
Em um especial de TV do início dos anos 1980, Simone aparece batendo uma bola de basquete. Ao arremessá-la na cesta, em um jogo de cena, recebe de volta um microfone. “A ideia foi minha, embora nunca tenham me dado crédito”, conta Simone, em conversa com o Estadão, por vídeo.
A cesta de três pontos, na verdade, foi feita anos antes por Simone, em 1973, quando ela trocou as quadras pela música, após duas entorses no tornozelo que interromperam sua trajetória de pivô na Seleção Brasileira de Basquete. Simone comemora esses 50 e tantos anos de carreira com o álbum 50 Ao Vivo, produzido por Marcus Preto e lançado recentemente pela gravadora Biscoito Fino nas plataformas digitais
“Sempre quis cantar”, confessa. Quando veio da Bahia para jogar em São Paulo, teve contato, no final dos anos 1960, com Rita Lee, Gal Costa, Gilberto Gil e Caetano Veloso. “Eu botava Caetano no meu colo. Ele era magrinho...”, diz Simone.
O álbum 50 ao Vivo traz seus maiores sucessos. E uma novidade na sua voz: A Divina Comédia Humana, que Belchior fez para ela gravar no disco Face a Face, de 1977. A censura implicou com a letra na época e a música acabou sendo deixada de lado por Simone, que a cantou pela primeira vez nessa turnê que deu origem ao álbum.
Na conversa com o Estadão, Simone, 75 anos, não se opôs a nenhum assunto. Ela segue à risca os versos de “o que não tem censura nem nunca terá”, frase de O Que Será, canção de Chico Buarque que ela lançou. Carreira, ego, rivalidade com outras cantoras, novas gerações, entre outros temas. O pai, o comerciante Otto de Oliveira, é figura essencial no papo. Rígido, mas incentivador. Machista, mas compreensivo em relação à sexualidade da filha. “Ele só queria saber se eu era feliz”, diz a cantora, que volta aos palcos com uma nova turnê em 22 de março, em São Paulo.
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São 50 anos de carreira Isso te traz alguma reflexão?
Passam muitas coisas na minha cabeça. A primeira é a constatação de que estou aqui. Estou cantando, minha voz está inteira, a emoção é igual, aflora. Tenho muita vontade. Muito tesão de estar em cena, de dividir. Me preparo fisicamente e psicologicamente para estar no palco. Não quero ficar devendo nada para mim mesma.
O que passa na sua cabeça quando você está no palco?
Sou muito o Sangrando (canção de Gonzaguinha que ela gravou em 1980). Eu falo...(Simone mostra que fica arrepiada). Essa música é o que sou. Não existe economia no palco. Não poupo absolutamente nada.
Na vida, você é assim também?
Sim, vivo o hoje. Sou entregue ao que faço. Aprendi isso no esporte coletivo. Nele, você aprende que ninguém é nada sozinho. Essa coisa do “eu sozinho”, para mim, não existe. Aprendi, aliás, desde criança. Eu tinha oito irmãos, sou a sétima, e tinha que dividir. Às vezes, precisava falar alto, gritar, para ser ouvida. E domar os egos. Na minha profissão há muito ego.
Com o sucesso, alguma vez você deixou o ego falar mais alto?
Não. E nunca deixei de fazer nada na vida. Adoro ir ao mercado. Gosto de ser uma cidadã comum. Prendo o cabelo, mas as pessoas me reconhecem pela voz. Nunca me achei a fodona. Nunca. Sou uma das fodonas dentro desse mundo. Sou privilegiada por conseguir estar em cena bem. Pode ser que em alguns dias não estive tão bem, já que levo tudo para o palco. Lembro do tempo em que tinha muitas cólicas. Tinha que tomar uma injeção na veia antes de entrar em cena. Depois, sumia. A dor de cabeça passa (no palco). É o mistério da música, do canto, do respeito, da conexão com um ser superior.
Como você se vê dentro da indústria musical atual?
Mudou muito. Hoje existe a possibilidade das pessoas colocarem suas músicas nas redes. Grava-se um disco em casa, com um computador. A orquestra é gravada na Rússia ou na Tchecoslováquia. As pessoas se lançam por conta própria. Isso é maravilhoso. Tem muitos artistas bons, muita garotada. E tem muito lixo também.
Se eu entrar em um lugar com uma influencer, com pessoas que eu não conheço, ninguém vai me olhar, cara
Como você se adaptou? Quero trazer o episódio recente do Milton Nascimento, barrado ou sem lugar para sentar no salão principal do Grammy. Além de um erro dos organizadores, mostra que talvez Milton não esteja mais no contexto da música que é feita hoje. Não estavam mais ali Wayne Shorter, Quincy Jones ou Sarah Vaughan, com quem ele trabalhou, e sim Beyoncé, Sabrina Carpenter e Billie Eilish. É um outro tempo. Como uma artista com mais de 50 anos de carreira, como você, olha para esse episódio?
Nada justifica o que ocorreu com Bituca (apelido de Milton). Nada, nada! Ele é muito conhecido nos Estados Unidos e na Europa. Milton é meu ídolo. Meu irmão, amigo. É uma indignação...uma coisa horrorosa. Se eu entrar em um lugar com uma influencer, com pessoas que eu não conheço, ninguém vai me olhar, cara. Não estão nem aí para o trabalho que eu fiz. Ou que eu ainda faço. Mas, cada cabeça uma sentença. A indignação é coletiva (no caso do Milton). Eu levantaria daquela cadeira. Eu não levantaria apenas uma foto (diz em relação à cantora Esperanza Spalding, que dividiu o álbum com Milton e levou uma foto do cantor para o salão do Grammy como forma de protesto). Eu nem iria.
Da música produzida pelas novas gerações, algo te atraí? O rap, o trap, o funk?
Não tenho condições de cantar um rap. Tenho que aprender. Mas, gosto. Queria porque queria cantar com o Emicida. Por enquanto, não dá. Preciso colocar outro chip na minha cabeça.
Olha com generosidade para esses artistas?
Claro! Quando você não sabe, e vê pessoas que são geniais, como o Emicida...É muita letra! Muita coisa na cabeça!
E cantoras dessa geração? Anitta, Ludmilla, Ana Castela...
Gosto. Quem sou eu para dizer algo? Mas, não sei fazer.

Você gravou pela primeira vez ‘A Divina Comédia Humana’, de Belchior, que ele havia feito para você, colocou seu nome em um documento enviado à censura...
Eu não sabia! Se sabia, esqueci. Vida de artista é repleta de compromissos, nem sempre maravilhosos. A música foi censurada na época. Talvez, por isso, me passou. Tinha uma paixão secreta por essa música. Gostava muito do Belchior. Era uma homem muito inteligente, sarcástico, assim como também era Gonzaguinha. Dei minha contribuição. Colocamos uma batida de Pavão Mysterioso. No final, fiz assim: “Enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto, canto, canto...”. Era importante deixar esse eco. Ninguém vai tirar isso de mim. Só quem me deu ele.
Outra do álbum, um grande sucesso, é ‘Tô Que Tô', que fala de alegria, de tesão. É de 1982, época ainda da censura, que não era apenas política, mas moral. Faço um paralelo com a cena de ‘Ainda Estou Aqui’ em que Eunice Paiva pede que os filhos sorriam na foto, apesar do drama que viviam. A alegria foi um caminho em tempos sombrios para os artistas?
Assisti ao filme. Nossa! Sorriam! Estão dizendo para não, sorriam! A ditadura era um horror. O que dávamos? Flores, carinho, amor, prazer. O Tô Que Tô é uma trepada. Vai, balança tudo, ninguém pode segurar. Igual Tô Voltando (outro sucesso de Simone). Virou a canção da volta dos expatriados. Na essência, é uma música de amor.
Você já falou abertamente sobre a batalha que travou em várias questões, inclusive da homossexualidade, ou bissexualidade. Como encara essa crescente onda de conservadorismo no Brasil e no mundo?
Um retrocesso. Não entendo como uma pessoa consegue pensar na hipótese. É uma escrota! Impossível alguém que tenha amor no coração pensar em uma coisas dessas. Tenho as piores memórias e impressões sobre a ditadura. Fui fichada, sofri revistas íntimas horríveis, vi muita coisa ruim, armas apontadas. As pessoas (agentes da repressão) apareciam do nada. Pareciam que saíam do asfalto. Sou uma pessoa que vou sempre dizer não. Não deixar chegar nem perto. Porque teve uma época que chegou, não é? Temos que estar atentos e fortes, não temos tempo de temer a morte, já disse Caetano nos anos 1960.
Eu era muito desejada pelas ‘esposas’, entende? Fui muito desejada por homens e mulheres.
A questão da homossexualidade foi motivo de perseguição?
Sofri. Não de militares, mas de civis. Uma sociedade babaca. Eu era muito desejada pelas ‘esposas’, entende? Fui muito desejada por homens e mulheres. Quando era bem criancinha, eu respeitava tanto meu pai que tinha medo. Mas ele me levava para futebol, eu consertava o carro com ele. Nunca tive problemas com meu pai (em relação à sexualidade). Nunca escondi. Ele dizia que a única coisa que interessava a ele era se eu era feliz. E era um cara muito coronelão. As meninas tinham que ficar em casa, os meninos podiam ir para a rua. Já era distorcido. Batia de frente com ele, dizia que os direitos eram iguais, queria trabalhar, ter meu dinheiro. Minhas três irmãs mais velhas casaram, eu já dizia que não iria casar. Sair de um (homem) para ir para o outro? Não! Queria estudar, jogar. Saí da Bahia com 16 anos para jogar basquete. Se tinha algum irmão que não estava satisfeito (com a sexualidade dela), problema dele. Ele que resolvesse. Eu não tinha problemas.
Seus pais preferiam você atleta ou cantora?
Meu pai ia a todos os meus jogos. Filmava. Depois, os dois iam aos meus shows, sempre arrumadinhos, bonitinhos. De certa maneira, realizei o sonho deles. Eles queriam ser artistas. Meu pai queria ser cantor. Cantava ópera lindamente. Minha mãe (Letícia) queria que eu fosse no Chacrinha. Eles foram maravilhosos!
‘Começar de Novo’ é a música mais emblemática de sua carreira. O que essa ela proporcionou a você?
Ela debate os direitos da mulher, em uma época em que a mulher tinha que ficar dentro de casa, não podia gozar, se divorciar. Por que não pode? Foi uma música que entrou sem só nem piedade. “Sem as tuas garras, sempre tão seguras. Sem o teu fantasma, sem tua moldura. Sem tuas esporas, sem o teu domínio. Sem o teu fascínio”. Puta que pariu!

Ivan Lins já deve ter te contato que Elis Regina soube que ele estava musicando essa letra do Vitor Martins e deu um incerta no apartamento dele. Nessa época, você e Elis cantaram juntas no programa ‘Mulher 80′, uma reunião das grandes cantoras daquele momento. Haviam muitas histórias de rivalidade entre as cantoras. O que tem de verdade?
(Uma longa pausa). As gravadoras alimentam muito essa rivalidade, jogavam uma contra as outras. Mas isso era resolvido com conversas entre nós. Eu adorava Elis. Eu recebi (a música) Sob Medida do Chico (Buarque). Nada mais, nada menos, do que do autor. Com um bilhete dele. Gravei. (falaram) “Que eu tinha roubado música, que não sei o que”. Eu peguei o bilhete e rasguei. Se ficasse na minha mão, teria uma hora em que um diabinho falaria assim: “Mostra!”. Eu não precisava mostrar! Recebi a música pelo compositor! Aliás, mandei buscar dentro de um avião, Chico estava indo viajar.
Era uma prova. E você rasgou...
O que eu precisava provar? Para quem? O bilhete era um carinho para mim. E nem era uma música que Chico fez diretamente para mim. Mar e Lua ele fez para mim. Fez a versão de Iolanda (de Pablo Milanés) para eu gravar. O Que Será foi dada a mim pelo Francis Hime. Você acha que muita gente não ficou puta por eu ter lançado O Que Será? Uma pessoa, inclusive, me abordou e disse: “Quem te deu essa música?” (faz cara de tédio).
Uma pessoa que você diz é uma cantora?
Sim. Fico chateada com essas coisas? Claro! Fico puta! Sou uma pessoa da paz. Não precisa disso. Tem lugar para todo mundo.
Nesse álbum comemorativo, você regravou ‘Separação’ e ‘Um Desejo Só Não Basta’. Duas músicas muito populares de seu repertório...
Elas são populares! E a crítica metia o pau!
Meu gosto é amplo. Eu adoro José Augusto. Não é uma música rebuscada, mas é cantável
Metia o pau, e você enchia ginásios, casas de shows, vendia discos para caramba. Como ficava essa dualidade na tua cabeça? Sou amada ou odiada?
O amor sempre foi muito maior. Ele vence. Eu ouvia ópera e Orlando Dias. Samba, maxixe, pagode. Meu gosto é amplo. Eu adoro José Augusto (compositor de Separação ao lado de Paulo Sergio Valle). Não é uma música rebuscada, mas é cantável. Parece que o Brasil só é feito de intelectuais. No mesmo disco que gravei Luiza com Tom Jobim tem José Augusto. A dignidade é igual. Gravei Martinho da Vila, e havia preconceito contra ele, o que não havia contra o Paulinho da Viola. Ninguém deve nada para ninguém ali. Qual problema de cantar Erasmo Carlos, Sentado à Beira do Caminho? Qual o problema?
Outro dia, aqui na redação, alguém falou sobre o fato de uma cantora da nova geração simular uma movimento sensual com o microfone. Falei sobre Madonna, na década de 1990, e, também de Simone, nos anos 1980, cantando ‘Depois das Dez’, em cima de uma cama, com almofadas, em um especial de TV...
Eu não me masturbava como muitos dizem! Era só o movimento! Só estava cantando...Distribuía as almofadas. Meu diretor era o Flávio Rangel, que era fantástico. Tudo o que ele me propunha, eu fazia. Metia a cara!
Você criava todo um clima. Cantava ‘Adivinha O Que?’, e depois ‘Paixão’, deitada na cama...
Não tenho nenhuma censura! Palco me deixa à vontade. Vou cantar “só quero com você, advinha o que?”... Ir à missa? Ao restaurante? (risos).