CARACAS - A Venezuela recebeu 199 deportados dos Estados Unidos nesta segunda-feira, 24. O anúncio marca a retomada dos voos, que foram suspensos no mês passado em meio à troca de acusações entre Caracas e Washington.
“Os voos foram retomados”, disse o ministro do Interior, Diosdado Cabello. “As viagens estão com pouca regularidade, não por culpa da Venezuela, nós estamos prontos para receber os venezuelanos”, insistiu.
A ditadura chavista havia sinalizado no fim de semana que retomaria os voos depois que os Estados Unidos mandaram 238 venezuelanos para presídio de segurança máxima em El Salvador. Mais da metade deles com base na Lei de Inimigos Estrangeiros, raramente invocada na história americana. Nicolás Maduro denunciou as prisões como “sequestro”.

Esse foi o quarto voo com deportados dos Estados Unidos durante o governo Donald Trump. Os dois primeiros decolaram de El Paso, no Texas, em fevereiro. O terceiro repatriou via Honduras 177 imigrantes que haviam sido levados inicialmente para prisão de Guantánamo, em Cuba.
O ritmo de deportações, estabelecido após a visita do enviado especial americano Richard Grenell a Caracas no fim de janeiro, foi questionado pela Casa Branca. O regime Nicolás Maduro, por sua vez, acusou o governo americano de bloquear os voos de repatriação.
Em meio à crise, os Estados Unidos revogaram a licença da petrolífera americana Chevron para atuar na Venezuela. A empresa exporta cerca de 240 mil barris de petróleo venezuelano por dia, o equivalente 23% da produção do país sul-americano e tem até 3 de abril para liquidar suas operações. Em resposta, Nicolás Maduro suspendeu a cooperação para deportações, retomada agora após intensa pressão dos EUA.
Tarifas secundárias ao petróleo e gás da Venezuela
Também nesta segunda, o presidente americano Donald Trump acusou a Venezuela de ser hostil com os Estados Unidos ao anunciar que vai impor tarifas de 25% nas transações comerciais com os Estados Unidos a todos os países que comprarem petróleo ou gás da Venezuela. As taxas devem entrar em vigor na próxima quarta-feira, 2.
Em publicação na sua rede, a Truth Social, o republicano insistiu nas alegações de que a Venezuela teria enviado criminosos aos Estados Unidos e citou a gangue Trem de Aragua, designada por Washington como organização terrorista, para justificar as tarifas secundárias.
“A Venezuela enviou de forma deliberada e enganosa dezenas de milhares de criminosos de alto escalão e outros tipos para os Estados Unidos, muitos dos quais são assassinos e pessoas de natureza muito violenta”, escreveu Trump, que costuma se referir aos imigrantes como criminosos.
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“Entre as gangues que eles enviaram aos Estados Unidos está a Trem de Aragua”, seguiu Trump. “Estamos em processo de devolvê-los”. O governo do republicano recorreu à Lei de Inimigos Estrangeiro, de 1789, e acelerou a expulsão de venezuelanos acusados de integrar o grupo criminoso para El Salvador, desafiando decisão da Justiça americana que suspendia as deportações.
“Além disso, a Venezuela tem sido muito hostil aos Estados Unidos e às liberdades que defendemos. Portanto, qualquer país que comprar petróleo e/ou gás da Venezuela será forçado a pagar uma tarifa de 25% aos Estados Unidos sobre qualquer comércio que fizer com nosso país”, advertiu.
Maduro cortou relações diplomáticas com Washington em 2019, durante o primeiro mandato de Donald Trump. Seu sucessor na Casa Branca, o democrata Joe Biden, manteve contatos ocasionais e negociou o acordo que deveria garantir eleições livres na Venezuela em troca da retirada de sanções.
A ditadura chavista, no entanto, perseguiu opositores, proclamou a vitória de Nicolás Maduro sem apresentar os dados das urnas e reprimiu os protestos contra o resultado de uma eleição denunciada como fraude. Além de ignorar os apelos por transição pacífica de poder.
Donald Trump, assim como Joe Biden, apoia o líder da oposição Edmundo González Urrutia, que se exilou após reivindicar a vitória nas eleições e divulgar as cópias das atas que comprovariam essa versão. Ainda assim, o republicano enviou o seu representante para discutir com Nicolás Maduro os voos de deportação./COM AFP