Que o crime organizado se imiscui nas mais diversas atividades econômicas para cometer ilícitos, como desfalques ou lavagem de dinheiro, por exemplo, não é segredo para ninguém. Relatório recente da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), porém, dimensiona o tamanho do prejuízo que o avanço do crime sobre o sistema financeiro vem causando.
De acordo com a Febraban, fraudes bancárias digitais e golpes com cartões totalizaram R$ 10,1 bilhões no Brasil no ano passado, 17% a mais do que em 2023. Já golpes envolvendo o Pix aumentaram 43% em 2024, totalizando R$ 2,7 bilhões, o que coloca o montante de fraudes eletrônicas (meios digitais, cartões e Pix) em 2024 em R$ 12,8 bilhões.
Para efeito de comparação, a Caixa Econômica Federal (CEF) encerrou o ano passado com lucro líquido de R$ 14 bilhões, ou seja, os bandidos movimentaram de forma fraudulenta, no ano passado, um volume próximo ao lucro de um dos principais bancos do País.
Chamada de “cangaço digital”, essa investida do crime sobre o universo financeiro é “irreversível”, na avaliação do diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues. Por isso, a PF mudou sua abordagem e, em vez de promover investigações focadas em ocorrências individuais, passou a buscar a origem das fraudes numa tentativa de cortar o mal pela raiz.
“Não adianta ter um volume imenso de operações e investigações se ao fim o resultado é insignificante”, afirmou o diretor-geral da PF, no que tem razão. É alvissareiro, portanto, que a PF tenha determinado três eixos de atuação contra fraudes digitais: integração entre os setores público e privado, descapitalização das organizações criminosas e cooperação internacional.
Na primeira frente, a de integração, pode-se dizer que há avanços. Desde 2017, PF e Febraban trocam informações com vistas a facilitar investigações. Mais recentemente, o Ministério da Justiça e a Febraban fecharam uma parceria chamada Aliança Nacional de Combate a Fraudes Bancárias e Digitais.
Nos outros eixos, porém, resta muito a fazer. O secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubbo, defende, por exemplo, que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) seja reestruturado.
De acordo com ele, um Coaf fortalecido, trabalhando em conjunto com o sistema financeiro, ajudaria a separar o “joio do trigo”. O Ministério Público de São Paulo, por exemplo, já identificou a existência de fintechs de fachada, instituições financeiras que na verdade atuavam a soldo do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Infelizmente, embora a proposta de Sarrubbo faça todo o sentido, não se vê nenhuma celeridade da parte do poder público para que uma identificação mais ágil de movimentações suspeitas ocorra. Propostas adequadas e racionais para o combate à criminalidade não faltam, mas, infelizmente, enquanto elas não saem do campo das ideias, a bandidagem se sofistica e se especializa ainda mais.
Do ponto de vista internacional, também não faltam evidências de cooperação cada vez maior entre bandos criminosos locais e internacionais. Antenados, os criminosos globais se integram sob a lógica de cadeias de fornecimento, racionalizando custos, dificultando o trabalho das polícias e reduzindo a própria exposição.
Mas, enquanto o crime desconhece fronteiras, as polícias seguem, de um modo geral, trabalhando de forma muito localizada, se não basicamente provinciana.
Ainda no campo das propostas, o presidente da Febraban, Issac Sidney, defendeu punições administrativas para indivíduos que alugam seus CPFs, os famosos laranjas, para que terceiros movimentem recursos de modo ilegal.
Como se vê, não faltam nem ideias nem personagens comprometidos com o combate ao “cangaço digital”. Urge, então, que elas sejam implementadas e que os mecanismos de combate ao crime, que nunca dorme, sejam constantemente aprimorados e postos em prática.
Do contrário, ideias seguirão sendo apenas ideias, por melhores que sejam. E mesmo operações contundentes, como a Hydra, recentemente deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e pela PF, serão só uma gota no oceano da criminalidade.