Os herdeiros do antigo Partido Comunista pareciam fadados ao fracasso na Alemanha na campanha para as eleições gerais deste domingo, 23. Em crise, o Die Linke (A Esquerda) lutava para superar a cláusula de barreira e garantir a sua representação no Parlamento, até que ressurgiu na reta final da campanha, impulsionado pelo Tik Tok e pelo temor do avanço da extrema direita num país com cicatrizes históricas causadas pelo nazismo.
A estratégia tem atraído especialmente os eleitores mais jovens e tem se refletido nas últimas pesquisas. O partido saiu de 3% para 7% das intenções de voto em cerca de um mês. É pouco, mas seria o suficiente para garantir A Esquerda na próxima legislatura da Bundestag, superando a cláusula de barreira de 5%.
Forçada se renovar depois de uma cisão interna, A Esquerda usa as redes sociais para amplificar o discurso e se contrapor à Alternativa Para Alemanha (AfD), que deve se tornar o segundo maior partido da Assembleia Federal Alemã (Bundestag), com uma agenda anti-imigração, contrária à União Europeia e recheado de membros que minimizam os danos provocados pelo nazismo.
Ao passo em que avança nas pesquisas, o partido viu o número de integrantes atingir patamar recorde de 81 mil, com mais de 23,5 mil novos filiados, em sua maioria mulheres e jovens, neste começo de ano.

Antagonismo com a AfD e eleitorado jovem
Os números pegaram os analistas de surpresa. Há pouco mais de um ano, A Esquerda viu uma das suas principais lideranças, a populista Sahra Wagenknecht, sair para criar o próprio partido e levar consigo uma parte da pequena base parlamentar.
Depois da cisão, o partido sofreu duras derrotas nas eleições estaduais, marcadas pela vitória da AfD na Turíngia ― a primeira da extrema direita desde a 2ª Guerra. A Esquerda também teve resultados desastrosos no lado oriental da Alemanha, seu berço político, onde foi superada pelo novo partido de Wagenknecht (BSW na sigla em alemão), com posições radicais à esquerda na economia e à direita na imigração.
Em meio à crise, A Esquerda renovou a liderança, com a ascensão de Ines Schwerdtner, Jan van Aken e Heidi Reichinnek ao comando da sigla. Esta última, uma parlamentar de 36 anos que virou estrela no Tik Tok. O discurso emotivo — e feroz — em que atacava o líder nas pesquisas Friedrich Merz, da União Democrata Cristã (CDU), por cooperar com a AfD em votação sobre a imigração foi visto 30 milhões de pessoas.
“Esse é o maldito problema que vocês ainda não entenderam”, bradou ao acusar de Merz de buscar deliberadamente os votos da AfD e romper o isolamento que a Alemanha impõe à extrema direita.
“Tudo isso aconteceu apenas dois dias depois que lembramos a liberação de Auschwitz. Dois dias depois que lembramos dos assassinatos e do tomento. Vocês estão colaborando com aqueles que carregam a mesma ideologia”, seguiu, referindo-se os laços da AfD com o neonazismo. “Eu digo às pessoas lá fora: não desistam, resistam ao fascismo. Às barricadas”.
Os cortes do discurso viralizaram. Quando o assunto é engajamento online, A Esquerda agora só perde para AfD, aponta o levantamento da consultora Unicepta publicado na imprensa alemã.
Com o impulso das redes sociais, A Esquerda empatou com os Verdes na preferência entre os jovens. Ambos têm 19% das intenções de voto no seguimento de 18 a 30 anos, segundo pesquisa recente.

Velhas ideias, nova embalagem
O crescimento nas pesquisas pode ser atribuído a um série de fatores, afirma Beatriz Saab, gerente de políticas e métodos digitais do Institute for Strategic Dialogue, think tank independente com escritórios na Alemanha, Reino Unido, EUA e Jordânia.
Isso inclui a reação ao avanço da extrema direita, a resolução dos conflitos internos com a saída de Sahra Wagenknecht e a própria agenda do partido, que oferece uma resposta à esquerda para insatisfação com a crise na maior economia da Europa.
“A Esquerda tem se concentrado cada vez mais na justiça social e no combate ao aumento do custo de vida, o que ressoa particularmente em tempos economicamente desafiadores, com o partido propondo um “Entlastungspaket” (pacote de auxílio) destinado a beneficiar as pessoas de baixa e média renda”, afirma Beatriz Saab.
O partido critica o governo Olaf Scholz pelo custo de vida e promete acabar com o imposto sobre o valor agregado para itens básicos da alimentação, produtos de higiene e transporte público. A conta seria paga pelos mais ricos, com imposto progressivo sobre as fortunas.
As ideias não são necessariamente novas, mas a forma de comunicar, sim. “Eles têm essa plataforma que está bastante à esquerda, mas agora comunicam melhor. Tem representantes que conseguem se conectar melhor com as pessoas”, observa Philipp Sälhoff, diretor do think thank alemão Polisphere.
Nesse sentido, a cisão que lá atrás abalou o partido agora pode ter beneficiado. “A Esquerda agora aparece como uma alternativa mais clara à AfD porque Sahra Wagenknech e sua comunidade eram próximos da AfD em certas posições. Portanto, eles agora são mais puramente de esquerda do que eram antes. Isso contribui”, avalia Sälhoff.
A ideia de se contrapor à extrema direita pela via da esquerda foi expressa pelo líder Jan van Aken em discurso na convenção do partido, em Berlim. “Nem um centímetro para os fascistas”, declarou. “Nós da esquerda sempre nos opomos às tentativas de dividir nossa sociedade e incitar contra os migrantes.”
Aposta nos ‘vovôs comunistas’
Ao mesmo tempo em que as novas lideranças ganham impulso para A Esquerda no Tik Tok, a “missão grisalhos” busca garantir a representação do partido na Bundestag, mesmo que a popularidade nas redes e o avanço nas pesquisas não se converta em votos nas urnas. Para isso, o partido conta com veteranos da política que ainda são populares em partes do país.
A operação começou quando o partido pontuava abaixo do cláusula de barreira. Para ter representação no Parlamento alemão, é preciso ter no mínimo 5% dos votos ou conquistar mandatos diretos em pelo menos três distritos. Foi assim, inclusive, que A Esquerda conseguiu entrar para Bundestag na última eleição.O partido bateu na trave, com 4,9% mas conseguiu garantir a representação graças às vitórias nos distritos, e conquistou 39 assentos no Bundestag.
Com medo de ser passado para trás pela Aliança Sahra Wagenknecht, como aconteceu nas eleições estaduais, A Esquerda tinha nos veteranos a sua melhor aposta. A “missão grisalhos” concentrava seus esforços para garantir os mandatos de Gregor Gysi, 77 anos, Bodo Ramelow, 68, e Dietmar Bartsch, 66, figuras populares da velha guarda.

Uma ‘eleição italiana’ na Alemanha
A fragmentação política é um processo recente na Alemanha, que até os anos 1980 tinha basicamente três forças políticas — os conservadores, os social-democratas e os liberais. E tem levado a comparações com outros países europeus, como a Itália, apesar das diferenças entre os sistemas políticos.
“Os partidos tradicionais perderam espaço nas últimas décadas enquanto os partidos que eram menores, como AfD e os verdes, cresceram. Isso indica uma insatisfação com o sistema”, afirma Kai Enno Lehmann, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP.
Líder nas pesquisas, a aliança da União Democrata-Cristã (CDU) com a União Social-Cristã (CSU), tem apenas 30% das intenções de votos, longe de atingir a maioria necessária para nomear Friedrich Merz como chanceler. Embora tenham sido acusados de cooperar com a AfD no controvertido projeto para conter a imigração, os democratas cristãos descartam uma coalizão com a extrema direita, que aparece em segundo lugar, com 20% das intenções de voto.
Os conservadores cristãos poderiam repetir a aliança que Angela Merkel tinha com o Partido Social Democrata, mas resta dúvida se isso será suficiente para alcançar a maioria. O PSD do chanceler Olaf Scholz, que busca uma improvável reeleição, tem apenas 16% das intenções de voto.
É nesse cálculo que entram os partidos que estão brigando garantir a representação no Bundestag. Se falharem em superar a cláusula de barreira, as suas vagas serão redistribuídas entre aqueles que conseguiram — cenário que torna mais provável a coalizão entre conservadores cristãos e social-democratas.
Mas se esses partidos que estão lá atrás na disputa tiverem bom desempenho, a Alemanha pode ser obrigada a repetir uma coalizão de três partidos. A composição provavelmente incluiria os Verdes, garantindo maioria confortável no Bundestag, mas o resultado seria um governo frágil, como o que acabou de colapsar — daí a comparação com os italianos.
“É possível que CDU e SPD consigam a maioria, mas seria uma coligação instável, pela margem estreita que teria”, observa Lehmann. “O mais viável, matematicamente, seria incluir os Verdes na coalizão. Pelo que indicam as pesquisas, a maioria seria sólida, mas essa configuração seria problemática do ponto de vista ideológico pelas diferenças entre CDU e os Verdes. Haveria a possibilidade de disputas internas, como na última coligação de três partidos”.

As eleições deste domingo foram antecipadas porque a “coalizão semáforo” — a primeira com três partidos — colapsou. O governo que atravessou a pandemia e a guerra na Ucrânia acabou por um impasse sobre o orçamento.
O PSD e os Verdes tinham propostas ambiciosas para fortalecer o estado de bem estar social e combater as mudanças climáticas enquanto os liberais queriam cortar gastos.
“O risco que a Alemanha corre é ter uma sucessão de governos pragmáticos, mas não ideologicamente alinhados, e instáveis. Isso alimenta a insatisfação com o sistema e fortalece a AfD”, alerta Lehmann.
Leia também
Avanço da AfD
Ainda que permaneça apartada do poder, a extrema direita avança. Caso as pesquisas se confirmem, a AfD vai saltar dos 10,4% que teve na última eleição, quando terminou em quinto lugar, para 20% e despontar como o segundo maior partido no Bundestag.
E a controvertida proposta sobre a imigração acendeu o alerta de que a barreira contra extrema direita esteja cada vez mais frágil na Alemanha.
“Essa medida quebrou um grande tabu na política alemã, já que os principais partidos tradicionalmente mantêm um firewall contra a cooperação com a extrema direita”, afirma Beatriz Saab, notando que Friedrich Merz lamentou o apoio da AfD, mas defendeu como necessário.
“Merz insistiu que seu partido não trabalhará com o AfD, no entanto, a disposição do CDU em aceitar o apoio da AfD, mesmo que indiretamente, levantou preocupações sobre o futuro do firewall, demonstrando que ele pode sim ser mais frágil do que se pensava anteriormente”, acrescenta.
Mesmo que a barreira contra a colaboração com a AfD seja mantida no nível federal, analistas alertam que a extrema direita sai ganhando ao impor a pauta, como aconteceu na proposta sobre a imigração, que virou motivo de preocupação entre os alemães após uma série de ataques recentes.
“Depois de um dos últimos incidentes - o ataque em Aschaffenburg - até mesmo os Verdes apresentaram um plano para uma política migratória mais rigorosa”, aponta Philipp Sälhoff. “Sempre que acontece um ataque ligado à migração, a AfD diz: ‘Eu avisei’, e isso coloca os outros partidos sob pressão, porque eles têm de mostrar que estão lidando com o problema, que estão tentando resolvê-lo. Mas a AfD tem a vantagem de não precisar provar nada, já que não detém poder político ou responsabilidade, então pode simplesmente continuar jogando o jogo da culpa.”