Há tempos eu não tinha essa sensação, mas para não bancar o colunista cult vou assumir que a última vez que me senti assim foi durante as últimas cenas de Vingadores: Ultimato.
Eu vibrei como aquele Murilo adolescente fã de quadrinhos no auge de seus 13 anos.
Uma sensação semelhante veio à tona esta semana após maratonar a série de terror Them (Amazon Prime Video). Dessa vez, o sentimento não foi de euforia.
Fiquei completamente horrorizado, querendo correr para a janela gritar toda a minha indignação.
Them, na verdade, é uma antologia, e na primeira temporada abocanha o ingrediente especial dessa nova leva de produções de horror com vertentes sociais, explorada com sucesso em Hollywood a partir das obras Nós e Corra! ambos de Jordan Peele.

A história de Them se passa nos anos 1950-1960, onde a família Emory, após um traumatizante ocorrido, se muda da Carolina do Norte para viver em um confortável bairro em Los Angeles.
Eles fazem parte da 'Segunda Grande Migração', movimento de mais de 600 mil negros que deixaram o sul dos Estados Unidos para tentar driblar as inacreditáveis leis segregacionistas de Jim Crow. Existiam banheiros, restaurantes, bebedouros e até transportes públicos separando brancos de negros.
O primeiro nó na garganta vem logo no piloto, quando o grupo chega ao subúrbio dominado por famílias brancas que bebem do suco mais puro do racismo, sem coar.
As reações são intragáveis, mas é a realidade, pura e crua.

A 'branquitude' local elabora as táticas mais incabíveis para fazer com que os únicos negros desistam de morar no mesmo espaço que eles.
Como se não bastassem os humanos, a família é assombrada pela presença de espíritos obsessores que os atormentam a ponto de executarem ações perturbadoras.
Little Marvin (o showrunner) não poupou nada e nem ninguém, é um sofrimento crescente. As sequelas do racismo são sentidas da maneira mais perversa e cruel que você pode cogitar.
O episódio 5 me deixou em estado de choque. Tentei tapar a minha visão como uma criança faz quando vê monstros em um filme. Os monstros em questão são seres humanos, nada de sobrenatural.
Me questionei: 'Será que foram longe demais?', mas pensei que poderia ser necessário mostrar o quanto racismo e o sexismo destroem vidas. Para ser justo nesse pensamento, procurei análises de jornalistas negros.

Alguns pesaram o tom da crítica pela produção "beirar o sadismo" e pelos produtores e atores envolvidos fazerem parte da forma lucrativa do show business em usar o racismo como holofote para que um produto de horror faça sucesso.
Uma crítica chamou Them de "pornô de degradação". No Brasil, o movimento 'Não assista Them' ganhou força nas redes sociais. Questões importantes foram levantadas. Recomendo a leitura, apesar de não concordar com essa máxima.
Em contrapartida, destaco uma entrevista com a atriz Deborah Ayorinde, que interpreta Lucky, a mãe da família. Ela disse que filmar o episódio cinco a deixou com traumas, mas se sentiu honrada por poder representá-la.
"Foi a coisa mais difícil, como uma mulher negra, muitas pessoas não entendem necessariamente o fato de que a maioria de nós está lutando contra esses dois males, e não apenas um. Não podemos nos dar ao luxo de escolher uma luta em vez de outra. Me senti honrada em interpretar Lucky e retratar aquele momento."

O elenco é formado pelo pai da família, Henry (Ashley Thomas), que possui uma paciência invejável ao provar todos os dias de que é capaz de exercer o cargo de engenheiro de uma multinacional.
Além das filhas Ruby Lee (Shahadi Wright Joseph) e Gracie Jean (Melody Hurd), que também não escapam de sofrer uma tortura diária. Menção honrosa à insuportável vizinha Betty Wendell. Branca e azeda como um leite fora da geladeira, palmas para a atriz Alison Pill.

É simbólico esse texto ser publicado na mesma semana em que o policial branco Derek Chauvin foi condenado culpado pelo assassinato de George Floyd - o primeiro da história no Estado de Minnesota. O que mudou dos anos 1950 até 2021?
Os 10 episódios de Them são, sim, horríveis, mas representam uma realidade que persiste e que só a Justiça pode corrigir. É mais história do que ficção.
