Aqui também reacendeu o interesse do público por Feliz Ano Velho, seu best-seller que desafiou estereótipos ao apresentar um deficiente físico que ri, se apaixona e tem desejos como qualquer outra pessoa. “Nos anos 80, a imagem do deficiente era quase de alguém morto para a sociedade”, lembra.
No entanto, para Marcelo, todo esse atual processo tem sido emocionalmente intenso. Se por um lado escrever e filmar tornaram a memória de sua mãe viva e acessível, por outro o filho Marcelo tem revivido o trauma. “Eu e minhas irmãs estamos sofrendo, revivendo, falando sobre isso”, revela. “Voltamos a falar sobre o que aconteceu naquele momento.”
Em tempos de negacionismo crescente, Marcelo considera essencial contar a história de Eunice e de tantas outras vítimas da ditadura militar. “A literatura é um instrumento de memória. De transformação através da memória. Se você conhece a história, aprende com o exemplo do outro. Talvez não o suficiente para evitar todos os erros, mas um pouco a gente aprende, né?”, reflete.
Atualmente, ele vive a internacionalização de Ainda Estou Aqui. O filme está viajando o mundo, e o livro homônimo está sendo traduzido e publicado em diversos países. Marcelo destaca que o filme é apenas um recorte do livro, conduzido com delicadeza por Walter Salles. “O filme é a minha mãe”, explica. Em resposta a uma jornalista portuguesa que perguntou por que o filme não mostra cenas de tortura, Marcelo respondeu: “Porque é a visão da minha mãe. Ela não viu a tortura. Foi torturada psicologicamente, mas não fisicamente”. Para ele, esse é o cinema que ele e Walter Salles defendem: “Um cinema que confia na inteligência do espectador. A frase ‘ainda estou aqui’ não é dita no filme, só no livro. E não precisa ser dita”.