O Campeonato Brasileiro de 2025 será o 20º de André Rizek no SporTV, mas o primeiro em que ele comanda o novo programa da casa. O ‘Fechamento SporTV’ terá duas horas de duração logo após a última partida da rodada do fim de semana do Brasileirão. Junto de Rizek, estarão os comentaristas Denilson e Aline Calandrini.
A ideia é analisar os principais acontecimentos dos jogos. “Não estou preocupado em ser diferente no SporTV, mas diferente a cada domingo”, diz Rizek ao Estadão. “Fazer um programa quente, que a matéria de análise, seja a rodada. Não preciso ter um quadro diferente do Troca de Passes ou do Redação”, conclui.
Na estreia, além do trio, Eric Faria e Felipe Melo completam o elenco. “Vejo como complementares”, avalia Rizek sobre comentaristas, jornalistas e ex-jogadores. Em conversa com o Estadão, Rizek comenta o momento da seleção brasileira e da CBF e outros assuntos como a polêmica fala de Raphinha.
Em comentário, o jornalista havia criticado a declaração do atacante do Barcelona e da seleção em entrevista a Romário. A réplica veio com o Baixinho reclamando da imprensa. Para Rizek, a fala está envolvida no fenômeno dos videocasts como lugares de “soltar o verbo” e falar o que não se gosta de dizer em entrevistas convencionais.
Como o “Fechamento” pretende se diferenciar de outros programas esportivos?
Com o tempo, se cria identidade. Não nasce com identidade forte. Uma diferença é o Denílson. Ele tá no Globo Esporte com o Fred, mas não no cast do SporTV. Não estou preocupado em ser diferente no SporTV, mas diferente a cada domingo.
A ideia é aproveitar a rodada quente. Fazer um programa quente, que a matéria de análise, seja a rodada. Não preciso ter um quadro diferente do Troca de Passes ou do Redação.
Ao seu lado, estarão dois ex-jogadores, Denilson e Aline Calandrini. Ambos são comentaristas reconhecidos há anos por esse trabalho. Como avalia as críticas de que ex-atletas tiram espaço de jornalistas nos comentários?
Vejo como complementares. Não enxergo como “os mesmos bichos”. São diferentes. Se eu quero ouvir se o jogador deveria ter chutado de peito, ou de bico, pergunto a um atacante, pergunto ao Paulo Nunes. Menos sobre pênalti, porque ele não sabia bater (risos).
Não que eu não queira ouvir o Lédio (Carmona, por exemplo), mas o jornalista tem outras valênicas: a informação, os levantamentos, o histórico do confronto, algo que tenha apurado, porque o comentarista também nunca deixa de ser repórter.
É um desafio para o jornalista de voltar a nossa essência, que é informar, comunicar bem. A profissão está em crise, em vez de botar a culpa em problemas, é de se questionar: “Será que estou me fazendo entender?”; “Estou me comunicando bem?” ou “Será que não estou usando um linguajar de analista de desempenho?”.
A polêmica fala do Raphinha antes do jogo contra a Argentina rendeu até resposta do Romário a sua crítica. Há uma infinidade de programas em que jogadores falam o que não dizem aos jornalistas. Você avalia que falta alguma responsabilidade jornalística, mesmo quando eles não se propõem a fazer jornalismo?
Os podcasts surgem com muita força nos Estados Unidos, de uma forma muito diferente, como um consumo pesado de informação. E vingou como um meio pesado de se consumir informação. No Brasil, a gente tentou. Poucos se mantiveram nesse sentido.
O videocast virou um lugar para soltar o verbo. Falam em videocast o que não gostam de falar para o jornalista. Acho válido, é mais um meio.
No caso do Romário, é estranhíssimo. O Raphinha jamais falaria isso a um jornalista. O jogador fala e acha que não vai sair dali. Quando o Raphinha dá a entrevista, minha primeira decisão, como editor, foi não entrar nessa história. Mas o assunto vai para a coletiva do Dorival, vai para a coletiva do Scaloni. Aí o fato já está posto, levei ao ar. Não caberia a mim mais decidir.
Não fosse uma goleada em Buenos Aires, os principais assuntos da Data Fifa seriam esse e a eleição de Ednaldo Rodrigues. Com o ‘sim, senhor’, representado pela unanimidade na aclamação, você projeta o para o futebol brasileiro até 2030?
A meu ver, o que houver de diferente no futebol brasileiro tem de ser independente da CBF. A discussão não vem da CBF, vem de uma liga. Não acredito que os clubes vão se organizar, mas, enquanto não se organizarem, não vamos ter avanços.
Eles estão se matando por uma questão que, na teoria, é a mais simples, que são direitos de transmissão. Imagina quando chegar a assuntos como fair-play financeiro, gramado sintético. Os clubes não se veem como sócios.

Não sou esperançoso. A CBF é manutenção e vai se autovotar para ficar aí. É de se cobrar dos clubes que assumam as rédeas do produto deles.
Acho que melhorou. Quando comecei, era pior. Você não sabia se o campeonato ia ter rebaixamento, se ia terminar com o mesmo regulamento que começou. O nível dos dirigentes... nos anos 1990, se você precisava de uma informação de um dirigente, você ia até a loja de vestido de noiva onde ele trabalhava, loja de vidro de carro...
Houve uma profissionalização, mas sempre estivemos muito abaixo. Melhorou bastante também em nível técnico. Apesar do calendário, espero um Brasileirão, neste ano, muito bom e de alto nível.
Como continuar no meio do futebol mesmo com a perspectiva pessimista?
Futebol é uma cultura. Pode estar ruim, mas você é apaixonado por aquilo. Nunca vou deixar de acompanhar, independentemente de o futebol estar mal. É quase um relacionamento tóxico, você não larga, mesmo que te maltrate. Hoje estamos longe do ideal, mas o cenário é melhor, que anos 1980, 1990.
Voltando para seleção, o que você acha que deu errado no trabalho do Dorival?
É mais fácil perguntar o que deu certo. Eu lamento, porque o Dorival é melhor técnico do que o trabalho dele a frente da seleção apresenta. Ele não é como mostrou contra a Argentina.
Era um ogo tão óbvio, previsível. Eu tenho certeza que ele sabe mais de futebol que eu. Mas todo mundo que projetou o jogo, mesmo sem conhecimento tático, você olhava o meio da Argentina e falava: “Como o Brasil vai enfrentar isso?”.
Jogar sem meio campo, abrindo o time. Eu estava incrédulo que o Dorival manteria o time. E piorou muito que, com 15 minutos, já estava nítido o erro. E ele não mexeu no desenho. As trocas foram de centroavante por centroavante, meia por meia, zagueiro por zagueiro. É jogar a responsabilidade nos jogadores e dizer “o meu desenho estava certo”. Encerra a Era Dorival.

Que perspectiva você vê para o comando da seleção pós-Dorival?
Sem querer ofender o treinador brasileiro. Sempre foi muito cômodo viver no futebol de clube. São 20 postos de trabalho, com 30 treinadores se revezando em 20 clubes da Série A, com salários altíssimos. Sem precisar ir além de fugir um time perto do rebaixamento, levantar o ânimo, sem tempo para treinar, só jogo, jogo, jogo.
Seleção é diferente. Precisa estar familiarizado com o futebol internacional, com os jogadores. No clube, esse não é o dia a dia do treinador. Ele não tem tempo para isso. Tem tanto BO para resolver que não dá tempo de se informarem sobre o futebol internacional, como flui. Nem o melhor deles no Brasil, que foi o Tite, conseguiu entregar na seleção. Ele foi superado por Bélgica e Croácia taticamente também.
Há um desconforto porque treinadores que vieram de fora se destacaram. Em vez de reclamar, dizer que estão “tirando meu espaço”, dá a volta. Faz como o Jardine, no México. Busca internacionalizar e ampliar o conhecimento, se atualizar no mundo globalizado do futebol.
Para fechar, por que você não silencia o hater nas redes sociais, mas escolhe por responder?
Primeiramente, eu não me impressiono (com os haters). Eu não levo a sério o ódio do Twitter. Me importo mais com a vida analógica. Me impressionaria se eu descesse no elevador e o porteiro do prédio me xingasse. Mas 99,9% dos casos em que sou abordado, até por quem discorda, o papo é legal.
Se o Twitter fosse na Pvida de verdade, seria horrível. Virou uma cultura (de ódio). Tem gente que não tem estômago. Eu dou risada.
Mas não respondo só os haters. Não dá para responder todo mundo, não quero viver de responder gente na internet. Há quem mereça uma resposta, merece exposição, ou quando uma reposta serve para todo mundo.
Não costumo me levar tao a sério, muito menos os haters me impressionam. Muitas vezes você o desarma com a resposta ou não levando a sério.