Três fábulas sobre o fantasma do dinheiro

A comédia dramática 'Tudo', com Julia Lemmertz e Vladimir Brichta no elenco, faz sessões de pré-estreia no Festival de Curitiba

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Por Dirceu Alves Jr.
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Sob a direção de Guilherme Weber, o espetáculo Tudo realiza sessões de pré-estreia nesta sexta e sábado, às 21h, no Teatro da Reitoria, como uma rara atração inédita do 30º Festival de Curitiba. A comédia dramática, escrita pelo argentino Rafael Spregelburd em 2009, inédita no Brasil, apresenta três fábulas em torno dos valores de uma sociedade enredada pelo capitalismo. “O fantasma de cada história é o dinheiro que atormenta os personagens”, define Weber, que volta à direção depois de bem-sucedidas experiências em Os Realistas (2016) e Peça do Casamento (2019).Julia Lemmertz, Vladimir Brichta, Dani Barros, Márcio Vito e Claudio Mendes formam o elenco que, depois de 45 dias de processo e dois ensaios abertos, na segunda e terça, no Teatro Firjan Sesi, em Duque de Caxias (RJ), encara a plateia de Curitiba em um misto de tensão e expectativa. “Estamos quase arrancando os cabelos por ter levantado o trabalho em apenas um mês e meio, mas o Guilherme nos tranquiliza e jura que vai dar certo”, confessa Julia, em meio à adrenalina de quem começa a receber as primeiras respostas dos espectadores. 

O elenco da peça Tudo, com Guilherme Weber. Foto: Annelize Tozetto / Festival de Curitiba

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Até por conhecer bem o outro lado, Guilherme Weber minimiza, prático e bem-humorado, a ansiedade dos seus intérpretes. “Ator sempre acha que precisa de mais tempo e, como diretor, penso que, depois de seis ou sete semanas de ensaios, qualquer peça tem que encontrar o público porque só assim vai ser aperfeiçoada”, justifica.  O interesse de Weber pela dramaturgia de Spregelburd foi acelerado depois de ter atuado em Antes que a Definitiva Noite se Espalhe em Latino América, montagem dirigida por Felipe Hirsch em 2018, da qual o argentino criou uma das cenas, Pinacoteca. “Era um texto brilhante que tratava do colapso das ideologias de forma inventiva e, quando descobri Tudo, enxerguei ali as mesmas características, com uma forte dramaturgia de personagens”, conta ele. 

Uma alegoria

Tudo lança indagações provocativas sem, no entanto, responder a nenhuma. Na história de abertura, Spregelburd pergunta “por que o Estado se torna burocracia?”. Julia, Brichta, Dani, Vito e Mendes são funcionários de uma repartição pública soterrados em documentos a ponto de não conseguirem realizar o próprio trabalho. “Entendo como uma alegoria e criei uma atmosfera clownesca, como se fosse uma arena de circo para mostrar esse estado burocrático”, explica o diretor.

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Guilherme Weber. Foto: Annelize Tozetto / Festival de Curitiba

O valor das manifestações culturais é tema da trama que vem na sequência e indaga “por que toda arte vira negócio?”. Como se fosse um flashback, Neli (vivida por Julia), umas das personagens da cena anterior, convida os colegas para a ceia de Natal em sua casa. Por lá, o irmão dela (papel de Brichta), um artista plástico, se envolve em um embate com um dos burocratas (representado por Mendes), pouco receptivo aos discursos intelectualizados.  Finalmente, a terceira parte coloca em pauta “por que toda religião vira superstição?”. Nela, um escritor de livros infantis (Brichta) tenta entender por que sua mulher (interpretada por Dani) se sente aterrorizada com a possibilidade de o filho recém-nascido morrer depois de ser batizado. Por causa de uma fé inexplicável, ela insiste em não nomear o bebê porque, assim, o protegeria de uma maldição. Julia Lemmertz elogia as oportunidades oferecidas ao elenco e as conexões do texto com obscurantismo enfrentado por muitos países, entre eles o Brasil. “Digo que Tudo é para todos porque cada ator alcança o protagonismo em determinado momento”, afirma. “São tipos que conversam com esse período em que fingimos viver em uma democracia, mas, na realidade, enfrentamos uma divisão que nos faz desconfiar do outro o tempo inteiro e isso impossibilita qualquer união.”  A comédia dramática estreia no Rio de Janeiro em junho e chega a São Paulo no segundo semestre. Logo depois das sessões de Curitiba, porém, está prevista uma circulação pelo interior paulista como reforço de pré-estreias. Weber se sentiu seduzido a participar da peça como ator, mas a escalação para a novela Cara e Coragem, a próxima das sete na Globo, o fez convidar Vladimir Brichta. Julia, que contracenou com Brichta na estreia dele na TV, Porto dos Milagres (2001), reencontrou o parceiro em Quanto Mais Vida, Melhor, ainda no ar às 19h. “Só confirmo o quanto Vladimir é um cara encantador porque é no teatro que a gente conhece os colegas. Os perrengues aparecem e precisamos resolver juntos”, completa a atriz.