Os índices de realização dos exames de mamografia e papanicolau nas capitais brasileiras seguem abaixo dos registrados antes da pandemia de covid-19. São dois exames preventivos que podem ajudar a evitar o câncer de mama e o câncer do colo do útero, que, juntos, matam 25 mil mulheres por ano no País.
Segundo dados do Observatório da Saúde Pública, da Umane, entidade que fomenta projetos em saúde, o número de mulheres com 18 anos ou mais que já fizeram mamografias nas capitais caiu de 66,7%, em 2017, para 59,8%, em 2023; e em 2020, durante a pandemia, o índice foi a 61,5%. No mesmo período, o papanicolau diminuiu de 87% para 78,9%; em 2020, foi de 82,5%.
Esses números revelam que mesmo durante a pandemia os índices estavam em patamares mais altos do que os registrados mais recentemente. Com o arrefecimento da covid e a diminuição de demanda emergencial sobre os equipamentos de saúde pública, não faz sentido esses indicadores apresentarem desempenhos tão pífios.
A mamografia e o papanicolau aumentam o diagnóstico precoce, o que eleva a chance de cura, além de possibilitar a indicação do tratamento mais adequado, menos invasivo e mais barato. Tudo isso é um ganho para a paciente e para o Sistema Único de Saúde (SUS).
Mas, como disse ao Estadão a presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Angélica Nogueira, o País ainda demanda políticas públicas que aumentem o acesso a esses dois procedimentos, que já estão disponíveis na rede pública. É de perguntar o que falta para fazer com que as mulheres busquem esses exames.
Falta muita coisa, a começar pela articulação dos municípios, dos Estados e do governo federal para a adoção de medidas efetivas, como campanhas de prevenção. Isso se justifica porque, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), 45,1% das mulheres que nunca fizeram o papanicolau acham o exame desnecessário, e 14,8% nunca foram orientadas a fazê-lo.
As autoridades públicas devem assumir a responsabilidade de transmitir informações às mulheres, com campanhas na televisão e no rádio, na internet, nas redes sociais e nos jornais. Segundo Angélica Nogueira, da SBOC, até mesmo a inteligência artificial poderia ser usada para chegar a mais gente.
Ademais, cabe ao poder público a busca ativa das pacientes, assim como já é feito no caso das campanhas de vacinação das crianças. Há milhares de agentes de saúde no País que diariamente batem de porta em porta nos lares brasileiros e que poderiam estar engajados nesse trabalho preventivo. Além disso, o estabelecimento de metas municipais poderia estimular essa busca e, em caso de cumprimento, a cidade receberia mais recursos.
Todos os esforços para reverter esse quadro devem ser empreendidos pelas autoridades públicas brasileiras. É inaceitável um estado de negligência em que as mulheres, por desinformação, entre outros fatores, fiquem alijadas da realização da mamografia e do papanicolau, dois procedimentos tão cruciais para lhes garantir qualidade de vida.