Opinião | Chapéus e política

Tanto a direita quanto a esquerda, diante de um mundo que não cessa de perecer, parecem incapazes de viver o luto num sentido freudiano

Por Marcos Lopes

Dos turbantes ancestrais à mitra papal, o ato de cobrir a cabeça simboliza poder, zelo e devoção. Isso talvez explique por que alguns analistas, incomodados com o retorno de Donald Trump à Casa Branca, desviaram o foco para o chapéu de sua mulher na cerimônia de posse. Determinados a questionar seu triunfo político e a fazer uma semiologia ideológica do vestuário feminino, tais analistas flertaram com uma Sociologia de botequim. Lá se vão os tempos em que Roland Barthes se propunha, em seu Sistema da moda (1967), a entender como os seres humanos constroem sentido com a roupa e a fala.

Grande parte das análises sobre a ameaça apocalíptica do segundo mandato de Trump faz pensar na denegação do luto, na resistência em admitir que se perdeu o combate e que as categorias de análise sobre o adversário político tornaram-se disfuncionais. A isso se acrescenta a paixão por um ideal de justiça, comum às duas partes da contenda. O espectro conservador, em sua euforia escatológica, e o progressista, em sua denegação disfarçada no sentimento de democracia enlutada, expressam fortes crenças. Uma delas, sob o lema “América para os americanos”, busca convencê-los de que a imigração produz uma disrupção nas formas tradicionais de socialização, aumentando a violência e a pobreza. Para seus críticos, em contrapartida, esse lema expressaria egoísmo e desdém para com outros povos; além de cinismo, considerando o recorrente intervencionismo norte-americano em territórios internacionais ao longo do século 20 – o que não parece constranger a “personalidade autoritária” do novo chefe de Estado.

E o chapéu de Melania Trump? Por que ele se tornou uma imagem icônica? A estratégia foi descrevê-lo como uma alegoria do atual estado da democracia: a cor sombria e a aba frontal, a cobrir os olhos, demonstrariam distanciamento diante do público presente. As linhas retas do vestido azul marinho emulariam a racionalidade conservadora. O ato de impressionar exigiria essa liturgia do distanciamento, alcançado graças à sintaxe das vestes e dos gestos femininos. O público contemplaria a beleza clássica da primeira-dama, mas o acesso frontal aos olhos estaria vedado. É o poder preservando a aura enigmática para os que gozam de seus privilégios.

Da perspectiva progressista, o incômodo com o traje da primeira-dama parece residir no retorno do falso recalcado: a ideia da beleza feminina como valor socialmente positivo. Há dois anos, na posse do presidente Lula, nossa primeira-dama vestia um blazer com bordados feitos por rendeiras de Timbaúba dos Batistas (RN). Havia um simbolismo intencional na sua vestimenta, em consonância com as expectativas das minorias. O gesto significou a aproximação delas ao poder. Subir a rampa com seus representantes anunciava algo epifânico e redentor. Nada disso estaria presente no figurino de Melania Trump. Seu estilo, orientado pelo princípio da autoridade hierárquica, imitaria os valores políticos do empossado. Portanto, onde se propõem beleza e elegância haveria apenas a imagem de uma vocação fascista. Mas será isso mesmo?

A traição das imagens (1929) e Tampão do pavor (1966), quadros icônicos de René Magritte, contêm instruções ambíguas para a interpretação das imagens que apresentam. “Isto não é um cachimbo” e “Uso Externo” (junto a um chapéu-coco) são “sentenças” que discutem a ideia de representação na arte ocidental, sua ilusão realista e seus valores culturais. Seria possível recorrer às famosas artimanhas de Magritte para entender as reações ao adereço de Melania Trump? “Isto é apenas um belo chapéu” seria a resposta conservadora. “Isto não é apenas um chapéu” seria o comentário progressista, emulando o espírito questionador do artista. Como separar a política de seus signos?

Sigmund Freud (Sobre a transitoriedade, 1916) reflete sobre o perecimento inevitável da beleza e seu impacto na consciência de alguns indivíduos que se sentem perturbados diante da finitude dos encantos da natureza e da perfeição da obra de arte. Para contestar o pessimismo que “associa a transitoriedade do belo com a sua desvalorização”, Freud identifica uma crença (só o que dura teria valor e, portanto, concentraria o máximo de realidade), mas reconhece o fracasso diante da resistência a seus argumentos. Ela se deveria a “uma revolta psíquica contra o luto”, que teria desvalorizado a fruição do belo. O sofrimento pela perda futura do objeto desejado levaria à sua desvalorização precoce. É como se o sofrimento futuro maculasse a plenitude da beleza presente, provocando rejeição a algo que é inevitável em nossa vida: elaborar o sentimento de perda, fazer a experiência simbólica da morte.

Tanto a direita quanto a esquerda, diante de um mundo que não cessa de perecer, parecem incapazes de viver o luto nesse sentido freudiano. Daí se segue a ciclotimia política: os eufóricos de hoje serão os depressivos de amanhã, e vice-versa.

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É PROFESSOR DE LITERATURA GERAL E COMPARADA NA UNICAMP

Opinião por Marcos Lopes

Professor de Literatura Geral e Comparada na Unicamp