Um Amor para Recordar, Minha Vida Sem Mim, Lado a Lado, Nosso Amor. São vários os filmes que abordam o câncer, quase sempre com foco no fim ou no sofrimento do processo. Geralmente, são narrativas construídas para provocar lágrimas de tristeza, já que a doença é retratada de forma devastadora. Por isso é tão interessante a proposta de Câncer com Ascendente em Virgem, filme brasileiro que estreia nos cinemas nesta quinta, 27.
Dirigido por Rosane Svartman (de Pluft), o longa-metragem narra a história de Clara (Suzana Pires), uma mulher determinada e otimista que se vê diante do diagnóstico de câncer de mama. A partir desse momento, porém, não somos conduzidos por uma jornada melodramática rumo ao fim — muito pelo contrário. Inspirado no blog e no livro da produtora Clélia Bessa, que enfrentou a doença, o filme se apresenta como uma dramédia que desconstrói a ideia de que o diagnóstico significa o fim.

“Na verdade, essa não é apenas minha história. É a história de muitas mulheres”, contextualiza Clélia, em entrevista ao Estadão. “No Brasil, são 75 mil diagnósticos de câncer de mama por ano. O filme usa essa condição como pano de fundo para falar de sororidade, rede de apoio, amor, recomeço. É sobre ressignificar a vida após o diagnóstico.”
Leia mais
A intenção, assim, é transformar a perspectiva sobre o tema — como se reposicionasse a câmera para capturar ângulos e emoções diferentes. “Tivemos muito cuidado e responsabilidade, com consultoria especializada, para abordar o tema da forma correta. Mas queríamos iluminar esse assunto, trazer reflexão e esperança”, explica Rosane.
Suzana Pires, além de protagonista, foi uma das responsáveis por impulsionar o projeto. A atriz, que vislumbrou a possibilidade de fazer o longa após conversar com Clélia em uma festa, enxergou na narrativa uma oportunidade de ressignificar histórias e sentimentos a partir de perspectivas genuinamente brasileiras.
“É a primeira vez que a gente fala de câncer de mama no cinema brasileiro com dramédia”, destaca Suzana. “A gente domina isso no dia a dia, que não é simples. Não estamos dentro de um contexto simples, diário, mas fazemos piada, somos os reis dos memes, somos engajados, fazemos carnaval, então nós praticamente temos a dramédia no sangue. Eu acho que a identificação do filme vem também por aí”.
Humor no drama
Na trama, Clara inicialmente sofre o impacto da notícia — naturalmente, nunca é fácil receber um diagnóstico dessa magnitude. No entanto, enquanto a maioria dos filmes sobre o tema utiliza a doença para discutir o fim da vida, Câncer com Ascendente em Virgem fala sobre recomeço, sobre enfrentar o processo com determinação. Muito dessa abordagem funciona, evidentemente, graças à rede de apoio que a protagonista encontra na filha Alice (Nathália Costa), na mãe (Marieta Severo) e na amiga Dircinha (Fabiana Karla).
Marieta Severo, aliás, representa um dos pilares do filme. Em um papel bastante diferente dos habituais, a atriz veterana interpreta uma mãe que, mesmo na terceira idade, vive intensamente — joga cartas com as amigas às terças-feiras, utiliza celular com desenvoltura e adora falar sobre astrologia.

“A arte e o humor têm a capacidade de relativizar tudo, de nos colocar em outro lugar. O que a Clélia fez desde o início foi essencial”, afirma Marieta, referindo-se ao blog onde Clélia compartilhou sua jornada. “Ela transformou sua experiência em algo acessível, permitindo que outras pessoas se identificassem sem cair no sofrimento absoluto. Isso é fundamental”.
A atriz revela que aceitou participar do filme “na hora”, não apenas por abordar a doença, mas por trazer essa questão à tona de maneira acessível e familiar. “Já passei por situações semelhantes na minha família e sei como esse era um assunto quase proibido, algo de que não se falava. O filme tem a capacidade de abordar o tema com coragem e fé na vida. Ele mostra como a doença pode ser o estímulo para tomarmos as rédeas da própria vida”, diz.