Como Trump quer colocar minerais da Ucrânia e de outros países no centro de sua política externa

Minerais críticos estão na mente do republicano pelo menos desde 2017, quando ele assinou um decreto sobre o assunto no primeiro mandato

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Por Edward Wong (The New York Times)
Atualização:

O grande interesse do presidente americano, Donald Trump, nas reservas minerais da Ucrânia pode ter parecido surgir do nada, depois que ele enviou o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, a Kiev este mês para negociar com o líder ucraniano, Volodmir Zelenski. Mas os minerais críticos estão na mente de Trump desde pelo menos 2017, quando ele assinou um decreto sobre o assunto no primeiro mandato.

“Eu quero a segurança das terras raras (grupo de metais usados em setores de alta tecnologia)”, disse Trump recentemente. Não foi a primeira vez, no atual mandato, que o presidente americano mencionou a possibilidade de assumir os recursos minerais de um país — ele já falou sobre a aquisição de minerais da Groenlândia e do Canadá. De fato, a apropriação das riquezas de outros países tornou-se a meta central da política externa de Trump.

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Na terça-feira passada, após quase duas semanas de negociações, autoridades ucranianas e americanas indicaram que haviam alcançado um acordo preliminar de partilha das receitas com os minerais críticos da Ucrânia. Mas, após um bate-boca entre Trump e Zelenski na Casa Branca na sexta-feira, o pacto sobre o acesso aos recursos minerais ucranianos parece cada vez mais distante.

As substâncias são fundamentais para as tecnologias limpas e estão em alto risco de interrupção na cadeia de suprimentos, segundo o Departamento de Energia dos EUA. Encontrados no mundo todo, elas são essenciais para tecnologias comuns (baterias de carros elétricos) e especializadas (sistemas de mísseis). Devido à competição com a China, a busca por esses recursos tem sido fundamental aos EUA há quase uma década. Em sua última viagem internacional do mandato, seu antecessor, Joe Biden, visitou uma ferrovia apoiada pelos EUA em Angola, que ajudaria a transportar minerais críticos da África Central até a costa para serem exportados.

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Funcionários do Departamento de Estado de então formaram um grupo de nações aliadas para discutir a criação ou o fortalecimento de cadeias de suprimento de minerais críticos fora da China. Eles criaram um fórum para que países ricos em minerais pudessem conversar com potenciais clientes, entre nações e empresas estrangeiras.

Ucrânia, Groenlândia e Canadá estavam incluídos no grupo. Na verdade, Ucrânia e Estados Unidos estiveram perto de assinar um acordo no fim do ano passado, no qual o país europeu se comprometia a avisar os EUA sobre potenciais projetos, permitindo que empresas americanas ou de países aliados pudessem ter tempo suficiente para licitar contratos. Não tem sido esse o enfoque de Trump.

“Trump e seus assessores estão falando de um jeito que não é necessário”, disse José Fernandez, que trabalhou no Departamento de Estado durante o governo Biden. “São países que querem investimento. Mas querem parcerias. Eles não estão buscando um relacionamento colonial”.

Fernandez acrescentou que esses países são atraídos por parceiros americanos, pois eles não gostam das opções mais coercitivas, incluindo as propostas da China.

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Em setembro, Zelenski começou a apresentar um “plano de vitória” sobre a Rússia a governos aliados, bem como a Trump, que então concorria à Presidência. O plano oferecia, entre outras coisas, parcerias em negócios com minerais críticos.

Fernandez deveria assinar um memorando de entendimento em outubro com a vice-primeira-ministra da Ucrânia, Yulia Svyrydenko. Mas ela não apareceu em Washington. A assinatura aconteceria, então, em uma conferência sobre a reconstrução da Ucrânia em Varsóvia, na Polônia, em novembro, mas novamente ela não apareceu.

Mina de titânio a céu aberto na região de Zhytomyr, Ucrânia. EUA querem explorar os minerais de terras raras da Ucrânia. Foto: Roman Pilipey/AFP

Expectativas

Naquele momento, Trump já havia vencido a eleição, e funcionários do governo ucraniano disseram a diplomatas dos EUA que preferiam esperar para assinar um acordo com a administração que estava por vir. Os funcionários já haviam conversado com alguns empresários estrangeiros, incluindo Ronald Lauder, herdeiro de uma fortuna de cosméticos e amigo de Trump, sobre oportunidades de investimento no setor mineral da Ucrânia.

Na semana passada, Zelenski recuou das condições que Scott Bessent, secretário do Tesouro americano, lhe apresentou em Kiev. A proposta exigia que a Ucrânia entregasse aos EUA metade de suas receitas com recursos naturais, incluindo minerais, gás e petróleo, bem como os lucros de portos e outras infraestruturas. Trump também exigiu US$ 500 bilhões como contrapartida pela ajuda em armas e dinheiro dada à Ucrânia durante a administração Biden.

Funcionários do governo americano amenizaram algumas das exigências enquanto continuavam a pressionar a ministra da Economia ucraniana, Yulia Svyrydenko, e outros negociadores para assinar um acordo. Mas, após a discussão na Casa Branca, na última sexta-feira, quando Trump disse que Zelenski poderá voltar apenas “quando estiver pronto para a paz”, o pacto parece praticamente enterrado.

Trump e Zelenski discutiram na última sexta-feira, 28, na Casa Branca. Foto: Doug Mills/NYT

Enquanto isso, a China tem investido há anos para desenvolver uma dominância global na extração e processamento de minerais críticos.

Ao mesmo tempo, os EUA precisam importar quantidades substanciais de minerais críticos para uso comercial e militar. Um relatório divulgado pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais observou que os EUA importam de 50% a 100% de cada um dos 41 minerais críticos listados pelo Serviço Geológico americano. A China é o maior produtor de 29 deles.

Interesses de aliados

As interrupções nas cadeias de suprimento globais durante a pandemia de coronavírus também aumentaram as preocupações do governo americano. Biden emitiu um decreto em 2021 que, entre outras coisas, instruiu o então secretário de Defesa a identificar os riscos para o fluxo de minerais críticos do exterior. No ano seguinte, Fernandez supervisionou a criação da Parceria de Segurança Mineral, um grupo de 15 nações que busca ampliar as cadeias globais de suprimento de minerais críticos. A Casa Branca e o governo indiano mencionaram o grupo em uma declaração conjunta quando Trump se encontrou com Narendra Modi, o primeiro-ministro da Índia, este mês.

Em 2024, o Departamento de Estado criou um fórum com 15 países produtores, incluindo Ucrânia e Groenlândia, em busca de investidores para expandir suas indústrias. Ainda em seu primeiro mandato, Trump havia ficado obcecado pela ideia de comprar a Groenlândia após insistência de Lauder, o herdeiro dos cosméticos. Outro aliado de Trump, Howard Lutnick, secretário de Comércio dos EUA, tem laços com um projeto de mineração no território autônomo dinamarquês, por meio de um investimento, de acordo com registros analisados pelo The New York Times.

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