Há uma proliferação de sistemas de inteligência artificial (IA) à disposição dos usuários curiosos, e é sempre interessante testá-los. Se, por um lado, os resultados obtidos variam bastante, desde convincentes e completos, até claramente insatisfatórios, por outro fica-se com uma eventual “pulga atrás da orelha”: será que eles não estão se copiando? Afinal são sistemas abertos e nada impede que recorram aos concorrentes para montar uma resposta satisfatória.
Vários deles são bastante eloquentes quando solicitados a discorrer sobre pessoas específicas. O interessante é que, em diversos casos, o indigitado não reconheceu situações lá descritas como sendo de sua carreira ou passado… Ou seja, pode haver “biografias não autorizadas” geradas por IA, cujo conteúdo é questionável pelo próprio biografado. Nada de muito diferente do que se passaria no mundo real…

Ainda na área das “pulgas auriculares”, um artigo da DW (Deutsche Welle) - órgão bem estabelecido e com versões em dezenas de línguas - sobre iniciativas de combustível sintético fabricado no Chile com participação da Porsche, é acompanhado de vídeo que mostra veículos subindo os Andes, propelidos pelo novo combustível. Ocorre que, ao final do artigo, há uma singela nota que informa: “este vídeo resumido foi criado por IA a partir de um roteiro original da DW, e foi editado por jornalista antes da publicação”. É louvável que o meio divulgue isso mas, de novo, ficamos sem saber o que é real no vídeo e o que seria sintético. De fato aquele automóvel arrostou as íngremes encostas do Andes, ou é apenas algo gerado sinteticamente…
Temos já aqui dois pontos de atenção: quanto a biografias e descrições, o passado que a IA narra pode ou não ter ocorrido; e quanto aos belos vídeos apresentados, eles podem ser irreais. O primeiro ponto lembra uma frase de autoria debatível (Pedro Malan? Roberto Campos?), que postula “no Brasil até o passado é incerto”. Poder-se-ia reescrever a frase como “na IA até o passado é incerto” – afinal as fontes em que a IA bebeu para gerar sua resposta podem não ser primárias nem confiáveis. Basta estarem disponíveis na internet. Quanto ao segundo ponto, a liberdade artística mistura-se com a verdade factual e, de novo, fica incerto o que é real e o que é sintético. Uma leitura otimista disso poderia indicar uma volta a padrões artísticos do passado, como o Davi, de Michelangelo, em que a arte superaria esteticamente a própria realidade.
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A saída, se é que há uma, é sempre mantermos clara a perspectiva de que estamos vendo um catado de dados, com grande variabilidade de justeza e correção, e retrabalhado por sofisticados mecanismos. Lembrou-se um frase que é bastante repetida em cerimônias do rito cristão oriental, onde o oficiante alerta a comunidade: “estejamos atentos!”. No rito romano reformado, essa instigação desapareceu. Restou, porém, na missa tridentina: o “attendamus!”. Em IA é importante vigiar e triar o que ela nos informa. Seu uso é instigante e cômodo, mas que não nos transforme em conformistas. É vital que “estejamos atentos”.