Marco Rubio e Sergei Lavrov se reuniram na Arábia Saudita para determinarem o futuro da Ucrânia. O encontro do secretário de Estado dos EUA e do ministro de Relações Exteriores da Rússia gerou pânico e indignação, especialmente pela ausência de representantes ucranianos nessas conversas, ao menos perante o público.
Também gerou reações, na Europa e na Turquia. Principalmente, um eventual aceite de anexações territoriais russas na Ucrânia pode trazer de volta aos holofotes internacionais um tema que muitos achavam que estava encerrado, a ideia de dissuasão nuclear.

Quando do fim da Guerra Fria e da União Soviética, três países possuíam armas nucleares e abriram mão de seus arsenais. A África do Sul, ao fim do Apartheid, e a Ucrânia e o Cazaquistão, herdeiros de parte do gigantesco arsenal soviético. Sob pressão dos EUA, que temiam a proliferação nuclear, esses países desmantelaram seus arsenais, com tais processos custeados por Washington. O medo de que tecnologias nucleares fossem adquiridas por países como a Líbia de Muamar Khadafi ou de que uma ogiva caísse nas “mãos erradas” era tamanho que esse receio foi parar até em obras de Hollywood.
Em troca de seus arsenais, Ucrânia e Cazaquistão assinaram o Memorando de Budapeste, em 1994. Belarus também foi signatária, embora o país nunca tenha de fato herdado armas nucleares, apenas servia de base para armamentos soviéticos. Os países passaram a fazer parte do Tratado de Não-Proliferação, receberam compensações financeiras e, principalmente, teriam Rússia, Reino Unido e EUA como garantidores de sua integridade territorial.
Passados vinte anos, a anexação da Crimeia pela Rússia rasgaria o documento. Tal como em 1914, quando o ministro de Relações Exteriores do Império Alemão perguntou ao seu homólogo britânico se Londres iria para a guerra “apenas por um pedaço de papel”. No caso, a garantia de segurança pelas potências europeias à neutra Bélgica.
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Com a invasão russa de 2022, as vozes ucranianas de descontentamento com a barganha se tornaram mais presentes. Até Volodimir Zelenski já pediu “de volta” as armas nucleares. Além da agressão militar russa, muito da resposta militar do chamado Ocidente em auxílio aos ucranianos precisa ser calculada para não causar uma escalada com a Rússia, detentora de vasto arsenal nuclear e que frequentemente usa esse atributo militar em declarações e ultimatos. Caso o novo governo dos EUA cesse sua ajuda militar aos ucranianos e reconheça anexações territoriais russas, estará claro para o mundo que ser uma potência nuclear dá direitos diferentes do que em relação aos países “meros mortais”.
Os países europeus, temerosos por sua própria segurança, buscam convencer o governo Donald Trump a manter a ajuda militar aos ucranianos, ou, então, calculam como substituir os EUA, algo muito difícil de ser feito, em termos econômicos e de produção bélica.
Além do temor de segurança, uma eventual consagração de uma Rússia vencedora escancara a ideia de que Estados poderosos podem agir ao bel prazer. A única coisa que detém o poder é o poder. Como deter uma potência nuclear? Oras, a resposta já é falada em tom baixo de voz em corredores em Varsóvia, Bruxelas e Berlim.
Alguns países são as chamadas potências nucleares latentes, ou seja, possuem recursos e tecnologia civil que podem ser rapidamente direcionadas para um programa nuclear militar. São os casos do Irã, Alemanha, Brasil e Japão. Sim, Brasil, já que nosso país detém tecnologia nativa de enriquecimento de urânio.
Outros países já tiveram programas nucleares militares no passado, como Taiwan, Suíça e Romênia. A Turquia, em 2025, merece profunda atenção nesse tema, já que assinou contratos amplos com a agência atômica russa, além de passar por intenso processo de expansão armamentista.
Nada disso quer dizer que algum desses países vai desenvolver uma ogiva nuclear amanhã, tampouco que esse é um processo simples, especialmente o desafio tecnológico da miniaturização e do desenvolvimento de mísseis.
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Por outro lado, quando países como a Polônia e Taiwan olham para seus vizinhos, muito maiores, mais poderosos e com armas nucleares, e veem o que ocorre com a Ucrânia, o que se passa na cabeça de seus dirigentes e de seus militares? A defesa da dissuasão nuclear, ou seja, a posse de armamentos nucleares não para uso ofensivo, mas para dissuadir uma agressão, não é nova, e possui exemplos históricos. A Coreia do Norte talvez seja um exemplo contemporâneo.
O fato é que a capacidade nuclear sempre foi um divisor de poder entre os Estados. Nunca deixou de ser. Com alguns avanços do Direito Internacional no pós-Guerra Fria e o período de otimismo vivido naquele período, algumas pessoas abraçaram o momento de que o poder coercitivo virou coisa de um passado bárbaro e violento.
Para isso ser verdade, entretanto, seriam necessárias potências responsáveis, que não invadissem outros países ou que cumprissem as garantias que assinaram. Como isso não ocorre, o mundo é jogado ao estado de anarquia. Na falta do diálogo e da integração civilizatória, em uma espécie de faroeste internacional, ninguém quer se ver desarmado.