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Opinião | Tiradentes 2025: 'Deuses da Peste' e outros destaques do festival...até agora

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Foto do author Luiz Zanin Oricchio
Cena de 'Deuses da Peste': furor libertário que homenageia Zé Celso Martinez Corrêa  

30 de jan. de 2025

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Diário crítico (5)

Deuses da Peste. Gabriela Luiza e Thiago Mata Machado:  Em um antigo casarão em ruínas no centro de São Paulo, um velho ator shakespereano (Paulo Goya) vive com seus fantasmas. Ele sonha com a peste e o fogo se alastrando por todo o país. Em torno do velho ator, forma-se uma estranha comunidade.  Alegoria da era bolsonarista, associada a uma peste que se abateu sobre o país. Um filme cheio de som e fúria, porém significando muito. Joga com uma porção de referências culturais para expressar a dor e a revolta contra um mundo que parece já não significar grande coisa. Ambiente teatral, tratado com criatividade, cores, ruídos, música e uma entrega total do elenco. Com seu espírito irreverente, o filme é uma homenagem a Zé Celso Martinez Corrêa, o mais libertário dos nossos artistas. 

Prédio Vazio, de Rodrigo Aragão: é uma pedida para quem gosta de filmes de terror. No caso, uma garota vai com o namorado para a praia de Guarapari, onde sua mãe está passando férias e corre perigo. Tenta encontrá-la em um prédio assombrado. Destaque para a atriz Gilda Nomacce, uma das musas do cinema independente nacional. 

A primavera. Daniel Aragão e Sérgio Bivar: Um retrato da cena da poesia Slam e dos poetas de rua do Recife. Foi até agora o filme mais polêmico do festival, por causa do seu diretor, Daniel Aragão, suspeito de simpatias bolsonaristas. Foi fotógrafo de Jardim das Aflições, doc louvação a Olavo de Carvalho de 2017. Mas o seu filme presente é bom.  

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Margeado, de Diego Zon. Após o rompimento de uma barragem, moradores de uma vila pesqueira tem um futuro incerto. Um personagem roda com sua moto pelas redondezas, em busca de alguma alternativa e respostas para a sua vida. Oscila entre o presente e a memória do passado. É o filme mais sensorial da mostra Aurora, uma primeira obra de 150 minutos com a cadência e o fluir de um rio.  

Um Minuto é uma Eternidade para Quem Está sofrendo, de Fábio Rogério e Wesley Pereira de Castro. Wesley é co-diretor e ator ao mesmo tempo. Ator de sua própria vida, marcada pela angústia mas também por uma invejável fome de viver. Sempre instável entre esses dois pólos, ele fala de sua paixão pelo cinema e pelos livros. Vive numa casa de periferia, com sua mãe e vários animais, cachorros, galinhas, patos...Tudo é instável e fragmentado. O personagem é ele mas também uma figura construída diante da câmera. O filme é incômodo mas o espectador não o esquece. 

Milton Bituca Nascimento, de Flávia Moraes: registro da última turnê de Milton Nascimento, é também um resgate da sua biografia e formação como músico de fama mundial. O filme pode ter alguns problemas mas o carisma de Milton supera tudo. É o mais mineiro dos compositores brasileiros, apesar de nascido no Rio. 

Relâmpagos de Críticas Murmúrios de Metafísicas, de Julio Bressane e Rodrigo Lima. Uma arqueologia do cinema brasileiro, dos seus primórdios até os tempos atuais. Filme de montagem, de 48 obras, que mostra, segundo a tese de Bressane, a vocação experimental do nosso cinema. "Ou é experimental ou não é coisa alguma", pontifica em texto de 1993 reproduzido no catálogo do festival. De certa forma, um texto inspirador para essa mostra voltada ao cinema, digamos, alternativo. E também para a pergunta-tema da edição deste ano: que cinema é este?

 

Opinião por Luiz Zanin Oricchio

É jornalista, psicanalista e crítico de cinema

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