Quando quero impressionar alguém com a minha veteranice em matéria de Copa do Mundo (esta é a minha sétima), não digo que sou do tempo da seleção com Zico e Falcão de 86 (no México), ou a do Lazaroni de 90 (na Itália). Digo apenas que sou do tempo do telex. O futebol mudou bastante desde então, mas nada mudou tanto quanto os instrumentos para cobrir uma Copa. O telex era uma máquina de escrever infernal na qual se picotava uma fita, que depois passava por outra máquina, que a transmitia. Lembro que na Copa de 90, na Itália, nem telex eu tinha à mão. Datilografava as matérias e depois as levava para o centro de imprensa, de onde elas eram mandadas ao jornal por fax. Hoje, claro, até o fax, aquela coisa milagrosa, é relíquia pré-histórica. Hoje você digita sua matéria no próprio estádio, se quiser, e a manda com um único toque no teclado. Com o dedo mindinho, se preferir. Menos radicais. Quanto às mudanças no futebol, elas não foram tão radicais. Algumas coisas que se discutiam em 86, por exemplo, continuam sendo discutidas agora, talvez com outro vocabulário. O "cabeça de área" execrado ganhou o nome mais elegante de "volante de contenção", mas futebol mais ou menos defensivo, mais ou menos gente no meio do campo, mais arte e menos força ou mais força e menos arte, ainda dividem opiniões do mesmo jeito. Uma diferença grande entre a seleção brasileira de 86 - escolhida aqui só porque foi a primeira que vi ao vivo numa Copa do Mundo - e a de hoje é que então eram poucos os jogadores que atuavam no exterior. Hoje a maioria joga fora do país - aliás, quase todos atuam fora. Globalização. A internacionalização do futebol foi um dos fenômenos que cresceram desde o tempo do telex e do cabeça de área. As seleções atuais podem mesmo - simplificando-se um pouco - ser divididas entre importadoras e exportadoras, aquelas cujos jogadores jogam quase todos no seu próprio país, como a italiana, a alemã e a inglesa, e aquelas cujos jogadores precisam ser repatriados para formar um time. Não tenho a menor ideia de como isso influi nas suas atuações em Copas. Importadoras e exportadoras têm tido resultados parecidos. Do que mais eu me lembro da minha primeira Copa, no México, 24 anos atrás? O jogo Brasil e França que perdemos nos pênaltis, um dos melhores que já vi - Zico desperdiçou uma cobrança no tempo normal. E as dores de barriga. Tinham nos avisado que comer a comida mexicana era um perigo. Não era verdade. Respirar, no México, era um perigo. Tive as primeiras cólicas descendo do avião.