Saiba como solicitar o voto em trânsito; prazo termina dia 20 de agosto
É possível realizar a transferência pelo site do TSE ou, presencialmente, em cartórios eleitorais. Crédito: Estadão/ Mariana Cury
Gerando resumo
A campanha presidencial de 2026 começa oficialmente neste domingo, 16, quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) levarão às ruas e às redes apostas distintas para dar o tom da disputa. Até a estreia do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão, Lula apostará no legado de seu governo e na defesa dos interesses nacionais, em contraposição ao bolsonarismo. Flávio, por sua vez, buscará retratar o petista como um projeto esgotado, explorar suspeitas de corrupção que atingem o entorno do Planalto e ampliar sua candidatura para além da base bolsonarista, sem radicalizar o discurso.
A largada também será o primeiro teste, em uma eleição presidencial, das regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para o uso de inteligência artificial, em meio a dúvidas sobre até onde as campanhas poderão recorrer à tecnologia e sobre a capacidade da Justiça Eleitoral de fazer cumprir as normas. O tema abre uma frente adicional de tensão: a equipe de Lula acompanha com apreensão a condução recente do TSE, enquanto a de Flávio teme que decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) produzam efeitos sobre a disputa.

A partir de domingo, a legislação permite a propaganda eleitoral propriamente dita, com pedidos explícitos de voto nas redes e nos atos de campanha. Também estarão liberados comícios, caminhadas, carreatas, distribuição de material e propaganda paga impulsionada na internet. A etapa seguinte começa em 28 de agosto, com a estreia do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão.
Integrantes da campanha de Lula ouvidos pelo Estadão afirmam que, nesta primeira etapa, o presidente concentrará sua comunicação nos resultados do governo e fará da comparação entre sua gestão e a de Jair Bolsonaro um dos principais eixos do embate. A propaganda deverá contrapor o País herdado do governo Bolsonaro ao cenário que Lula pretende entregar ao fim do mandato, com o objetivo de valorizar as realizações da gestão e enquadrar a eleição como uma escolha entre a continuidade do atual projeto e o retorno do bolsonarismo. A soberania nacional completará essa narrativa, com Lula apresentado como defensor dos interesses do País diante de pressões externas.
A comparação, contudo, não ficará restrita aos governos. A campanha pretende explorar vulnerabilidades de Flávio, como o caso das rachadinhas em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), arquivado em 2022 após decisões que invalidaram provas centrais, sem análise do mérito; a compra de uma mansão de R$ 6 milhões em Brasília; as nomeações, para seu gabinete, de familiares de um ex-PM apontado como miliciano; e as mensagens do caso Master nas quais o senador cobrou de Daniel Vorcaro recursos para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.
Nessas primeiras peças, a campanha de Lula deverá recorrer pouco à inteligência artificial. Segundo integrantes da equipe, o próprio presidente demonstra resistência ao uso de conteúdos sintéticos, e a orientação inicial é privilegiar imagens reais.
A cautela com a tecnologia, porém, não impedirá ajustes ao longo da disputa. O conteúdo nas redes será recalibrado de acordo com a ofensiva de Flávio, em dinâmica comparada por um integrante do núcleo petista a uma luta de boxe, na qual será necessário observar os movimentos do outro lado antes de decidir quando atacar ou reforçar a defesa.
Mesmo com os ajustes previstos ao longo da disputa, a orientação central da campanha já está definida, afirma Éden Valadares, secretário nacional de Comunicação do PT e integrante da campanha. “Promoveremos uma disputa de alto nível, propositiva, baseada na verdade e no uso ético das ferramentas digitais e tecnológicas”, diz.
Além da propaganda na internet, a campanha apostará em atos presenciais para marcar a largada. Lula abrirá oficialmente a campanha neste domingo, no Estádio Municipal 1º de Maio, a histórica Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, berço de sua trajetória sindical. Segundo integrantes da equipe, o roteiro prevê um comício em Belo Horizonte na sexta-feira, 21, ao lado de Patrus Ananias, candidato petista ao governo de Minas, e outro em Bangu, na zona oeste do Rio, no sábado, 22.
Maior colégio eleitoral do País e tratado pela campanha como fundamental para a tentativa de reeleição, São Paulo receberá uma estratégia especial. A coordenação dividiu sua atuação entre a capital, a região metropolitana e o interior para distribuir equipes e garantir presença contínua da campanha. A agenda de Lula no Estado será reforçada ao longo da disputa.
“Estamos muito otimistas com a estratégia elaborada para Lula em São Paulo. É fundamental ter um bom desempenho aqui”, afirma Marco Aurélio de Carvalho, coordenador da campanha do petista no Estado.
Do lado de Flávio, a campanha buscará apresentar Lula como representante de um projeto político esgotado. Coordenador da pré-campanha do senador, Rogério Marinho (PL-RN) afirma que um dos eixos será argumentar que a tentativa de Lula de conquistar um quarto mandato, mais de duas décadas depois de sua primeira eleição, não oferece novidades ao eleitor. “Já venceu o prazo de validade da gestão petista”, avalia.
A ofensiva deverá explorar as investigações sobre as fraudes no INSS e seus desdobramentos no entorno de Lula. Entre os personagens que deverão aparecer nas peças da campanha estará Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente e alvo de um inquérito no STF que apura suspeitas de corrupção e tráfico de influência para favorecer negócios ligados a Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS.
Embora defendam peças contundentes contra Lula, aliados avaliam que a campanha não pode confundir confronto com radicalização. O diagnóstico é que uma comunicação dirigida apenas à base bolsonarista limita o crescimento de Flávio e afasta eleitores independentes e indecisos, considerados decisivos na disputa. A orientação é combinar os ataques ao adversário com a construção de uma imagem mais moderada do senador.
A orientação expôs uma disputa interna entre a ala pragmática, que defende moderação para ampliar o eleitorado, e a ideológica, favorável a uma retórica dura para mobilizar a base bolsonarista. Aliados citam como excessos um vídeo com IA em que Flávio e Jair Bolsonaro aparecem armados contra embarcações identificadas com PCC, CV e PT, além de lives em tom exaltado.
A insatisfação com a condução da comunicação motivou uma nova troca no comando da área, com a chegada de Duda Lima, marqueteiro de Jair Bolsonaro em 2022. Visto por aliados como mais familiarizado com a linguagem, os símbolos e os canais de mobilização da direita, ele terá a missão de tornar os ataques a Lula mais eficazes sem radicalizar o discurso nem restringir Flávio ao eleitorado já convertido.
Entre as iniciativas previstas para ampliar a candidatura estão peças nas redes sociais voltadas ao eleitorado feminino, segmento em que Flávio aparece dez pontos porcentuais atrás de Lula, conforme a pesquisa Datafolha mais recente. A campanha pretende mobilizar nessa frente a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, além de candidatas e lideranças femininas de outros partidos cujas siglas não aderiram nacionalmente à candidatura do senador. Aliados classificam a articulação como um “palanque feminino suprapartidário”.
Flávio também recorrerá às ruas para marcar a largada. O senador abrirá oficialmente a campanha neste domingo, 16, com um ato em Copacabana, no Rio de Janeiro. Integrantes da equipe atribuem peso simbólico e estratégico à escolha: a orla tornou-se um dos principais palcos de mobilização do bolsonarismo, e o Rio é o Estado em que Flávio construiu sua trajetória política. A demonstração de força é considerada fundamental após reveses nas articulações políticas que encolheram as alianças e enfraqueceram o palanque do grupo no Estado.
Depois da largada em Copacabana, a campanha concentrará os primeiros atos nos Estados do Sudeste, região que reúne os três maiores colégios eleitorais do País. Na sequência, Flávio avançará pelo Nordeste, reduto histórico de Lula e onde o bolsonarismo enfrenta maior resistência. O roteiro busca primeiro consolidar o senador nos Estados em que sua candidatura tem maior potencial e, depois, tentar reduzir a vantagem do petista em sua região mais favorável.
Além dos atos nas ruas e da ofensiva nas redes, a largada da campanha abriu um flanco jurídico, com as preocupações de cada lado concentradas em Cortes distintas. Integrantes da equipe de Lula veem no TSE presidido por Kassio Nunes Marques sinais de uma interpretação mais flexível das regras eleitorais que, na avaliação do grupo, beneficiaria Flávio.
A equipe jurídica do senador, por sua vez, teme que controvérsias constitucionais surgidas em processos no TSE cheguem ao STF ou que medidas adotadas em ações que já tramitam no Supremo afetem sua candidatura. Como antecipou o Estadão, o grupo avalia que manifestações e decisões de ministros do STF desde o início da pré-campanha podem esvaziar atribuições do TSE e interferir na disputa.
Para Leandro Consentino, professor de ciência política do Insper, a largada será o primeiro teste das estratégias de Lula e Flávio. “Veremos como cada campanha irá reagir, o que mostrará qual será o tom da disputa daqui até o fim”, afirma.






