Como Trump fez em Cuba o que nem os Castro conseguiram: tirar a Rádio Martí do ar

Por quatro décadas, uma emissora financiada pelos EUA provocou a ira do governo comunista em Cuba. O presidente Trump a desmantelou em questão de dias

PUBLICIDADE

Por Frances Robles (The New York Times)
Atualização:

Jornalistas da Rádio Martí, o canal de notícias financiado pelo governo federal dos Estados Unidos voltado para a Cuba comunista, estavam no meio de uma entrevista com um ativista cubano em Miami em um sábado recente quando olhares sombrios de repente surgiram em seus rostos.

PUBLICIDADE

A equipe soube por e-mail que a agência de notícias de 40 anos, projetada para enviar notícias sem censura em espanhol para Cuba, tinha acabado de ser fechada pelo governo Trump. O perfil do ativista — Ramón Saúl Sánchez, conhecido por liderar flotilhas de protesto para Cuba — foi cancelado.

“Eles ficaram muito confusos”, disse Sánchez. “Disseram: ‘Achamos que fomos demitidos. Precisamos ir embora.‘”

O apresentador Orlando González Esteva participa do programa "Entre Nosotros", nos estúdios da Rádio Marti, em Miami  Foto: Angel Valentin/NYT

O presidente Trump fez em um piscar de olhos o que os irmãos Castro em Cuba não conseguiram fazer em quatro décadas: tirar do ar uma estação de notícias que há muito tempo atraía a fúria do regime comunista.

Publicidade

Cortes

A Rádio Martí se tornou a mais recente dentre dezenas de programas e agências no governo dos EUA a caírem no corte de custos massivo realizado por Trump e seu conselheiro, Elon Musk.

Faz anos que a emissora era criticada por sua reputação de relíquia ultrapassada da Guerra Fria, um desperdício inchado onde pessoas politicamente influentes encontravam empregos para seus parentes.

Ela gastou dezenas de milhões de dólares por ano produzindo o que os críticos chamaram de discursos unilaterais de direita contra o governo cubano, e foi repetidamente atolada em escândalos jornalísticos e de corrupção que eram o foco dos relatórios do Congresso.

Dois apresentadores participam de um programa na TV Marti, em Miami  Foto: Angel Valentin/NYT

Sua estação de televisão, TV Martí, foi tão completamente bloqueada na ilha que foi chamada de “No See TV”.

Publicidade

Mas, nos anos mais recentes, uma operação mais enxuta com uma safra de novos recrutas sob nova gestão estava fazendo incursões sérias em plataformas de mídia social, como Facebook e YouTube, mostram os dados da agência.

Após cortes no orçamento do primeiro governo Trump, que reduziu sua equipe e financiamento em cerca de 40%, jornalistas e cineastas veteranos foram contratados para renovar a redação para a era digital.

Com videoclipes curtos postados online, a Rádio Martí estava atraindo milhões de leitores e espectadores por ano, mostram os dados da rede, em um momento em que Cuba passou pela maior imigração em massa de sua história, sofreu apagões de dias inteiros e uma crise econômica como nenhuma outra vista em décadas.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que é filho de pais cubanos, participa de uma reunião de gabinete ao lado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Washington  Foto: AP / AP

Bloqueio

Mas a questão permanece: com Cuba reprimindo a dissidência e prendendo seus cidadãos por postagens críticas no Facebook, e com o país enfrentando seu período mais difícil em 66 anos sob o comunismo, será que a Rádio Martí fez sua última transmissão?

Publicidade

“O site foi bloqueado em Cuba. O sinal de TV foi bloqueado, o sinal de rádio está bloqueado”, disse Abel Fernández, diretor de mídia digital e social do canal que perdeu o emprego na semana passada. “Mas as pessoas estão alcançando o conteúdo nas mídias sociais. O que estamos fazendo é importante e importa para as pessoas.”

Mario Díaz-Balart, um dos três membros cubano-americanos do Congresso, disse à Telemundo que trabalharia com Trump para restaurar a emissora Martí.

Questionado se o Secretário de Estado, Marco Rubio, que é cubano-americano, apoiava a emissora, o Departamento de Estado disse que o presidente foi eleito para tomar decisões difíceis e que “a situação continua complexa e fluida”.

O então presidente americano Barack Obama se encontra com o então líder cubano Raúl Castro, em Havana no dia 21 de março de 2016  Foto: Stephen Crowley/NYT

Como senador dos EUA pela Flórida, Rubio estava entre um grupo bipartidário de legisladores que assinaram uma carta de 2022 exigindo uma “justificativa completa” para demissões planejadas.

Publicidade

A Casa Branca recusou pedidos de entrevista com Kari Lake, que está supervisionando o desmantelamento da Agência dos EUA para a Mídia Global, que inclui a Rádio Martí.

Mauricio Claver-Carone, conselheiro do presidente Trump para a América Latina, disse acreditar que algo semelhante à Rádio Martí seria salvo.

“Acho que podemos reconhecer a importância histórica de algo e o papel desempenhado, ao mesmo tempo em que reconhecemos a necessidade de atualização em relação ao mundo em que vivemos — não estamos mais nos anos 80, nem nos anos 90, nem mesmo no início dos anos 2000″, disse ele. “Podemos olhar para isso como um grande recomeço da Martí.”

Criação

Ronald Reagan criou a Rádio Martí em 1983, no auge da Guerra Fria, a pedido de um proeminente líder cubano-americano exilado, Jorge Mas Canosa. O objetivo era penetrar na censura na ilha, onde a mídia é rigidamente controlada pelo governo e jornalistas independentes geralmente acabam na prisão ou no exílio.

Publicidade

A emissora foi ao ar em 1985 e depois se expandiu para incluir a televisão. Mas, em 2019, uma auditoria interna encomendada pela Agência dos EUA para a Mídia Global disse que ela produzia “jornalismo ruim” e “propaganda ineficaz”.

A auditoria ocorreu meses depois de um artigo amplamente criticado chamando o filantropo bilionário George Soros de “um judeu descrente de moral flexível” ter levado à demissão de vários jornalistas. Outro alto funcionário foi pego alegando falsamente mais de US$ 35.000 em despesas.

Os irmãos Castro detestavam a programação da Rádio Martí, e o ex-presidente Raúl Castro exigiu que ela fosse retirada do ar. “Os Estados Unidos mantêm programas prejudiciais à soberania cubana, como projetos para promover mudanças em nossa ordem política, econômica e social”, disse ele em 2015, depois que o presidente Obama normalizou as relações entre os dois países.

O congressista cubano-americano Mario Diaz-Balart, que é do Partido Republicano, afirmou que iria trabalhar pelo retorno da Rádio Martí  Foto: Haiyun Jiang/NYT

Conforme a internet se tornou amplamente disponível em Cuba, os críticos se perguntavam se a Rádio Martí era mesmo necessária.

Publicidade

Mas a Martí tinha uma distinção que a diferenciava de outras estações pró-democracia como a Voice of America e a Radio Free Europe, que também foram silenciadas na semana passada: a ditadura que ela alveja ainda está no poder.

“A Rádio Martí foi projetada para uma época diferente na década de 1980, na batalha de Reagan contra a União Soviética e o comunismo, mas o fato é que Cuba nunca fez a transição, e agora vivemos em um mundo digital”, disse Ted Henken, professor da Baruch College que estuda o cenário da mídia cubana. “A Martí teve que se reinventar três ou quatro vezes.”

Após várias mudanças e escândalos, Henken disse que a operação, visitada recentemente por ele, parece mais enxuta e profissional. A estação de TV foi desmantelada e, embora seu orçamento anual fosse definido em US$ 25 milhões, a emissora estava gastando US$ 17 milhões, de acordo com vários funcionários que não estavam autorizados a falar publicamente.

O presidente de Cuba, Miguel Diaz Canel, conversa com o ator americano Kevin Costner, em Havana Foto: Presidência de Cuba/AFP

Audiência

Nos dois anos mais recentes, o público começou a aumentar. De acordo com a Tubular Labs, uma empresa de análise de vídeo, faltando seis meses para o fim do ano fiscal, a Martí já dobrou sua audiência com 14 milhões de visualizações no YouTube até agora neste ano fiscal, e outros 84 milhões no Facebook, onde tem mais de 1 milhão de seguidores. Cerca de 80% do público está em Cuba, disseram os editores.

Publicidade

Mario J. Pentón, um jornalista cubano que se mudou para os Estados Unidos há uma década e começou a trabalhar na Martí há um ano, foi informado de que seu contrato terminaria neste mês. Ele disse que estava orgulhoso do trabalho que o canal fez, particularmente em informar o público sobre furacões que se aproximavam durante períodos de grandes apagões que limitavam até mesmo a capacidade do governo cubano de emitir alertas de tempestade.

A Rádio Martí ganhou oito prêmios Emmy. “Acho que [a emissora] tem futuro, porque acho que sua missão é mais importante do que nunca”, disse Pentón. “Cuba está passando por sua pior crise e, no meio dessa crise, esse fiasco de apagão de informações só beneficia o regime.”

Os principais editores de notícias da Martí disseram que não estavam autorizados a falar publicamente a respeito dos cortes do governo Trump.

Um cidadão cubano anda por Havana em meio a um apagão generalizado em Cuba Foto: Ramon Espinosa/AP

Na semana passada, Kari Lake, uma ex-jornalista de televisão que Trump escolheu como conselheira especial da Agência dos Estados Unidos para a Mídia Global, chamou a agência de podre até a medula. No X, ela sugeriu que os funcionários verificassem seus e-mails.

Publicidade

Pouco depois, os funcionários receberam e-mails dizendo que estavam em licença administrativa remunerada até novo aviso, e então foram bloqueados de suas contas de e-mail. Novos funcionários que estavam em estágio probatório já haviam recebido avisos de rescisão, e jornalistas que estavam sob contrato também foram demitidos.

Embora ela não tenha apresentado exemplos, Lake disse em um comunicado à imprensa que encontrou “violações maciças de segurança nacional, incluindo espiões e simpatizantes e/ou apoiadores de terroristas se infiltrando na agência”.

Ela acrescentou que “desperdício, fraude e abuso correm soltos nesta agência e os contribuintes americanos não deveriam ter que financiá-la. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL