Economia e políticas públicas

Opinião | Chances e riscos da mudança no IR

Isenção até 5 mil beneficia 10 milhões e é maciçamente popular. Dessa forma, é difícil que Congresso não aprove. Os riscos são de ampliação da isenção ou de diluição da medida compensatória de aumento da taxação dos mais ricos.

PUBLICIDADE

Foto do author Fernando Dantas

O projeto de isenção do imposto de renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil é uma das principais apostas de Lula para recuperar sua combalida popularidade. Pesquisas indicam que o projeto é maciçamente aprovado pela população. Adicionalmente, o cálculo do governo é de que 10 milhões serão diretamente beneficiados pela medida, contra apenas 141 mil pessoas muito ricas que serão afetadas diretamente pela alíquota mínima efetiva de 10% do IR.

PUBLICIDADE

O projeto do IR vai se somar a outros programas do governo, como o Pé de Meia, o Desenrola e a expansão do crédito consignado, no rol de "bondades" com as quais Lula tenta dar uma marca ao seu terceiro mandato.

Na avaliação de Ricardo Ribeiro, analista político da MCM-4Intelligence, as medidas do IR "devem gerar um dividendo eleitoral e político para o governo em 2026 [quando, se aprovadas, entram em vigor]".

Já se será suficiente para reverter a maré de impopularidade de Lula, o analista não se considera em condição de responder.

Outras questões importantes são a chance de aprovação da medida em suas duas pernas - a bondade para 10 milhões e a "maldade" para 141 mil - e o risco de ampliação da primeira ou de diluição da segunda, em ambos os casos elevando o custo fiscal.

Publicidade

Dado o seu caráter altamente popular e o benefício direto que representa para uma parcela muito grande da população, Ribeiro considera "praticamente certo" que o Congresso irá aprovar a isenção até R$ 5 mil. Só numa hipótese improvável de o governo degringolar totalmente, e o Centrão passar a sabotar Lula de todas as formas, o analista veria um cenário de rejeição pelo Congresso da isenção - e, mesmo assim, continuaria sendo algo difícil, dado a popularidade da medida.

Porém, para Ribeiro, há algum risco inverso, isto é, de o Congresso tentar aumentar a bondade da medida. Uma possibilidade seria uma alta do limite de isenção, com o PL já tendo largado com uma proposta de elevar os R$ 5 mil para R$ 10 mil.

O analista considera improvável que isso ocorra (a aprovação final do limite de R$ 10 mil), mas nota que outras possibilidades podem ser tentadoras para o Congresso.

O projeto do governo não é o do aumento tradicional da faixa de isenção do IR, que afeta todas as rendas até aquela faixa. A isenção total só vale para quem ganha o equivalente a até R$ 5 mil por mês, e a isenção vai se reduzindo até ser zerada em R$ 7 mil. A partir daí, o IR segue como dantes para os demais contribuintes, a não ser pelo ajuste normal (não até R$ 5 mil) da faixa de isenção.

Esse detalhe técnico inovador é uma das razões que faz com que o custo do projeto seja de R$ 26-27 bilhões (segundo o governo), bem menos do que os cálculos iniciais dos analistas.

Publicidade

Assim, a tentação do Congresso poderia ser a de simplesmente fazer com que a isenção do IR até 5 mil fosse feita da forma "tradicional", isto é, valendo para todas as rendas até esse valor. Isso imediatamente aumentaria de forma substancial o custo da proposta.

PUBLICIDADE

Ribeiro considera que a compensação, na forma da alíquota mínima efetiva de 10% para o topo da pirâmide de renda, também tem chance razoável de passar, sem muita diluição. A medida parece justa, foi bem arquitetada e deve ser bem comunicada pelo governo.

O analista lembra que, no caso da taxação dos fundos exclusivos e offshore, alguns observadores apostaram que o Congresso iria barrar ou diluir até a descaracterização, por causa dos lobbies dos ricos e do fato de que havia parlamentares (ou seus familiares) que se beneficiavam diretamente dessas aplicações. Ainda assim, a taxação dos fundos foi aprovada, com alguma suavização, mas sem ser descaracterizada.

Carlos Melo, cientista político do Insper, tem uma visão um pouco mais cética de que a de Ribeiro. Ele aponta que Lula está jogando as fichas no projeto de isenção do IR porque é das poucas bandeiras de campanha que talvez consiga entregar. Baratear o alimentos - a famosa "picanha e cerveja baratas" - o presidente não tem como entregar, e "nem mesmo ovos", ironiza o analista.

O problema da medida da isenção do IR, segundo o Melo, é que o Congresso é hostil ao Executivo, especialmente pela frustração até agora com uma esperada reforma ministerial que distribuísse melhor as pastas entre a coalizão da base do governo. Até agora as mudanças mantiveram o domínio do PT, como no caso de Alexandre Padilha no Ministério da Saúde e Gleisi Hoffmann na Secretaria de Relações Institucionais.

Publicidade

Melo também considera difícil o Congresso rejeitar uma medida "popular e populista" como a isenção até R$ 5 mil, mas vê possíveis problemas na parte da compensação com a taxação dos mais ricos, ou a possibilidade decobrança de outras vantagens para os parlamentares, incluindo a superespinhosa questão das emendas.

"De graça, o governo não consegue mais nada", avalia Melo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/3/2025, terça-feira.

Opinião por Fernando Dantas
Comentários

Os comentários são exclusivos para cadastrados.