O trabalho de gestão de riscos em empresas brasileiras ainda está abaixo do estágio maduro. O diagnóstico é da pesquisa global Future of Controls, lançada neste mês pela consultoria Deloitte. Segundo o levantamento feito com representantes de alta liderança em 2024, só 11% dos respondentes no Brasil consideram como “maduro” o nível atual da gestão de riscos em suas companhias.
A maior parte, 34%, está em estágio “padrão”, seguido pelo estágio “avançado” e pelo estágio “básico”, com 28% e 26% respectivamente.
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A sócia-líder da prática Accounting & Internal Controls da Deloitte, Camila Boretti, especialista à frente do estudo, explica que, quando se refere aos riscos, a pesquisa engloba incertezas ou oportunidades que podem afetar o atingimento dos objetivos estratégicos de uma organização.
Neste sentido, os estágios de maturidade das empresas no Brasil apresentam um sinal de alerta. “Quando se fala em avançado e maduro, isso quer dizer que a empresa tanto é bem documentada quanto tem uma visão estratégica. E o ponto que chama a atenção é que a maturidade em si dos controles (da maior parte das empresas no País) não tem sido tão robusta.”
A falta de robustez, segundo ela, é explicada por fatores como: movimentos externos regulatórios mais exigentes, diferentes exigências quando há trocas frequentes de auditores contábeis e o desejo das empresas de atualizar ferramentas de controle. Esses processos trazem mais instabilidade à maturidade das estratégias de gestão e controle de riscos.
Apesar disso, um ponto visto como positivo pela Deloitte no levantamento é que 58% das grandes empresas do Brasil têm controles de riscos alinhados à sua estratégia de negócios. O resultado supera a média global de 52%, considerando as respostas de participantes de 30 países também ouvidos no mapeamento.
Incluindo o Brasil, 500 respondentes de 29 países como Reino Unido, Estados Unidos, China, França e Espanha participaram da pesquisa.
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Outro destaque mostra que, frente aos riscos, os executivos de empresas brasileiras classificaram 62% delas como o “tone at the top” (termo em inglês que representa a adoção de uma postura ética pela alta liderança) como “alto” ou “muito alto. A resposta ficou em linha com a posição global, que teve média de 63%.
“Há muito tempo se tratava o controle como se fosse uma atividade apartada das atividades do negócio. E o que vemos na pesquisa é o verbo monitorar dentro do verbo executar, ou seja o controle dentro da atividade, e não como algo adicional”, diz Boretti. “A classificação ‘tone at the top’, que mostra a sensibilização da alta liderança para os controles, é um avanço da área de controles internos, que não víamos três anos atrás .”
Desafio da digitalização
Na era da evolução da inteligência artificial (IA) e outras tecnologias similares, a digitalização dos controles de riscos nas empresas ainda é uma realidade distante nas empresas do Brasil. Segundo o levantamento, somente 2% delas tem ambiente de controles altamente automatizado. Enquanto isso, 28% das companhias brasileiras ainda dependem de controles manuais e 66% possuem um misto de controles manuais e automatizados.
Os respondentes afirmam que entre os principais obstáculos para digitalizar a estrutura de controles internos estão a falta de conhecimento sobre as possibilidades oferecidas pela tecnologia e a ausência de recursos humanos para esta implementação.
No caso do uso da IA como auxílio na tomada de decisão do setor, essa ainda tem sido uma realidade ainda mais nichada, restrita a setores muito específicos como mercado financeiro e saúde, explica Boretti. De modo geral, as empresas ainda precisam avançar nessa inovação, incluindo a discussão de governança específica para essa tecnologia.
“Do ponto de vista de auditoria interna, vemos poucas empresas colocando em seus planos de auditoria avaliar a implantação da governança da IA e poucas realmente tendo essa governança. Se pensarmos que o controle sobre o ciclo de vida dos algoritmos da IA é um controle e ele precisa ser rapidamente implementado, ainda quase não temos nada muito bem desenvolvido, pelo menos não em uma visão Brasil”, diz a especialista.
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“Qualquer avanço em uma companhia tem que ser alinhado com a questão cultural da empresa e essa cultura tem que estar muito disseminada por todo mundo, indo em um só objetivo. Além disso, a eficiência na operacionalização dos controles é outro ponto relevante para avançar na maturidade das empresas, principalmente considerando as novas tecnologias”, acrescenta.