Economia e políticas públicas

Opinião | Por que a dose do "remédio" tem que ser alta?

Gabriel Galípolo, presidente do BC, aponta subsídios cruzados como vilões do juro real altos. O problema até existe em relação ao spread de parte das linhas de crédito, mas a Selic real está elevada porque o governo desde o início apertou fundo o acelerador fiscal.

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Foto do author Fernando Dantas

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse hoje (1/4, terça-feira), durante o evento de comemoração dos 60 anos do BC, que no Brasil talvez seja necessário aplicar doses do "remédio" do juro alto maiores do que em outros países, segundo reportaram Cícero Cotrim e Célia Froufe, da Agência Estado.

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Para Galípolo, os subsídios cruzados, "perversos e regressivos", são um motivo importante pelo qual os canais de transmissão da política monetária brasileira não têm a mesma fluidez que em outros países.

O presidente do BC apontou um problema que de fato existe, mas afeta especialmente o spread de linhas de crédito sem garantias reais e segurança jurídica. Por outro lado, essa fala de Galípolo não apontou o "elefante na sala" que explica por que o juro real no Brasil está tão alto.

E efetivamente é politicamente delicado para o presidente do BC mencionar o fato de que o governo Lula, acuado pelo nível abaixo do esperado da popularidade presidencial, pisou no acelerador fiscal e parafiscal praticamente o tempo todo em que o BC pisava no freio da política monetária.

Uma expressiva corrente do mercado vê essa incontinência fiscal como a razão básica pela qual a economia brasileira tem a combinação, à primeira vista estranha, de juro real muito alto e atividade econômica aquecida. "Não há mistério algum", comenta uma fonte da coluna.

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Existe, inclusive, a visão de que há uma "comprovação histórica" de que a prodigalidade fiscal está na raiz do alto juro real brasileiro. O teto de gastos ficou em vigor de 2017 até sua substituição pelo novo arcabouço fiscal em 2023. Em dezembro de 2016, a Selic real ex-ante estava em 8,7%. A partir daí, caiu até 1,7% em junho de 2018. Chegou a um novo máximo de 2,9% em maio e junho de 2019. Em dezembro do mesmo ano, ainda no pré-pandemia, caiu a 0,4%. Em novembro e dezembro de 2020, já na esteira da pandemia, bateu no mínimo de -2%.

A Selic real voltou a crescer ainda sob o regime do teto de gastos, mas justamente em 2022, quando de certa forma o governo Bolsonaro, no afã eleitoreiro, sabotou o dispositivo, inclusive manipulando o pagamento dos precatórios. Em dezembro de 2022, Bolsonaro entregou a Lula uma Selic real ex-ante de 8,1%. Em março de 2025, ela ficou em 8,5%.

É claro que muitos outros fatores fazem parte das complexas interações que levam o BC a estabelecer um dado nível de Selic nominal que, descontado das expectativas de inflação, compõe a Selic real (que, inclusive, pode ser bem diferente "ex-post", quando há surpresas para cima ou para baixo na inflação).

Nos três anos de 2017 a 2019, a economia brasileira cresceu a uma média bem inferior a 2%, o que para alguns analistas denota excesso de capacidade ociosa. Nesse contexto, seria natural que o juro real fosse baixo, e até teria faltado estímulo da política econômica.

De qualquer forma, isso não desmente a visão de que o juro real brasileiro está excepcionalmente elevado por causa da política econômica esquizofrênica, na qual uma parte do governo pisa no acelerador enquanto o BC pisa no freio. Enquanto essa anormalidade persistir, o BC terá que continuar a aplicar doses anormalmente fortes de juros (que prejudicam a dinâmica da dívida pública e, dessa forma, pioram o risco País). E isso não é nenhum mistério.

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Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 1/4/2025, terça-feira.

Opinião por Fernando Dantas
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