Mario Puzo fecha trilogia da máfia

Em seu último romance, Omertà, escritor mostra como a família mafiosa está a ponto de chegar à legitimidade, embora cercada por um mundo de criminosos

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Por Agencia Estado
Atualização:

"Você não pode mandar seis bilionários para a prisão. Não numa democracia." Esta é uma frase lapidar de Mario Puzo em Omertà, o livro que demorou três anos para escrever e acabou sendo a parte final do seu grande painel sobre a imigração italiana para os Estados Unidos e o pedaço dela que preferiu destacar: a Máfia. A frase resume boa parte do que há no livro (publicado nos Estados Unidos após a morte de Puzo e que a Record lança aqui este mês, ainda sem preço definido): uma visão cínica das instituições americanas, uma insinuação de que não há solução para a justiça a não ser a velha honra mafiosa e a afirmação de que o que move o mundo é o dinheiro. Dá para lembrar uma entrevista que o escritor deu no programa de Larry King; o entrevistador perguntou-lhe por que as pessoas gostam da Máfia como tema de livros e ele respondeu: "Acho que todo mundo gostaria de ter alguém a quem recorrer para obter justiça, sem passar pelos tribunais e pelos advogados." Ver a Máfia como distribuidora de justiça é algo que passa por todo o romance; aquela coisa de tiroteios, Al Capone e assemelhados é algo que não existe mais e sempre foi localizado. A Máfia dos Corleone, dos Clericuzio, dos Aprile, é outra coisa. Pois, afinal, como a lei que há no mundo fora da Honrada Sociedade, ela se guia por um código. Esse código muito particular é o da honra vista a partir da tradição da Sicília: tudo pela família, nada de desobediências, nada de adultérios, nada de traição. Para este último caso, há a regra do silêncio: lava-se a roupa suja em casa. Ninguém denuncia ninguém, não há informantes dentro da família. Essa regra chama-se omertà. Daí o título do livro. "Na aldeia pedregosa de Castellamare del Golfo, à beira do escuro Mediterrâneo siciliano, um grande Don da Máfia estava morrendo. Vincent Zeno era um homem de honra, que, durante toda sua vida, foi amado por seu julgamento justo e imparcial, sua ajuda aos necessitados e seu castigo implacável para os que ousavam se opor à sua vontade". Assim começa Mario Puzo o seu último hino à Máfia que ele criou e só existe nos seus romances. Talento Zeno morre dizendo que seu filho de dois anos, Astorre, tem "o coração e alma de um verdadeiro mafioso, uma qualidade rara e quase extinta". Tanto talento tem de ser preservado e quem se encarrega disso, depois do funeral "digno de um imperador", é outro Don, Raymonde Aprile, poderoso chefe de um clã mafioso siciliano. Há algumas páginas ambientadas numa Sicília paradisíaca, mas a maior parte da ação acontece longe dali, nos Estados Unidos. Don Aprile torna-se um mafioso "civilizado", algo como um Don Corleone mais sofisticado, dedicado à família e aos negócios legais, realizados sobretudo através de uma rede multinacional de bancos que controla. Tem três filhos absolutamente integrados no establishment: um coronel do exército que dá aulas na escola de West Point, um pilar da sociedade americana; um alto executivo de uma das redes de TV e, finalmente, uma filha, Nicole, bem-sucedida advogada de causas humanitárias, sobretudo o combate à pena de morte. Astorre se revela digno das expectativas paternas e é o braço direito de Don Aprile; enquanto espera que o godfather o utilize, Astorre importa macarrão italiano e canta músicas românticas em festinhas. A ascensão de Astorre começa numa das melhores cenas do livro, que é a morte do chefão mafioso, prontinha para ser filmada por Coppola. Don Aprile vai à crisma de um neto na catedral de São Patrício, em Nova York. Ele vê a grande igreja, as crianças espalhadas pelas escadarias e logo: "A primeira bala atingiu o Don em cheio na testa. A segunda bala rasgou-lhe a garganta." Astorre recebe as últimas ordens do Don em seu testamento: deve conservar os bancos, que dirigirá, e sobretudo, precisa proteger os filhos de Raymonde Aprile. O livro passa então a mostrar as manobras dos eventuais compradores dos bancos que os querem usar para lavagem de dinheiro e como Astorre planeja e executa a vingança contra os assassinos de seu pai adotivo. Ele tem três suspeitos maiores em mira: Kurt Cike, um alto funcionário do FBI que joga como agente duplo para desbaratar as famílias mafiosas e é atormentado por essa duplicidade; o chefão rival Timmona Portella e Mariano Rubio, um diplomata peruano que adora as boas coisas da vida e para tê-las se presta a serviços escusos. Com esse cenário, Mario Puzo desenvolveu o romance, seu primeiro contato literário com a Máfia desde O Último Chefão, que passou um tanto em branco aqui no Brasil (nos Estados Unidos fez muito sucesso e virou minissérie com Danny Aiello no papel do capo da família Clericuzio). Em Omertà estão suas marcas registradas: prosa ágil, a visão da Sicília como um refúgio paradisíaco, cor local até o fundo dos barris de azeitonas, personagens coadjuvantes originais como a detetive negra e caolha Aspinella ou um massagista que cobra US$ 1.500 por hora de terapia sexual. Ou ainda os dois irmãos Sturzo, gêmeos e pistoleiros, que se apaixonam pela mesma mulher, uma antiga namorada de Astorre. O mais curioso do livro é o fato de se saber exatamente o que vai acontecer, mas Puzo nos transforma em voyeurs viciados no inevitável clímax violento que encerra a obra. Omertà, a crônica dos Aprile, pode ser visto como o trecho final de uma trilogia, que começou com O Poderoso Chefão, que tratava da família Corleone, e continuou com O Último Chefão que abordava o clã Clericuzio. O último livro mostra como a família mafiosa está a ponto de chegar à legitimidade, embora cercada por um mundo de criminosos. Talvez seja exatamente o que falta em Omertà. Um pouco mais de sangue, de sexo, de realismo não faria mal ao romance. Contudo, do jeito que é, parece ter o charme de um velho filme que a gente já viu há muito tempo, mas não consegue deixar de rever.

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