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O jornalista Rolf Kuntz escreve quinzenalmente na seção Espaço Aberto

Análise

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Interpretação ou contextualização dos acontecimentos, explorando suas causas, consequências e implicações.

| Alimentação seria mais barata sem o excesso dos gastos públicos

Guerra no Oriente Médio e na Europa, seca, chuva, desastres na África e problemas de transporte internacional são insuficientes para explicar o aumento dos preços da comida no Brasil

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Foto do author Rolf Kuntz

Praga econômica mundial, a inflação da comida assola países de todos os continentes, sem poupar grandes produtores e exportadores de alimentos, como Brasil, Argentina e Rússia. Com aumento de preços de 7,30% nos 12 meses até janeiro deste ano, o Brasil aparece em sétimo lugar entre 26 países listados pelo aplicativo Trading Economics.

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O conjunto é liderado pela Argentina, com alta de 64,7% nesse período. Turquia e Venezuela ocupam o segundo e o terceiro postos, com aumentos acumulados de 41,8% e 21,90%.

Os países citados nas três primeiras posições entraram neste ano com graves desarranjos econômicos. A inflação dos alimentos é interpretável, nos três casos, como parte de um amplo desajuste, associado basicamente ao mau estado das contas públicas.

Como fenômeno mundial, no entanto, o encarecimento da comida é atribuível a outras causas. Algumas são naturais, como secas prolongadas ou chuvas em excesso. Outras são geopolíticas e incluem guerras e dificuldades de transportes derivadas de conflitos.

Os preços dos alimentos, mesmo com algum recuo, têm continuado muito presentes na cena inflacionária Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Em algumas áreas da África, a violência tem destruído, ano após ano, lavouras plantadas e replantadas com enormes dificuldades. Em outras, o plantio nem sequer é iniciado. Em muitas, a criação de animais pode ser aniquilada pela violência. Grupos de migrantes miseráveis passaram a ser mostrados de forma rotineira pela TV.

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Na Europa, a paisagem da guerra é principalmente a da Ucrânia, onde se tenta manter a exportação de alimentos, uma das bases da economia nacional. Também nesse caso a geopolítica se traduz em preços mais altos no mercado global.

Sem guerra e sem conflitos internos paralisantes, o Brasil poderia desfrutar tanto dos ganhos da exportação quanto da grande oferta interna de alimentos. Apesar dessa condição especial, o País tem sido afetado pela inflação persistente e pela insegurança econômica.

A perspectiva de mais uma grande safra de grãos e oleaginosas tem permitido algum otimismo entre políticos e analistas econômicos. Mas os preços dos alimentos, mesmo com algum recuo, têm continuado muito presentes na cena inflacionária.

Com alta mensal de 1,09% e impacto de 0,24 ponto no resultado geral, o custo da alimentação ainda tem pressionado de forma sensível o orçamento familiar. Com aumento de 0,64% em março, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15) acumulou alta de 5,26% em 12 meses.

Nesse período, o custo da comida, componente de maior peso na formação do IPCA-15, encareceu 7,30%. Como outros itens do quadro inflacionário, o custo da comida é de alguma forma influenciado pelo excesso de gastos públicos, isto é, pelo manejo imprudente das contas públicas.

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Guerra no Oriente Médio e na Europa, seca, chuva, desastres na África e problemas de transporte internacional são componentes importantes da inflação, mas insuficientes para explicar o aumento dos preços da comida no Brasil. Sem a participação do governo, fonte de gastos e de insegurança econômica, a alimentação seria mais barata para a maior parte dos brasileiros.

Análise por Rolf Kuntz

Jornalista

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