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Opinião | Por que o leste alemão apoia a AfD?

Com influência russa e apelo contra imigração, extrema direita avança na região da antiga Alemanha Oriental

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Foto do author Rodrigo da Silva
Atualização:

Quando a maior guerra da história chegou ao fim, há 80 anos, a Alemanha estava devastada. A guerra havia destruído 4,8 milhões de unidades habitacionais no país, e como consequência, 13 milhões de alemães estavam desabrigados. Havia 400 milhões de metros cúbicos de entulho para limpar e uma inegável crise de mão de obra, resultado dos 7 milhões de alemães mortos durante o conflito.

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A economia respirava por aparelhos. A produção industrial estava um terço menor em comparação aos níveis de 1939. Havia escassez de alimentos, roupas e combustível.

E ainda assim, quando paramos para pensar no que aconteceria com esse país após esse episódio, descobrimos que, nas décadas seguintes, os alemães passariam por um período mágico de crescimento econômico, que eles chamam de Wirtschaftswunder.

Os alemães, vírgula: os alemães da Alemanha Ocidental.

Por décadas, alemães de leste e oeste experimentaram taxas de crescimento bem diferentes. Mas enquanto a Alemanha Oriental estava limitada aos seus programas de recrutamento de trabalhadores estrangeiros – de países socialistas aliados, como Vietnã do Norte, Cuba, Moçambique e Angola – a Alemanha Ocidental alimentava uma relação de abertura com o mundo externo, firmando acordos de recrutamento de trabalhadores de países que sofriam com o desemprego, como a Itália (1955), a Grécia (1960), a Turquia (1961), o Marrocos (1963), Portugal (1964) e a Tunísia (1965). Foram esses trabalhadores imigrantes que reergueram a Alemanha em sua hora mais escura.

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É verdade que nunca houve um plano claro para acolhê-los. Os turcos foram, de longe, o maior grupo imigrante – mas enfrentaram imensas dificuldades para se assimilarem à cultura local.

Entre 1961 e 1973, 2,7 milhões de turcos se candidataram a um emprego na Alemanha. 750 mil foram aceitos. Mas só a metade desse grupo voltou à Turquia. A outra metade permaneceu na Alemanha.

Como migração costuma ser um fenômeno em cadeia, ainda hoje 11% dos imigrantes na Alemanha são turcos – algo próximo de 1,5 milhão de pessoas (o maior grupo imigrante do país). Mas entre cidadãos e imigrantes, há de 3 a 7 milhões de pessoas com origem turca na Alemanha. Nenhum país do mundo, fora a Turquia, abriga tantos turcos.


Hoje, quase a metade dos muçulmanos que vivem na Alemanha têm origem turca. Os turcos são, de longe, não apenas a maior minoria étnica do país, mas o maior grupo muçulmano – o que significa que grande parte da comunidade muçulmana na Alemanha é resultado das políticas econômicas do pós-guerra produzidas pela Alemanha Ocidental.

Quando o muro ruiu, no dia 9 de novembro de 1989, pondo um fim à experiência socialista no país, havia duas Alemanhas irreconciliáveis se reencontrando.

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Ainda hoje, essas diferenças são acentuadas.

Hoje, nos estados da antiga Alemanha Oriental (excluindo Berlim), só 9,7% da população possui histórico de migração. Esse número é quase três vezes maior (de 27,6%) nos estados da antiga Alemanha Ocidental (também excluindo Berlim). 1/3 da população de Berlim tem origem imigrante.

A maior parcela da comunidade muçulmana na Alemanha vive na parte ocidental do país (e em Berlim).

Da mesma forma, é na parte ocidental (e em Berlim) onde estão os turcos.

Quando analisamos a demografia da eleição desse domingo na Alemanha, percebemos o mesmo fenômeno da última votação para o Parlamento Europeu: a AfD faz sucesso nos territórios da extinta Alemanha Oriental.

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Antes da votação, as projeções apontavam que a AfD contava com ⅓ do apoio dos eleitores dos estados da extinta Alemanha Oriental – consideravelmente acima do apoio da CDU, o partido mais votado do país.

Como o grande apelo da AfD é o discurso anti-imigração, contra o multiculturalismo e o islã, é fácil perceber que essas bandeiras ressoam de forma mais poderosa justamente no público que não tem tradição de convivência com a imigração e a diversidade cultural.

Regiões com menos imigrantes tendem a ter mais resistência à imigração. Isso acontece porque a falta de contato direto com estrangeiros permite que o medo seja alimentado por narrativas abstratas. Isso também acontece nos Estados Unidos.

A AfD explora esse sentimento ao apresentar os imigrantes como uma ameaça cultural e econômica, mesmo que a maioria dos seus eleitores não interaja diretamente com eles. Hoje, menos de 1% da população do leste da Alemanha é muçulmana.

Boa parte do apoio da AfD é fruto de uma mentalidade autoritária. Quase 70% dos alemães que moram no leste do país dizem que os estrangeiros – qualquer estrangeiro, de qualquer nacionalidade – só se mudam para a Alemanha para explorar o estado de bem-estar social; e quase um em cada três diz que a influência dos judeus é grande demais no país (a AfD, cabe lembrar, abriga diferentes grupos antissemitas). Quase 1/4 dos entrevistados também diz que o nacional-socialismo tinha o seu lado bom, e 33% dos entrevistados concordam com a afirmação “deveríamos ter um líder que governe a Alemanha com mão forte para o bem de todos”. A pesquisa identificou a presença de uma “mentalidade conspiratória” generalizada (muito comum entre os eleitores de ultradireita e de partidos populistas) e o desejo de um “estado autoritário”.

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Boa parte dessa neurose é exercício de imaginação. É verdade que muitos alemães votam na AfD motivados por uma percepção de que estão enfrentando ataques terroristas muçulmanos no país. E embora esses atentados sejam um problema que mereça atenção dos líderes europeus, eles também precisam ser colocados em perspectiva.

Bandeira alemã hasteada no Palácio do Reichstag, prédio que abriga o Parlamento. Foto: Ralf Hirschberger/AFP

Segundo o último relatório do Parlamento Europeu sobre os casos de terrorismo nos países do bloco, houve 120 ataques terroristas na União Europeia em 2023 – dos quais 98 foram concluídos.

Desses ataques concluídos, 70 foram realizados por grupos separatistas e outros 23 foram conduzidos por atores radicais de esquerda/anarquistas. Grupos jihadistas concluíram 5 atentados – na média, os mais mortais – com 12 pessoas feridas e 6 mortas. Um desses atentados aconteceu na Alemanha.

Para efeito de comparação, em 2023, 754 pessoas foram mortas e 2.443 ficaram feridas em 604 tiroteios em massa nos Estados Unidos.

Em 2023, houve 214 assassinatos na Alemanha. A taxa de homicídios do país foi de 0,8 assassinatos por 100 mil habitantes.

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Em 2023, houve 19.252 assassinatos nos Estados Unidos. A taxa de homicídios do país foi de 5,7 assassinatos por 100 mil habitantes - número sete vezes maior que o da Alemanha.

Quando políticos da nova direita americana anunciam, em apoio à AfD, as suas preocupações com a violência em países como a Alemanha – um lugar que, dizem, está sendo “destruído pelo multiculturalismo” – eles estão, a grosso modo, produzindo propaganda. Morrem 3 vezes mais americanos em tiroteios em massa do que alemães, considerando todas as formas de homicídios na Alemanha.

Se a imigração desenfreada pode causar diferentes problemas sociais – e a AfD não é o único partido a detectar esse cenário – esses problemas não são abstratos e sentimentais. Eles pertencem ao mundo real e devem ser colocados em perspectiva para entender as suas reais dimensões.

Mas o discurso anti-imigração não é o único alicerce da AfD. O partido também conta com um apoio importante de uma minoria étnica bastante específica: a dos russos-alemães.

Há 2,3 milhões de russos-alemães vivendo na Alemanha. Esta é a maior minoria com direito a voto no país, mas muitos membros dessa comunidade ainda vivem socialmente isolados, com habilidades limitadas com a língua alemã – e esse isolamento social e linguístico torna essa população fortemente dependente da mídia estatal russa, que apoia a AfD.

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A AfD tem uma relação tão simbiótica com os russos-alemães que, em 2022, criou uma “Associação para a Prevenção da Discriminação e Exclusão de Russos-Alemães e Cidadãos de Língua Russa na Alemanha”. Em 2023, a imprensa alemã revelou uma rede de perfis no Facebook que espalhava propaganda e desinformação pró-Rússia – parte desse conteúdo promovia links que levavam às postagens do Telegram dessa associação.

A ironia é que nunca judeus, árabes ou turcos exerceram tanta influência política, social e econômica na Alemanha, quanto os russos no leste do país. Foram quatro décadas de controle direto sobre a Alemanha Oriental, com direito a soldados soviéticos ocupando o território.

A AfD, ligada umbilicalmente a Moscou, não é um produto da luta contra a influência estrangeira na Alemanha – é, muito pelo contrário, resultado da interferência externa nesse país.

Hoje, nenhum partido é tão forasteiro na Alemanha quanto o Alternativa para a Alemanha.

Opinião por Rodrigo da Silva

É jornalista e criador do canal Spotniks, do YouTube. Em suas colunas, usa texto, vídeo, gráfico, mapa e fotografia para ajudar o público a entender os maiores eventos globais, com clareza e contexto.

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