Primeiro ato. Com seus invernos frígidos, a Suécia tinha um belo artesanato em madeira. Sem poder sair de casa, a família se dedicava a produzir cumbucas e colheres de pau, para vender na primavera. Porém, descobriu-se que fazer vodca caseira era mais interessante. Com isso, perdeu-se a tradição de cavacar as madeiras com uma faquinha chamada sloyd. Preocupados com as bebedeiras domiciliares e com a perda da tradição, as escolas passaram a ensinar essas manualidades, buscando recuperar o longevo costume.
Porém, deram-se conta de que, bem escolhidos, os trabalhos com as mãos traziam excelentes benefícios para a educação. Punham as mãos a serviço do desenvolvimento cognitivo dos alunos. Grande sucesso, a faquinha servia para educar. Sendo assim, deixaram de lado a venda dos objetos. Muitos países adotaram a moda, em particular os Estados Unidos.
Segundo ato. Em Brasília, idealizei uma grande exposição, A Arte do Ofício, durante um evento do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Mobilizando ótimos museógrafos, ficou uma beleza. Contava a história do homem, por meio de suas ferramentas. Ao fim da montagem, por desfastio, mandei colocar duas bancadas de trabalho, uma dúzia de martelos, serrotes e serras para metais. E mais, retalhos de pau e de ferro. Virou o centro da exposição. Enlevadas, as crianças faziam fila para martelar. A barulheira era infernal. Por que o sucesso de uma atividade tão banal?
Vamos dar marcha à ré no tempo. O Homo vai virando Homo sapiens quando começa a construir suas ferramentas e objetos utilitários. Suas mãos evoluem, tornando-se mais flexíveis e prenseis. Elas interagem com seu cérebro, para produzir coisas cada vez mais complexas: do tacape à lança, daí para o arco e flecha, até o iPhone. Cria-se um círculo virtuoso. Cérebro maior, mais complexidade do pensamento e, com isso, obras mais complexas. Nesse vaivém, consolida-se a comunicação das mãos com setores mais nobres do cérebro. O pé só informa que demos uma topada. Mas pelas mãos nos educamos.
Isso não passou despercebido dos gregos clássicos, apesar de sempre ocupados com os paroxismos da abstração. Segundo Anaxágoras, “por ter mãos, o homem é o mais inteligente dos animais”. Aristóteles afirma: “O que temos que aprender, aprendemos fazendo”. Mais adiante, outros grandes pensadores também entenderam que fazer pode ser educativo, pois as mãos têm um acesso privilegiado à cognição. Corporações de ofício, datando da Idade Média, adotaram o moto de que “o conhecimento mora na cabeça, mas entra pelas mãos”.
E, para ficarmos com um queridinho dos nossos educadores, Piaget afirmou que “o erro da educação formal é que começa com as palavras, em vez de começar com ações reais e materiais”.
Voltemos ao segundo ato. Como é possível que os jovens de Brasília fossem tão carentes de atividades manuais, até as mais singelas? Quem sabe, no seu entusiasmo, estavam dizendo que a sociedade brasileira se esqueceu da riqueza educativa de usar as mãos.
Grande parte dos objetos e máquinas que nos cercam foi inventada nos Estados Unidos. Lá está o maior volume de patentes. Será que isso não tem que ver com o robusto hábito de, desde cedo, aprender a usar as mãos?
Em anos recentes, é lá que nasce o movimento Science, Technology, Engineering, Arts and Mathematics (Steam), uma tentativa de usar as sinergias entre mãos e cabeça. É uma versão, século 21, da faquinha sloyd. Aparecem também os makerspaces, oficinas polivalentes, que permitem que qualquer um construa o que lhe der na telha. Ambas, excelentes iniciativas, partem de um movimento de fazeção.
Deslumbrados que somos pelo que vem dos “States”, neste caso não importamos porcaria, mas duas iniciativas valiosas. Debalde. Os educadores discorrem sobre o “método da descoberta”, para ensinar ciência. Mas não o aplicam. Compram-se makerspaces. Mas eles viraram apenas símbolos de status, em escolas que querem se exibir. Já visitei muitas oficinas desse tipo. Todas novinhas em folha, apesar de já acumularem seus anos. Aliás, o carro-chefe dessas oficinas são as mandriladoras e tornos CNC, em que as máquinas fazem tudo, sem precisar das mãos. É como ver no YouTube. Ou seja, encantam-se todos com o que menos educa.
Ainda não descobrimos o que já se sabia, de Aristóteles a Piaget: as mãos educam. Continuamos travados numa tradição em que usar as mãos é menos digno – no passado, era coisa para escravo. St. Hilaire nos conta de um provecto senhor que contratou um escravo para carregar, até a sua casa, a compra realizada. Era uma caneta! O prejuízo de cultivar esses preconceitos é gigantesco.
Epílogo: a mão tem inteligência, burros são os que desconhecem isso.