Em aniversário de duas décadas, empresa vive ‘fase de ouro’ diante de cenário de apreensão para a indústria aeroespacial
Prestes a completar 20 anos nesta segunda-feira, 14, uma das maiores “pirações” de Elon Musk está mais do que nunca sob holofotes globais. Após bater recordes de viagens ao espaço em 2021 e se tornar responsável pela maior parte dos lançamentos de foguetes nos EUA, a SpaceX está diante de um cenário de apreensão para a indústria aeroespacial, que aguarda os desdobramentos da guerra da Ucrânia.
O clima de cooperação internacional no espaço sideral, instaurado após a Guerra Fria, ficou estremecido com o conflito no leste europeu. Depois das sanções anunciadas pelo presidente americano Joe Biden contra a Rússia, Dmitry Rogozin, diretor da agência espacial russa Roscosmos, ameaçou retirar a Estação Espacial Internacional (ISS) da órbita terrestre – a Rússia controla os sistemas de propulsão do laboratório, responsáveis por manter a estrutura no espaço.
O rompimento ameaça não apenas a ISS, um laboratório do tamanho de um campo de futebol americano construído há mais de duas décadas por meio de uma aliança internacional (incluindo Rússia e Estados Unidos). Nas últimas décadas, o programa espacial russo se consolidou como a principal ponte entre terráqueos de diferentes nacionalidades e o espaço – Marcos Pontes, único brasileiro a deixar o planeta e atual ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, fez a viagem a bordo de uma nave Soyuz em 2006.
Por nove anos, a dependência global do programa espacial russo, incluindo EUA e União Europeia, foi total. Entre 2011, ano em que os ônibus espaciais americanos foram aposentados, e 2020, os foguetes russos foram a única maneira de chegar e voltar da ISS – o astronauta americano Mark Vande Hei, que está no laboratório espacial, tem viagem de retorno para Terra marcada para 30 de março a bordo da nave Soyuz MS-19. Além do transporte de passageiros, os russos são uma importante via logística de satélites – um único lançamento em 2021 carregou 38 equipamentos de 18 países diferentes.
A dependência dos EUA em relação à Rússia só começou a ser atenuada há dois anos, quando a SpaceX também fez a sua primeira missão tripulada – o evento consagrou a empresa como a primeira companhia privada a realizar um lançamento com astronautas à órbita terrestre. Musk, claro, já estava de olho no vácuo deixado pela agência americana. Em abril de 2021, a empresa venceu a licitação de US$ 2,9 bilhões da Nasa para levar astronautas à Lua. Seria a primeira vez que humanos pisariam no satélite natural da Terra desde 1972.
“Países que tinham lançamentos agendados com foguetes russos provavelmente vão buscar outros fornecedores. A SpaceX seria uma saída”
Agora, Elon Musk parece enxergar novas oportunidades. Em resposta ao diretor da Roscosmos, o bilionário publicou no Twitter o logotipo da SpaceX – ele confirmou a um usuário da rede social que a provocação se referia à ameaça envolvendo a ISS.
Para especialistas ouvidos pelo Estadão, a companhia seria um caminho natural para os EUA e seus aliados em caso de rompimento entre as potências.
“Países que tinham lançamentos agendados com foguetes russos provavelmente vão buscar outros fornecedores. A SpaceX seria uma saída”, afirma Daniel Rio Tinto, da Escola de Relações Internacionais da FGV.
Os especialistas avaliam que ainda é cedo para mensurar todos os desdobramentos da guerra para programas espaciais, que se desenrolam em projetos de longo prazo. Porém, dependendo dos acontecimentos, a SpaceX pode ganhar novos negócios, aponta Cassio Leandro Dal Ri Barbosa, astrônomo e professor do Centro Universitário FEI. “É possível que as tensões gerem uma militarização do espaço, tanto na órbita baixa quanto no espaço profundo (objetos astronômicos distantes da Terra, como Lua e Marte). Se isso acontecer, os contratos da SpaceX com o Departamento de Defesa dos EUA vão se acelerar. A empresa é hoje a resposta mais rápida para lançamentos ao espaço”, diz.
Até aqui, o ato mais concreto da SpaceX em relação ao conflito se deu por meio da Starlink, constelação de satélites que transmitem sinal de internet para quase todos os pontos do globo. Na primeira semana da guerra, Musk lançou o sistema na Ucrânia, respondendo a um pedido do governo ucraniano após a invasão russa deixar partes do país desconectadas – a chance parecia boa demais para o bilionário não se promover. Com o gesto, porém, ele se colocou em um fogo cruzado: há o temor de que o sistema possa ser “alvo” dos russos, que poderiam usar os sinais de satélite para atingir os usuários do serviço.
Tradicionalmente, a SpaceX teve êxito em aproveitar as lacunas do setor. Quando a companhia veio ao mundo, em 2002, o contexto da indústria aeroespacial era propício para a iniciativa privada decolar.
“O programa espacial americano estava bastante desacreditado após os acidentes com os ônibus espaciais. Além disso, o orçamento da Nasa sofreu bastante com as várias crises financeiras nos EUA”, afirma Alexandre Zabot, professor de Engenharia Aeroespacial da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Abriu-se uma oportunidade para que a iniciativa privada entrasse mais ativamente na jogada”. Embora empresas privadas já ajudassem no desenvolvimento de determinados equipamentos para a Nasa, a SpaceX passou a tomar frente de toda a cadeia de produção tecnológica de foguetes.
Assim, a empresa pegou carona nos contratos da Nasa. Ao longo dos anos, o sonho de Musk de ir até Marte, principal meta da SpaceX, foi acompanhado de iniciativas que pudessem dar um retorno financeiro a curto prazo. Em 2008, o contrato de US$ 1,6 bilhão com a Nasa, para levar suprimentos para a ISS, foi crucial para manter a empresa em pé depois de grandes investimentos com os testes do foguete Falcon 1. O projeto Starlink também nasceu como uma forma de ajudar a gerar receita para financiar a ambição de colonizar o planeta vermelho. Além disso, a empresa já opera um modelo de transporte compartilhado de satélites que oferece espaço no foguete Falcon 9 a partir de US$ 1 milhão para cargas de até 200 kg.
“Até então, as tentativas de recuperação de foguetes eram traumáticas, com uso de para-quedas e pousos no oceano. Agora, os foguetes da SpaceX simplesmente voltam sentadinhos sem qualquer danificação”
Além de timing, os acertos são frutos de anos de desenvolvimento tecnológico. O trunfo técnico da empresa foi provar a tecnologia de foguetes reutilizáveis. Com esse modelo, em vez de descartar as naves a cada lançamento, um mesmo foguete poderia ser adaptado para viajar várias vezes, assim como os aviões comerciais voam com frequência pelo céu. Segundo a SpaceX, essa reciclagem poderia reduzir os preços de cada lançamento para menos de US$ 30 milhões – os valores antigos variavam entre US$ 60 milhões e US$ 90 milhões.
Dessa forma, o ano de 2021 foi marcado por conquistas: a empresa bateu o recorde de 31 lançamentos e se tornou a segunda maior empresa de capital fechado do mundo, avaliada em US$ 100 bilhões. “É uma nova era da exploração espacial dominada por bilionários”, diz Rodrigo Nemmen, professor do departamento de Astronomia da USP.
Cronologia
Em 20 anos, SpaceX realizou feitos inéditos na indústria aeroespacial
Foguete Falcon 1, da SpaceX, se torna a primeira nave de combustível líquido desenvolvida no setor privado a atingir a órbita terrestre.
Cápsula Dragon chega à Estação Espacial Internacional. Pela primeira vez, uma espaçonave privada realiza o transporte de cargas até o laboratório espacial.
Foguete Falcon 9 coloca 11 satélites de comunicação em órbita. Primeiro estágio do veículo pousa na Terra após a viagem, provando o modelo de foguetes reutilizáveis.
Foguete Falcon 9 lança espaçonave Dragon em direção à Estação Espacial Internacional. O primeiro estágio do veículo também retorna à Terra.
Em mais um avanço para o sistema de veículos reutilizáveis, um mesmo foguete Falcon 9 viaja pela segunda vez ao espaço.
Foguete Falcon Heavy realiza seu primeiro lançamento em órbita, levando ao espaço um carro Tesla Roadster. Segundo a SpaceX, o veículo seria capaz de transportar grandes cargas para a órbita terrestre e apoiar missões até a Lua ou Marte.
Cápsula Dragon se acopla à Estação Espacial Internacional.
SpaceX se torna a primeira empresa privada a realizar um lançamento com astronautas à órbita da Terra. A viagem foi realizada em parceria com a Nasa.
Em marco histórico para o turismo espacial, SpaceX leva civis em um voo orbital.
Mesmo que tenha contratos turbinados, os próximos anos serão a prova de fogo da empresa. Para selar a sua liderança no setor, a companhia terá de entregar a tão prometida Starship, sua próxima geração de foguetes. O veículo, de 120 metros de comprimento, almeja lançar grandes quantidades de cargas e pessoas em missões para Lua e Marte.
Há muitas expectativas ao redor do projeto. A Nasa pretende usar a Starship para levar seus astronautas para a Lua, enquanto o Departamento de Defesa dos EUA já vislumbra a possibilidade de lançar carga militar ao redor do mundo em minutos. Para a comunidade científica, o foguete também é a grande aposta para baratear o acesso ao espaço.
“O avanço da indústria aeroespacial está relacionado ao sucesso das pesquisas na investigação dos cosmos. O lixo espacial é uma preocupação real que demanda atenção”, alerta Daniela Pavani, professora do departamento de astronomia do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Até porque estamos na iminência de ter muito mais objetos na órbita da Terra”.
Leia também:
Expediente
Editor executivo multimídia Fabio Sales / Editora de infografia multimídia Regina Elisabeth Silva / Editores assistentes multimídia Adriano Araujo e William Mariotto / Designer multimídia Lucas Almeida / Editor do Link Bruno Romani / Reportagem Giovanna Wolf / Infografista multimídia Mauro Girão / Abertura Gifer.com