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Jornalista e comentarista de economia

Opinião | Trump e seu esperneio não devem atrasar a perda de hegemonia dos Estados Unidos no xadrez global

Presidente americano vem agindo para tornar a ‘América grande de novo’, impondo tarifas e desfazendo acordos

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Foto do author Celso Ming
Atualização:

O presidente Donald Trump está virando o mundo de ponta cabeça. Ou, pelo menos, é o que ele quer. O time jogava basquete, mas, de repente, um defensor saltou no garrafão e apanhou o rebote, o juiz apitou: “Mão na bola é pênalti; agora, é futebol”.

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No momento, essa reviravolta na ordem mundial está mais do que evidente no comércio exterior. Livre comércio? Que nada. Agora é proteção à produção local. O jogo do livre comércio não passou de instrumento pelo qual os outros países roubaram os Estados Unidos, avisa Trump. “Roubaram riqueza, emprego, roubaram a força do dólar”. O Nafta, Acordo de Livre Comércio da América do Norte que engloba, além dos Estados Unidos, Canadá e México, não passou de um “acordo que só produziu desgraças para os americanos”, avalia. Sua narrativa quer sustentar que a globalização serviu apenas para um saque persistente e implacável contra os Estados Unidos.

Esse esvaziamento foi produzido também, raciocina ele, pelos organismos encarregados da defesa global, especialmente pela Otan. Deixaram os aliados livres para despejar dinheiro no fortalecimento da economia deles e sangraram os Estados Unidos atolados em despesas.

A Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional e demais instituições multilaterais contribuíram para o enfraquecimento dos Estados Unidos, adverte Trump.

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Todos os movimentos de descarbonização, a campanha pela eliminação de gases poluentes da atmosfera e pela transição energética para fontes limpas e renováveis, não passam, argumenta ele, de esquemas que aumentam os custos e derrubam a competitividade do produto norte-americano. Por isso, abaixo ao Acordo de Paris. E força máxima para a produção de petróleo e de gás de xisto.

Trump age como juiz na geopolítica global e vira o mundo de ponta cabeça.  Foto: ¨Marcos Müller/Estadão

É um grande equívoco esse diagnóstico de que a ordem global que prevaleceu desde os anos 1930 serviu para empobrecer os Estados Unidos e enriquecer os concorrentes, como a China, a União Europeia e o Japão.

O que Donald Trump aparentemente parece não enxergar é que os Estados Unidos vêm perdendo hegemonia – assim como aconteceu com o Império Romano dos Césares, a Espanha de Carlos V e a Inglaterra da rainha Vitória. Sua reação tem tudo para não passar de esperneio, que pode atrasar o processo histórico que o novo jogo defensivo não o evitará.

Ainda não apareceu um grande economista que apoie essa “Trumponomics”. As avaliações que predominam no mundo acadêmico global entendem que não vai dar certo. Muitos antecipam o surgimento de uma nova ordem mundial, provavelmente liderada pela China. Isso sugere que, mais à frente, o cavalo de pau conduzido por Trump acabará por ser abandonado.

Os dirigentes das grandes empresas estão imersos em densa neblina. Poderão tomar decisões equivocadas ou esperar para ver. Mais dia menos dia, entenderão que essa reviravolta não deve prevalecer e que deverão voltar a jogar seu jogo, seja o basquete seja o futebol.

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Opinião por Celso Ming

Comentarista de Economia

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