Atordoados por um Trump aliado que age como adversário, líderes europeus tentam ajustar os cálculos

Diante da indisfarçável hostilidade do governo Trump, europeus se preparam para o que está se configurando como uma era de rumos solitários

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Por Mark Landler (The New York Times)

Durante anos, os líderes europeus se preocuparam em reduzir sua dependência dos erráticos Estados Unidos. Na segunda-feira, em uma reunião organizada às pressas em Paris, a angústia deu lugar a uma aceitação atormentada de um novo mundo, no qual o aliado mais poderoso da Europa começa a agir mais como um adversário.

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O plano do presidente dos EUA, Donald Trump, de negociar um acordo de paz na Ucrânia com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, sem que ucranianos nem europeus fossem convidados a participar, forçou líderes já atordoados em capitais como Berlim, Londres e Paris a confrontar uma série de escolhas difíceis, compensações dolorosas e novos fardos custosos.

Já está na mesa a possibilidade de o Reino Unido, a França, a Alemanha e outros países enviarem dezenas de milhares de soldados para a Ucrânia na qualidade de forças de paz. Os governos europeus têm expressado a necessidade de grandes aumentos em seus orçamentos militares — mesmo que não para os 5% do produto interno bruto exigidos por Trump, para níveis não vistos desde o início dos anos 1980, em tempos de Guerra Fria.

Imagem desta segunda-feira, 17, mostra o presidente francês Emmanuel Macron recepcionando a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, para uma reunião sobre segurança europeia. Macron foi o primeiro líder a sugerir o envio de tropas para reforçar defesa da Ucrânia, no ano passado Foto: Ludovic Marin/AFP

“Todos estão agitados neste momento, compreensivelmente”, disse Lawrence Freedman, professor-emérito de estudos de guerra da King’s College London. “O que está claro é que, aconteça o que acontecer, a Europa terá de redobrar seu esforço.”

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Isso pode colocar os líderes do continente numa situação difícil. Embora o apoio público à Ucrânia permaneça forte em toda a Europa, acionar soldados para cumprir missões potencialmente perigosas em solo ucraniano pode rapidamente se tornar um passivo em política doméstica. As estimativas sobre o tamanho de uma força de manutenção de paz variam muito, mas, em qualquer cenário, seria um empreendimento extremamente custoso num momento de orçamentos estreitados.

O presidente francês, Emmanuel Macron, primeiro líder europeu a lançar a ideia de uma força de manutenção de paz, no ano passado, desencadeando ceticismo generalizado na Europa, se enfraqueceu desde que sua decisão de convocar eleições parlamentares, no verão (do Hemisfério norte) passado, saiu pela culatra e o deixou com um governo frágil.

A Alemanha poderá não ter um novo governo de coalizão por semanas após sua eleição, em 23 de fevereiro. Na segunda-feira, o chanceler Olaf Scholz rejeitou a ideia de acionar forças de manutenção de paz, classificando-a como “completamente prematura” e “altamente inapropriada” enquanto combates ainda estiverem ocorrendo.

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, que não precisa encarar os eleitores nos próximos quatro anos, disse que o Reino Unido está aberto para “acionar nossos soldados em campo, se necessário”. Mas ex-autoridades militares afirmaram que, após anos de cortes no orçamento, o Exército britânico não está equipado para liderar uma missão de grande escala e longo prazo na Ucrânia.

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“Francamente, nós não temos contingente nem equipamento”, disse o ex-comandante do Exército britânico Richard Dannatt, à BBC. Ele estimou que o Reino Unido teria de acionar até 40 mil soldados em uma força de 100 mil.

Para alguns europeus, é cedo demais para falar sobre uma era pós-EUA no continente. Scholz e o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, aconselharam os líderes a não romper a aliança transatlântica apesar das tensões atuais.

Imagem do dia 14 mostra o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski (à esq.), reunido com o vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, em um encontro paralelo à Conferência de Segurança de Munique. Governo Trump deixa em dúvida a continuidade do apoio à Kiev na guerra contra a Rússia Foto: Matthias Schrader/AP

Na prática, seria difícil compor uma força de manutenção de paz sem apoio logístico dos EUA. As garantias de segurança de Washington, segundo analistas, foram cruciais para tornar a influência americana politicamente aceitável nas capitais europeias, onde alguns líderes terão de obter a aprovação de seus Parlamentos. Starmer falou de uma “salvaguarda americana”, dizendo que essa é a “a única maneira de efetivamente impedir a Rússia de atacar a Ucrânia novamente”.

O professor Freedman disse acreditar que altos funcionários do governo Trump, como o secretário de Estado, Marco Rubio, e o conselheiro de segurança nacional, Michael Waltz, compreenderam essas realidades e não estão se dedicando a retirar o guarda-chuva de segurança dos EUA da Europa. De acordo com Freedman, porém, mais difícil é decifrar os objetivos de Trump — sua busca por poder irrestrito dentro dos EUA tem soado profundamente alarmante para os europeus.

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“No passado, nós presumíamos que os EUA eram um país sério e competente”, disse o professor Freedman. “É perturbador pensar que isso pode não ser verdade. Há uma sensação de que as proteções simplesmente não existem.”

Na Conferência de Segurança de Munique, no fim de semana recente, a ansiedade ficou evidente quando o presidente do painel, Christoph Heusgen, caiu em lágrimas durante seu discurso de encerramento. Foi uma demonstração chocante de emoção de um diplomata alemão experiente, mas pode-se considerar que Heusgen simplesmente canalizou os sentimentos de seus companheiros europeus.

Sua angústia não foi motivada pela surpresa do telefonema entre Trump e Putin, nem pelo aviso do secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, de que não é realista a Ucrânia se juntar à Otan. A inquietude, em vez disso, foi expressada em resposta ao discurso contundente do vice-presidente JD Vance na conferência, no qual o americano pediu aos europeus que parassem de evitar partidos de extrema direita e os acusou de suprimir a liberdade de expressão.

“Temos de ter medo por nossa base de valores comum não ser mais tão comum”, disse Heusgen.

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Muitos alemães consideraram os comentários de Vance uma interferência eleitoral escancarada. O vice-presidente, que faltou a uma reunião em que Scholz esteve presente, teve tempo para se encontrar com a colíder do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha, ou AfD, Alice Weidel. Os principais partidos alemães se recusam a compor coalizões com o AfD, que as agências de inteligência do país classificam como uma organização extremista.

Enquanto isso, Trump ameaça a União Europeia com tarifas abrangentes. Isso poderia prejudicar as economias do bloco, o que tornaria ainda mais difícil aumentar os gastos com defesa. O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, pediu aos membros da aliança que aumentem seus gastos para “consideravelmente mais do que 3%” de seus produtos internos brutos (os EUA gastam 3,4%).

Em 2023, a Alemanha gastou 1,5% de seu produto interno bruto em defesa, enquanto a França gastou 2,1% e o Reino Unido, 2,3%.

Além das provocações políticas e econômicas, os líderes europeus estão tendo dificuldades para entender a estratégia do governo Trump em relação à Ucrânia. Os comentários de Hegseth sinalizaram uma redução no apoio americano aos objetivos de guerra da Ucrânia — algo que os líderes europeus lamentam, mas reconhecem privadamente que têm um entendimento similar.

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No entanto, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, em visita à capital ucraniana, Kiev, na semana passada, sugeriu que os EUA poderiam fornecer um “escudo de segurança de longo prazo” para a Ucrânia se obtiverem acesso a minerais valiosos encontrados no país. O anúncio de Trump sobre suas negociações com Putin pegou de surpresa os líderes europeus e o presidente ucraniano, Volodmir Zelenski.

“Uma contradição atravessa a estratégia dos EUA”, escreveu Nigel Gould-Davies, pesquisador sênior de Rússia e Eurásia no Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, um grupo de pesquisa sediado em Londres, num ensaio publicado online. “Isso sinaliza não apenas que os EUA negociarão sozinhos o fim da guerra, mas também que cabe somente à Europa financiar e fazer valer um desfecho no qual não desempenhou um papel de decisão.”

Isso pressupõe que Trump poderá fechar um acordo com Putin. Analistas observam que os EUA já abriram à Rússia duas grandes concessões — descartando a adesão da Ucrânia à Otan e sugerindo que não é realista para a Ucrânia recuperar todo o seu território — sem receber nada em troca.

Alguns comparam a abordagem de Trump à sua diplomacia nuclear com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, durante seu primeiro mandato. Ao se encontrar com Kim em Cingapura, Trump lhe abriu uma concessão valiosa — nada mais de exercícios militares entre EUA e Coreia do Sul — sem obter nenhum gesto recíproco. As negociações fracassaram, e a Coreia do Norte ainda não abriu mão de seu arsenal nuclear.

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Nesse caso, disseram analistas, as probabilidades contrárias a um avanço rápido podem poupar os líderes europeus de ter que acionar tropas, pelo menos por enquanto.

“A menos que a posição em campo melhore muito para vantagem da Ucrânia é difícil imaginar a Rússia assinando um acordo que permita um grande número de soldados da Otan — incluindo britânicos — em sua fronteira”, afirmou Malcolm Chalmers, vice-diretor-geral do Royal United Services Institute, um grupo de pesquisa sediado em Londres.

O professor Freedman disse que Trump tem de convencer Putin a concordar com termos que sejam aceitáveis para Zelenski — algo extremamente difícil. “Estamos muito longe de circunstâncias em que isso faça sentido”, disse ele sobre uma força de manutenção de paz. “Considero insuperável a incompatibilidade entre o que Trump é capaz de oferecer e o que os russos querem.” /TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO