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Veteranos Léa Garcia e Emiliano Queiroz mostram energia renovada na peça ‘A Vida não É Justa’

Espetáculo que está em cartaz no Sesc Santana conta histórias de conciliações judiciais

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Por Dirceu Alves Jr.
Atualização:

Com uma voz firme, a atriz Léa Garcia se considera surpreendida pela vida ao constatar que, aos 89 anos, continua no pleno exercício da profissão. “Eu seria incapaz de imaginar que estaria viva até essa idade quanto mais trabalhando e ganhando personagens tão diversos”, comenta a artista, que soma sete décadas de carreira. Contemporâneo de Léa, o ator Emiliano Queiroz, de 86 anos, por sua vez, brinca que virou uma “bola de chumbo”, não tem a mesma leveza no palco e tampouco se sente apto para qualquer tipo de papel. “Ah, mas pensando bem, nunca tive a pretensão de ser o mais versátil dos atores”, reconhece. “É gratificante ver que não sou lembrado apenas para interpretar o vovozinho.”

Léa Garcia e Emiliano Queiroz são destaques do espetáculo A Vida não É Justa, em cartaz no Teatro do Sesc Santana. Dirigida por Tonico Pereira, a montagem tem a dramaturgia de Delson Antunes baseada no livro homônimo de Andréa Pachá e mostra em um prólogo e oito cenas conflitos de pessoas que necessitam recorrer a um apoio judicial. Crises no casamento, divórcios, brigas entre pais e filhos e traições passam pelo crivo de uma juíza (papel de Lorena da Silva) em situações que provocam os espectadores. Além de Léa, Queiroz e Lorena, a peça conta com os atores Marta Paret, Tom Pires, Rafael Sardão e Duda Barata.

Léa Garcia e Emiliano Queiroz na peça 'A Vida não é Justa'. Foto: Pedro Ivo

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Na primeira cena, Molhadinha25, Léa e Queiroz representam um casal às voltas com uma celeuma inesperada. Uma idosa envolve-se em uma traição virtual flagrada pelo marido, que, depois de vasculhar o computador, se revolta com a situação. “Ela jura que não cometeu adultério, que foi uma brincadeira, mas ele se enfurece”, conta Léa. A atriz revela que, durante os ensaios, se sentiu intimidada e chegou a se considerar inadequada para o papel por causa da idade. “Fui convencida e, aos poucos, o personagem foi chegando, acho que não fiquei ridícula.”

Em Sagrado é um Samba de Amor, a quinta história, Léa é uma artista de rua, uma dançarina, que, influenciada por um pastor, passa a frequentar a igreja e abandona o homem por quem sempre foi apaixonada. “É um texto oportuno porque traz uma crítica ao comportamento dos religiosos em relação a uma população menos informada”, explica a atriz. Léa e Queiroz voltam a dividir o palco em Reconciliação, o quadro final. Desta vez, ela é uma senhora que busca conselhos da juíza por causa da solidão sentida no casamento. “Ela não quer se separar, mas acabou o diálogo e os dois não encontram mais afinidades”, diz Léa. Para Queiroz, essa é uma situação comum aos idosos que, muitas vezes, pode sufocar os dois até o fim da vida. “Os filhos e os netos se distanciaram, o casal passa calado diante da televisão e, com a pandemia, esse drama foi acelerado a ponto de fazer muita gente desistir de viver”, observa.

Parceria de longa data

Léa e Queiroz se conheceram na década de 1960 e estiveram juntos em diversas produções televisivas, como nas novelas O Homem que Deve Morrer (1971) e Selva de Pedra (1972) e na série Abolição (1988). Só contracenaram, no entanto, no caso especial Meu Primeiro Baile (1972) e no filme Mulheres do Brasil, rodado em 2006. “Era uma história bonita em que Léa representava uma porta-bandeira e eu um sapateiro apaixonado por ela”, recorda o ator.

Figuras emblemáticas da televisão, os dois se encontram no teatro orgulhosos de suas trajetórias e otimistas quanto à sobrevivência dos veículos que os projetaram. Para Queiroz, tanto o teatro como a televisão superam qualquer aperto. “Fiz tevê ao vivo e acompanhei a chegada do vídeo-tape, quando todos apostavam que seria o fim do teatro, veio a ditadura militar, os artistas penaram até darem a volta por cima e, agora, falam que o streaming vai matar a tevê e o teatro, não acredito em nada disso”, diz ele.

Léa acrescenta que viveu para ver o momento em que começa a se fazer justiça com os artistas negros e idosos. “Tenho visto personagens defendidos por atores negros maravilhosos que até poucos anos seriam feitos por brancos”, repara ela. “Isso é resultado de uma luta política, nada vem de graça e tampouco as emissoras são boazinhas, mas fico feliz de saber que a produção desta peça também me escolheu paras papéis que poderiam ser de colegas brancas e mais jovens.”

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