Por muito tempo, o conceito de responsabilidade corporativa era mitigar danos. Mas o aumento das desigualdades sociais e dos efeitos da crise climática tem exigido mais das empresas: para além de minimizar impactos negativos, elas precisam evoluir para um modelo regenerativo, em que contribuem ativamente para a restauração ambiental e o desenvolvimento social.
As consequências de um sistema econômico que se baseia na extração excessiva de recursos naturais e no consumo acelerado são evidentes, como degradação do solo, poluição da água e do ar, desmatamento e aquecimento global. No entanto, há um descompasso que impõe desafios significativos para a adoção de modelos regenerativos em larga escala: embora boa parte dos consumidores valorizem práticas sustentáveis, não podem ou não estão dispostos a pagar muito mais por elas.
Para fortalecer o apoio das empresas à transição para uma economia de baixo carbono, três caminhos me parecem especialmente efetivos. O primeiro está no campo das políticas públicas e se refere à revisão dos subsídios governamentais para setores poluentes. Em 2023, os subsídios globais a combustíveis fósseis ultrapassaram US$ 1,3 trilhão, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). No Brasil, só em 2023, cerca de 82% dos incentivos fiscais para o setor de energia foram direcionados a fontes fósseis, totalizando R$ 81,74 bilhões. Esses benefícios distorcem os preços reais dos recursos naturais e dificultam a transição para práticas sustentáveis.
A disparidade entre os incentivos destinados ao petróleo e aqueles voltados para alternativas sustentáveis levanta um debate importante sobre a necessidade de um equilíbrio maior nessa equação. Os benefícios fiscais mantêm o custo de derivados do petróleo, como plásticos e combustíveis, artificialmente baixo, tornando as opções mais sustentáveis menos competitivas no curto prazo - é o caso, por exemplo, do custo das sacolas plásticas versus sacolas de papel kraft (a segunda chega a valer seis vezes mais).

Tudo isso, somado à necessidade de investimentos substanciais em inovação, infraestrutura e adaptação de cadeias produtivas para a transição para uma economia de baixo carbono, torna imprescindível o advocacy por subsídios mais bem distribuídos. Esse reequilíbrio será capaz de favorecer energias limpas e materiais sustentáveis e criar um ambiente mais favorável à inovação e à competitividade. O desafio não está apenas na eliminação dos subsídios aos combustíveis fósseis, mas na construção de um ambiente regulatório que incentive a inovação e o crescimento econômico sustentável.
O segundo caminho se resume a práticas regenerativas que demonstrem que é possível aliar rentabilidade e impacto positivo. A agricultura regenerativa é um exemplo. Diferente dos modelos convencionais de monocultura e uso intensivo de agroquímicos, ela prioriza a diversidade de culturas, a rotação de plantios e o uso eficiente da água, ao mesmo tempo em que promove a recuperação do solo, a retenção de carbono e a manutenção da biodiversidade (que, se valorados como se espera, criam também um ambiente competitivo para tais negócios). A transição para sistemas produtivos regenerativos requer inovação tecnológica e investimentos significativos, mas os benefícios são amplos e inegáveis: melhoria na segurança alimentar, adaptação às mudanças climáticas e aumento da resiliência econômica das comunidades rurais.
A indústria também tem seus avanços nessa área. Na produção têxtil, para citar um setor de impacto ambiental significativo, empresas já buscam a substituição de fibras sintéticas derivadas do petróleo por materiais biodegradáveis e recicláveis, além da redução da pegada de carbono ao longo da cadeia produtiva. Para isso, é essencial a rastreabilidade dos produtos, permitindo que consumidores e investidores façam escolhas informadas.
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Movimentos de grandes varejistas de moda para a circularidade e o investimento em ciência, tecnologia e inovação para a produção de matérias primas mais sustentáveis (90% do impacto ambiental de um produto é determinado na fase de design) mostram como o setor pode transformar suas operações para reduzir impactos ambientais e incentivar um consumo mais consciente. Decidir por onde começar nunca é fácil, mas algumas empresas têm aplicado a regra 80/20, analisando 20% dos seus produtos (ou serviços) que geram 80% das suas vendas para entender a maior fatia do seu impacto. Não estão apenas fabricando roupas, estão fazendo roupas duradouras que causam menos danos.
O terceiro caminho está ligado a uma revisão do conceito de crescimento econômico. O modelo atual, baseado no aumento contínuo do consumo e da produção, é insustentável em um planeta com recursos finitos. A escassez de água, solo fértil e biodiversidade torna a regeneração não apenas uma escolha ética, mas também economicamente estratégica.
Empresas responsáveis devem priorizar a qualidade e a durabilidade dos produtos, investindo em design sustentável e modelos de negócio circulares, onde os resíduos de um processo produtivo se tornam insumos para outro. O princípio da economia circular precisa substituir a lógica linear de extração, produção e descarte para um modelo econômico baseado em sistemas circulares (fazer, usar, reparar, reciclar).
As empresas do futuro não serão apenas aquelas que conseguirem se adaptar às exigências regulatórias, mas sim aquelas que liderarem a transformação rumo a um modelo de desenvolvimento regenerativo. O mercado já sinaliza essa mudança, mesmo em meio a cenários geopolíticos instáveis, para dizer o mínimo. Ao se anteciparem a essa nova realidade e integrarem a regeneração em sua governança, as empresas não apenas fortalecerão seu papel como agentes de transformação, ao lado da sociedade civil e dos governos, mas também garantirão sua relevância e longevidade no século XXI.