Um dos maiores especialistas na monarquia brasileira, o pesquisador, arquiteto e historiador Paulo Rezzutti acaba de lançar a biografia do segundo e último imperador de nossa história. Em D. Pedro II - A História Não Contada, ele repete a bem-sucedida fórmula de seus títulos anteriores: utiliza cartas e outros documentos históricos, muitos deles inéditos, para lançar um novo olhar para o personagem brasileiro.

O livro mostra que o “último imperador do Novo Mundo” era um entusiasta da República, um obstinado interessado pela história do pai e, assim como este, afeito a muitos relacionamentos sexuais fora do casamento. Mas, sobretudo, Pedro II foi um grande estadista. “Acredito que ele tenha sido um modelo de estadista único”, diz Rezzutti, ao Aliás. “Um dos poucos brasileiros que efetivamente se importava com o Brasil, não deixando de ter entre seus conselheiros e ministros pessoas contrárias à monarquia.” O autor ressalta que o monarca via um futuro republicano para o País. “Seu liberalismo de ideias acabou por levá-lo a encarar a República como uma evolução natural da monarquia. Ele, efetivamente, achava que o futuro do Brasil era se transformar em uma república e deixa isso claro em seu diário”.
Ainda há histórias inéditas sobre Dom Pedro II? A busca pelo pai que nunca acaba. Pai e filho, D. Pedro I e D. Pedro II, separaram-se muito cedo e isso foi marcante na vida do último imperador brasileiro. Ele passou a vida toda na busca por esse pai, foi atrás dos participantes da Independência que viram o pai no Ipiranga, passou por diversos lugares por onde o pai passou, tanto no Brasil quanto na Europa, principalmente em Portugal e na cidade do Porto. As menções ao pai em seus diários são constantes. No livro também trago a questão, pouquíssimo estudada, do envolvimento dele no processo da abolição. Diversos manuscritos arquivados demonstram o quanto ele pensava na questão e ao mesmo tempo o quanto se via atado, sem poder fazer muito devido ao Brasil não ser uma autocracia. Dependia-se de políticos eleitos, na maior parte inicialmente escravagistas, para se fazer e passar leis que visasse a Abolição. Também existe toda a questão silenciada a respeito de seus inúmeros casos amorosos. A única diferença dele para o pai é que ele foi muito mais discreto, mas a quantidade de mulheres não é pouca.
E o que descobriu sobre o apreço dele a viagens? Eu acredito que ele foi um dos poucos brasileiros que conheceu intimamente o Brasil da sua época. Desde sua primeira viagem para fora do Rio ele buscou conhecer o Brasil a fundo: a fauna e a flora, suas montanhas, animais. Navegou pelo São Francisco, se meteu no sertão para conhecer a Cachoeira de Paulo Afonso. Depois da Guerra do Paraguai começou a viajar pelo mundo. Visitou os Estados Unidos de costa a costa, a maior parte do continente europeu, a Rússia a Crimeia, o Oriente Médio e o Egito, pelo qual era fascinado. Ele dizia que viajava “incógnito”, não como imperador do Brasil, mas sim como D. Pedro de Alcântara. Essa sede dele pelo novo e pela velocidade vertiginosa com que fazia as coisas ele herdou do pai.
Seu primeiro, livro Titilia e o Demonão, com as correspondências então inéditas de Dom Pedro I e sua amante, a Marquesa de Santos, acaba de ser relançado. Alguma novidade nele? Titília e o Demonão é o primeiro filho e sempre será especial. Ainda mais em um país em que se lê pouco, é de se comemorar que ele continue sendo procurado e editado ao longo de oito anos. De novo, quanto ao texto, existem algumas correções em relação à edição de 2011 e uma nova introdução escrita pela professora Maria Celi Chaves Vasconcelos, da UERJ.
Você biografou a Marquesa de Santos, Leopoldina, D. Pedro I e agora D.Pedro II. Pulou Amélia, segunda mulher de Pedro I. Por quê? Porque todos os meus livros biográficos estão atrelados a personagens que fizeram parte de processos históricos da História do Brasil. O pouco tempo em que D. Amélia viveu no Brasil não me permite inseri-la dentro de nossa história em um período de tempo maior, que desse para explicar algum processo histórico.
Há dois anos, você se tornou Youtuber. Como é falar de História para um público mais pop? Meu canal começou no início de 2017. A ideia inicial era criar vídeos para ajudar na divulgação do livro que eu estava lançando na época, D. Leopoldina - A História não Contada'. Mas o que era para ser uma ação pontual acabou se transformando em algo muito maior. O canal permite uma interação com seguidores do mundo todo. Hoje meus vídeos são usados até para aulas de português para estrangeiros na Espanha, na Colômbia, nos Estados Unidos e até em Macau. Hoje o canal conta com mais de 30 mil seguidores. Os assuntos giram ao redor da história do Brasil em geral com uma profundidade maior no período imperial e seus personagens, pois é ainda uma área de grande interesse para a maioria dos seguidores.
Seus livros e o canal no YouTube acabam atraindo um público monarquista, gente que defende a volta da monarquia ao Brasil. Como é seu diálogo com eles? Pacífico. Afinal, ainda estamos numa democracia, eles podem defender o que quiserem. A única coisa inconveniente é a constante pergunta: “Mas por que você não é monarquista?” Porque eu não sou obrigado, simples. O fato de me interessar por um determinado período histórico não me obriga a querer que ele volte. Existe um saudosismo por algo meio fantasioso que eu noto algumas vezes. Tem gente que gosta de história e diz que queria viver no Brasil do século 19. Deus me livre! A higiene era um lixo; a medicina, pavorosa!
Muitos chamam você de monarquista? Neste Brasil dividido em pró e contra, a respeito de tudo, é cada vez mais difícil não ser rotulado. Eu não faço caricatura dos meus personagens, tento analisá-los com o olhar da época. Se eu trouxer esses personagens para o século em que estou, eu não vou entender nada e vou transformá-los em ridículos. Por isso, para alguns eu sou monarquista, porque trato de maneira técnica o biografado, buscando entendê-lo sem julgá-lo com olhar atual. Já os monarquistas acham que, por não julgar os personagens com o olhar atual, eu sou monarquista.