Fundada em 1906 como a Haloid Photographic Company e renomeada na década de 1960 como Xerox (o termo deriva da palavra “xerografia”, sugerida por um linguista especializado em grego e que significa “escrita seca”), a companhia foi tão bem-sucedida que seu nome tornou-se sinônimo de fotocópia. Apesar dos avanços tecnológicos que suas copiadoras e impressoras apresentaram ao longo do tempo, é difícil não atribuir sua maior contribuição para o avanço da tecnologia na sociedade moderna ao Palo Alto Research Center, mais conhecido como Xerox PARC.
Em 1969, o físico Jacob “Jack” Goldman (1921-2011), cientista-chefe da Xerox, apoiado pelo também físico George Pake (1924-2004), fundou o centro de pesquisas na Califórnia com o objetivo de desenvolver novas tecnologias em física avançada, ciência de materiais, e ciência da computação. A Xerox já aprimorava seus equipamentos de impressão em um laboratório em Rochester, no estado de Nova Iorque, mas o objetivo do PARC era mais amplo e ambicioso. Em 2002, o PARC foi desmembrado e tornou-se uma subsidiária integral, e em abril de 2023 foi doado para SRI International (originalmente estabelecida por curadores da Universidade de Stanford, e formalmente independente desde 1970, tratava-se de uma entidade de pesquisa sem fins lucrativos). Foi na SRI, aliás, que a mais relevante apresentação da história da computação moderna aconteceu. Durante noventa minutos no dia 9 de dezembro de 1968, o engenheiro Douglas Engelbart (1925-2013) demonstrou um novo computador que usava — pela primeira vez na história — janelas, hipertexto (a linguagem de programação da World Wide Web), mouse, videoconferência e outras características hoje em dia comuns.
As contribuições das pesquisas realizadas pelos cientistas e engenheiros que trabalhavam no Xerox PARC impressionam pela quantidade, qualidade e pelo impacto duradouro: a impressão a laser, a Ethernet, o computador pessoal moderno (inspirados pelo trabalho do SRI, com interface gráfica e mouse), a programação orientada a objetos, o papel eletrônico, e a integração em larga escala para semicondutores. Era comum o PARC receber visitantes de outras empresas ou universidades, interessados em saber quais avanços estavam sendo desenvolvidos em seus laboratórios.
Em 1979, durante uma dessas visitas, a cientista da computação Adele Goldberg (1945-) — que trabalhou por um curto período como professora da PUC-Rio após obter seu doutorado na Universidade de Chicago — recusou-se a detalhar algumas das tecnologias para um grupo de visitantes liderado por um certo Steve Jobs, por suspeitar que a Apple poderia se apropriar da tecnologia. Os superiores de Adele acabaram por instruí-la a fazer a apresentação, até porque a divisão de venture capital da Xerox havia investido cerca de US$4 milhões (em valores de hoje) na Apple, oferecendo em troca acesso ao PARC. Qual a magnitude do impacto dessa visita sobre alguns dos lançamentos revolucionários da Apple (e da Microsoft) ainda é tema discutido entre historiadores e analistas, mas é inegável a influência que aquelas ideias tiveram sobre os destinos da computação pessoal.

Foi no PARC que também surgiu a ideia da computação pervasiva ou computação ubíqua, proposta pelo cientista de computação Mark Weiser (1952-1999), que também era baterista de uma banda de rock experimental (e que foi a primeira a fazer uma apresentação ao vivo via Internet). Ele definiu assim o termo: “[...] Primeiro vieram os mainframes, compartilhados por várias pessoas. Agora [no final da década de 1980] estamos na era da computação pessoal, com usuários e máquinas se encarando através das telas [de computadores]. A seguir, teremos a computação ubíqua, ou a era da tecnologia calma, que irá se transformar no pano de fundo de nossas vidas”.
Atualmente, é difícil imaginar que o uso de nossos dispositivos pessoais — telefones, tablets, computadores — pode tornar-se tão simples e integrado ao nosso dia a dia quanto acender as luzes, usar uma camisa ou colocar um par de óculos. Mas avanços recentes começam a aproximar essa ideia da realidade, e esse será o tema da nossa próxima coluna. Até lá.