As empresas brasileiras de capital aberto passaram por um ano de recuperação em 2024,com crescimento do faturamento, reestruturação de dívidas e aumento dos investimentos. Por outro lado, também enfrentaram um aumento no endividamento, conforme aponta um levantamento exclusivo da consultoria PwC para o Estadão. O estudo analisou os resultados de 234 companhias que divulgaram seus balanços até o dia 25, de um total de 365 listadas na B3.
“Foi um ano de resiliência das empresas, em relação a um contexto macroeconômico desafiador, com juros mais altos e elevação do dólar”, afirma Alessandro Marchesino, sócio e líder de mercado de capitais da PwC Brasil.
A receita líquida dessas companhias aumentou, em média, 7% no ano passado, em relação a 2023. Em termos reais, descontando-se a inflação medida pelo IPCA, significou alta de 2,2%. Entre 2022 e 2023, a receita líquida dessas mesmas empresas havia encolhido 3,8%. “Foi uma recuperação significativa”, diz ele.

Essas empresas também tiveram aumento em sua margem de lucro operacional, indo de 16,9% para 18,9% no mesmo período. Já o crescimento da margem ebitda (quando se consideram efeitos que não incidem sobre o caixa, como depreciação e amortização) foi de 25,8% para 26,7%.
A alta dos juros, porém, fez seu estrago. A dívida bruta total das empresas aumentou, em média, 21,6% entre um ano e outro. Em outra frente de comparação, a dívida bruta sobre o total dos ativos seguiu a mesma tendência, porém com menor força, indo de 38,1% para 40,5%.
“O aumento dessa alavancagem foi bem menor, proporcionalmente, do que o aumento das taxas de juros e do câmbio no ano”, afirma Marchesino. “Significa que as empresas, no geral, seguraram um pouco a captação de recursos.”

As empresas também conseguiram aproveitar o bom momento para emissão de títulos de dívida e reestruturaram seus passivos financeiros. A dívida de curto prazo teve ligeira queda de 31% para 28,2%. Nesse quesito, as indústrias de exploração de imóveis foram mais bem sucedidas (de 24,5% para 13%), de máquinas e equipamentos (de 54,4% para 44,2%) e de energia elétrica (de 26,5% para 19,1%).
Setor de água e saneamento teve maior crescimento
Em termos setoriais, os destaques de aumento de receita ficaram com água e saneamento (29,1%, em relação ao ano anterior), serviços diversos (28,4%), material de transporte (27%), construção civil (24,6%) e transporte (17,9%).
No caso de saneamento, além da receita, a margem ebitda aumentou seis pontos porcentuais, indo de 35,6%, em 2023, para 41,6% no ano passado. Os índices de solvência e alavancagem ficaram relativamente estáveis, segundo a PwC, apesar do aumento nominal da dívida bruta ter sido de 25,4% e os investimentos em ativos de longo prazo terem crescido 57%.
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“Apesar de a amostra de saneamento na bolsa ser pequena, com apenas quatro empresas, temos visto depois do marco regulatório um movimento de crescimento e consolidação generalizado no setor”, afirma Melissa Schleich, diretora de mercados de capitais da PwC Brasil.
Agronegócio vive início de alívio
Outro destaque setorial foi para o agronegócio, que enfrentou um ano difícil em 2023, mas começou a dar sinais de recuperação. As empresas listadas do setor tiveram aumento de receita líquida de 14,4% e crescimento do lucro operacional de 21,1% em 2024. Já a margem bruta aumentou 6,5 pontos porcentuais, de 50,6% para 57,1%. “O agro continua sendo um dos principais corredores de crescimento do País e, mais uma vez, mostrou muita resiliência”, diz Marchesino.
O comércio, que enfrentou grave crise após a pandemia e o escândalo das Americanas, teve um ano de desalavancagem e melhoria na estrutura de capital. A dívida bruta das empresas do setor caiu 11,2%. Ao mesmo tempo, houve redução da dívida de curto prazo em relação à dívida total: o indicador foi de 49,5% para 43,8%, com aumento da liquidez corrente de 1,8 vez para 2,5 vezes.
Maior investimento aponta para crescimento futuro
Algumas pistas nos balanços divulgados apontam tendências para o próximo ano. O investimento em bens de capital, indicadores da expectativa de crescimento futuro das empresas, aumentou 20,8% nas empresas analisadas em 2024 em relação ao ano anterior. O porcentual foi puxado principalmente pelos setores de petróleo, gás e biocombustíveis (58,4%); água e saneamento (57%) e energia elétrica (26,7%).
Porém, diz Marchesino, as instabilidades geopolíticas globais e as tarifas impostas pelos EUA a diferentes setores tende a criar um cenário mais desafiador em 2025.