Dentre todos os erros do governo Trump nas suas três primeiras semanas, o mais capaz de colocar os Estados Unidos em perigo é o expurgo nas agências de inteligência — no mesmo momento em que o governo declara, corretamente, que o país precisa de operações de espionagem mais agressivas.
O diretor da CIA, John Ratcliffe, afirma que quer mais operações secretas “indo a lugares que ninguém mais pode ir e fazendo coisas que ninguém mais pode fazer”. OK, entendi. Seu agente ideal seria “um PhD capaz de vencer uma briga de bar”. Tanto melhor. Mas quem ele acha que realizará essas missões ousadas após sua mal planejada decisão de cortar funcionários da agência?
A CIA enviou na semana passada ofertas de acordos de desligamento voluntário para agentes em operação por todo o mundo e, como seria de se esperar, alguns dos melhores espiões estão procurando trabalho em outros lugares. Enquanto isso, a agência concordou humildemente em entregar dados que identificam suas contratações recentes aos auditores de Elon Musk (e a qualquer espião estrangeiro capaz de hackear seus sistemas).
Talvez o pior de tudo, os comissários do DOGE dos EUA supostamente obtiveram acesso a dados de pagamentos do Tesouro que podem revelar quem são os agentes secretos da agência e as pessoas que eles cooptam.

Como costumava dizer Maxwell Smart depois de estragar alguma missão na comédia televisiva de espionagem “Agente 86”: “Desculpe por isso, chefe”.
Ratcliffe tem um monte de problemas de inteligência estrangeira para resolver, e eu lhe desejo sorte. Mas quero me concentrar aqui em dois desafios gritantes de ações secretas que restaram do governo anterior: a ameaça dos ataques de “síndrome de Havana” em agentes da CIA (agora chamados de Incidentes Anômalos de Saúde, ou IAS); e a operação secreta da China que comprometeu sistemas de telecomunicações nos EUA por meio de um ataque conhecido como Tufão de Sal.
Funcionários do governo Trump foram informados sobre ambas as ameaças pela equipe de Biden, mas nenhum dos problemas recebeu atenção pública suficiente. Eles cabem na agenda de Ratcliffe para lidar com problemas duros, “não importa quão obscuros ou difíceis”. Mas exigirão agentes experientes, como os que podem deixar a agência.
Consideremos primeiramente aquelas aflições de saúde “anômalas” que acometeram agentes da CIA e autoridades do Departamento de Estado no exterior desde o primeiro caso relatado em Havana, em 2016. Esses casos envolveram sintomas auditivos ou neurológicos graves, que não se explicam por condições ambientais ou médicas conhecidas. Depois de analisar as evidências, a CIA considerou em 2023 ser “muito improvável” que um ator estrangeiro com uma “arma nova” tivesse causado o dano.
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Mas esperem. O Conselho de Segurança Nacional do presidente Joe Biden se movimentou no mês passado, de surpresa e de última hora, para destacar a ameaça dos IAS, observando que “pulsos eletromagnéticos ou acústicos continuam sendo uma explicação plausível em certos casos”. A ação do CSN acompanhou a descoberta de duas agências de inteligência (não a CIA) de que havia uma “chance quase igual” de um ator estrangeiro ter usado, ou poder ter usado, uma nova arma para ferir as vítimas dos IAS. Essas duas agências também acreditam ser “provável” ou haver uma “chance quase igual” de uma nação estrangeira possuir uma “arma de radiofrequência pulsada” capaz de ferir nossos espiões e diplomatas no exterior.
E quem pode ter desenvolvido essa exótica arma de pulsos? Citando o depoimento à Câmara dos Deputados do jornalista investigativo búlgaro Christo Grozev, em 2024, a Rússia tem “um programa (de pesquisa e desenvolvimento) de longa duração para desenvolver uma classe de armas conhecida na Rússia como ’armas de ondas’”. Grozev declarou que, em 2017, a Diretoria Principal de Inteligência (GRU), o braço de inteligência militar de Moscou, deu um prêmio a um engenheiro que havia desenvolvido “uma arma acústica não letal indicada para combate urbano”.
Ao mesmo tempo que reúnem informações sobre essa arma em estilo Buck Rogers, os agentes da CIA de Ratcliffe têm de responder a uma ameaça mais imediata. A Rússia travou uma campanha paramilitar secreta contra a Otan durante boa parte do ano passado. De acordo com relatórios tornados públicos, agentes russos sabotaram instalações na Polônia, na Alemanha, no Reino Unido, na Espanha, na República Checa e em outros países. Moscou lançou bombas em pacotes que podem ter explodido dentro de aviões americanos. Jatos russos desafiaram forças da Otan francesas e romenas.
Uma pergunta para Ratcliffe: num momento em que a Rússia conduz uma guerra “híbrida” secreta contra países da Otan, como “a principal agência de inteligência do mundo” vai responder? Ele pode estar certo ao considerar que uma CIA mais enxuta pode ser mais implacável. Mas como ele pode ter certeza de que os desligamentos não cortarão mais músculo que gordura?
Voltemo-nos ao devastador ataque hacker chinês às telecomunicações. Espiões veteranos balançam a cabeça num espanto entorpecido quando lhes pergunto sobre esse ataque cibernético que comprometeu roteadores, switches e outros componentes críticos de nove provedores de telecomunicações e internet — incluindo gigantes como Verizon, AT&T e T-Mobile. O senador Mark Warner (democrata da Virgínia) classificou a ação como “o pior ataque hacker às telecomunicações da história da nossa nação”. A ex-chefe da Comissão Federal de Comunicações Jessica Rosenworcel disse que foi “um dos maiores comprometimentos de inteligência já vistos”.
Ponderem sobre o seguinte desafio: a China parece ter o que equivale a um acesso de administrador de sistema à nossa infraestrutura de comunicações públicas. “Autoridades de alto escalão em nosso governo tiveram ligações ouvidas e textos lidos”, de acordo com Rosenworcel. A Agência de Segurança Nacional sem dúvida também está ouvindo os telefonemas chineses, mas o trabalho da CIA é diferente. A agência possui ferramentas secretas para derrubar as redes chinesas durante uma crise como as que a China é capaz de acionar contra os EUA?

A CIA enfrenta um desafio extraordinário ao aumentar sua capacidade de ação secreta contra a Rússia e a China. Não se trata de conversas informais com os funcionários, como a que Ratcliffe teve este mês. Pessoas inteligentes vêm tentando melhorar o desempenho da agência há anos, com pouco sucesso. Para operar em um mundo em que cada ação pode deixar “rastros digitais”, a CIA precisa de uma tecnologia brilhante e de agentes extremamente competentes.
As ordens de congelamento, paralisações e caças às bruxas DEI do governo Trump foram um exercício de três semanas de poder executivo abusivo. E também criaram um problema mais profundo. A vertigem induzida por Trump aumentou a vulnerabilidade dos EUA a ataques e reduziu nossas defesas num momento em que nossos adversários gostariam de se beneficiar do nosso desarranjo.
Ratcliffe exortou os funcionários da CIA a “apertar o cinto de segurança e se preparar para fazer a diferença”. O mesmo vale para o chefe. /TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO