Em participação recente no Altas Horas, o apresentador Raul Gil se disse mais vivo do que nunca após ser demitido da SBT, aos 87 anos, e reclamou do etarismo na televisão. Léo Batista, ícone do jornalismo com cinco décadas de Globo e morto neste ano, continuou trabalhando até os 92. São dois casos de comunicadores apaixonados pelas câmeras, como Galvão Bueno, 74, que estreia novo programa na Band nesta segunda-feira, às 22h30, e vai narrar jogos do Brasileirão no Amazon Prime Video, sem os gritos que viraram moda na narração e dos quais não gosta.
À frente do Galvão e Amigos, o apresentador e narrador está em paz com o tempo e se vê em condições de permanecer na ativa por muitas estações. “O mundo mudou. A medicina mudou, as condições mudaram. As pessoas ficaram mais longevas, eu me sinto muitíssimo bem”, diz Galvão ao Estadão.
Como diz o nome da atração, continua cercado do boas amizades, que voltam a acompanhá-lo na TV. No mesmo formato do antigo Bem, Amigos, nome que a Globo não autorizou ser levado à Band, terá a companhia de Mauro Naves, Walter Casagrande e Paulo Roberto Falcão no estúdio.
A voz pode não ser mais a mesma, mas a vontade é, o espírito é. Eu também não vou fazer mais o que eu fazia quarenta anos atrás... três, quatro jogos por semana, e mais o programa. Eu confio que tem alguns anos ainda para fazer um bom trabalho
Galvão Bueno, narrador e apresentador

A necessidade que o comunicador de 74 anos sente de trabalhar não está ligada apenas à paixão pela televisão e transmissões esportivas, mas também ao trabalho em si. Fora das câmeras, leva uma vida laboriosa, preenchida por ocupações das mais diversas naturezas, pois é assim que estabiliza e alimenta a própria mente.
“Parar de trabalhar me faria muita falta. Além do meu trabalho em televisão, além do trabalho de streaming, eu sou empresário, eu produzo vinho, eu crio gado, eu crio cavalo, eu gravo campanhas comerciais, fico o dia inteiro gravando. Então, eu sinto vontade e necessidade de trabalhar. Trabalhar faz bem para a cabeça. Fazendo bem para a cabeça, faz bem para a vida”, comenta.
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A passagem do tempo levou Galvão de volta aos primórdios, depois que seu contrato com a Globo terminou oficialmente no final do ano passado. Foi na Band, em 1977, que ele começou a carreira de narrador. Os primeiros de trabalho na TV foram atuando como comentarista, após abandonar o sonho de jogar basquete profissionalmente.
“Eu fui jogador de basquete, razoável. Aos 23 anos, eu fiz a grande troca da minha vida: troquei a bola de basquete pelo microfone. Sem abandonar o basquete. Então, aos 23 anos de idade, eu não imaginava que 51 anos depois, aos 74, eu estivesse aqui, falando com você, às vésperas de estrear um programa em uma casa que é tão importante para mim no aspecto sentimental, onde eu comecei como narrador em 1977″,afirma.
Narrar virou o principal ofício do carioca. Das Copas do Mundo à Fórmula 1, muitos do mais icônicos momentos do esporte brasileiro foram registrados em vídeo sob a narração de Galvão, referência para toda uma geração, ao lado de nomes como Sílvio Luiz e Luciano do Valle.
Narradores passaram a utilizar estilos diferentes ao longo dos anos, e nem todas as formas de locução que ganharam espaço agradam Galvão. Para ele, independentemente do estilo, o que importa é estar preparado.
“Eu não gosto de grito. Sinceramente, não gosto de grito. Então, já vai logo uma coisa polêmica: não gosto de grito. Tem muita gente gritando demais. Mas, o básico é o seguinte: é você fazer sempre bem feito o seu dever de casa. Não é porque você tem tempo, porque você tem nome, porque você é famoso, porque você está em um grande canal que você tem a garantia de que vai fazer uma grande transmissão se não estiver sabendo tudo o que está acontecendo nela e no entorno.”
“É fazer o dever de casa, ter a noção de que a cada dia se aprende. Aí vem uma frase do maior gênio da televisão brasileira, do Boni. Ele fazia de propósito, ele dizia assim: ‘Muito bom hein, porra... Muito bom, do cacete, mas sempre é possível fazer melhor’. Então, fazer o dever de casa e ter na cabeça que sempre é possível fazer melhor”, conclui.
O lendário comunicador não gosta de falar em nomes, porém acha justo citar alguns, os quais considera modelos na arte de construir boas narrações. “Eu tive a honra de dividir transmissões e pontos de audiência com Luciano do Valle e com Sílvio Luiz. E trabalhar mais de 30 anos junto com Cléber Machado e Luís Roberto. Acho que tem um padrão aí.”. Os dois últimos também vão narrar o Brasileirão, por emissoras diferentes: Cleber na record e Luis nos canais Globo.
Galvão Bueno continua na ativa também por ter entendido como se reinventar e se conectar com os novos meios. Além do atual contrato para narrar em uma plataforma de streaming, o Prime Video, criou o próprio canal no YouTube, no qual chegou a narrar o amisto Brasil x Marrocos em 2023 e faz sucesso nas redes sociais com seu lado comentarista.
As opiniões sobre seleção, Flamengo, Fórmula 1 e muitos outros assuntos cativam as pessoas no X, antigo Twitter, e no Instagram. Agora, voltam a cativar na TV aberta, com participações no Jornal da Band e, a partir desta segunda-feira, no Galvão e Amigos.
“Por que (minha opinião) às vezes mexe? Eu nunca falei da vida pessoal de ninguém, não admito que falem da minha. Nunca falei mal de companheiro de trabalho, acho isso antiético, e tem muita gente atrás de - como é? - o tique taque, sei lá como chama isso aí, o cata clique, não concordo. Mas, eu sempre fui polêmico, então acho que criei o hábito de as pessoas ouvirem o que eu estou dizendo, concordando ou não. É um direito de cada um, e vou continuar nas redes sociais. Volto a ter essa possibilidade na televisão, que basicamente parou no final da Copa de 2022. Vai ficar mais forte ainda.”