BERLIM - O presidente da Rússia, Vladimir Putin, chocou o público na conferência anual de segurança em Munique, em 2007, ao exigir a reversão da influência dominadora dos Estados Unidos e um novo equilíbrio de poder na Europa mais adequado a Moscou.
Ele não conseguiu o que queria - na época.
Quase duas décadas depois, durante a mesma conferência, as principais autoridades do gabinete do presidente Donald Trump deixaram uma coisa clara: Putin encontrou um governo americano que pode ajudá-lo a realizar seu sonho.
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Os comentários do secretário de Defesa, Pete Hegseth, e do vice-presidente, J.D. Vance, levantaram o temor entre os participantes de que, sob o novo governo, os EUA possam se alinhar com a Rússia e atacar a Europa ou abandoná-la completamente.
Essa mudança, segundo os analistas, daria a Putin uma vitória até então impensável, muito mais importante para ele do que qualquer objetivo na Ucrânia.

A retirada americana da Europa
“Desde o início da Guerra Fria, no final da década de 1940, o Kremlin sonha em tirar os Estados Unidos de seu papel de pedra angular da segurança europeia”, disse Andrew S. Weiss, vice-presidente de estudos do Carnegie Endowment for International Peace. “Putin certamente é esperto o suficiente para aproveitar qualquer abertura proporcionada pelo novo governo.”
A presença de tropas americanas tem sido a base de 80 anos de paz na Europa Ocidental desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas em um discurso em Varsóvia na sexta-feira, antes de sua chegada à conferência, Hegseth alertou os líderes europeus que eles não devem presumir que os EUA estarão lá para sempre.
No final do dia, na conferência de Munique, Vance transmitiu uma mensagem ainda mais assustadora para muitos participantes europeus: O inimigo que ele vê não é a Rússia ou a China, mas a própria Europa.
Uma defesa da extrema direita pró-Putin
Vance começou a atacar as nações europeias por usarem o que ele chamou de métodos antidemocráticos para conter os partidos de extrema direita que, na maioria dos casos, foram apoiados pela Rússia. Ele argumentou que o continente precisava reconhecer os desejos de seus eleitores, parar de tentar moderar a desinformação e, em vez disso, permitir que esses partidos prosperassem como a vontade do povo.
“Se você está com medo de seus próprios eleitores, não há nada que os Estados Unidos possam fazer por você”, disse Vance. “Nem, por falar nisso, há nada que você possa fazer pelo povo americano que me elegeu e elegeu o Presidente Trump.”
Vance atacou especialmente a Romênia, onde o tribunal constitucional do país cancelou em dezembro uma eleição presidencial que um ultranacionalista apoiado por uma aparente campanha de influência russa parecia pronto para vencer. A eleição foi remarcada para maio.
“Se sua democracia pode ser destruída com algumas centenas de milhares de dólares de publicidade digital de um país estrangeiro, então ela não era muito forte”, disse ele.

Café com neonazistas
Durante anos, o Kremlin procurou enfraquecer a Europa, impulsionando partidos racistas que, na opinião de Vance, devem ser livres para florescer. No mesmo dia de seus comentários na conferência, Vance se reuniu com a líder do movimento de extrema direita da Alemanha, que disputa eleições no domingo, impulsionando um partido neonazista que a Rússia tem procurado legitimar.
Moscou também tem procurado criar uma barreira entre os Estados Unidos e a Europa, percebendo que a destruição da aliança euro-atlântica de longa data por dentro levará a um mundo onde Moscou poderá exercer muito mais poder.
Nathalie Tocci, diretora do Institute for International Affairs em Roma, assistiu ao discurso de Vance e interpretou a mensagem como uma ameaça direta dos Estados Unidos à União Europeia, que tanto os europeus de extrema direita quanto o Kremlin buscam desmantelar. Ela chamou isso de uma reviravolta na trama dos Estados Unidos.
“A mensagem é: estamos aqui para destruí-los”, disse Tocci. “A questão não é nem mesmo a Ucrânia”, acrescentou. “A questão é o enfraquecimento deliberado, se não a destruição, da Europa, da qual a Ucrânia faz parte.”
Tocci descreveu os comentários de Vance como um ataque à democracia europeia que distorceu perversamente a linguagem da própria democracia, da mesma forma que a Rússia faz com frequência ao tentar semear a divisão na Europa.
Uma reorganização drástica do poder na Europa parecia um sonho impossível para Putin quando ele articulou sua visão em 2007 na conferência de Munique. Robert M. Gates, secretário de Defesa dos Estados Unidos na época, estava na plateia e, mais tarde, descartou as observações como um retrocesso à Guerra Fria.
O líder russo, no entanto, manteve-se firme em sua visão, tornando-a um ponto central de seu argumento nos meses que antecederam a guerra: que o Ocidente deve estar disposto a discutir não apenas a soberania ucraniana, mas todo o aparato de segurança da Europa, que, segundo ele, omitia Moscou e a colocava em risco existencial.

Valores em comum
Putin apresentou sua invasão da Ucrânia como uma batalha mais ampla contra o Ocidente e os valores que ele considera heréticos, como por exemplo direito de minorias étnicas e da comunidade LGBT+. São os mesmos argumentos que Trump e os líderes de extrema direita da Europa apresentaram para conquistar o poder em seus próprios países.
Putin acreditava que, em última instância, os Estados Unidos e a Europa se curvariam a ele, escreveu Alexander Baunov, membro do Carnegie Russia Eurasia Center, em uma análise recente.
Os Estados Unidos estão mudando, escreveu Baunov, e a atual Washington “está se aproximando de Moscou não para o bem da Europa, mas para seu próprio bem - e até um pouco para irritar a Europa”.
O desafio para a Europa surge no momento em que a Alemanha e a França, os dois maiores países da União Europeia, estão sofrendo crises de liderança, em parte por causa do surgimento de movimentos políticos que usam a mesma retórica de Trump. Em 2015, a Alemanha e a França assumiram a liderança na negociação do fim da primeira invasão de Putin na Ucrânia.
O Reino Unido, que deixou a União Europeia devido à campanha do Brexit - apoiada publicamente por Trump - viu sua influência no continente ser significativamente enfraquecida.
Não se sabe ao certo até onde irá a negociação de Trump com Putin, e a aproximação nascente entre Washington e Moscou pode facilmente evaporar durante as negociações sobre a Ucrânia, que devem começar com uma reunião entre representantes americanos e russos na Arábia Saudita nesta semana.
Uma série de vitórias
Mas o Kremlin obteve uma série de vitórias desde que o Trump retornou à Casa Branca.
Em menos de um mês de seu segundo mandato, o Trump eviscerou a U.S.A.I.D., a agência de ajuda externa dos EUA, há muito tempo criticada por Moscou. Indicações para o gabinete de políticos alinhados ao Kremlin, como a nova chefe da inteligência dos EUA, Tulsi Gabbard, foram aprovados.
Trump ainda exacerbou a discórdia nas relações com a Europa, ameaçando os aliados mais próximos de Washington com uma guerra comercial. Ele deu poder e elevou Elon Musk, que espalha falsidades benéficas para Moscou no X e defendeu publicamente o movimento de extrema direita da Alemanha.
Trump agora influenciará, possivelmente sem a presença de líderes europeus, como o maior conflito no continente desde a Segunda Guerra Mundial será resolvido, com implicações que podem ir além da própria Ucrânia e afetar o equilíbrio de segurança mais amplo na Europa.
Esses líderes, que veem os movimentos populistas insurgentes de direita como uma ameaça à União Europeia e à liberdade no continente, estão preocupados, especialmente devido ao aparente alinhamento de Trump e Putin contra eles.
“Este é o momento em que estamos mais vulneráveis”, disse Tocci.
“Se, em última análise, o que estão tentando fazer é destruir esse projeto”, acrescentou, referindo-se à União Europeia, ‘este é o momento de fazê-lo’.