As travessias ilegais na fronteira Estados Unidos-México estão em seu nível mais baixo em décadas. Os abrigos para migrantes, antes lotados, estão vazios. Em vez de seguir para o norte, as pessoas presas no México estão começando a voltar para casa em maior número.
A fronteira está quase irreconhecível em comparação a apenas alguns anos atrás, quando centenas de milhares de pessoas de todo o mundo cruzavam para os EUA todos os meses protagonizando cenas de caos e revolta.
O presidente Joe Biden, enfrentando uma onda de indignação pública durante a campanha eleitoral de 2024, reprimiu solicitantes de asilo e pressionou o México a manter os imigrantes afastados. No fim de seu mandato, a fronteira tinha se acalmado significativamente e as travessias ilegais haviam caído para os níveis mais baixos de sua presidência.

Agora, o presidente Donald Trump sufocou o fluxo de imigrantes ainda mais drasticamente, solidificando uma mudança radical na política dos EUA com medidas que muitos críticos, especialmente de esquerda, consideram há muito intragáveis politicamente, insustentáveis legalmente e, em última análise, ineficazes, porque não abordam as causas fundamentais das migrações.
“Todo o paradigma da migração está mudando”, disse Eunice Rendón, coordenadora da Agenda Migrante, uma rede mexicana de grupos de defesa de direitos. Citando a série de políticas de Trump e suas ameaças contra imigrantes, ela acrescentou: “As famílias estão aterrorizadas”.
Trump tem empregado várias táticas linha-dura simultaneamente: suspendendo o asilo indefinidamente para pessoas que buscam refúgio nos EUA pela fronteira sul; mobilizando soldados para caçar e, talvez tão crucialmente quanto, assustar quem cruza a fronteira; divulgando amplamente os voos de deportação nos quais os imigrantes são mandados para seus países algemados; e forçando governos da América Latina — como o do México — a fazer mais para conter a migração.

Redução
A nova abordagem tem produzido estatísticas impressionantes.
Em fevereiro, a Patrulha da Fronteira dos EUA disse ter detido 8.347 pessoas tentando cruzar ilegalmente a fronteira, bem abaixo do recorde de mais de 225.000 detenções em dezembro de 2023.
Esses números já estavam caindo drasticamente desde que o governo Biden revelou suas restrições à imigração no ano passado. Em dezembro, o último mês completo que Biden ocupou o cargo, a Patrulha da Fronteira deteve 47.330 imigrantes na fronteira EUA-México.
Com 1.527 migrantes por dia, essa foi a menor média diária em comparação a qualquer mês durante toda a presidência de Biden. Mas ainda era cinco vezes maior que o número em fevereiro, o primeiro mês completo que Trump ocupou a presidência após a posse mais recente.

Se essa tendência se mantiver por um ano inteiro, as detenções de imigrantes nos EUA poderão cair para níveis nunca vistos desde 1967, de acordo com Adam Isacson, especialista em migração da organização não governamental Washington Office on Latin America.
Há sinais de que os números também estão despencando mais ao sul na região. O número de pessoas tentando chegar aos EUA pelo estreito de Darién — a perigosa ligação terrestre que conecta a América do Sul e a América Central, um barômetro de futuras pressões na fronteira EUA-México — caiu para 408 em fevereiro, abaixo dos mais de 37 mil no mesmo mês do ano passado, de acordo com o Instituto de Imigração do Panamá.
A mudança é motivo de celebração entre figuras que vêm pedindo restrições mais duras há anos. Sob Biden, “a liderança da Casa Branca promoveu uma narrativa de impotência sobre imigração”, disse o ex-secretário-adjunto interino de Segurança Interna no primeiro governo Trump Kenneth Cuccinelli.
“Proteger a fronteira é fácil se você estiver disposto a fazê-lo”, disse Cuccinelli, um proeminente falcão a respeito de imigração. “No primeiro governo Trump, o presidente não tinha vontade de fazer isso”, argumentou. “Agora ele tem.”

Continuidade
A postura enrijecida de Trump sobre imigração constitui, de certa forma, uma continuidade em relação à ações de Biden no fim de seu mandato. Biden promoveu políticas menos restritivas que aumentaram o número de imigrantes que entraram nos Estados Unidos durante seus três primeiros anos no cargo. Mas, à medida que a reação negativa ao incremento aumentou, Biden proibiu concessões de asilo para os imigrantes que cruzavam ilegalmente e pressionou os governos mexicano e panamenho a se esforçar mais para conter os fluxos de migrantes, entregando ao seu sucessor uma situação relativamente calma na fronteira.
O sentimento político nos EUA também mudou. Líderes que anteriormente propagandeavam suas cidades classificando-as como santuários para imigrantes estão cada vez mais silenciosos sobre sua resistência às políticas de Trump. E alguns governadores democratas destacaram áreas de potencial cooperação na aplicação das leis sobre imigração.
Ao assumir o cargo, em janeiro, Trump foi adiante com suas medidas anti-imigração, que incluíam usar a base militar dos EUA na Baía de Guantánamo, Cuba, para deter migrantes; disparar postagens online para provocar e ameaçar possíveis migrantes; e prometer revogar vistos para autoridades estrangeiras que facilitassem a imigração ilegal para os EUA.

Sanções e tarifas podem aumentar fluxo
Ainda assim, não faltam alertas. Uma calmaria semelhante na imigração durante o início do primeiro mandato de Trump, apesar de menos acentuada do que o declínio atual, provou-se temporária. Especialistas em migração alertam que sanções e outras medidas contra Venezuela e Cuba, duas grandes fontes de migrantes, podem piorar as condições econômicas nesses países e produzir novos êxodos.
A adoção de tarifas por parte do governo Trump também está prejudicando economias maiores na região, potencialmente intensificando o desespero econômico entre famílias pobres que passam dificuldades para sobreviver, um dos principais fatores que influenciam a migração. A incerteza sobre as tarifas já pode ter empurrado o México para a recessão, temem os economistas.
Mas os desdobramentos no México ilustram como a dinâmica da imigração está mudando. Numa manhã recente, centenas de migrantes faziam fila sob o sol escaldante para entrar nos escritórios da agência de refugiados do país, COMAR, na Cidade do México.
Muitos estavam na fila desde o amanhecer, outros tinham acampado diante do prédio, dormindo nas calçadas ou no meio de uma estrada de terra, na esperança de aumentar suas chances de conseguir marcar um atendimento e iniciar seu processo de asilo.

“Obviamente, ficar aqui não era nosso plano”, afirmou Peter Martínez, um migrante de Cuba, que disse que seu pedido de asilo nos EUA foi cancelado em janeiro.
Questionado sobre planos de voltar para Cuba, dadas as dificuldades, ele disse: “O México pode ser perigoso e difícil, mas ainda é melhor do que voltar para o nosso país”.
Muitos migrantes como Martínez estão presos no México e pensando duas vezes sobre atravessar ou não para os EUA. Alguns planejam se estabelecer no México, enquanto outros estão fazendo tudo o que podem para voltar para casa.
O número de migrantes no México buscando ajuda para retornar aos seus próprios países, informou a Reuters, aumentou para 2.862 em janeiro e fevereiro, de acordo com a Organização Internacional para Migração.
Uma pesquisa que ouviu mais de 600 migrantes em janeiro, realizada pelo Comitê Internacional de Resgate, também constatou que 44% dos entrevistados que pretendiam inicialmente chegar aos EUA agora planejavam ficar no México.
Saiba mais
“Quando as pessoas veem uma porta se fechando diante delas, uma janela se abre”, afirmou o ex-chefe do escritório do Comitê Internacional de Resgate no México Rafael Velasquez. Essa decisão tem suas limitações, disse ele, acrescentando que os migrantes enfrentam obstáculos significativos para obter acesso ao emprego.
Em outros países da região, migrantes da Venezuela e de outras nações recebem vistos humanitários automaticamente, que lhes permitem procurar empregos. Mas no México a única opção para os migrantes é solicitar asilo, um processo que pode levar meses para ser concluído.
Essa situação já ocorre antes de outras medidas linha-dura defendidas por Trump, como sua promessa de aumentar drasticamente as deportações em massa, sejam colocadas em prática. Trump também planeja invocar uma obscura legislação americana, a Lei de Inimigos Estrangeiros, de 1798, para acelerar as deportações de imigrantes indocumentados, ao mesmo tempo em que lhes fornece pouco ou nenhum processo legal devido.
Especialistas em migração dizem que o paralelo mais próximo à atual repressão nos EUA data da década de 50, quando o descontentamento sobre um fluxo de trabalhadores mexicanos produziu a “Operação Wetback”, uma ofensiva de curta duração, em estilo militar, cujo nome derivou de uma calúnia usada para descrever as pessoas que cruzavam a fronteira mexicana e que pretendeu deportar mais de 1 milhão de imigrantes mexicanos. “Precisamos remontar ao governo Eisenhower para ver algo assim”, disse Isacson, o especialista em migração. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO